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6. ANBEFALINGER

6.2 A NBEFALINGER BASERT PÅ RESULTATENE I VIRKSOMHETEN

Como já expresso no item 1.3.1, que trata da relação dos Centros Dêiticos no evento narrativo, é impossível não legitimar a importância desses na compreensão do texto narrativo. De acordo com Rapaport et al (1994, p. 5), “Outras atribuições do Centro Dêitico incluem em primeiro plano, referenciação, construção de estrutura narrativa, inferir relações temporais, espaciais e determinar o uso lexical” (Tradução nossa).16 Os autores também dizem que, ao ler a história, o leitor a compreende pela representação mental extraída das sentenças, e destacam dois aspectos da representação mental da narrativa:

a) a estrutura da representação mental da informação, isto é, a natureza e as inter-relações das unidades de informação na mente do leitor; e

b) o processo utilizado pelo leitor durante a leitura para compreender a narrativa e formar a representação mental.

Os autores citam pesquisadores tais como Kintsch e Van Dijk (1978); Shapiro (1982); Kamp (1984); Wiebe e Rapaport (1986); Rapaport (1988, 1991); Shapiro e Rapaport (1995); Rapaport e Shapiro (1995), que descrevem ciclos de processamento nos quais as proposições

16 “Other tasks of the DC include foregrounding, referencing, building narrative structure, inferring temporal

da memória intermediária estão relacionadas às proposições em sentenças de entrada. Para esses ciclos, Rapaport et al (1994, p.5) afirmam que

Concebemos cada ciclo, primeiramente, usando principalmente os componentes das representações e integração das informações que chegam para construir uma nova representação. Um tipo de ciclo se aplica à interpretação das sentenças de entrada, o resultado de cada ciclo é uma representação de eventos descritos nas frases. Outro tipo de ciclo, com diferentes tipos de processos estaria envolvido na construção e modificação da representação do episódio em desdobramento. Uma ocorrência menos frequente, mas adicional, cíclica, adicionaria ou mudaria a representação da história geral.17 (Tradução nossa)

Percebemos que as informações apreendidas são organizadas em unidades significativas para serem utilizadas em processamento posterior e que, para a construção da representação mental da narrativa, o leitor integra as informações armazenadas às recebidas para construir as novas representações. Dessa forma, a estrutura da representação mental na narrativa deve ser vista como a construção do leitor em relação à história do texto narrativo com base nos conhecimentos do mundo real, do mundo da história e do texto, decorrentes das informações do Centro Dêitico.

De acordo com Rapaport et al (1994), para explicar como a informação é acessível para a integração com a informação do evento no processo online da leitura, foram utilizadas estruturas tais como frames (Minsky,1974), scripts (Schank e Abelson, 1977) e gramática de história – documentos na literatura que registram os componentes e convenções linguísticas que distinguem a história de outros gêneros (Rumelhart, 1978 , Mandler e Jonhson, 1977). No entanto, conforme observam os autores, nenhuma dessas estruturas, sozinha, aborda a interação dinâmica de pistas contextuais e sentenciais que viabilizam o entendimento do compreendedor em relação aos eventos narrados, quem são os personagens e onde eles estão localizados na narrativa. Essas pistas são dadas pelos dispositivos dêiticos, termos pelos quais o leitor identifica e localiza os personagens no tempo e no espaço da narrativa.

Surgem, então, novos estudos nos quais pesquisadores focam a relação contextual ligada às estruturas de conhecimentos. Observemos o exemplo:

Matheus Henrique conseguiu um bom desempenho na avaliação da Provinha Brasil.

17 “We conceive of such a cycle as primarily using currently active components of the representations and

integrating them with incoming information to build a new representation. One type of cycle applies to the interpretation of incoming sentences; the result of each such cycle is a representation of events depicted in the sentences. Another type of cycle with different types of processes would be involved in building and modifying the representation of the unfolding episode. A less frequently occurring, but additional, cycle would add to or change the overall story representation”.

Analisemos a situação descrita no sentido de um contexto situacional. Então, saber informações como Quem é Matheus Henrique? Por que fez a Provinha Brasil? e o que é a Provinha Brasil? são informações que não estão no enunciado, mas num contexto extra- enunciado, num contexto situacional, são informações que fazem parte do conhecimento de mundo de alguém. Para essa informação, Matheus Henrique deve ser um aluno do segundo ano de uma escola pública, que fez a Provinha Brasil, que é uma avaliação para diagnóstico de alfabetização, para identificar e sanar possíveis dificuldades de leitura e escrita das crianças no ensino fundamental.

Esses conhecimentos fazem com que o compreendedor construa uma ilustração interna das informações num processo ativo, no qual a compreensão é realizada com base na interpretação pessoal da experiência.

