No capítulo IV sobre regulação profissional, foi já explicitado como a dinâmica associativa ligada à análise financeira foi, de certo modo, anterior à consolidação da ocupação de analista dedicado à avaliação de títulos financeiros. Em 1984, quando a APAF foi criada, a atividade do sector financeiro era muito reduzida em comparação com o enorme crescimento que teve lugar na década seguinte. É necessário ter em consideração que as bolsas portuguesas encerraram em 25 de Abril de 1974, tendo a Bolsa de Valores de Lisboa reaberto em 1977 e a Bolsa de Valores do Porto apenas em 1981. Mesmo no início da década de oitenta o volume de
transações era mínimo assim como o número de empresas cotadas (Mata et al., 2017). A emergência de uma ocupação ligada à avaliação de ativos financeiros como a análise financeira só foi possível depois de uma grande alteração a este nível. Esta dá-se, não porque as empresas tivessem optado repentinamente por se passar a financiar nos mercados de capitais ou pela ação de uma “mão invisível” que impulsionasse uma transformação endógena ao sector financeiro. Tratou-se antes da “mão visível” do Estado, neste caso do X Governo Constitucional, que decidiu impulsionar o crescimento dos mercados de capitais. Como afirmam Santos (2001) e Mata et. al. (2017), o ministro Miguel Cadilhe decidiu convidar diretamente algumas empresas a entrarem na bolsa tendo, além disso, sido implementadas medidas de incentivo fiscal a emitentes e investidores. A evolução do peso da capitalização bolsista no Produto Interno Bruto, como se vê na figura V.1, mostra claramente a eficácia destas políticas sobre o crescimento dos mercados de capitais em Portugal numa primeira fase, apenas amenizado pelo crash bolsista de 1987.
Figura V.3 - Peso da capitalização bolsista no PIB, para o mercado nacional – 1976 - 2000
Fonte: Elaboração do autor a partir de Santos (2001).
Alguns dos entrevistados mais velhos que se recordam deste período descreveram a evolução do mercado de aconselhamento financeiro sublinhado, até ao início dos anos 90, um certo amadorismo e desordenamento regulatório.
A mais importante na altura para efeitos de análise financeira era a Companhia de Investimentos e Serviços Financeiros que na sequência da crise de 87 era a dominante
0% 20% 40% 60% 80% 100% 120% 140% 160% 180% 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000
nos mercados. Se tinha grande análise não tinha, escrevia pouco mais do carácter jornalístico, agora o que eles tinham era iam às empresas conseguiam, as empresas queriam obviamente capitalização, e toda a gente andava à procura. (EP1).
(...) na altura, nós jornalistas de economia, nem tínhamos sequer ninguém muito especializado em mercados de capitais, falávamos com presidentes das empresas, que nos divulgavam os resultados das empresas antes de os mandarem para o mercado, hoje isso é proibido (EJ2).
A segunda fase de crescimento dos mercados de capitias em Portugal dá-se a partir dos anos 90. Além dos fatores de impulso referidos anteriormente e da dinâmica entretanto criada após a recuperação do choque de 1987, o grande crescimento, visível através do aumento da capitalização bolsista até ultrapassar o valor do PIB em 1999, ocorre no quadro de uma extensa sequência de privatizações e operações de dispersão do capital em bolsa de empresas privatizadas de grande dimensão. Este processo é relevante, porque foi acompanhado de um crescimento e diversificação das instituições financeiras, e da criação de um mercado especializado de análise financeira focado no mercado de capitais, não apenas com a criação de departamentos de research nas áreas de corretagem, mas com o próprio surgimento de empresas especializadas.
A partir das entrevistas, é possível referir que o arranque do mercado de aconselhamento financeiro na passagem para a década de 90 encontra duas explicações possíveis. Um dos fatores mencionados é a maior presença de instituições financeiras estrangeiras em Portugal ou de empresas financeiras de pequena dimensão e detidas por capital estrangeiro como vetor de transferência de expertise em análise financeira.
