5 Norsk tekstilkunst på 1960- og 70-tallet
6 Abakanowicz: stilskaper eller frigjørende forbilde?
Obra inaugural do repertório de Carlos Fuentes, Los días Enmascarados, de 1954, funciona como uma espécie de norteador para os escritos posteriores do autor. Trata-se de um volume de contos, seis no total, no qual Fuentes arquiteta narrativas complexas e inquietantes, que apresentam uma realidade cotidiana que é colocada em xeque por outra realidade que se estabelece.
Escrito em apenas um mês, segundo o próprio Carlos Fuentes17,para participar de um concurso literário18 em uma feira de livros de 1954, Los días enmascarados inquietou críticos literários da época por causa dos temas tratados pelo autor e por causa de sua opção pela literatura fantástica como o gênero para suas narrativas19. Os críticos julgaram imperdoável o
16 Com o intuito de organizar e significar sua extensa produção, Carlos Fuentes cria “La edad del tiempo”,
espécie de grande ciclo em que o autor insere suas narrativas dos mais diversos gêneros. Esse grande ciclo é dividido em diversos outros, dentro os quais estão “El mal del tiempo”, “Tiempo de fundaciones”, “El tiempo romántico”, “El tiempo político”, etc. Em cada um desses diversos tempos, o autor escreve narrativas que apresentam temas comuns entre si, como o Tempo, por exemplo. Segundo o autor: “La edad del tiempo” é “un juego de palabras, y su eje, [...] más que un país, México, es el problema del tiempo, la manera como estructuramos el tiempo humano, cómo nos relacionamos con la historia; con el tiempo de los demás. Parto de la premisa de que hay muchos tiempos en la historia, no hay un solo tiempo irreversible, futurizable, sino que hay tiempos que predican un regreso al pasado, una salud en el origen, una acumulación”. Entrevista concedida a Julio Ortega. In: HERNÀNDEZ, Jorge (comp.). Carlos Fuentes: territorios del tiempo (antología de entrevistas). México: FCE, 1999, p. 224.
17 Fuentes afirma: “Con una serie de temas que yo venía cargando y que recuerdo me senté y escribí en un mes,
para tener el libro a tiempo para la feria del libro del año 54”. Apud HARSS, Luis. (Colab. Barbara Dohmann).
Los Nuestros. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1966, p. 348.
18 Concurso promovido pelo editorial independente chamado “Los Presentes”, fundado e dirigido por Juan José
Arreola em 1950.
19 Um estudo sobre a reação da crítica pode ser encontrado em “En el reino de los aparecidos: Roa Bárcena,
fato de o escritor mexicano promover uma literatura que estava “descomprometida com a realidade”, já que, conforme o discurso difundido na época, todo o escritor latino-americano deveria desenvolver uma literatura que estivesse engajada com os problemas do cotidiano e, portanto, estivesse comprometida socialmente; ou seja, os textos que fugiam desse molde eram “universalistas”, desconsideravam seu país e seus problemas sociais, caracterizando-se como uma “literatura evasiva y, por tanto, nada americana” 20.
Diante de tais afirmações sobre Los días enmascarados, nota-se que esses intelectuais não conseguiram apreender a totalidade da proposta de Carlos Fuentes naquele momento, porque o autor lança mão da literatura fantástica sem, contudo, desconsiderar questões referentes à América Latina e, principalmente, referentes a seu país. Indo na esteira de autores como Arreola e Rulfo (para citar apenas dois exemplos), Carlos Fuentes deixa transparecer, em sua primeira publicação, o desejo de criar uma literatura que conjugasse inovação literária e reflexão sobre o seu contexto; característica, aliás, encontrada também em narrativas de escritores de sua mesma geração, como Cortázar e García Márquez por exemplo.
No intuito de rebater tais críticas, Carlos Fuentes argumenta, em entrevistas, que seu compromisso era com a criação literária, com o fazer literário, uma vez que “la literatura o crea una realidad o no es literatura”21. Ou seja, em um texto literário, a imaginação e a linguagem são fundamentais, elementos esses que, quando bem arquitetados, são capazes de fazer com que uma narrativa transcenda, atinja seu contexto, desprenda-se de uma nacionalidade específica e ascenda a uma literatura de caráter mais universal. Valorizando a junção entre criação literária e contexto, o autor mexicano, em sua primeira publicação, retrata os diversos Méxicos existentes em seu país, materializando, por meio da palavra, as diferentes realidades até então menosprezadas, conseguindo, assim, adentrar nos mais distintos universos, como comenta Olea Franco: “Los Días enmascarados inventa un mundo fantástico que posee fuertes nexos con el México contemporáneo, con el cual y desde el cual discute [Carlos Fuentes]” (2004, p. 144).
Por tudo isso, parece-nos um equívoco afirmar que Fuentes, em suas narrativas
20 Afirma Alfredo Hurtado: “El número 2 [“Los Presentes”] correspondió al título Los días enmascarados, de
Carlos Fuentes. Libro de prosa bien cuidada: literatura evasiva y, por tanto, nada americana, aunque bastante elogiada por sus amigos. El autor no da un paso si no pone sus ojos en la decrépita literatura inglesa”. Apud OLEA FRANCO, 2004, p. 139.
