• No results found

6. OPPSUMMERING OG AVSLUTTENDE BEMERKNINGER

6.2 A VSLUTTENDE BEMERKNINGER

A relação de Hegel com a revolução kantiana pode ser sentida pela sua posição frente ao senso comum. Kurt Röttgers oferece um bom retrato do tamanho do impacto da Crítica da

Razão Pura na Alemanha:

Nos primeiros anos depois de sair a 'Crítica da Razão Pura', a filosofia de Kant permanece, por certo, sem nenhuma ressonância digna de nota. A partir de 1786 (K.L. Reinhold 'Cartas sobre a Filosofia Kantiana' e K.C.E. Schmids 'Crítica da Razão pura em Linhas Fundamentais'), no entanto, ela se impôs durante 20 anos com sucesso tão arrebatador, que, a partir de Iena, todas as mais importantes faculdades da Alemanha protestante foram, no mínimo, ocupadas por kantianos - e logo, assim que, a seu tempo, os antigos possuidores das cátedras morreram, completamente tomadas por eles. Uma enchente de publicações pró e contra a filosofia kantiana inundou o mercado de livros. No total, 700 autores em mais de 2000 publicações lançaram-se ao debate [Auseinandersetzung]102

Beneficiando-se da linhas da pedagogia da Karlsschule de Stuttgart, Hegel adquire já nos bancos do ginásio o costume de ler e estudar os últimos produtos culturais de sua época103.

Era natural que o contato com o debate entre os “pró- e os contra-kantianos”, que dominou a esfera pública alemã do final do século XVIII, também fosse precoce. Por certo, já nos cadernos cultivados por Hegel enquanto ginasial há indícios da atenção dispensada aos desdobramentos da batalha que alguns que falam em nome do senso comum ou apenas se mantêm em sua perspectiva voltariam contra a filosofia – nos referimos a todo um conjunto de excertos e transcrições de artigos e livros classificados sob a rubrica “filosofia e psicologia”104. Kant recorre, como se sabe, com freqüência, à alegação de que aquilo que se

quer filosofia não passaria de uma psicologia empírica, buscando diferenciar, assim, a não-

102 Röttgers, K. Kritik und Pratik: Zur Geschichte des Kritikbegriffs von Kant bis Marx. Berlin: Walter Gruyter,

1975, p.63.

103

Ripalda, J.M. La nación dividida: raices de un pensador burgues: G.W.F. Hegel. Mexico, D.F.: Fondo de Cult. Economica, 1980. “A diferencia de nuestra formación museal, memorista e impersonalizada, el contacto individualizado con preceptores, los planes personales de formación y la lectura y estudio de los últimos productos culturales eran en los dos Gymnasiums de Stuttgart lo normal”, p.39.

104 Hegel, G. Frühe Exzerpte (1785–1800) (Hrsg) von F. Nicolin unter Mitwirkung von Gisela Schüler.

filosofia da filosofia autêntica.

Todavia, é somente no momento em que começa a redigir seus esboços de uma

Volksreligion, já em Tübingen, que dispomos de elementos presentes em escritos autorais para

falar de um kantismo no jovem Hegel105. Por mais que a Volksreligion hegeliana possa ser

remontada a uma grande variedade de fontes – Rousseau, Herder, Iselin, leitura dos gregos –106, isso não deve obscurecer o fato de que ela é presidida pela preocupação de Hegel com a

aplicação da moral kantiana fundamentada na Crítica da Razão Prática107.