É nesse aspecto que no texto entram as informações contextuais, conduzidas por dispositivos dêiticos, que permitem ao leitor o processamento de sentenças ligadas à ideia central da narrativa que, pela dinamicidade dos fatos, possibilitam a construção, manutenção e modificação dos Centros Dêiticos. E esse processamento pode ser feito por meio de inferência a partir de elipse, de referência anafórica, de sequenciamento temporal e por quadros de referência de eventos. Segundo Rapaport et al (1994, p. 6),

O Centro Dêitico é uma estrutura dinâmica de dados que faz mediação entre a informação contextual global e a informação sentencial local. É uma parte ativa e, portanto, acessível de representação mental do leitor da narrativa que facilita a integração em curso e incorporação de informações locais para o modelo global da narrativa. Assim, o Centro Dêitico oferece um meio de constante atualização e revisão da estrutura global em função de informações e restrições locais.18(Tradução nossa)

Para os autores, o Centro Dêitico ainda apresenta um papel adicional a sua utilização quando permite que o leitor construa conhecimento em relação aos eventos em cena, uma vez que o Centro Dêitico oferece noções sobre quais personagens fazem parte do evento e compartilha informações na narrativa. Essas informações são diretamente narradas para o leitor ou são inferidas.

18“The DC is a dynamic data structure that mediates between global contextual information and local sentential

information. It is an active and, thus, accessible part of the reader’s mental representation of the narrative that facilitates ongoing integration and incorporation of local information into the global model of the narrative. Thus, the DC provides a means for constant updating and revision of the global structure in light of local information and constraints.”

Para essas circunstâncias, dizemos que a narrativa apresenta informação direta porque o leitor compreende que o personagem tem conhecimento sobre o acontecimento explicitamente mencionado para ele na narrativa; por inferência, quando os acontecimentos são descritos e o leitor infere que o personagem sabe que o evento ocorreu, mesmo quando este não é mencionado nas sentenças descritas no evento.

Dessa forma, podemos apresentar o Centro Dêitico como um componente que

- auxilia o leitor na construção da representação mental da narrativa, quando este enxerga o mundo da história de forma global e local e infere acerca dos conhecimentos dos personagens de um evento;

- fornece informações sobre o espaço e localização temporal para fazer inferências sobre a abrangência do conhecimento atual do evento, quando esta informação não é explicitamente mencionada na narrativa.

Ante o exposto, entendemos o Centro Dêitico como artefato importante na compreensão da narrativa, pois assume posição central na condução do compreendedor e possibilita-lhe a representação mental do QUEM, ONDE e QUANDO, guiando-o na narrativa.

No processo de compreensão da narrativa, construímos representações mentais de eventos, situando-nos numa localização espaço-temporal, que podem ou não ser atualizados. Quando isso acontece dizemos que há a construção e mudança de Centro Dêitico, descrição que fazemos no subitem a seguir.

2.4.3 Construção e mudança do Centro Dêitico

Durante o processo de compreensão da narrativa, com base em nossas experiências, construímos representações mentais a partir de esquemas cognitivos internalizados que determinam o QUEM, o ONDE e o QUANDO na narrativa, que às vezes permanecem estáveis ou mudam.

Segundo a teoria da mudança dêitica (SEGAL, 1984), narrador e ouvinte mudam o seu Centro Dêitico de uma situação exterior para uma representação dêitica interna à narrativa, apoiando-se nas pistas linguísticas e, a partir das informações apreendidas pelos compreendedores, por meio dos dispositivos dêiticos, os Centro Dêiticos que acionam o QUEM, o ONDE e o QUANDO podem sofrer mudanças ou serem mantidos.

Considerando a menção feita à mudança dêitica, para acompanhá-la na narrativa, precisamos raciocinar sobre os eventos e personagens, inferir e ser capazes de representar e construir as representações mentais. Em relação ao personagem, temos de perfilar as crenças

desse sobre si mesmo e seu posicionamento em relação às outras pessoas, sua postura e suas decisões, isto é, reconhecer que ele é um agente cognitivo.

Dessa forma, na narrativa pode ocorrer, por exemplo, mudança de local (ONDE) do personagem e não necessariamente mudança de personagem (QUEM), uma vez que este pode ser mantido. Há também situações em que o espaço (ONDE) e o tempo (QUANDO) mudam e o personagem (QUEM) juntamente com eles, isto é, o mesmo personagem permanece em cenas que ocorrem em lugar e tempo diferentes dos que discorriam na narrativa.

Como pudemos observar, o Centro Dêitico assume papel importante na narrativa e contribui para que possamos nos guiar mentalmente na narrativa por um QUEM narrativo, um QUANDO narrativo e um ONDE narrativo, que dizem respeito ao personagem, ao tempo e ao espaço, respectivamente.

