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3. Modeling with Kahn process networks 25

3.1.5. A practical problem: execution in limited space

Chegando à etapa final deste estudo surgem as reflexões sobre todo o processo de investigação e sobre os importantes dados adquiridos ao longo do mesmo.

Foi notório nos relatos das enfermeiras entrevistadas, que os enfermeiros no SU se sentem bastante expostos e vulneráveis a situações de agressividade.

Consideram e identificam claramente um episódio agressivo, quando vivenciam situações em que os utentes e/ou familiares, se lhes dirigem proferindo frases intimidatórias, de tom claramente exaltado, gritam ou gesticulam, quando há contacto físico, ou até quando lhes fazem exigências constantes e insistentes, que provocam uma sobrecarga psicológica e influenciam a qualidade dos cuidados e performance profissional.

Identificam ainda a agressividade vivida como sendo maioritariamente de origem verbal, embora as de origem psicológica e a física também estejam presentes na vida profissional do enfermeiro.

Foi ainda possível identificar que a pessoa considerada como agressora não se circunscrevia ao utente, sobre o qual há uma prestação directa de cuidados, mas também aos familiares e/ou acompanhantes.

Aquando da conceptualização do episódio agressivo, foi possível identificar diversos factores considerados como sendo a razão da agressividade existente: o desconforto associado à doença, expectativas negativas, características pessoais e patológicas do utente, características sócio-político-culturais, o desconhecimento do funcionamento do serviço, o efeito “bola-de-neve”, frustrações pessoais e do quotidiano, desacordo com a avaliação do enfermeiro, incapacidade em direcionar a insatisfação, e a leitura do enfermeiro como sendo um alvo fácil.

Todos estes pontos foram surgindo, expressamente relatados nas entrevistas, marcando um ponto de vista global, onde surge uma visão claramente unilateral no que diz respeito ao surgir da agressividade. Nenhuma das enfermeiras entrevistadas relatou a possibilidade do despoletar do episódio agressivo, como partindo do enfermeiro ou da própria equipa de enfermagem. Há uma desculpabilização através de justificações associadas ao serviço, à patologia, e a muitos outros factores, mas nunca associados à interacção.

O peso da agressividade é colocado sobre o outro, talvez surgindo como uma forma do enfermeiro se proteger intuitivamente de um sofrimento maior do que a própria agressividade sentida, ou talvez fruto de uma prática profissional pouco reflexiva.

Na realidade, todo este processo parece claramente inocente, não existindo evidência nos discursos obtidos de que as enfermeiras entrevistadas tenham consciência desta perspectiva, que exige um trabalho intenso sobre a própria estrutura interna do enfermeiro, com uma identidade profissional e pessoal únicas.

Nas entrevistas realizadas, também foi possível observar os sentimentos predominantes dos enfermeiros, relacionados com a vivência dos episódios agressivos. As enfermeiras relataram episódios de agressividade vivenciada, que despoletaram sentimentos de insegurança, incompreensão, medo, exaustão, desrespeito pelo próprio trabalho e pessoa, revolta, vitimização, frustração, mágoa e culpa.

Analisando todos estes sentimentos, observa-se que os mesmos se autocentram novamente no enfermeiro e muito pouco no utente ou no familiar e/ou acompanhante. São sentimentos relacionados com uma permanente vitimização e angústia de um enfermeiro profundamente ferido.

Segundo Lewin (1935), o conflito é uma fonte de stress e ansiedade, e pode também ser uma fonte de frustração.

O enfermeiro absorve toda a agressividade vivenciada e transforma-a num ataque muito próprio ao seu profissionalismo, assim como, à sua própria pessoa. Funde-se com a própria instituição e com o próprio serviço, existindo uma clara dificuldade em distinguir os limites de cada um, e até os limites da própria responsabilidade profissional.

Não conseguindo despir essa pele, que claramente impede o claro raciocínio sobre a situação de agressividade vivenciada, e o frustra, o enfermeiro refugia-se num sofrer constante e genuíno, que o impede de criar um distanciamento relacional pessoal com o utente e familiares e/ou acompanhantes.

Obviamente que não se sugere uma clivagem no relacionamento profissional, mas sim uma racionalização do mesmo, assim como, uma eliminação do processo de transferência e contratransferência, inconscientemente utilizado pelo enfermeiro, que o impede de desenvolver uma relação de ajuda eficaz com o utente e familiar e/ou acompanhante.

situação de maior intensidade no SU, ou também se observam desta forma noutros serviços e noutras áreas de enfermagem? Haverá alguma relação entre os sentimentos identificados pelos enfermeiros, e a situação laboral em que se encontram?

Através das respostas obtidas, surgem inúmeras outras perguntas, para possíveis novos temas de investigação, numa constante procura de relacionar e saber mais.

De acordo com Honoré (2004), a o sentimento é uma característica essencial do cuidar, e a percepção das suas implicações nos cuidados revela a reflexão sobre o agir e a análise das situações.

Ainda reflectindo sobre os sentimentos identificados, e conhecendo pessoalmente a realidade funcional actual de um SU, surge também a dúvida sobre se as enfermeiras entrevistadas demonstrarão o reflexo de uma equipa em exaustão, saturada do rácio enfermeiro-utente desajustado, saturada das condições laborais e financeiras a que estão sujeitas, reflexo de um país em crise.

