O acontecer humano, “de qualquer tipo, em qualquer lugar, em todo o tempo”
(NOVAIS; SILVA, 2011, p. 42), em uma visão abrangente, é permeado por diversas esferas da existência e por níveis de realidade que se entrelaçam, tornando qualquer análise, seja científica, seja histórica, de qualquer um de seus aspectos, em qualquer lugar ou tempo, algo complexo.
Diante dessa complexidade da realidade do acontecer humano, qualquer estudo de Ciências Humanas enfrenta desafios e enseja um recorte.
Pensando especificamente nas esferas educacional, social e tecnológica presentes no campo de pesquisa selecionado para esta investigação, os desafios para as análises se intensificam na medida em que coexistem diferentes concepções de sociedade e de Educação que permeiam seus paradigmas e modos de objetivação, suas propostas pedagógicas, suas modalidades e seus contextos de aplicação (BARRETO et al., 2006).
O recorte apontado propõe-se a partir de categorias de análise com o intuito de respeitar os limites existentes em cada uma delas. Nesse sentido, Novais e Silva (2011, p. 42, grifo dos autores) sinalizam que:
[...] o acontecer humano – de qualquer tipo, em qualquer lugar, em todo o tempo – nunca pertence a uma única esfera da existência, mas sempre envolve todas ao mesmo tempo. Não se deve confundir esferas da existência (economia, sociedade, política, cultura)
com níveis de realidade (estrutura, conjuntura, acontecimento); toda
esfera da existência comporta, sempre, os vários níveis de realidade, não nos esqueçamos.
Portanto, sem respeitar o fato de que cada esfera da existência possui os três níveis de realidade corre-se o risco de não respeitar seus limites e realizar uma análise anacrônica. Além disso, ao investigar os níveis de realidade, julga-se pertinente delimitar as esferas de existências imbricadas, para não empreender uma análise tão generalista a ponto de não dar conta do objeto que se propõe a estudar.
Tendo isso em vista, optou-se por restringir o desenvolvimento desta dissertação a três das esferas da existência, a saber, a educacional, a tecnológica e a cultural/social, em seus três níveis de realidade: no curso escolhido como campo de pesquisa – nível de acontecimento; no contexto social, que envolve a Revolução Tecnológica e as questões de cidadania – nível conjuntural; e nas matrizes e concepções epistemológicas que as sustentam e guiam – nível estrutural.
O desenvolvimento do estudo decorrente desse recorte é apresentado no Capítulo 1, que delineou o quadro teórico de referência desta dissertação. Seu aprofundamento será possível, outros significados serão encontrados e o trabalho fará sentido ao associar esse conteúdo teórico à análise dos dados, no Capítulo 3.19
Seu sentido é encontrado ao associar dialeticamente o microcosmo, que é o campo de pesquisa, com o macrocosmo, a fundamentação teórica apresentada, como discorre Paulo Freire (FENOMENOLOGIA, 2010, p. 187): “O circunstancial e o cotidiano, o micro refere-se a questões macro e universais; e como tal, dialeticamente, sequer existem dissociadas”.
Em relação aos significados a encontrar, as teorias apresentadas não almejam dar conta de todos os significados das práticas avaliativas do curso em questão. Para Erickson (1986 apud MOREIRA, 2003), em uma pesquisa qualitativa, os significados atribuídos variam tanto quanto a relação entre o número de sujeitos
19 Ao longo desta investigação, os cruzamentos entre as dimensões e concepções apresentadas nas redes teóricas do Capítulo 1 serão retomados como referência para analisar a avaliação por parte dos alunos em relação às práticas avaliativas do curso em questão.
participantes versus os contextos, as interações, com que se deparam no processo
educativo ou em outros contextos de que participam de forma paralela e que irão interferir/contribuir com essa construção de significado.
Por esses motivos, assumindo os desafios apresentados e partindo deste recorte, este estudo almeja contribuir com o esforço analítico dos pesquisadores da área de práticas avaliativas educacionais mediatizadas por tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC), tendo por objetivo macro compreender nossa sociedade e nosso mundo em busca de uma sociedade mais justa.
O conjunto de reflexões, vivências e crenças pessoais apresentadas instigou- me a aprofundar o conhecimento sobre práticas avaliativas. Assim, o problema de pesquisa se constituiu por meio da seguinte pergunta:
• Qual é a avaliação dos alunos acerca das práticas avaliativas mediatizadas pelas tecnologias digitais de informação e comunicação de um curso de formação para o trabalho em contexto de promoção da cidadania?
Essa pergunta será desdobrada ao longo da dissertação levando em consideração os seguintes objetivos:
• Identificar “características particulares” relativas à concepção de avaliação educacional atribuídas pelos alunos às práticas avaliativas vivenciadas na 5ª turma do curso A Conquista da Cidadania LGBT;
• Investigar os aspectos peculiares atribuídos pelos alunos ao uso das TDIC nessas práticas;
• Mapear um conjunto de informações que subsidie uma análise crítica considerando a coerência entre as práticas avaliativas vivenciadas e os objetivos que envolvem a educação para o trabalho e para a cidadania. A partir da investigação sobre o sentido da avaliação no processo educativo pelos sujeitos que dele fazem parte será possível analisar alternativas para mudanças nas práticas avaliativas que se afastem da concepção de avaliação como controle e, assim, favorecer a transformação da qualidade do processo avaliativo.20
20 A transformação da qualidade do processo avaliativo em um contexto educacional pode ocorrer quando os sujeitos dele participantes tomam conhecimento do que guia as ações em sua prática;
Tendo em vista o recorte analítico do estudo e a complexidade na qual está envolvido, além de seus desafios e suas limitações, torna-se possível justificar as escolhas metodológicas.