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Este subcapítulo tem o objetivo de esclarecer ao leitor os caminhos percorridos pela capoeira para chegar a ser considerada, por diferentes autores, conteúdo da EFE. Sob este propósito inicia-se com os significados da EFE e um pequeno relato de sua trajetória histórica e suas transformações até a cultura tornar- se um de seus objetos de estudo.

De acordo com Darido e Rangel (2005) a Educação Física possui três diferentes significados os quais se inter-relacionam: é uma área de investigação científica; uma profissão regulamentada e um componente obrigatório do currículo das escolas de educação básica.

Todavia nem sempre foi assim, pois a área passou por algumas transformações ao longo de sua trajetória histórica em conformidade com o momento sócio-político em que o país se encontrava.

Segundo Castellani Filho (1998) desde a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1961, a Educação Física já era obrigatória para os graus primário e médio, porém era considerada como uma atividade extracurricular, com o objetivo de preparar o jovem para o mercado de trabalho.

Na década de 1971 houve uma reforma na Lei e esta obrigatoriedade passou a ser para todos os níveis de escolarização, porém a participação nas aulas era facultativa para os alunos com mais de 30 anos de idade; para o curso noturno; para quem estivesse prestando serviço militar e os fisicamente incapacitados. Nesta época era considerada pela legislação como atividade prática sem um saber próprio a ser ensinado, era um fazer por fazer (DARIDO; RANGEL, 2005).

Somente em 1996, com a Nova LDB, nº 9.394/96, § 3º, a Educação Física foi integrada à proposta pedagógica das escolas como componente curricular da Educação Básica ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar (DARIDO; RANGEL, 2005).

Segundo as autoras a partir desta obrigatoriedade nos currículos escolares reconheceu-se que o ensino da Educação Física tem um objeto de estudo, além de conhecimentos próprios inerentes aos jogos, esportes, ginástica, lutas, danças, capoeira e conhecimento sobre o corpo, que configuram a matriz que a faz estar presente na escola.

Este aporte sociocultural proporcionou novos paradigmas para a Educação Física, abarcando conceitos advindos de outras áreas, bem como influências de diferentes escolas filosóficas, sociológicas e até mesmo políticas, modificando o que até então era considerado o papel da Educação Física na escola – o “saber fazer” esportivista – para ter na cultura seu foco principal de estudos e, por isso, passível de ser transmitido nas aulas (BRACHT, 1999).

Mas o que se transmitir exatamente da cultura? Para Forquin (1993), toda educação do tipo escolar realiza uma seleção no interior da cultura e uma re- elaboração dos conteúdos desta destinados a serem transmitidos às novas gerações. Assim, a educação não transmite a cultura e sim algo da cultura, que pode provir de fontes diversas e de diferentes épocas (FORQUIN, 1993).

O autor afirma ainda que o conteúdo que se transmite na educação é sempre alguma coisa que nos precede, nos ultrapassa e nos institui enquanto sujeitos humanos, dando-se a isto o nome de cultura. E que cultura é o conteúdo substancial da educação, sendo a sua justificação, pois para o autor a educação não é nada fora da cultura e sem ela (FORQUIN, 1993).

Na Educação Física, esta concepção de cultura está presente, por exemplo, em Daolio (2007). O autor afirma que a Educação Física precisa considerar o ser humano em suas manifestações culturais relacionadas ao corpo e aos seus movimentos historicamente definidos como jogo, esporte, dança, luta e ginástica. Assim sendo, a cultura corporal passou a ser um de seus principais conceitos.

Na perspectiva da cultura, a capoeira começa a ser defendida como uma possibilidade de conteúdo para a EFE. Segundo Campos (2001) veio sendo praticada nas escolas ainda antes da década de 1980, de forma extracurricular e hoje está presente nos currículos dos cursos de Educação Física de várias universidades e faculdades brasileiras, pressupondo sua presença na escola.

De acordo com Lussac (2010) as principais universidades brasileiras (UFBa, UFRJ, UERJ, UnB, USP, UNICAMP, PUC-SP) dentre outras, têm a capoeira nos currículos dos cursos de Educação Física. Além disso, a UnB entre os anos de 1997-98, realizou o primeiro curso de pós-graduação voltado especificamente para o estudo da capoeira.

Houve ainda um forte crescimento do número de trabalhos acadêmicos envolvendo a capoeira, não só da área da Educação Física como também da História, da Sociologia, dentre outras, que auxiliou sua evolução, desenvolvimento e disseminação (NASCIMENTO, 2005). Para Melo (2002) a capoeira como elemento ativo da dinâmica cultural é considerada hoje um importante instrumento de análise de aspectos relacionados à população e à cultura brasileira.