Alguns bancos estrangeiros abriram em Portugal, caso do Chase Manhattan Bank na altura era Chase, o Manufacturers Hanover que era do Carlos Rodrigues... o CityBank também se instalou com o Pedro Homem, e esses não vinham fazer retalho, vinham tentar trabalhar com as grandes e médias empresas portuguesas e claramente fazer entre outras coisas aconselhamento em termos de investimento - e isso foi uma prática que, depois, os bancos portugueses começaram a olhar para ela com atenção e a perceber que havia ali um nicho de negócio para explorar. (EJ2).
A banca internacional que veio para Portugal no início não teve sucesso nenhum no mercado de retalho. Onde é que a banca internacional teve sucesso e foi relevante? Foi nos investimentos financeiros, gestão de ativos, avaliações, etc. Onde eles tinham know- how e já tinham experiência e aí obrigaram os bancos portugueses a subir muito o nível. (EC2).
Um outro ângulo de explicação atribui maior importância a uma dinâmica entretanto gerada na intermediação financeira em Portugal que antecedeu a entrada de bancos estrangeiros no mercado português, em particular a um reduzido grupo de agentes e de empresas de pequena dimensão e cuja vantagem face a organizações maiores do sector financeiro residia no padrão internacional da análise financeira que produziam.
Os bancos estrangeiros aparecem não vejo grande sofisticação, não na análise, vejo mais (...) na área de finanças empresariais sim. Mas não análise, a análise, os primeiros impulsionadores foram boutiques que é o que acontece normalmente em coisas novas e eu recordo-me da boutique da Midas muito importante que depois foi comprada mais tarde pelo BBVA. A Midas teve um desempenho muito importante, era formada por quatro jovens universitários de grande potencial que se juntaram com características obviamente diferentes e que começaram a desenvolver um trabalho de análise de mercados e de empresas, aconteceu o franchise de negócio numa altura em que isso não existia, foram verdadeiramente inovadores. Lembro-me também de uma empresa, essa já existia, mas era muito pequenina que era a Carnegie que eu acho que era detida por capitais suecos ou ingleses e que também foi talvez o seguidor dos passos da Midas e teve algum sucesso. (...) De uma forma mais anglo-saxónica, mais analítica, análise mais analítica, mais robusta e cuidada, a primeira experiência teoricamente ou científica e correta com a Midas, 90 ou 91, que como era uma boutique não conseguia ir buscar as empresas, portanto o negócio deles era mesmo conseguir arranjar negócio dos investidores e por isso é que a sua análise tinha que ser de qualidade, eles abriram muito o mercado. (EP1).
Independentemente da divergência na explicação do impulso inicial, o crescimento exponencial de negócio acionista fomentado pelas privatizações é considerado um fator de ampliação e transformação desta tendência com a formação de departamentos de research, alguns de grande dimensão para o caso português145, dentro da própria banca nacional.
Apesar da principal parte da regulação sobre a análise financeira só ter sido produzida no final da primeira década dos anos 2000, a atividade estava já institucionalizada, quer do ponto de vista da reprodução do conhecimento, quer do ponto de vista da existência de um mercado de aconselhamento financeiro e mesmo de um mercado especializado de research146.
145 Um dos entrevistados afirma que o BPI chegou a ter 90 pessoas a trabalhar no seu departamento de
research.
146 Em 2002 foi conduzido pela CMVM um inquérito de caracterização da atividade que abrange tópicos
como a caracterização sociodemográfica dos analistas e o seu enquadramento organizacional. Desde aí não se voltou a repetir um estudo comparável em termos de variedade de informação, e mesmo a publicação anual do Relatório de Supervisão, muito mais focado na relação entre as recomendações e a performance dos títulos, não suprime a lacuna de informação relativa a este tipo de indicadores mais sociográficos. Contactámos a CMVM no sentido de averiguar a possibilidade de realização de uma segunda edição deste estudo, e segundo a resposta não há previsão de tal vir a acontecer.
5.2. Percursos profissionais e processos de recrutamento