A experiência neste contexto clínico teve como finalidade compreender a dinâmica e funcionamento de um serviço de internamento diferente do contexto onde desempenho de funções, dando enfoque às dimensões da intervenção do enfermeiro no cuidado à criança cirúrgica, na gestão das emoções da criança/jovem e família que vivencia uma transição perante a hospitalização/cirurgia e na preparação para uma intervenção cirúrgica programada.
O contexto formativo em internamento de pediatria teve lugar num serviço de internamento que acolhe crianças e jovens com patologias do foro médico e cirúrgico, o que permitiu um amplo leque de aprendizagens e experiências, focando-nos na temática do projeto elaborado para estágio. O internamento de pediatria recebe crianças desde os 0 aos 17 anos, quer seja por situações médicas, cirúrgicas ou mesmo sociais e o método de trabalho da equipa de enfermagem é o de enfermeiro responsável, ficando cada enfermeiro responsável pela prestação global de cuidados ao grupo de crianças/jovens que lhe é atribuído.
O serviço está organizado para poder disponibilizar vários tipos de quartos, desde enfermarias de duas ou três camas/berços (duas dessas enfermarias são exclusivas para o internamento de crianças no período perioperatório) e quartos individuais, dedicados a crianças com necessidade de isolamento ou adolescentes, como forma de promover e garantir a privacidade do jovem (aspeto ético essencial no atendimento nesta faixa etária) e visando a promoção da autonomia, implicada no processo de construção de uma identidade, crucial para um crescimento saudável (OE, 2010). Neste serviço existe ainda uma sala para uso exclusivo de jovens com idades compreendidas entre os 11 e os 17 anos e interdita a adultos, proporcionando aos jovens a privacidade que eles tanto prezam e a realização de atividades compatíveis com as preferências destas faixas etárias (jogos de vídeo, acesso à internet, visualização de filmes e música).
No início do estágio realizou-se uma reunião com a enfermeira chefe do serviço e com a enfermeira de referência (enfermeira responsável do serviço), sobre estratégias de promoção de uma transição saudável perante a hospitalização de uma criança, o que permitiu efetuar o diagnóstico de situação deste campo de estágio (Apêndice II) e finalizar o guia orientador das atividades de estágio (Apêndice III).
Um dos objetivos definidos para este campo de estágio foi o de prestar cuidados à criança/jovem e sua família com necessidade de cirurgia, utilizando estratégias promotoras de uma transição saudável perante um evento de hospitalização. Para Prestar cuidados à criança/jovem e sua família em especial situação de complexidade
(com necessidade de cirurgia), utilizando estratégias promotoras de uma transição saudável perante um evento de hospitalização
Identificar as necessidades emocionais da criança/jovem e sua família com necessidade de cirurgia programada
Diogo et al. (2015) “durante o processo de crescimento e desenvolvimento das crianças, o sistema familiar (criança e cuidadores familiares) depara-se frequentemente com inúmeros acontecimentos de vida geradores de crises, como a doença e a hospitalização” (p. 44) e a experiência da hospitalização deve constituir uma oportunidade de aprendizagem e desenvolvimento (Barros, 2003), visando as intervenções de enfermagem as necessidades específicas da criança, os CCF e os cuidados não traumáticos.
A criança quando vive uma experiência de cirurgia está exposta a variados stressores: a separação dos pais, a exposição a pessoas e ambientes desconhecidos, o confronto com procedimentos invasivos e dolorosos, a perda de controlo, de autonomia, das aptidões adquiridas e da privacidade, a ameaça à integridade física (Conceição & Martins, 2008) e apresenta um número limitado de mecanismos de coping para lidar com os stressores, e por isso necessita por vezes de apoio externo para ultrapassar esta crise (Hockenberry & Wilson, 2014).
Durante o estágio tive a oportunidade de desenvolver competências de trabalho
em parceria com a criança e família e observar e colaborar com a equipa de
enfermagem nos cuidados às crianças submetidas a cirurgia. Desta curta experiência no contexto contatei que a equipa de enfermagem está atenta às necessidades emocionais da criança e sua família procurando fornecer informação antecipatória para a
cirurgia desde o acolhimento, dando a informação possível e requerida e dando a
conhecer o espaço físico, de modo a que a criança e família se familiarizem com o mesmo, facilitando o processo de transição situacional.
