2.4 Research Model and Research Issues
2.4.1 A Transvection View of how Goods are Transformed
A partir do número de participantes das oficinas, iniciou-se o processo de delimitação dos participantes das entrevistas com o grupo familiar. Embora a descrição dos recursos metodológicos utilizados na pesquisa como a entrevista, por exemplo, esteja explicitada mais a frente neste capítulo, optou-se por antecipar a caracterização dos participantes dessa proposta metodológica ainda neste tópico, para dar continuidade à descrição dos sujeitos da pesquisa.
O processo de delineamento das famílias entrevistadas partiu da análise das situações de privação que vivenciam com base no Questionário Socioeconômico, como também da frequência de participação nas oficinas, e por último, o fator mais decisivo que contribuiu para a escolha, foram as histórias de vida permeadas por uma série de privações contadas de maneira emocionada pelos representantes familiares durante as oficinas. Além do mais, a definição deste último fator amparou-se na perspectiva de Vygotsky (2001), que defende que os processos psíquicos formam-se a partir de relações de interdependência entre aspectos sociais, cognitivos e afetivos de onde se referenciou a noção de que o impacto emocional oriundos de suas vivências (de privação) interfere nas condutas humanas trazendo à discussão a forma que lidam com seu sofrimento. Dessa maneira, as experiências de privação narradas pelas famílias e a observação do modo como são afetadas por essas circunstâncias foram fatores decisivos para a seleção dessas famílias. Assim, têm-se a caracterização das famílias:
Família de Maria – Maria, 60 anos, viúva, participou de três oficinas. Foi criada pela madrasta e pelo seu pai. Não sabe ler nem escrever porque seu pai achava que era mais importante trabalhar a ter que estudar. Conforme suas palavras “ainda tô do jeito bem dizer que nasci sem saber ler nada” (OF2). Vivenciou situação de extrema pobreza sendo necessário pedir ajuda a estranhos para poder dar comida a sua filha quando bebê. Atualmente, ela e sua família encontram-se em situação de pobreza multidimensional no que se refere aos indicadores: anos de estudo, má nutrição, acesso a saneamento adequado e utiliza lenha para cozinhar quando não tem dinheiro para comprar o gás de cozinha. Sua família é composta por dois filhos homens um com vinte e outro com vinte e três anos e por uma filha de trinta e cinco anos, recém-divorciada. Ela reside em uma casa cedida apenas com seus dois filhos e sobrevivem com a renda do Bolsa Família e de um salário mínimo do seu filho mais novo, sendo que este utiliza o dinheiro mais para seu próprio usufruto. Na ocasião da entrevista estavam presentes ela e seu filho Igor, vítima de violência urbana, que afirmou
não estar trabalhando por obter uma doença crônica. Os discursos referentes à entrevista dessa família serão retratados como E1 seguido pelo nome fictício de cada interlocutor.
Família de Selma – Selma, 37 anos, viúva, participou de duas oficinas. Precisou deixar de estudar para cuidar dos irmãos mais novos e quando cresceu e casou seu marido não a deixava estudar para que ela cuidasse exclusivamente dos seus filhos. Atualmente, sua família encontra-se em risco de pobreza multidimensional nos indicadores anos de estudo e acesso a saneamento básico adequado. Sua família consiste em três filhos homens com 18, 19 e 21 anos e de uma filha com 15 anos, estudante. O primeiro filho está desempregado, o segundo é cadeirante devido à sequela de ferimento à bala e o terceiro é diagnosticado com depressão e esquizofrenia desenvolvida após o assassinato do seu pai. A renda familiar consiste em dois salários mínimos derivados de dois BPC’s para pessoas com deficiência referentes ao segundo e ao terceiro filho. No entanto, Selma informou que seu filho cadeirante não compartilha sua renda com o resto da família, ficando as despesas da casa a cargo de um salário mínimo. Reside com seus filhos em uma casa cedida localizada próximo ao CRAS em uma comunidade considerada violenta, e por isso foi necessário solicitar a Selma para buscar a pesquisadora no CRAS para que a mesma pudesse adentrar na sua comunidade. Na ocasião da entrevista, estavam na residência além dela, seu filho Caio de 18 anos e seu outro filho de 21 anos, contudo, apenas participou da entrevista ela e Caio, pois afirmou que seu outro filho não tinha condições de responder as perguntas. Os discursos referentes à entrevista dessa família serão retratados como E2 seguido pelo nome fictício de cada interlocutor.
