4. RESULTATER, ANALYSE OG DRØFTING
4.3 A NALYSE OG D RØFTING
A imagem pode nos indicar que, apesar da ansiedade do encontro, as similaridades,
enquanto mulheres, e talvez enquanto descendentes Áfricanassão imensas. Principalmente na relação com a música e os passos de dança, nem parecia que tínhamos entre nós a distância de um oceano e mais ainda um continente inteiro, percebi que a comida, a bebida e a dança nos aproximavam. A figura 10 demonstra o aprendizado e a aprovação desses primeiros passos da marrabenta (dança típica do local).
Figura 10 - Dança com as mulheres da cooperativa Fonte: Autora, 2013
Estava ansiosa para conhecer essas mulheres na Machava e por isso algumas perguntas se faziam presentes no meu imaginário: Seria bem recebida? Conseguiria entrevistá-las, sem invadir a privacidade delas? Assim, como já descrito na introdução, a preparação foi tensa para mim, visto que apesar do planejamento efetuado desde o Brasil, na prática a realidade se mostrava bem diferente.
No primeiro encontro com as mulheres, mamã Etel já esperava por mim em sua sala de presidente, juntamente com a secretária, a jovem Joana, secretária e a funcionária da contabilidade, a Hortência. Fiquei bastante emocionada ao encontrá-las e pareceu-me que elas também, principalmente a jovem Joana. Não sei bem o motivo da minha emoção, talvez por estar realizando um dos maiores objetivos da minha pesquisa sobre mulheres em regiões Áfricanas, isto é, poder conversar com estas mulheres.
Mesmo sendo a mesma língua, fiz questão de cumprimentá-las com um básico: djxile (bom dia, na língua changana)! O que as fizeram cair na gargalhada, pois nem isto eu conseguia falar direito, mas também perceberam que eu não estava de brincadeira e queria realmente adentrar um pouquinho na vida delas. Para tentar me aproximar, também, disse à elas que estava em um curso de changana, mas só tinha tido a primeira aula, o que era verdade.
Figura 11 - Mamã Etel, a primeira presidenta das cooperativas da UGC, da Machava Fonte: Autora, 2013
Mesmo com as dificuldades de me adentrar na cultura local, Mamã Etel, recebeu-me muito bem, abrindo as portas das cooperativas e autorizando-me a conversar com quem quisesse, apenas dando a entender que era preferível que ela mesma me apresentasse à cada uma das representantes, que no geral, eram as presidentes de outras cooperativas.
Em seguida, apresentou-me às outras mulheres da primeira cooperativa da Machava, e combinamos também como seriam as entrevistas com as outras mulheres e ainda convidou- me para participar da próxima assembleia mensal ordinária, no mês seguinte, quando avaliariam a produção e as dificuldades das cooperativas. Nesse processo, abriu-se a possibilidade de combinarmos um almoço/festa após a assembleia, essa foi uma das técnicas menos formais de pesquisa para coletar dados.
A emoção foi grande, pois sabia da dificuldade que outras pesquisadoras haviam enfrentado para entrar em contato com mamã Etel ou com as cooperativas da UGC, nesse momento pensei no grande privilégio que havia conseguido. Por que eu consegui? Sigo, algumas hipóteses, apenas divagando que talvez houvesse conseguido por ser brasileira, ou por não ser tão branca como as europeias. Mesmo assim, em Moçambique, por incrível que pareça, fui tratada como branca, por todas as minhas interlocutoras.
A minha intenção era conviver com essas mulheres conforme os procedimentos indicados por Malinowski (1976, p.21) nas “condições adequadas ao trabalho etnográfico”, porém, logo percebi a inviabilidade de alguns procedimentos, visto que as mulheres que eu iria entrevistar vivem cada uma em um bairro e a sede da instituição, onde eu provavelmente poderia me hospedar, funciona somente em horário comercial. Diante disso, ficaria sozinha durante um período, não atingindo o objetivo, que era o de “imersão profunda” nessa população, portanto fui então desaconselhada de hospedar-me na sede da UGC, tanto pelo meu contato, o Pedro Pota, quanto pela própria presidente, mamã Etel.
Nesse primeiro encontro mamã Etel já me situou, informando dados das cooperativas existentes na Machava, que são dezessete e nem todas atuantes. Em geral, essas cooperativas têm cada uma, cerca de seis a dezoito mulheres associadas, segundo dados apresentados pela própria presidente. Esta nos informou, ainda, que entre os anos de 1983 e 1993, cada cooperativa tinha cerca de 250 mulheres.
Mamã Etel foi quem também me apresentou o significado dos nomes das cooperativas. Os nomes são alusivos à história das lutas de independência do país e de outros países Africanos, sendo eles: Cooperativa 07 de Abril, data de morte de Josina Machel, militante e guerrilheira, primeira esposa do presidente Samora Machel, data transformada no Dia da Mulher Moçambicana; Cooperativa Kenedy kaunda, em homenagem ao primeiro presidente da Zâmbia após a independência em 1964; Cooperativa 1º de Maio, em homenagem ao Dia do Trabalhador; Cooperativa IV Congresso, em homenagem ao congresso que teve o lema “Defender a Pátria, Vencer o Subdesenvolvimento e Construir o Socialismo”;
Cooperativa Madjedje, em homenagem a região onde aconteceu o II Congresso da FRELIMO
(frente de libertação em 1968, ainda em plena luta armada, em uma das zonas libertadas); e a
Existentes desde 1983, as cooperativas têm em seu quadro organizacional uma presidenta, uma chefe de produção, uma de venda e uma contábil. Cada cooperativa conta com uma área comum e cada membro tem uma área particular para sua família e, no geral, são as mulheres quem assumem as tarefas. O trabalho é organizado de forma que todos os dias as associadas executam as tarefas em suas machambas numa parte do dia e na outra nas áreas comuns. O resultado do trabalho na área comum é entregue para o custeio da UGC, responsável pelo apoio técnico e social às suas membras, apoio este que não tem existido mais, segundo minhas interlocutoras.
Após o encontro, ao voltar para casa, fui convidada a almoçar e passar o resto do dia com os amigos Pedro e Teresa, que bom! Longe de casa, somente eles e eu sabíamos bem o que estava sentindo naquele momento, já que lhes havia comunicado as tantas dúvidas e medos de como seriam estes encontros. Aproveitei também para avaliar toda aquela empatia com mamã Etel e a oportunidade de uma promissora coleta de informações sobre as cooperativistas.
Estes medos estiveram presentes durante todos os momentos em que estivemos juntas, eu e as cooperativistas, estava ansiosa e preocupada em como encontrar com aquelas pessoas, no sentido da Outra68
, tão idealizadas por mim e outras pessoas, com os estereótipos, preconceitos que alguns de nós, brasileiros e brasileiras, temos em relação a povos Africanos, especialmente em relação às mulheres, devido a nossa formação etnocêntrica.
68 O Outro de Todorov Tzvetan, sobre a “descoberta da América” e o encontro de culturas diversas, o não reconhecimento desta diverside cultural entre os povos, neste caso, o velho e o novo mundo.
Figura 12 - Assembleia ordinária mensal de final de ano Fonte: Autora, 2013