A transição saúde-doença é também observada como uma situação complicada durante a hospitalização por motivo de cirurgia, nomeadamente, as manifestações da patologia (particularmente a dor e alterações físicas visíveis) e as atitudes terapêuticas que restringem a criança (sejam alimentares ou de imobilização; sujeitas a máquinas e instrumentos desconhecidos) e das quais os cuidadores familiares não dependem (Jorge, 2004). Meleis & Trangenstein (1994) defendem que o desenvolvimento de terapêuticas de enfermagem deve estar assim focado na prevenção de transições não- saudáveis, promovendo a perceção de bem-estar e a capacidade para lidar com a experiência da hospitalização.
Uma cirurgia pode conduzir a alterações ao nível psicológico, emocional, cognitivo e social na criança, que podem persistir para além do período pós-operatório e a experiência emocional da criança/família assume uma importância central na ação de cuidar, já que as emoções têm um papel relevante nas respostas que cada pessoa tem
sobre uma situação específica sendo essencial que os enfermeiros se empenhem em “compreendê-las (…), em perceber a sua aparição, o seu alcance e as suas consequências” (Phaneuf, 2005, p. 205).
Ao longo do estágio foi possível realizar a preparação para a cirurgia da
criança no pré-operatório, fornecendo explicações honestas, curtas e simples, em
virtude de as crianças serem internadas de véspera no serviço, sendo esta fundamental para o sucesso da cirurgia e da vivência da transição para a criança e família. A preparação para a cirurgia foi feita de acordo com o nível de desenvolvimento cognitivo, o tipo de cirurgia e as condições da criança e da sua família, e os resultados refleteriram-se numa resposta positiva da criança após o procedimento, na colaboração dos pais nos cuidados, em maior segurança demonstrada no momento da alta hospitalar e menos dias de hospitalização, o que vai ao encontro do referido por Andraus et al. (2004). A atividade desenvolvida de preparação da criança a cirurgia permitiu ir ao encontro da competência E1.2.8 do EESCJ, que “facilita a aquisição de conhecimentos relativos à saúde e segurança na criança/jovem e família” (DR, 2011b, p. 8654).
As respostas emocionais da criança à cirurgia no contexto de internamento podem ser intensas, prolongadas e causadoras de danos, pelo que as intervenções de enfermagem tiveram foco nas experiências emocionais, nas estratégias de confronto e nos modos de ajuda na gestão do estado emocional da criança e da família,
mobilizando as estratégias de gestão das emoções referidas no estudo de Diogo
(2015). Mas nem sempre foi possível efetuar a preparação pré-operatória tornando-se a
gestão das emoções após o evento crítico bastante importante. Assim, avaliou-se o
que a criança pensava a respeito do acontecimento e dos procedimentos efetuados, ouvindo as explicações dadas pela criança no pós-operatório, para que a criança elaborasse as suas emoções e adquiririsse uma compreensão adequada e real do que lhe aconteceu e porquê (Sanders, 2011) e utilizaram-se técnicas de projeção (contar histórias e brincar com os bonecos preferidos), fornecendo novas informações à criança mas baseadas no seu prévio entendimento.
Ao longo do percurso formativo neste contexto, foi possível trabalhar sobre uma
filosofia de cuidados pediátricos promotora de parceria de cuidados, envolvendo os
pais nos cuidados à criança/jovem e minimizando a separação entre ambos, reconhece a família como pólo central na vida de uma criança. como preconizado por Casey (1993).
Durante a realização de procedimentos dolorosos, promoveu-se a presença dos pais, promovendo o exercício da parentalidade e os cuidados não traumáticos e
esses procedimentos foram realizados em sala de tratamentos própria, valorizando assim um ambiente seguro e efetuoso (Diogo, 2015). Na preparação para o procedimento doloroso, foi atendida a etapa de desenvolvimento da criança, adequando a linguagem e as estratégias a utilizar, e mobilizaram-se as estratégias não farmacológicas para prevenção da dor, já referidas no subcapítulo 3.1. Desta forma, foi possível desenvolver as capacidades de comunicação utilizando técnicas apropriadas à idade e às características individuais e culturais de cada criança e família.
No contexto de internamento pediátrico, cabe às enfermeiras criarem relações significativas com as crianças e famílias, que se caraterizam por uma comunicação aberta, como empowerment tanto para os enfermeiros como para a família (Hockenberry & Wilson, 2014). A comunicação revestiu-se de especial importância, por conceber a família como contexto da vida da criança/jovem, assim, as intervenções de enfermagem implicaram o estabelecimento de uma comunicação efetiva, cuja operacionalização decorreu dos relacionamentos estabelecidos, de natureza aberta e colaborativa, com a díade e a equipa de enfermagem (OE, 2011b).