As preocupações de Hegel mais diretamente relacionas ao sistema da filosofia kantiana despontam apenas em suas cartas. Mas, de toda forma, por meio de alguma delas, pode-se ver a envergadura da importância que Hegel conferia à obra de Kant. Em uma carta de 16 de abril de 1795, destinada a Schelling, Hegel chega a vincular o “acabamento” do sistema da filosofia kantiana a uma “revolução na Alemanha”:

Do sistema kantiano e de seu máximo acabamento, eu espero uma revolução na Alemanha, que irá partir de princípios que estão dispostos e só precisam ser universalmente elaborados, para serem aplicados a todo o saber até aqui108

Contudo, seria necessário se engajar por essa revolução. Na correspondência entre Hegel e Schelling, isso aparece com destaque, na medida em que eles não se cansam de

105

Sobre esta temática, cf.: Bondeli, M. Der Kantianismus des jungen Hegel. Hamburg: Felix Meiner, 1997.

106 Ripalda, J.M. La nación dividida, pp. 54 -61. 107

Jamme, C. “Jedes lieblose ist Gewalt” In: ____und Schneider, H. (Hrsg.) Der Weg zum System. Frankfurt: Suhrkamp, 1990. “Gegenüber der Kantischen Philosophie bezog Hegel eine zwiespältige Position. Er beschäftigt sich in Tübingen nicht mit der Begründung der Ethik als solcher (dies scheint ihm in der Kritik der praktische Vernunft hinreichend geleisted); was ihn einzig interessiert, ist die 'Anwendung' des Kantischen Systems [...]”, p.141.

108 Hegel, G.W. Briefen von und an Hegel Hamburg, Felix Meiner Verlag, 1969, carta 11 (16.04.1795). Ao menos

sob uma ótica retrospectiva que já leva os textos de Iena em conta, essa referência a “uma revolução na

Alemanha” [grifo meu], não deixa de causar a impressão de que Hegel, ao mesmo tempo, em que, com efeito,

exalta a importância da filosofia kantiana, já esteja insidiosamente chamando a atenção para os seus limites locais. Ressaltamos isso, principalmente, pela continuação da carta citada, por sinal, reforça fortemente essa impressão: “Com a expansão das idéias, daquilo que algo deve ser [wie es sein soll] [grifo do autor], a indolência das pessoas formalistas [gesetzten Leute], de tomar tudo tal como é, vai desaparecer. Essa força vivificadora das idéias – soem também elas ainda sempre terem limitações [Einschräkung] em si – como as da terra natal, sua constituição e assim por diante – vai levantar os ânimos [Gemüter], e elas ensinarão, para se sacrificar a elas, que presentemente o espírito das constituições fez uma aliança com a utilidade própria [Eigennutz], e fundou sobre ela seu reino [Reich]”.

estimular a que se combata o avanço da filosofia popular e do dogmatismo religioso sobre o legado da filosofia crítica109. Eles partilham dos temores de que as doces esperanças

despertadas pelas três Críticas acabassem por gorar em uma Sauerteig110.

Teria sido, no entanto, o amigo e editor Johann Friedrich Cotta, quem, em 1788, expressou, primeiramente, a ideia germinal que viria resultar no principal instrumento de Hegel e Schelling contra todas as formas de não-filosofia: o Jornal Crítico de Filosofia. No seu início, essa ideia de Cotta dizia respeito à criação de um jornal liberal, que não abrangesse uma única, mas uma ampla gama de disciplinas, visando se contrapor aos periódicos dogmáticos que dominavam a Öffentlichkeit da Alemanha ao final do XVIII111. Procurados e

incitados por Cotta, Schelling e Fichte, filósofos já renomados, encampam a ideia, mas ainda querem amadurecê-la. Como documentado em suas correspondências, entre os anos de 1788 e 1800, ambos se esforçam por atrair “os mais bem intencionados doutos”112 para a causa do

jornal. August Schlegel e Wilhelm Schlegel, Schleiermacher, Schiller, Goethe e até mesmo Reinhold estão entre aqueles que conversam com Schelling e Fichte sobre a possibilidade de criar uma nova publicação113.