No que diz respeito à mudança, o QUEM interage com o QUANDO para determinar a estrutura e as relações temporais entre eventos e situações mencionadas na narrativa, este é marcado por fatores como tempo passado, a distinção progressiva/não progressiva, advérbios de tempo e conhecimento de mundo. Esse conglomerado de fatores determina o "agora" - ponto de referência que indica o momento presente da narrativa, que é atualizado à medida que a história progride através do tempo (ALMEIDA, SHAPIRO, 1983).

Quanto ao espaço (ONDE), para fazer o acompanhamento, é preciso analisar as direções espaciais tanto em relação ao observador quanto aos objetos observados. Para tanto, deve-se ter uma representação que relaciona os vários lugares, de forma que, quando um quadro referencial é aberto sobre essas direções, o compreendedor, por meio de dispositivos dêiticos espaciais, constrói um modelo mental do entendimento espacial semelhante à representação mental de um lugar realmente visitado (KUIPERS, 1983 apud RAPAPORT et al, 1994).

Tendo em vista a observação da permanência e/ou mudança de algum componente do Centro Dêitico, pretendemos aqui abordar os princípios usados para indicar tais fenômenos. Rapaport et al (1994) citam vários princípios do Centro Dêitico e, por conseguinte, sua contribuição no processo de compreensão da narrativa. Destacamos, pois, segundo os autores, os seguintes princípios do Centro Dêitico:

1. Princípios de Operações Dêiticas - princípio pelo qual o compreendedor, por meio do Centro Dêitico, executa operações mentais durante o processo de construção e compreensão de um trecho no texto narrativo. Dessa forma, grande parte da coerência do texto surge a partir

do desempenho dessas operações realizadas pelo compreendedor. Compreensão e coerência são pessoais e variáveis, dependendo do modelo de situação ativado.

Pode-se dizer que as operações dêiticas dão-se por

(i)- apresentação – dos personagens (QUEM), dos lugares (ONDE) ou dos intervalos de tempo (QUANDO) na narrativas;

(ii) – manutenção e estabilidade no Centro Dêitico – os componentes permanecem estáveis, seja quando o compreendedor espera isso ou quando pode esperar uma mudança, exceto pela presença de um dispositivo anti-mudança19;

(iii) – mudança do QUEM, do ONDE ou do QUANDO, ou seja, de um personagem, de um lugar ou de um tempo. Um novo QUEM normalmente é introduzido antes do Centro Dêitico mudar.

2. Princípio da Economia Textual – nesse princípio, o compreendedor, guiado pelo dispositivo dêitico, utiliza-se de conhecimentos compartilhados e constrói o Centro Dêitico no processo de compreensão. Assim, em decorrência desse processo, o texto invoca conhecimentos não explícitos no texto de forma que as informações se integram e se complementam, resultando na economia textual.

3. Princípio da Inércia – há uma estabilidade no Centro Dêitico, exceto se houver indícios explícitos de mudança no QUEM e no QUANDO. Como os eventos são descritos de forma cronológica, num tempo sequencial, a narrativa avança. Nesse caso, diz-se que o QUANDO tem inércia dinâmica isto é, um QUANDO "estável" se move a frente com eventos sucessivos na narrativa, a menos que um salto ou parada sejam sinalizados.

4. Princípio do Sincronismo Dêitico – para esse princípio, podemos dizer que há um compartilhamento entre o QUEM, o ONDE e o QUANDO do Centro Dêitico, que aparentam ter uma manutenção ou mudança realizável simultaneamente.

Embora as normas do discurso narrativo requeiram essa sincronização ocasional ou cooperação, há uma norma complementar que rompe com esse sincronismo, seja por esvaziamento ou por deslocamento do componente do Centro Dêitico. Isso acontece, por exemplo, em uma sequência narrativa na qual há descrição do personagem. Nesse caso o ONDE e o QUANDO do Centro Dêitico são anulados, enquanto o QUEM é mantido no segmento.

Já na descrição de cena, o ONDE é mantido, anulando o QUEM e o QUANDO. Desse modo, o princípio do sincronismo dêitico estabelece relações específicas entre os componentes

19 Sobre dispositivo anti-mudança, Rapaport et al (1994) dizem que são dispositivos que têm um âmbito específico

do Centro Dêitico, de tal modo que se o ONDE muda para um novo local, o tempo é atualizado ou o QUEM muda para outro personagem, da mesma forma que a progressão no tempo pode ser interrompida por anular o QUEM ou o ONDE. Para estabelecer essas relações, podemos utilizar inferências para a construção do Centro Dêitico.

Como observamos, a construção e a mudança do Centro Dêitico requerem do compreendedor um monitoramento de situações e percepções que se integram e constituem na narrativa representação mental. Essas representações são formadas por meio de informações e configuradas nas descrições de pessoas, cenários etc. criando-se os modelos de situação, conforme apresentamos no subitem a seguir.