Como principal estratégia comunicacional para a construção da estabilidade na relação (Diogo, 2015), surgiu o brincar como instrumento terapêutico fundamental nos cuidados de enfermagem à criança e que se adotou como intervenção terapêutica. Hockenberry e Wilson (2014) reforçam a importância do brincar, afirmando que a comunicação é a linguagem universal das crianças, sendo que a brincadeira terapêutica é utilizada para reduzir o trauma de uma doença e hospitalização, e para preparar as crianças para procedimentos terapêuticos.
O desenvolvimento normal da linguagem e do pensamento oferece um quadro de referência para a comunicação com as crianças (Hockenberry & Wilson (2014) e por isso é necessário o EESCJ compreender as caraterísticas de cada estádio do desenvolvimento da criança/jovem (lactente, toddler, criança pré-escolar, criança escolar e adolescente), utilizando as técnicas apropriadas, e sensíveis às suas capacidades e competências já adquiridas.
Ao longo do estágio, por a enfermeira de referência ser enfermeira responsável e desempenhar funções na área da gestão, já conhecidas da minha prática diária, foi possível ainda participar em atividades que inicialmente não estavam programadas mas que permitiram uma nova experiência e consolidaram o conhecimento em áreas relacionadas com a gestão de cuidados. O EE independentemente da sua área de especialidade deve demonstrar competências na área da gestão e supervisão de cuidados no âmbito da formação, investigação e assessoria (DR, 2011a), assim
participei em atividades como a gestão e organização do armazém de terapêutica, colaborando nos pedidos efetuados à farmácia hospitalar e na reunião multidisciplinar
diária, que tem por finalidade analisar os casos clínicos do serviço, sendo um momento
de partilha e crescimento, escutando-se opiniões de vários profissionais e donde emergem sugestões de intervenções e tratamentos para cada caso e/ou um eventual encaminhamento para outro profissional de saúde, nomeadamente os casos sociais ou de risco, com necessidade de encaminhamento para a assistente social, psicóloga ou pedopsiquiatra. A partilha de saberes e o trabalho em equipa são fundamentais para melhor cuidar e obter ganhos em saúde, com benefício para a criança/jovem e família que cuidamos.
Delineou-se para o contexto de estágio em internamento pediátrico, efetuar um
diagnóstico das necessidades formativas no seio da equipa de enfermagem sobre a
dimensão emocional dos cuidados, mais concretamento sobre o trabalho emocional em enfermagem na preparação para a cirurgia da criança e sua família, tendo sido elaborado um questionário para aplicação à equipa de enfermagem (Apêndice XIV).
A análise efetuada permitiu aferir que os participantes no diagnóstico realizado efetuam no dia-a-dia intervenções que vão de encontro às estratégias de gestão emocional preconizadas por Diogo (2015) e de preparação da criança para a cirurgia, embora em conversas informais não tenham manifestado consciência disso, e não demonstrem compreender o impacto positivo das suas intervenções no equilíbrio emocional da criança que vai ser submetida a cirurgia. Assim, perante a análise das respostas dadas pela equipa de enfermagem e perante a vontade manifestada pelos participantes no questionário aplicado em frequentarem uma formação sobre a temática, planeou-se a realização de uma ação de formação por forma a adquirir a competência de EE que se responsabiliza “por ser facilitador da aprendizagem, em contexto de trabalho, na área da especialidade” (DR, 2011a, p.8653), favorecendo a aprendizagem e o desenvolvimento de competências dos enfermeiros (DR, 2011a).
No entanto, esta atividade, não foi passível de se concretizar por motivos inerentes ao contexto de estágio. Por não ter sido possível a concretização desta atividade, foi sugerido no turno seguinte à enfermeira de referência o fornecimento de um dossier de artigos temáticos (o mesmo que foi fornecido no contexto de estágio de urgência pediátrica), conjuntamente com os diapositivos da sessão que se pretendia realizar visando a partilha de conhecimentos com a equipa através da documentação. Pretendia-se com esta atividade ir ao encontro das competências comuns aos EE´s,
atuando como “formador oportuno em contexto de trabalho” e favorecendo a aprendizagem (DR, 2011ª, p. 8653).