Apesar de se ter destacado enquanto Ministro da Justiça, Vorster teve sempre o fantasma de Verwoerd a assombrar a sua liderança do país e do NP. Esta situação devia-se ao facto de, por um lado, os apoiantes de Verwoerd pretenderem de Vorster uma linha de continuidade com o seu antecessor, mas, por outro, para a ala mais liberal do NP, o novo líder era visto como a hipótese para uma renovação necessária. No meio destas duas correntes, Vorster teve alguma dificuldade em se afirmar.
As alterações regionais associadas a alguma hesitação começaram a aumentar o número de críticos de Vorster. A aposta inicial na política de Détente, como forma de lidar com as alterações regionais, acabou por revelar-se infrutífera. A aposta militar, nomeadamente na questão angolana, também acabou por ter os mesmos resultados.
Quando Vorster decidiu intervir em Angola, através de uma operação militar em quatro fases, em que a última era tomada de Luanda, nunca pensou que seria necessário chegar tão longe. Os sucessos militares iniciais, fizeram supor que seria possível obrigar o MPLA a aceitar a UNITA num modelo de partilha de poder. Diga-se em abono da verdade que a RAS não aspirava a pôr no poder a UNITA, uma vez que este movimento, devido às ligações históricas e étnicas com a SWAPO, não inspirava grande confiança a Pretória.
O fim do apoio norte-americano aos movimentos angolanos, na sequência da aprovação pelo Congresso da Emenda Clark210, aliado ao crescente apoio soviético e cubano ao
MPLA, obrigou os sul-africanos a retirarem-se do território angolano. Considerando-se traídos pelos EUA, os líderes sul-africanos cedo iriam vingar-se.
Mas para além destes problemas na esfera externa, internamente as dificuldades de Vorster também eram várias. Por volta de 1976, começaram a surgir indícios relativos à utilização indevida de fundos governamentais. Para se poder compreender melhor esta questão, convém recuar um pouco no tempo.
Em 1969, o Primeiro-Ministro Vorster obteve autorização do Parlamento para criar um fundo, o Security Services Special Account, com o objectivo de financiar, discretamente, determinadas actividades do regime. Este fundo deveria ser controlado pelo Primeiro-
210 Sob proposta do Senador Dick Clark, o Congresso norte-americano proibiu, em Dezembro de 1975, a continuação do apoio militar aos movimentos angolanos.
Ministro e pelo Ministério das Finanças. Com o passar dos tempos, este fundo passou a ser gerido apenas pelo Primeiro-Ministro, que o canalizava para o Ministério que bem entendesse.
Em Novembro de 1976, a Procuradoria Geral chamou a atenção de Vorster para a maneira como os fundos secretos estavam a ser utilizados pelo Departamento de Informação. Gradualmente, rumores de ilegalidades começaram a manchar a imagem do Ministro da Informação, Connie P. Mulder, que na altura aspirava a ser o sucessor de Vorster.
Foi neste ambiente de suspeita, com um Primeiro-Ministro enfraquecido pelos desaires regionais, que se realizaram as eleições de 1977. Pela primeira vez, desde que o NP ascendeu ao poder, as questões internacionais dominaram a campanha eleitoral, num sinal da importância das mesmas para a sobrevivência do regime. Apesar de debilitado politicamente, Vorster e o NP ganharam as eleições de uma forma esmagadora211.
A 1 de 1978 rebentou o escândalo sobre a má utilização dos fundos por parte de vários funcionários do governo. O Auditor Geral, F.G. Barrie, apresentou no Parlamento provas sobre a utilização, por parte de membros do Ministério da Informação, de fundos para obter publicidade favorável à RAS. O escândalo envolveu o Secretário para Informação, Eschel Rhoodie e o próprio Ministro Mulder.
O escândalo, que ficou conhecido por Muldergate, acabou por atingir o próprio Vorster que, alegando problemas de saúde, acabou por se demitir a 20 de Setembro de 1978. Aproveitando o facto do Presidente sul-africano, Nicholas Diedrichs ter morrido, Vorster mostrou-se disponível para o cargo, o qual não tinha qualquer poder executivo.
A 28 de Setembro, P.W. Botha, até então Ministro da Defesa, foi eleito Primeiro-Ministro, vencendo por escassa margem Connie Mulder. No dia seguinte, Vorster foi eleito Presidente da RAS. A eleição de P.W. Botha como líder do NP foi acompanhada pela eleição de Andries Treurnicht, que como vimos foi um dos responsáveis pela decisão da utilização obrigatória do afrikaans no ensino, como líder do NP no Transvaal, segundo posto mais importante na hierarquia do NP, em substituição de Connie Mulder. Nessa altura, os dois postos mais importantes dentro do NP estavam na mão da ala conservadora do partido.
A eleição de P.W. Botha não marcou o fim do conflito entre defensores da via armada e defensores da via diplomática.
211 O NP obteve 134 dos 165 lugares. O Progressive Federal Party, criado a partir da união do Progressive
Party e do Reform Party, ambos dissidências do United Party, tornou-se na oposição oficial com 17
A 29 de Outubro estalou mais um escândalo envolvendo o Ministério da Informação. O jornal sul-africano Sunday Express, revelou que o governo tinha gasto em 1976 um elevada soma212 com o objectivo de criar um novo jornal. A ideia era criar um jornal de
expressão inglesa, embora feito por africânderes, de maneira a fazer concorrência aos outros jornais anglófonos, tradicionalmente críticos do governo. As alegações do Sunday Express foram, mais tarde, confirmadas pela Comissão de Inquérito Erasmus213. O
escândalo envolveu várias personalidades próximas de Vorster, como Mulder, Rhoodie e o General van den Bergh, os quais acabaram todos por se demitir.
Na esfera de poder, Botha e a ala militarista do regime já só tinham que enfrentar a oposição de Vorster. A 19 de Junho de 1979, com uma imagem pública muito debilitada, Vorster214 acabou por se demitir, sendo substituído por Marais Viljoen à frente da
Presidência do país.