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4 E FFEKTIV!FLENSBREDDE !

4.4 A NDRE!REGELVERK !

Muitos filósofos já discutiram a questão da antecipação, antevisão, ou previsão do futuro. Pode-se sintetizar a grande questão filosófica sobre estudos do futuro da seguinte forma: é realmente possível prever o futuro?

Procurando as fontes disponíveis, verifica-se que alguns autores encontram- se no grupo dos que não acham possível prever o futuro, enquanto outros apresentam argumentos que levam a crer que seria possível, sim, realizar previsões sobre o futuro.

O filósofo medieval Agostinho de Hipona (354-430), também conhecido como Santo Agostinho, abordou o chamado “problema do tempo”. Agostinho considerava impossível a previsão do futuro. Segundo Agostinho:

(..) nós premeditamos nossas ações futuras e que tal premeditação é presente, mas o ato que premeditamos ainda não existe, porque é futuro (...) qualquer que seja a natureza dessa misteriosa previsão do futuro, não podem ver senão o que existe, mas o que existe não é futuro e sim presente" (AGOSTINHO, 2002,p. 15).

Agostinho entendia que o futuro simplesmente não existe, e que, portanto, não poderia ser “visto” antecipadamente, conforme se depreende claramente da afirmação a seguir:

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Vejo a aurora e posso predizer que o sol está para surgir. O fenômeno que observo (a aurora) está presente, o que não vejo é futuro. Não é futuro o sol, que já existe, mas sim seu surgimento que ainda não se realizou; todavia, se eu não tivesse no espírito um imagem desse surgimento [...] não o poderia prever. No entanto, nem essa aurora que vejo, nem a imagem dela são o próprio nascimento do sol: são os dois fatos presentes que vejo e que me servem para predizer um acontecimento futuro. Portanto, o futuro não existe, de maneira nenhuma pode ser visto (AGOSTINHO, 2002, p.22).

Para David Hume (1711-1776), não é possível basear-se em acontecimentos passados para prever o futuro. Hume afirmou que “não é, portanto, a razão o guia da vida, mas o hábito que por si só determina em todos os caso a mente a supor o futuro conforme ao passado” (HUME, 2001, p.84). Essa afirmação levou a uma discussão que ficou conhecida como o “Problema da Indução de Hume”. O problema da indução de Hume é tradicionalmente exemplificado com o caso dos cisnes brancos. Pode-se verificar a existência de mil cisnes brancos, mas, segundo Hume, isso não seria suficiente para concluir-se, por indução, que todos os cisnes são brancos. De fato, a existência de um único cisne negro torna falsa a afirmativa “todos os cisnes são brancos”. A partir dessa afirmação, Hume concluiu que não é possível antecipar-se sobre acontecimentos futuros baseado na observação de fatos passados.

Para Reinhart Koselleck (1923-2006) existe uma relação entre passado e futuro, constituindo o que ele denominou “tempo histórico”. Koselleck definiu os conceitos de “experiência” e “expectativa”. Experiência seria a forma como cada geração lidou com o seu passado e expectativa seria a forma como cada geração lidaria com seu futuro, construindo o que ele denominou “horizonte de expectativa”. Koselleck afirma que nos tempos atuais, chamados por ele de “modernidade”, experiência e expectativa estão cada vez mais dissociadas: “só se pode conceber a modernidade como um tempo novo a partir do momento em que as expectativas passam a distanciar-se cada vez mais das experiências feitas até então” (KOSELLECK, 2006, p.121). Sendo assim, pode-se inferir que, para Koselleck, a previsão do futuro é cada vez mais improvável, devido a esse progressivo distanciamento entre “experiência” (passado) e “expectativa” (futuro).

27 Alguns filósofos, notadamente Immanuel Kant (1724-1804) e Friedrich Hegel (1770-1831), ao contribuir para o campo da filosofia conhecido como Filosofia da História, acabaram por desenvolver interessantes argumentos a respeito do passado, presente e futuro.

Immanuel Kant afirmava que a história seria determinística, e que haveria um “fio condutor” da natureza que ligaria passado, presente e futuro, conforme se verifica na citação transcrita a seguir:

Como o filósofo não pode pressupor nos homens e seus jogos, tomados em seu conjunto, nenhum propósito racional próprio, ele não tem outra saída senão tentar descobrir, neste curso absurdo das coisas humanas, um propósito da natureza que possibilite todavia uma história segundo um determinado plano da natureza para criaturas que procedem sem um plano próprio. Nós queremos ver se conseguimos encontrar um fio condutor para tal história e deixar ao encargo da natureza gerar o homem que esteja em condição de escrevê-la segundo este fio condutor (KANT, 1985, p.95)

Kant acreditava que haveria mecanismos que moveriam a história e levariam a um futuro previamente determinado, conforme se observa a seguir:

