KAPITTEL 4: ANALYSE
4.6 A NALYSE AV TEAMETS MOTIVASJON I PROSJEKTET
Algumas dessas matérias nos chamaram atenção em particular, por isso procuraremos discuti-los aqui, apontando suas possíveis ligações com o romance.
A obra de arte surge como uma organização criativa da realidade e não apenas como seu produto ou derivado (JUNG, 1987). Esse processo recebe diferentes descrições: decomposição, mesclagem, transfiguração, filtragem ou decantação. O que está sempre presente, como se pode perceber, são os elementos mediador e transformador261.
Embora os termos decomposição, mesclagem, transfiguração, filtragem ou
decantação sejam específicos de uma linha de pesquisa que não é a nossa, eles representam bem o modo como a escritora NC constrói sua obra literária. Observando algumas notícias de jornais preservadas pela escritora, notamos que elas são importantes elementos da cultura sertaneja, sobretudo, pelo aspecto mítico e folclórico.
M.1
[Detalhe da interferência manuscrita de NC]
O M.1 foi retirado do Jornal Tribuna do Ceará, sessão Policial, página 14, Fortaleza, quarta-feira, 18 de outubro de 1989. A reportagem trata de um caso ocorrido na cidade de Camocim, interior do Ceará. Um ex-policial da cidade sofreu um acidente vascular cerebral e faleceu. Foi enterrado em cova rasa, e depois de um ano e seis meses, a família retirou os restos mortais para colocá-lo em um túmulo. No entanto, quando abriram o caixão, uma surpresa: o homem estava tal qual quando o enterraram e, ainda por cima, com a barba e as unhas crescidas e os olhos entreabertos. Todos na cidade ficaram assustados, dizendo que ele havia sido tão ruim que nem a terra o quis. Sua família chamou a polícia, vieram especialistas de Fortaleza para estudar o caso, mas nada ficou explicado. Daí então configurou-se o mito do corpo-seco naquele município. Na parte superior da notícia, escrita a lápis por Natércia a nota: “Corpo Seco”.
Na verdade, a história do corpo seco consiste num mito de origem portuguesa, descrito por Câmara Cascudo nos livros Geografia dos Mitos do Brasil e Dicionário do Folclore Brasileiro.
Podemos fazer uma associação deste caso à personagem Tia Alma: “Anos foram passados e ao se fazer o traslado dos ossos de tia Alma, no rápido instante em que foi aberto o caixão ela estava tal qual fora enterrada. Um vento repentino desceu naquele
momento e desfez em pó sua imagem e dela restaram suas duas tranças, longas, fartas e claras”262
.
Quanto à informação escrita a lápis, na parte anterior ao título da matéria, a qual fizemos questão de destacar: “Corpo seco português” e por encontrar-se em Cascudo (2002a, 2002b). O corpo-seco consiste no mito do homem que viveu semeando o mal ou que abusou da própria mãe, então, quando morreu, nem Deus, nem mesmo o diabo o quiseram, até a terra o renegou, mas um dia ele há de se levantar de sua tumba. Diz-nos Cascudo,
[...] a referência se reduz ao encontro do cadáver ressequido e duro como pau, denunciando que houve pecado sem perdão divino. [...] é um aviso da perdição da alma. É um sinal infalível de que a “alma” anda penando, solta, sem finalidade supraterrena, indo e vindo na Terra, apegada aos lugares que amou em vida. Os membros da família apressam-se em promover missas em sufrágio da alma exilada do julgamento final, distribuindo esmolas e tendo o cuidado de reencher o caixão de cal viva, para que o Corpo-seco seja definitivamente corroído e, desaparecendo, mereça castigo ou prêmio263.
A lenda do corpo-seco, de origem portuguesa, é encontrada em quase todas as regiões brasileiras, cada uma apresentando variantes. Por exemplo, na região Norte, o defunto, mumificado, não abandona o túmulo; no Paraná, o corpo-seco explica os fantasmas gritadores que vagam pela meia-noite.