Soares et al. (1992), sugerem que a capoeira seja tema das aulas de Educação Física o que a coloca em evidência para ser utilizada no contexto escolar. Contudo não se pode afirmar que ela tem sido efetivamente implementada pelos professores da área, em suas aulas.

Os autores da citada obra definem a Educação Física como: “uma disciplina que trata, pedagogicamente, na escola, do conhecimento da cultura corporal. Esta tematiza formas de atividades expressivas corporais como: jogo, esporte, capoeira, ginástica e dança, que constituirão seu conteúdo” (p. 61-62). Pode-se afirmar que este foi um dos primeiros livros que sugeriu a capoeira como conteúdo a ser desenvolvido na Educação Física.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), em 1998, destacaram como temas da Educação Física “o jogo, a ginástica, o esporte, as lutas, a dança, a capoeira e outras temáticas” (p. 26). Sugerem como um dos objetivos da Educação Física conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, como meio para que o aluno possa construir a noção de identidade nacional (BRASIL, 1998).

Segundo Campos (2001), a capoeira adentrou os espaços escolares devido a sua aproximação com a Educação Física. Pois a partir do momento que ela reconhece os potenciais da capoeira em seus valores educativos, esportivos e culturais, apropria-se de seus conteúdos, inserindo-os nos programas das escolas.

Corroborando ainda com a capoeira na escola, Darido e Rangel (2005), apresentam propostas para jogos, conhecimentos sobre o corpo, esporte, capoeira, ginástica, dança e lutas. As autoras apresentam a história da capoeira assim como diferentes intervenções pedagógicas sugerindo como ela pode ser desenvolvida nas aulas de Educação Física.

Por meio da vivência de seus fundamentos, a prática da capoeira na escola, bem conduzida, possibilita o desenvolvimento da autonomia, cooperação e participação social, postura não preconceituosa, entendimento do cotidiano pelo exercício da cidadania.

O estudo realizado por Bertazzoli, Alves e Amaral (2008) em uma escola particular de Campinas/SP, investigou o desenvolvimento da autonomia e da consciência crítica dos alunos, por meio da prática da capoeira. Foi realizada uma intervenção na qual as ações desenvolvidas baseavam-se em pesquisas realizadas pelos alunos, apresentação das mesmas, criação de movimentos, socialização dessas criações e, a síntese de tudo, nas rodas de capoeira.

É necessário ressaltar que a roda é um momento de fundamental importância para a capoeira. É nela que o capoeirista irá colocar em prática todos os seus saberes corporais, ritualísticos, de canto e instrumentais, e, para além disso, poderá vivenciar diferentes valores. Na roda, ele experimenta a cooperação, pois tem que cantar, tocar e bater palmas para mantê-la funcionando.

Vivência a liberdade de criar seu jogo de acordo com a necessidade do momento e sua criatividade, possibilitando o desenvolvimento de sua autonomia. Pode ainda ser um momento de socialização, de afetividade e de ludicidade entre os participantes que, segundo Abib (2004), é onde as pessoas se reúnem para partilharem suas alegrias e tristezas, esperanças e sofrimentos, e onde passado, presente e futuro se juntam num momento único de celebração da vida.

Na escola, Campos (2001) ressalta a preocupação que se deve ter ao realizar as rodas e repassar os conteúdos da capoeira, pois deve ser feita de forma abrangente, permitindo que a capoeira sirva de alicerce para a busca da cultura e de um melhor conhecimento do ser humano e sua relação com a sociedade.

Concorda-se com Silva e Heine (2008) quando propõem uma “capoeira da escola” para que possa ser utilizada em todas as suas multifaces de luta, de arte, de ritmo, de jogo, de instrumentação, de brincadeira, de expressão corporal, de historicidade, conforme expressa-se Freire, ao prefaciar a obra “Capoeira, um instrumento psicomotor para a cidadania”:

(...) não morro sem ver a capoeira reconhecida como Educação Física, e das boas. (...) Integrar a capoeira na Educação Física é simplesmente dizer que nossa educação deve ter como ponto de partida aquilo que nos faz mais brasileiros. (...) É a vida que se joga na roda, a vida como ela é, como nós somos. (...) Que lindo o jogo que se joga cantando (...) que linda a educação que encanta, jogada, dançada (SILVA; HEINE, 2008, p.16. Prefácio de João Batista Freire).