No que se refere às dificuldades e possibilidades, as entrevistadas se detiveram em discorrer principalmente sobre os impactos prejudiciais que a atual tendência do ensino superior tem causado.
As respondentes 1 e 3 destacaram como principal dificuldade a impossibilidade de se manter a qualidade do ensino numa perspectiva de formação ampla e crítica do ser humano e não somente como formação para o trabalho, de cunho tecnicista.
“mercantilização da educação... a dificuldade de ensinar com qualidade”. Entrevistada 1
“No âmbito do Serviço Social é a divulgação do ensino a distância, a propagação desse ensino a distância, no âmbito dos ensinos presenciais a questão do currículo mínimo, (...) vejo... ai uma coisa mais ampla, hoje você tem formação para o mercado de trabalho e não formação para a cidadania ou para um projeto de sociedade diferente (...) mas você não tem uma formação para pensar, mas uma formação para adquirir uma profissão... então eu acho que o ensino superior hoje, com a LDB ele ganhou a possibilidade de ser isto,entendeu... a LDB criou os mecanismos que sustentam isso de forma mais aberta”. Entrevistada 3
Isso demonstra que um dos rebatimentos dessa tendência mercantilizante é o prejuízo direto para o exercício da docência e para a formação dos alunos, ambos nesse cenário se veem prejudicados e num processo de permanente precarização do ensino superior.
As entrevistadas 2, 4 e 6 destacam os reflexos nas condições de trabalho dos docentes, que tem sofrido impactos severos no que refere aos próprios direitos; a entrevistada 4 destaca
a dificuldade de manutenção da defesa do projeto ético-político da profissão que se enfraquece na medida em que não se consegue a mobilização e a organização política dos docentes. Já os sujeitos da pesquisa 2 e 6 destacam a superexploração do trabalho docente.
“(...) se tem alguém que produz riqueza na educação é o professor, tudo que nasce é ali o trabalho do professor que segura, o resto é tudo propaganda pura... o prédio tudo mais... é o trabalho do professor e ao mesmo tempo uma precarização do trabalho do professor uma super exploração do trabalho do professor, uma desvalorização da pesquisa”. Entrevistada 2
“É o maior desafio é manter na minha avaliação, é manter essa posição teórico critica, é manter uma posição de luta, é manter uma posição de entender esse problema dentro de uma realidade e compreender que as formas de enfrentamento dessa questão que a gente chama da Questão Social é a organização nossa como docente, como trabalhadores e eu penso que esse desafio ainda está para ser vencido. É porque nós não estamos organizados como docentes, a gente ainda está isolado nos nossos espaços sócio-ocupacionais e isso nos deixa mais frágeis e fica mais fácil para essa ordem atuar sobre quem não está organizado”. Entrevistada 4
“Outra coisa que é um problema grande no ensino superior privado é que... a qualidade de vida do professor é muito difícil, porque a gente tem o trabalho extremamente precarizado, e quando a gente fala precarizado parece que o termo não dá a noção exata do que isso significa no dia a dia. Então, se eu estou submetida ao contrato de trabalho que me paga por hora, não paga o tempo de preparação de aula, e claro que isso influencia nas minhas aulas não é! Não é que elas sejam ruins, elas podiam ser melhores se eu tivesse o tempo pago para preparar essas aulas. Então, esse contrato do professor horista é o grande problema na educação privada, e vem acontecendo, invadindo o campo da educação pública também. Mas o professor, ele não tem tempo mesmo remunerado para fazer as coisas necessárias para a prática docente. Então a gente se vê dentro da sala de aula, e ali é o único tempo que a gente tem. Não tem tempo para ir a ..., não tem tempo para pesquisa, não tem tempo para extensão, não tem tempo para preparação de aulas”. Entrevistada 6
Tais desafios colocados pelas entrevistadas não podem ser analisados desvinculadamente da questão da reestruturação do mercado de trabalho a partir do projeto neoliberal, em que se percebe um ataque aos direitos trabalhistas e um enfraquecimento da organização da classe trabalhadora em espaços como, por exemplo, o sindicato.
As respondentes 3, 5 e 6 falam dos impactos negativos dessa política para o fortalecimento de um projeto coletivo, sendo nesse contexto mais difícil a articulação dos alunos, e do corpo docente, devido a uma reatualização do pensamento conservador, a par da tendência em conceber o aluno como “consumidor” e não como cidadão em processo de formação pelo acesso à educação como bem público.
“No nível de exigência da universidade para com os docentes, essa esteira de produção, na resistência dos alunos aos projetos mais coletivos e na diminuição pela busca da extensão, no pragmatismo que acompanha a própria formação, na desresponsabilização dos colegas”. Entrevistada 3 “eu acho que um dos maiores problemas da política... da política nacional é dessa reforma na educação, do PAC da educação é exatamente essa reatualização digamos assim do pensamento conservador, que passa pela fragmentação do conhecimento ou seja a gente tá retrocedendo (...) então pra mim a questão central é um projeto de sociedade de manutenção do status quo, da ordem de tudo que tá colocado e da pior qualidade possível então nós estamos aqui trabalhando com uma concepção de educação que é essa concepção digamos assim neopositivista a partir da ideologia do neoliberalismo, da globalização tudo isso... então acho que o principal problema”. Entrevistada 5
“é os próprios alunos entenderem a educação como parte dos direitos do consumidor, então eles pagam, então eles têm direito (...). Mas existe uma cobrança muito grande assim - você faltou, mas eu vim aqui eu paguei a mensalidade. Porque que você faltou? Você vai fazer reunião hoje? Mas eu estou pagando a mensalidade dessa aula”. Entrevistada 6
As falas demarcam que são diversas as dificuldades enfrentadas no exercício da docência no ensino superior, visto que há uma contradição latente entre a tendência da atual política de educação, que segue um viés privatizante e mercadológico e a tendência do projeto profissional do Serviço Social sob a perspectiva democratizante e de garantia de direitos. Para o Serviço Social percebemos que tal contradição se fez presente nos mais diversos campos sócio-ocupacionais exigindo deste profissional, seja no exercício da docência ou no exercício da prática profissional, a criação de estratégias para defesa do projeto ético-político da Profissão.
Os depoimentos sobre as dificuldades da política educacional do ensino superior ratificam a hipótese de que a tendência mercantilizante da educação no ensino superior brasileiro representa forte pressão contrária às diretrizes curriculares do curso de Serviço Social e aos princípios ético-políticos e teórico-metodológicos que norteiam a formação. Porém, nesse universo pesquisado não conseguimos denotar que tal tensão de projetos educacionais tem se expressado de forma diferente nas instituições de ensino superior públicas e privadas, conforme havíamos previsto, apesar de considerar que existam as particularidades nesses lócus de trabalho.
No que concerne à docência, que constitui o foco de nosso trabalho, a análise foi feita a partir de sete aspectos, de modo a conseguir potencializar e adensar o debate sobre a prática pedagógica do docente assistente social.