Durante este ínterim de dois anos em que se estendem as conversas para o amadurecimento da ideia do jornal ocorre uma transformação na esfera pública alemã e os

109 Hegel, G.W. Briefen von und an Hegel Hamburg, Felix Meiner Verlag, 1969, carta 13. “Auch Du hattest,

Deinem letzten Briefe nach, ganz andre Begriffe. Gewiss, Freund, die Revolution, die durch die Philosophie bewirkt werden soll, ist noch ferne. Die meisten die mitwirken zu wollen schienen, treten nunn erschocken zurück. Das hätten sie nicht vermutet!”, p.28.

110

Hegel, G.W. Briefen von und an Hegel Hamburg, Felix Meiner Verlag, 1969, carta 6 e carta 10.

111

Buchner, H. “Hegel und das Kritische Journal”. In: Hegel-Studien 3, Bonn: Bouvier, 1965, pp 95-156. Toda a

Vorgeschichte do projeto do Jornal Crítico de Filosofia que passamos, ora, a expor, retiramos desse artigo, que, a

partir da correspondência daqueles que se envolveram no projeto, analisa a trajetória dessa primeira idéia, desde desta primeira menção de Cotta a Schelling até a publicação do primeiro número do Jornal Crítico de Filosofia. Devemos a referência a este artigo, novamente, à dissertação de Martin, L.F. O ceticismo na filosofia de Hegel

em Iena (1801-1802). Dissertação, Unicamp, 2004. 112

Fichte, Briefwechsel. Hrsg. v. H. Schulz, Bd 2, Leipzig: 1930. “[...] der besser (d.i. gründlicher) gesinnten Gelehrten [...]”, p.213. Apud Buchner, H. “Hegel und das Kritische Journal”, p. 102.

113 Buchner, H “Hegel und das Kritische Journal”: “Die Zeitschriftenpläne, die zwischen 1798 und 1801 dem

Kritischen Journal vorangingen und an denen Schelling massgebend beteiligt war, lassen sich ausführlich in den Briefwechseln zwischen Schelling und Fichte, den Brüdern Schlegel und Fichte, Schelling und A.W. Schlegel, Fichte und Cotta, Fichte und Reinhold sowie A.W. und F. Schlegel und Schleiermacher verfolgen”, p.98-99.

partidários das “idéias novas” têm o seu campo de atuação bastante esgarçado: em 1798, Fichte é exonerado de sua cátedra de Iena, mudando-se para Berlim; por conta disso, o

Philosophische Journal, que publicava com Niethammer, sai de circulação; no final de 1799,

August Schlegel e Schelling se desentendem com os editores do Allgemeine Literaturzeitung, que, a partir daí, fecha suas páginas às ideias de jovens românticos e idealistas114; por fim, em

1800, o Athenäum, de F. Schiller, também deixa de ser publicado. Para além do Erlanger

Literaturzeitung de Mehmel, que é amigo pessoal de todos os idealistas, restam apenas o

Neue allgemeine deutsche Bibliothek e o Göttingische Anzeigen, ambos periódicos bastante

avessos às ideias ligadas ao criticismo115.

Apesar de seus múltiplos esforços, Schelling e Fichte fracassam em angariar colaboradores para o projeto do jornal. A maior parte dos defensores das ideias novas procurados, apesar de sentirem igualmente a falta de veículos para seus escritos, já articulava investidas próprias para a criação de um jornal116. Mas isso não impede Schelling de tocar a

ideia que tinham esboçado com Cotta. No outono de 1800, ele enuncia a um amigo sua intenção de publicar o jornal para o quanto antes, de preferência para a páscoa de 1801; ainda na mesma carta, ele diz já contar com a anuência de Fichte e do editor, Cotta.