(..) se prescindirmos deste princípio [de que todas as disposições naturais de uma criatura estão destinadas a um dia se desenvolver completamente e conforme um fim], não teremos uma natureza regulada por leis, e sim um jogo sem finalidade da natureza e uma indeterminação desconsoladora toma o lugar do fio condutor da razão” (KANT, 1985, p. 97)

Se, para Kant, haveria um mecanismo que conduziria a história humana, ao compreender esse mecanismo seria possível antever o destino para onde a história estaria se encaminhando. Em outras palavras, seria possível prever o futuro. No entanto, ele afirma que a história possui um “ciclo”, mas que tal ciclo seria tão longo que a experiência humana não seria suficiente para desvendar esse mecanismo de condução da história:

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O problema está em saber se a experiência revela algo de um tal curso do propósito da natureza. Digo que muito pouco, pois este ciclo parece exigir tanto tempo para cumprir-se que, deste ponto de vista, a pequena parte que a humanidade percorreu permite determinar somente de maneira muito incerta a forma de sua trajetória e a relação das partes com o todo, e o mesmo ocorre se quisermos determinar, a partir das observações do céu feitas até aqui, o curso do nosso sol junto com todo o cortejo de seus satélites no sistema de estrelas fixas – e entretanto o princípio geral da constituição sistemática da estrutura do mundo e o pouco que se observou bastam para concluir com segurança a respeito da realidade de um tal ciclo” (KANT, 1985, p.105)

A afirmação de Kant de que o futuro pode ser previsto, pois a história possui um “fio condutor”, fica mais clara na seguinte citação:

[...] Descobre-se assim, creio, um fio condutor que pode servir não apenas para o esclarecimento do tão confuso jogo das coisas humanas ou para a arte de predição política das futuras mudanças estatais [...] mas que abre também [...] uma perspectiva consoladora para o futuro” (KANT, 1985, p.110)

Diferentemente de Kant, Hegel acredita que a história é construída essencialmente de maneira racional. Portanto o futuro seria construído pelo homem, de forma racional e deliberada. Segundo Hegel, o homem seria o agente que constrói a história, e, portanto, constrói o futuro. O homem buscaria satisfazer seus anseios pessoais, mas nessa busca acabaria dando forma à história. Hegel afirma que “a ação imediata [do homem] pode conter algo além do que está na vontade e na consciência do autor” (Hegel, 1995, p. 37) e também que “a razão governa o mundo, e que, portanto, a história universal é também um processo racional” (HEGEL, 1995, p.38). Essa afirmação é reforçada mais uma vez pela seguinte citação de Hegel:

Portanto, o estudo da história universal resultou e deve resultar em que nela tudo aconteceu racionalmente, que ela foi a marcha racional e necessária do espírito universal; espírito cuja natureza é sempre idêntica e que a explicita na existência universal. [...] A história, porém, devemos considerá-la como ela é: devemos proceder de forma histórica, empírica; ademais, não podemos permitir que os

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historiadores profissionais nos seduzam, pois estes [...] fazem aquilo de que acusam os filósofos, ou seja, invenções a priori da história” (HEGEL, 1995, p.43)

Se, conforme afirma Hegel, o futuro é construído pela razão humana, pode-se concluir que, uma vez identificadas as forças humanas que estão agindo no presente, seria possível antever seu resultado no futuro, isto é, seria possível prever o futuro de alguma maneira.

Assim, tem-se, de um lado, Santo Agostinho, que afirma categoricamente ser imposível prever o futuro. Da mesma forma, Hume considerava impossível a previsão do futuro, baseado no seu conhecido “problema da indução”. Ainda nesse sentido, Koselleck afirma que o distanciamento cada vez maior entre a “experiência” (passado) e “expectativa” (futuro) torna a previsão algo cada vez mais improvável.

De outro lado, tem-se Kant, que afirma que a história possui um “fio condutor”, possuindo “ciclos” longos, e que, ao compreendê-los, poder-se-ia prever o futuro. E, na mesma linha, tem-se Hegel, que afirma que a razão humana é que constrói a história, ou seja, o futuro seria previsível na medida em que a ação humana fosse compreendida.

A filosofia, portanto, não nos dá uma resposta definitiva para a pergunta “é possível prever o futuro?”. No entanto, ela deixa aberta a possibilidade de que isso seja possível, principalmente pelos trabalhos de Kant e Hegel. Assim, poder-se-ia afirmar que os estudos do futuro visam principalmente servir de guia para o que o homem pretende fazer. Nesse sentido, a análise prospectiva do campo científico- tecnológico seria então uma ferramenta para antecipar o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, a fim de orientar a C&T rumo a um futuro desejado. Cabe então discutir se é viável, ou não, orientar a ciência. É o que se pretende fazer nas seções seguintes. Antes, porém, é preciso definir com precisão o que é análise prospectiva e apresentar o referencial teórico sobre o assunto.

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