Família de Roberta – Roberta, 46 anos, solteira, participou de quatro oficinas. Na sua infância, passou por situação de extrema pobreza, cuja alimentação se resumia apenas a café com farinha e por isso houve a necessidade de trabalhar ainda na sua infância. Para sanar a fome de seus filhos batia de porta em porta nas ruas atrás de alguma atividade (faxina, lavar roupa) para conseguir comprar comida. Atualmente, sua família encontra-se em risco de pobreza multidimensional no que se referem aos indicadores anos de estudo e acesso a saneamento básico adequado. Roberta reside em uma casa cedida com seus dois filhos, Aline de 20 anos e José de 23 anos. A renda da família provém do Bolsa Família e do trabalho autônomo de Aline como professora particular de crianças e do trabalho de José que vende peixe. Na entrevista, não foi informado o valor total da renda familiar, porém o questionário Socioeconômico respondido por Roberta aponta o valor de até R$ 394,00 de renda familiar. Na ocasião da entrevista, estavam presentes na residência Roberta e seus filhos e a namorada de José, contudo esta última se absteve em participar. Os discursos referentes à entrevista dessa família serão retratados como E3 seguido pelo nome fictício de cada interlocutor.
Família de Rosa – Rosa, 29 anos, solteira, participou de três oficinas. Vivenciou o abandono de seus pais na infância tendo sido criada pela avó. Na sua juventude, se envolveu com tráfico de drogas e interrompeu seus estudos na 5ª série do ensino fundamental, retomando seus estudos quando adulta. Em decorrência desse crime, hoje cumpre medida socioeducativa de Prestação de Serviço à Comunidade no próprio CRAS, trabalhando de segunda a sexta durante o dia sem remuneração. Atualmente, a família se encontra em situação de privação de renda e de acesso a saneamento básico adequado. A única renda da família provém do Bolsa Família. A família reside em casa alugada, cujo aluguel é pago com o recurso do Programa de Locação Social8 da Prefeitura de Fortaleza. Residem na casa, Rosa e seus três filhos, João de treze anos, Rodrigo de dez anos e o mais novo com seis anos. O pai de Rodrigo faleceu e ele passou a morar com a avó paterna devido à falta de recursos financeiros de Rosa para suprir a necessidade do seu filho e apenas recentemente Rodrigo voltou a morar com a mãe porque a avó também passou a enfrentar dificuldades financeiras. Participaram da entrevista, Rosa, João e Rodrigo. Os discursos referentes à entrevista dessa família serão retratados como E4 seguido pelo nome fictício de cada componente familiar.
A partir dos dados descritos acima, tem-se de forma resumida na tabela abaixo a caracterização das famílias somente com os componentes entrevistados:
Tabela 5 – Perfil dos entrevistados definindo a família, nome dos componentes familiares, sexo e idade.
Família Componente Sexo Idade
Família de Maria
Maria Feminino 60 anos
Igor Masculino 23 anos
Família de Selma
Selma Feminino 37 anos
Caio Masculino 18 anos
Família de Roberta
Roberta Feminino 46 anos
Aline Feminino 20 anos
José Masculino 23 anos
Família de Rosa
Rosa Feminino 29 anos
Rodrigo Masculino 10 anos
João Masculino 13 anos
Fonte: elaborado pela autora.
8 O Programa de Locação Social da Prefeitura de Fortaleza “é um mecanismo destinado a prover abrigamento provisório para famílias em situação de vulnerabilidade social, sejam aquelas afetadas por desastres de caráter natural como chuvas ou humano, por incêndios e explosões, entre outras” (PREFEITURA DE FORTALEZA, 2014). O valor do aluguel social é de R$ 420,00 e por ser uma medida provisória, a família pode ser beneficiada somente até 24 meses.
Para as entrevistas, a pesquisadora procurou se adequar as datas disponibilizadas pelas famílias e nos horários que estivessem presentes o maior número de componentes. O contato com as famílias para agendar a entrevista ocorreu por meio do telefone, cujo número foi concedido pela equipe técnica do CRAS, mas não antes das famílias terem sido advertidas durante as oficinas desse possível contato. Cabe salientar que a entrevista com a família de Maria ocorreu no dia 29/01/2016 e com as famílias de Selma, Roberta e Rosa no dia 03/02/2016.