Ocorre que precisamente nesses dois anos que se passaram entre o surgimento da ideia do jornal e a iminência de sua viabilização, acentuaram-se importantes desavenças filosóficas entre Fichte e Schelling. É justamente nesse intervalo que Schelling publica as Ideias para

uma filosofia da natureza e o Sistema do Idealismo Transcendental – textos em que aparece

mais claramente o seu projeto de uma filosofia da natureza. Remetendo a isso, na mesma carta em que agradece Fichte por ter aceitado a colaboração no jornal, Schelling lhe expressa a

114 Buchner, H. “Hegel und das Kritische Journal”, p. 101. 115 Buchner, H “Hegel und das Kritische Journal”, p. 99. 116

Buchner, H “Hegel und das Kritische Journal”, p. 100. Como, por exemplo, o próprio Reinhold que, em 1800, já estava engajado no projeto dos Beyträge com o qual visava obter uma plataforma para o “bardilismo”, p.102.

necessidade de “passar a limpo” [“ins Reine zu bringen”] ainda um ponto antes que ambos se pusessem a trabalhar conjuntamente – este ponto era justamente a “oposição entre filosofia transcendental e a filosofia da natureza”117. Em sua resposta de 7.8.1801118, Fichte não

menciona palavra sobre os planos do jornal, mas admite profundas diferenças em relação a uma filosofia da natureza que partisse de um outro princípio que aquele estabelecido pela

Doutrina-da-Ciência119 – o que, por certo, já diz o suficiente.

Alguns fatores contribuíram para que Hegel logo ocupasse o lugar de Fichte como parceiro de Schelling no projeto do jornal. Primeiramente, desde janeiro de 1801, Hegel passara a residir na casa de Schelling. A proximidade favorece que os dois filósofos reafirmem as afinidades tantas vezes enunciadas na correspondência de ambos nos idos anos de 1794-1796, procurando deixar de lado as desavenças que levou a uma longa interrupção na sua troca de cartas 120 . Tanto mais, porque o que levou Hegel a se mudar para Iena foi seu

projeto de “intervir na vida dos homens” e de atuar “sobre o mundo”121. Some-se a isso, o

fato de que aquilo que afastara Fichte da colaboração com Schelling, atraia Hegel; o projeto de uma filosofia da natureza que partisse de um princípio diferente daquele do da Doutrina-

da-Ciência, já era a via entrevista por Hegel em textos frankfurtianos, tais como O

Cristianismo e seu Destino e nos fragmentos sobre o amor, e, depois, reafirmada no Escrito

da Diferença, para levar a revolução desencadeada por Kant adiante, superando o seu

117

Schelling, carta a Fichte de 19.11. 1800, In: Fichte, Briefwechsel. Bd 2, p.294. Apud. Buchner, H. “Hegel und das Kritische Journal”, p. 106.

118A primeira parte desta carta encontra-se traduzida no final do livro de Rubens Torres Filho sobre Fichte. Cf.:

Fichte, J.G. “Carta a Schelling de 7.08.1801”. In: Torres Filho, R. A letra e o espírito. A Crítica da Imaginação

Pura, em Fichte. São Paulo, Ed. Ática, 1975, pp. 261- 265.

119 Fichte, J.G. “Carta a Schelling de 7.08.1801”: “Não falta à doutrina-da-ciência rigorosamente nada nos

princípios, falta-lhe, isto sim, um acabamento”, p.262.

120

Essas desavenças foram motivadas por algumas discordâncias expressas por Hegel em meio aos juízos, no geral bastante elogiosos, feitos aos primeiros escritos publicados por Schelling: Eu como princípio da filosofia

ou do incondicionado no saber humano e as Cartas Filosóficas sobre o Dogmatismo e o Criticismo. Cabe

ressaltar essas desavenças, também para se combater a ilusão de que algum dia teria vigorado uma completa cumplicidade filosófica entre Schelling e Hegel.

121

subjetivismo122.