21 Entrevista concedida a Alfred MacAdam e Charles Ruas. In: HERNÀNDEZ, Jorge (comp.). Carlos Fuentes:
fantásticas, descarta a realidade, uma vez que basta debruçar-se com mais atenção sobre seus textos para concluir exatamente o oposto: o autor combina literatura e realidade, literatura e história, fazendo com que o leitor desperte para certo dado da realidade que ele ainda não havia notado. Fundamental por ser considerada uma obra seminal da narrativa de Carlos Fuentes, Los días enmascarados é o livro primogênito do escritor mexicano e nele contém temáticas que serão ampliadas em suas narrativas futuras, além de se configurar como uma obra que contribui para consolidar uma tradição de textos fantásticos no México22.
Ao contrário do que ocorreu na região do Rio da Prata, o país de Carlos Fuentes manteve, até a primeira metade do século XX, uma tradição literária majoritariamente ancorada em romances realistas 23, com as chamadas “novelas de la tierra” e “novelas de la Revolución”24. Isso começa a mudar nas décadas após a Revolução Mexicana (1910), quando muitos autores, aproveitando-se de financiamentos governamentais e influenciados pelas vanguardas europeias, dedicam-se a realizar um tipo de literatura mais imaginativa. Porém, é apenas na segunda metade do século XX que ocorre uma transformação mais efetiva na literatura mexicana, momento em que surgem obras como Confabulario (1952), de Juan José Arreola, Los días enmascarados (1954), Pedro Páramo (1955), de Juan Rulfo, e, posteriormente, Farabeuf o la crónica de un instante (1965), de Salvador Elizondo25.
22 É necessário salientar que quando afirmamos a existência de uma tradição de textos fantásticos no México
estamos fazendo menção à grande produção de textos deste gênero a partir da década de 50, independente de seu reconhecimento pela academia e pelos editoriais.
23 Referimo-nos à literatura escrita e não à tradição oral mexicana, permeada por crenças e mitos. Em relação a
aquele tipo de literatura, estudos apontam que houve alguma produção de narrativas fantásticas no país no século XIX, porém sem grande expressão se comparada a outras regiões do continente. Alguns autores mexicanos, inspirados em autores europeus e em Edgar Allan Poe principalmente, escreveram narrativas cujo enredo gira em torno de algum evento misterioso e/ou sobrenatural, alinhando-se com o fantástico. Entre eles, citamos José María Roa Bárcena (1827-1908) e Amado Nervo (1870-1919). Sobre o tema, pode-se encontrar um estudo mais detalhado em: LÓPEZ MARTÍN, Lola. Formación y desarrollo del cuento hispanoamericano en el siglo XIX. Tese. (Doutorado em Literatura Espanhola e Hispano-americana). Universidad Autónoma de Madrid. Madrid, 2009.
24 Durante o século XIX e divulgada principalmente por meio de jornais e revistas, a literatura mexicana
caracterizava-se, majoritariamente, por seu caráter realista e moralizante (direcionada à mulher e à família), por causa da forte vigilância que o governo mexicano exercia sobre os escritores. Com a Revolução Mexicana, esse panorama muda e há a abertura para que escritores e intelectuais da época se expressassem de maneira mais aberta sobre diferentes temas, como política, religião, costumes, etc. Nesse contexto, surge Mariano Azuela (1873-1952), autor de Los de abajo (1915), que escreve uma literatura realista, porém crítica em relação à Revolução Mexicana e suas consequências.
25 Essas duas últimas obras são fundamentais para a literatura fantástica mexicana e latino-americana, porque
colaboraram para a ruptura de um fazer literário ancorado em uma realidade racionalista. Juan Rulfo deixa para trás a novela da Revolução e arquiteta uma novela amplamente polifônica, em que vozes de personagens ecoam
As obras citadas anteriormente, portanto, contribuíram decididamente para o fortalecimento de uma tradição fantástica no México. A propósito disso, comenta Raymond Leslie Williams: “Los Días Enmascarados de Fuentes, junto con el Confabulario de Arreola, trajeron a la literatura mexicana las posibilidades de invención que Borges había explorado inicialmente en Ficciones: trajeron el espíritu de la modernidad” (1998, p. 50).
Assim, em sua primeira publicação, Carlos Fuentes, utiliza-se do gênero fantástico para descortinar “novas” realidades e questionar a noção de discurso unívoco, criando narrativas que apresentam intrincados jogos narrativos que contemplam questões referentes à formação da identidade mexicana, bem como a História do México e a diversidade cultural deste país. “Chac Mool”, “Tlactocatzine, del jardín de Flandes” e “Por boca de los dioses” são exemplos disso. Há ainda contos de caráter mais universal, que vão ao encontro de questões históricas e humanas e apontam para problemas do mundo contemporâneo. Seguem esta linha “El que inventó la pólvora”, “En defensade la trigolibia” e “Letanía de la orquídea”. Este último, conforme destaca Georgina Gutiérrez é “dedicado a América Latina, sirve, (...) como puente entre la preocupación por lo nacional y lo transnacional” (1981, p. 10).
Por fim, tendo em vista a hipótese de que alguns temas tratados em Los días enmascarados norteiam a obra de Carlos Fuentes, cremos que vale a pena fazer algumas considerações interpretativas sobre “Chac Mool” e “Tlactocatzine, del jardín de Flandes”, duas narrativas centrais dessa obra, cujo objetivo visa verificar a pertinência dessa hipótese por meio do levantamento e análise de aspectos comuns entre estes textos e os demais textos do autor mexicano pertencentes ao ciclo “El mal del tiempo”.
2.2 O FANTÁSTICO EM “CHAC MOOL” E “TLACTOCATZINE, DEL JARDÍN