Segundo Cascudo (2002a), a lenda do corpo-seco também se refere à mulher que virava lobisomem, que dormia com o demônio sem saber e depois sentia um horrível mal-estar. Assim, os amaldiçoados e mortos sem penitência não serão comidos pela terra. Será que o Custódio – personagem do romance que foi amaldiçoado pela mãe, desejando possuí-la durante toda sua vida e acabou cometendo incesto com as filhas – ao morrer virou um corpo-seco?
Outra notícia colhida e preservada pela escritora também pode ser interpretada como uma variante do corpo-seco português. Trata-se de um recorte de jornal, sem data e nenhuma marca de leitura. A notícia diz respeito a um esqueleto humano, encontrado no Riacho das Piranhas, entre os municípios de Quixadá e Aracoiaba, no interior do Ceará. Os moradores não sabem de quem pode ser o corpo, e ainda, não há informação se alguém havia desaparecido na cidade nos últimos anos. O corpo estava enterrado em
262 CAMPOS, Natércia. Op. cit., p.53.
pé da cintura para baixo e o resto do tronco encontrava-se à mostra. Uma história misteriosa, que só pode ser registrada nos sertões.
D.2
M.3
Este recorte de jornal foi retirado do Jornal O Povo, datado de 6 de maio de 2001, como se lê na informação escrita com tintta azul na parte inferior do texto. A reportagem conta a história de um crime passional, em que o marido matou e esquartejou a ex-mulher. O assassino colocou o corpo em um saco plástico e escondeu- o dentro da parede da cozinha. Um crime horrível que chocou muitas pessoas na época. Aqui não conseguimos estabelecer nenhuma relação mais próxima com o romance, que, inclusive foi publicado em 1999. Porém atentamos para o fato de que NC continuava
interessada por assuntos relativos à natureza humana, nesse caso requintes de crueldade com que o crime foi praticado.
Além disso, destacamos a violência contra a mulher, porquanto o marido movido pelo ciúme sente-se no direito, de bater, torturar e até mesmo matar a esposa, como o Capitão Longuinho, que agrediu sua esposa no “causo” do encoletado em couro narrado pelo personagem passador de gado.
Ela do próprio velho apanhava a ouvir impropérios daquela boca que a raiva fazia espumar. O velho sacara de sua faca de gume amolado, a lambedeira, e ensandecido a puxar os longos cabelos da mulher começou a tosquia. As mãos trêmulas do velho Capitão Longuinho ao cortar rente os tufos dos seus fartos cabelos a feriam com os golpes da cortante faca. A moça debatia-se, revoltava-se e seus rogos de desespero doíam na minha alma. Foi outra mulher que ali ficou prostrada entre mechas longas de cabelos. O velho ordenara que a levassem de volta para casa do seu pai264.
A história é exemplar da violência contra a mulher que foi torturada e ridicularizada. Da aventura vivida pelo par romântico (a moça e o primo) resulta a morte do amante, como atitude de recuperação da honra matrimonial do sertanejo, dono de bens materiais (de ferro e sinal), entre os quais inclui-se a esposa, o que dá a ele o direito de mandar em seu destino e vontade. Esse conto tem uma analogia muito forte com o mito grego do herói Héracles (Hércules):
Quando Héracles descera aos Infernos, encontrara o amigo Meleagro, que lhe pedira que desposasse Dejanira, irmã dele, a qual continuava viva. Héracles obedeceu, conquistou a jovem, lutando contra o deus- rio Aqueloo, que pretendia casar com ela, e permaneceu algum tempo em Cálidon, junto do rei Eneu, seu sogro. Porém, Héracles matou acidentalmente um jovem parente do rei e quis exilar-se, partindo, pois com Dejanira e o filho de ambos, Hilo. Nas margens do rio Eveno, o centauro Nesso passava os viajantes. Héracles foi o primeiro a transpor o rio. Quando Nesso teve Dejanira na sua barca, quis violá- la. Ela gritou por socorro e Héracles matou com uma flecha o centauro, o qual, nos últimos instantes de vida, aconselhou Dejanira a embeber no seu sangue um pano e a fazer dele uma túnica com que vestiria o marido se este deixasse de amá-la. [...] Héracles que pedira a mão de Íole, filha mais nova de Êurito, fez dela sua concubina. Dejanira lembrou-se então do filtro de amor que Nesso lhe dera e decidiu fazer uso dele. Tendo vencido Êurito, Héracles quis consagrar um altar a Zeus e, para isso, mandou pedir Dejanira um vestido novo. Ela enviou-lhe a túnica impregnada do sangue de Nesso. Héracles vestiu-a e, pelo contacto com o corpo, o veneno desatou a queimá-lo de modo intolerável. Ele quis arrancar o pano que estava de tal modo
colado à pele que só pôde feri-lo. Então, fez-se transportar até Tráquis, onde estava Dejanira, a qual se suicidou ao ver a obra de sua lavra265.