Destarte, ganha bastante probabilidade a hipótese que até mesmo antes de agosto de 1801 – quando fica claro que Fichte abandonou definitivamente o projeto – Hegel já tivesse envolvido com o projeto do jornal. A afinidade temática entre os temas da primeira parte do

Escrito da Diferença e aqueles nos artigos que viriam a ser publicados no Jornal Crítico de

Filosofia, reforçam-na ainda mais123. Concretamente, após a entrega de sua habilitação em

outubro, Hegel junta-se de pronto a Schelling para a redação do primeiro número do Jornal. Por meio dessa plataforma, os amigos do Stift passam a colocar em prática a ideia que acalentavam, de trabalhar para a “revolução” na filosofia combatendo todas as formas de não- filosofias. As notas veiculadas, na virada do ano de 1801/1802, anunciando a publicação iminente do Jornal Crítico de Filosofia a ser editado por “F.W.J. Schelling e G.W.F. Hegel”, não deixam dúvidas quanto a intenção crítica e polêmica do periódico:

Aquilo mediante o que a anunciada obra periódica de filosofia quer assegurar para o mundo interessado e <mediante o que> busca conquistar para si a aprovação [Zuneigung] dos contemporâneos é, sobretudo, <a> exposição da essência categórica da filosofia em oposição ao caráter negativo da não-filosofia.124

* * *

Em um momento de maior benevolência para com seu resenhista da Göttigen

Anzeigen que sobressai em meio às severas repreensões que lhe dirige nos Prolegômenos,

Kant tenta relativizar os problemas que aponta no texto escrito sobre a Crítica da Razão 122

Jamme, C. “Jedes lieblose ist Gewalt” In: ____und Schneider, H. (Hrsg.) Der Weg zum System. Frankfurt: Suhrkamp, 1990. “Hatte Hegel in Bern noch ganz rationalistisch die Natur als Zwang verstanden, so erkennt er jetzt mit Spinoza die Natur als göttlich. 'Natur' wird zum Modell der Ganzheit und Versöhnung, sie ist für Hölderlin wie für Hegel der Name für das 'Eine Sein', d.h. erst möglich von einer Position jenseits Fichtes aus”, p.151.

123

Lembremos, com Buchner, que o próprio enunciada das linhas finais da Advertência Prévia do Escrito da

Diferença (escrita em julho) – afirmando que as assim chamadas “reflexões gerais” da primeira parte deste

escrito “receberão ainda, noutra ocasião, um maior desenvolvimento [Ausführung]” – reforçam a impressão de reencontrar nos artigos do Jornal temas já esboçado naquela que foi a primeira publicação de Hegel. Cf.: Buchner, H. “Hegel und das Kritische Journal”, p.110-111.

124 Hegel, G.W. “Ankündigung des Kritischen Journals”. In: Hegel, G.W. Jenaer kritische Schriften. Hauptwerke.

Pura, mostrando-se compreensivo com os problemas e os imperativos que afligem um jornal

de filosofia, dado que a crítica filosófica, diferentemente das críticas em outras áreas do conhecimento, não teria um padrão de medida em relação metafísica:

Falta ainda muito para que um jornal erudito, por melhor, e, mais cuidadosamente, que sejam escolhidos seus colaboradores, possa afirmar um prestígio [Ansehen] no domínio da metafísica tal como ocorre em outros. As outras ciências e os outros conhecimentos possuem, por certo, o seu padrão de medida [Masstab]. A matemática tem o seu em si mesma, a história e a teologia encontram-no nos livros profanos ou sagrados, a ciência da natureza e a medicina na matemática e na experiência, o direito nos livros sobre a legislação, e mesmo as coisas do gosto nos modelos dos Antigos. Somente para o ajuizamento da coisa que se chama metafísica, deve primeiro encontrar-se o padrão de medida [...]125.