Será este o espelho de uma condicionante profissional, conduzida pela actual conjuntura política e económico-financeira? Ou será que o enfermeiro apenas se sente cada vez mais só e desamparado, sem forças para reagir ou reflectir sobre ele próprio e sobre a sua condição profissional, deixando-se apenas vitimizar e acreditando nessa mesma vitimização, rodeada de sentimentos negativos e descrentes, sobre o outro e ele mesmo?

Curiosamente, apenas uma enfermeira referiu o sentimento de culpa, identificando uma clara reflexão sobre toda a situação vivenciada e sobre o seu sentimento inicial em que se identificava apenas e exclusivamente como agredida e não como elemento cuidador, como uma profissional munida de conhecimentos técnicos, científicos e humanos, que lhe permitem gerir toda e qualquer situação relacional.

Este estudo também procurou identificar as estratégias utilizadas pelo enfermeiro na gestão de um episódio agressivo. Segundo as entrevistas realizadas, identificaram-se as seguintes estratégias: o trabalho em equipa, apoio psicológico, racionalização, desvalorização do episódio, evitar o confronto, manter a calma e a empatia.

Nos relatos das enfermeiras entrevistadas, há um grande realce do trabalho de equipa, como uma estratégia importante. A procura do enfermeiro com maior experiência ou perfil mais adequado para melhor solucionar e gerir o episódio de agressividade, de forma a beneficiar e prestar melhores cuidados ao utente ou familiar e/ou acompanhante, bem como, proporcionar maior estabilidade e serenidade à equipa de enfermagem.

A procura de soluções em equipa, também revela uma simbiose entre os elementos da mesma, e um franco e aberto relacionamento profissional. O à vontade na procura de ajuda ao colega demonstra uma clara maturação profissional, através da consciencialização dos próprios limites.

Surge ainda relatada a necessidade de apoio psicológico, como estratégia para melhor compreender e gerir os episódios agressivos vivenciados. Esta necessidade surge de forma bastante pertinente, pois não existe um espaço ou acompanhamento estruturado para o enfermeiro, que lida diariamente com situações que provocam elevados níveis de stress, como é o caso do SU, por exemplo, onde cada decisão é muitas vezes tomada a cada segundo, onde as prioridades são definidas no imediato, e as respostas têm que ser imediatas.

Há uma clara necessidade em saber lidar melhor com os próprios sentimentos, para conseguir cuidar melhor do outro, mas também a necessidade de partilhar as experiências e sentimentos com alguém, de perspectivar diferentes pontos de vista e de desenvolver novas estratégias pessoais e profissionais, para lidar com a agressividade.

Segundo Alfaro-Lefevre (1996), as habilidades e o desempenho do pensamento crítico em enfermagem devem ser amplamente desenvolvido, pois as conclusões e decisões a que chegamos como enfermeiros, afecta incrivelmente a vida das pessoas.

Contudo, nas estratégias identificadas, também surge a desvalorização do episódio, observando-se como uma estratégia menos positiva, onde há irreflectidamente um menosprezo por parte do enfermeiro, em relação aos sentimentos do utente ou familiar e/ou acompanhante, numa tentativa de minimizar a toda a situação e agilizar todo o processo.

Essa desvalorização permite ao enfermeiro uma protecção individual inconsciente, no entanto promove uma minimização do outro como pessoa e despreza o real problema existente.

Segundo Honoré (2004), existem duas formas de cuidar: a forma quotidiana e a forma autêntica. A primeira dirige-se ao indivíduo, mas esquece-se a pessoa, trata-se de uma forma que não é considerada autêntica. Para a segunda, o cuidar torna-se um agir com respeito pela vida humana.

Inesperadamente, tendo em conta a sua importância na prestação de cuidados em enfermagem, apenas uma das enfermeiras entrevistadas referiu a empatia como

Estas duas estratégias, em uníssono, fazem apelo à compreensão do outro, num reconhecimento profundo de que o mesmo também é pessoa, um indivíduo único.

Colocarmo-nos no lugar do outro e tentar compreendê-lo para melhor ajudar e cuidar, nem sempre é uma tarefa fácil, mas é o principal fundamento para que consigamos ser, não só melhores profissionais, mas também melhores pessoas.

Estaremos nós esquecidos da essência da nossa profissão, ou apenas demasiado exaustos para reflectir sobre a mesma, e sobre nós próprios? Numa actualidade desgastante, onde as exigências profissionais inundam os enfermeiros, estaremos demasiado ocupados para parar e pensar?

Segundo Frias (2003), o enfermeiro afirma-se como cuidador, através do próprio cuidar, mas necessita de reflectir profundamente, de uma intencionalidade, de uma acção e procura de novos conhecimentos, que o ajudarão a descobrir novos meios no processo de cuidar.

Saber gerir os próprios sentimentos é fundamental para se conseguir gerir melhor a agressividade e reduzir os seus efeitos negativos. Sugere-se que cada enfermeiro procure uma melhor reflexão sobre a prática, de forma a cuidar melhor dos outros e de si próprio.

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