De acordo com o mito de Héracles, foi Dejanira que se vingou da traição do marido. Reza o mito que Héracles sobe ao Olimpo ainda vivo, pois os amigos não encontraram suas cinzas depois de queimada a fogueira que foi acesa a pedido do herói. No conto, a morte do encoletado em couro se assemelha à morte de Héracles, especialmente, pela tortura a que o rapaz é submetido pelo capitão Longuinho:
Por ordem do Capitão Longuinho o levantaram do chão, o desamarraram e o despiram. Pensei que iam castrá-lo e resolvi que ali não ficaria para ver este flagelo feito a um homem. Ao voltar-me havia um cerco feito por homens armados e impedido fui de sair. Todos haveriam de assistir ao que iria acontecer com o rapaz. Um homem com voz aterrorizada falou baixo pra mim: “-O velho vai suplicar ele no colete de couro fresco”. Trouxeram o couro de uma rês esfolada recentemente. O rapaz seria encourado não com o gibão de couro já curtido, seco, armadura parda de nós vaqueiros, protetora das ardências do sol e das touceiras de espinhos da caatinga. Este era gibão informe, sem feitio trazendo ainda o cheiro de sangue e carne decomposta de animal abatido. Umedeceram com água aquele couro cru e assim enxombrado melhor vestiu do peito às pernas, sendo nele costurado bem justo, encapando o corpo do infeliz. Só a cabeça e os gritos que até hoje escuto ficaram de fora. O couro espesso ia encolher-se secando lentamente, garroteando sem pressa os membros e ossos do rapaz, exposto ao calor do sol que já chegara com seu braseiro. Encoletado naquele torniquete, imobilizado, eles o rolavam pelo chão. Assim oprimido ele começou a ter a respiração sufocada pela pressão. O velho sentara-se na rede, na sombra do alpendre, com uma quartinha e bebia no gargalo sempre que o infeliz gritava implorando água. Naquele dia não arredou-se dali nem para comer. Assistiu todo o padecimento daquele cristão. Foi morte lenta e suplicada daquele rapaz ali aprisionado, naquela couraça mal- cheiorosa, ao sol, sendo arrochado provocando nele, já mais pro fim, golfadas de sangue266.
Com base nessas informações, percebemos que Natércia pode ter bebido no mito de Héracles a forma com que o rapaz morre no conto, mas a hipótese mais provável é de que se trata de uma referência à Revolta dos “Quebra-Quilos”, uma manifestação de camadas excluídas da sociedade do interior do Nordeste brasileiro. Na verdade, essa manifestação espalhou-se por quatro Estados do Nordeste – Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Alagoas – e os protagonistas da revolta, assim como seus
265
GRIMAL, Pierre. Mitologia Clássica – Mitos, Deuses e Heróis. Trad. Hélder Viçoso. 1ª edição. Lisboa:
Edições Texto & Grafia, Lda., 2009, p.87.
exaltados seguidores foram duramente castigados pelas autoridades, tal como nos conta Rodolfo Teófilo no seu romance Os Brilhantes267, de 1895.
Discutirmos a partir daqui algumas pesquisas e manuscritos em diversas fases de elaboração, do conto o encoletado em couro, os quais também direcionam para uma possível referência a Revolta dos Quebra-Quilos.