A falta de um padrão de medida a que se possa recorrer, não deve ser visto como um impedimento da crítica frente às obras de metafísica. Mesmo não havendo um padrão de medida, já vimos que Kant considera a metafísica uma necessidade da razão humana, negando que os seus produtos possam ser tomados com indiferença. Se, na citação acima, Kant não deixa de propagandear a sua “tentativa”126 de determinar este padrão de medida, ele não exige,

de antemão, que se esteja de acordo com ele a este respeito. Kant deixa aberta a possibilidade de que ele possa estar errado e, abrindo as vias para uma crítica da crítica, considera como se o padrão de medida ainda não tivesse sido encontrado. Por isso, reproduz a pergunta de um jornalista que tem de avaliar uma obra filosófica: “Que há, pois, a fazer até ele ser encontrado [o padrão e medida] se, não obstante, importa avaliar escritos deste gênero?”127.

Kant recomenda um procedimento justamente para um caso como este – qual seja, quando não se possui ainda o padrão de medida para se avaliar os escritos de metafísica. Duas atitudes distintas, conforme o tipo dos escritos filosóficos a serem ajuizados, determinariam este procedimento. Haveria uma atitude própria para quando se está diante de escritos dogmáticos; outra para quando se está diante de escritos que tentam determinar o padrão de

125

Kant, I. Prolegômenos, A 212, p.96.

126 Kant, I. Prolegômenos, A 212, “...fiz uma tentativa para o determinar a ele [o padrão] e ao seu uso...”, p.96. 127

medida da metafísica. Este, por sinal, seria o caso da filosofia kantiana e é por ter ignorado este fato que Kant se indispõe com o resenhista da Göttigen Anzeigen.

Em relação aos escritos dogmáticos, uma vez que eles estão descompromissados frente à necessidade de se encontrar de um padrão de medida para a filosofia, o crítico não tem a que instância apelar, e estaria autorizado a usar os meios para derrotar seu adversário que ele utiliza para se fazer valer. Quem se erige em mestre neste caso não conta com qualquer legitimidade:

Se eles são de tipo dogmático, pode agir-se como se quiser: aqui ninguém se erigirá em mestre relativamente a outros, se se encontrar alguém que lhe pague na mesma medida128

.

O mesmo não se aplica no caso de escritos filosóficos de “natureza crítica” – ou seja, aqueles que não visam outros escritos, “mas a própria razão”. Se há, por certo, espaço para “objeções e censura”, deve prevalecer a tolerância, pois é forçoso, para o crítico, a modéstia de reconhecer que ele partilha um objetivo comum com este tipo de obra que critica. O vale- tudo não tem mais razão de ser, pois o crítico pode apelar contra a obra criticada para algo que, mesmo que ainda prévio a todo o padrão de medida, já funcionaria como uma instância comum – o carecimento da filosofia. Para sermos fiéis às palavras do próprio Kant:

Se, porém, são de natureza crítica, visando não outros escritos, mas a própria razão, de maneira que o padrão de avaliação não pode já ser adoptado, mas deve primeiramente ser procurado, podem, neste caso, admitir-se objecções e censuras; a compatibilidade, porém, deve estar na base, porque o carecimento [Bedürfniss] é comum e a carência de discernimento [Einsicht] obrigatória não deixa que ninguém se arrogue direitos de juiz129.

Ao escreverem a introdução do Jornal Crítico de Filosofia, que visava apresentar o caráter e a finalidade do periódico que ambos estavam a redigir, Hegel e Schelling não deixam de tomar em consideração esses preceitos estabelecidos por Kant. Sim, pois as primeiras linhas desse texto não deixam de remeter a essas observações kantianas que vimos 128 Kant, I. Prolegômenos, A 212, p.96.

129

reconstituindo:

Tal como a ideia de bela arte não foi, primeiramente, criada ou inventada por meio da crítica de arte, mas, simplesmente, pressuposta, do mesmo modo, na crítica filosófica, a ideia da própria filosofia é a condição e a pressuposição sem a qual ela teria de colocar apenas subjetividades contra subjetividades […]130

.

Hegel e Schelling reconhecem, antes de mais nada, a necessidade da crítica filosófica contar com um padrão de medida, ao mesmo tempo, que concordam com Kant que a crítica