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5. ALLIANCE EXPANSION STRATEGY

5.3 A LLIANCE BENEFITS

Pouco teríamos avançado no terreno da psicopatia se não contássemos com aquela que é considerada a obra-prima sobre o tema: The Mask of Sanity: An Attempt to Clarify Some

Issues About the So-Called Psychopathic Personality (1941) do psiquiatra americano Harvey

Cleckley. Certamente observamos um antes e depois de Cleckley, uma vez que ele criou os fundamentos para os estudos contemporâneos a respeito da psicopatia. The Mask of Sanity é uma obra poderosa que sofreu quatro reedições, sendo notável o modo como o autor foi reformulando o seu sistema de pensamento ao logo dos anos.

Embora Cleckley trate especificamente de dezesseis casos de indivíduos considerados por ele psicopatas, o que ensejou inúmeras críticas a respeito do número limitado de sujeitos estudados, o autor se valeu, incontestavelmente, de uma ampla experiência clínica. Todo o trabalho do autor é pontuado por relatos clínicos, chegando, em alguns momentos, a pecar pelo excesso de exemplos, tornando a leitura dos mesmos um tanto enfadonha. Além disso, Cleckey constrói os casos de um modo bastante romanceado, característica que os tornam, por vezes, empobrecidos. Embora haja uma profusão de elementos e detalhes, o relato dos casos carece, por exemplo, de falas dos pacientes. Ademais, pelo fato de estar à época tratando de

um assunto bastante desconhecido pelo público leigo e também médico, Cleckey parece tentar tornar o texto deveras acessível. Tal marca também foi alvo de críticas, principalmente por parte do psiquiatra canadense Robert Hare, autor que será retomado mais adiante, que sustentavam haver no trabalho do psiquiatra um empirismo extremo no qual não se verificava uma efetiva cientificidade, ainda que esta fosse tão pretendida pelo autor.

É possível perceber ao longo do livro de Cleckley uma indagação fundamental que norteia toda a sua construção. O gérmen do trabalho do autor surge a partir de uma dúvida essencialmente diagnóstica. Cleckey, em seu trabalho em instituições psiquiátricas, deparava- se com indivíduos a princípio inclassificáveis e que deixavam toda a equipe profissional senão embaraçada, desacreditada, uma vez que os fracassos terapêuticos eram persistentes.

Cleckley estabelece dois grandes grupos clínicos - a psicose e a psiconeurose – e busca ao longo de todo o texto defender a hipótese de que os indivíduos ali retratados não se encaixavam em nenhuma dessas modalidades.

O autor define o psicótico como uma pessoa irracional, irresponsável, incapaz de aceitar os fatos compartilhados pela humanidade em geral e inábeis em proverem para si próprios. Cleckey complementa a caracterização do quadro dizendo que os psicóticos apresentam dificuldades em se manterem seguros e em liberdade entre as pessoas sãs. Por fim, faz menção aos fenômenos elementares, alegando ser imprescindível a presença de atividade delirante para o fechamento diagnóstico. Na concepção do autor, embora possam existir psicoses menos exuberantes nas quais o paciente não necessariamente escute vozes, este fenômeno é de grande relevância para a configuração de um quadro psicótico.

A psiconeurose, por sua vez, é concebida pelo autor como um transtorno de personalidade que causa ansiedade, inquietude, infelicidade e no qual há uma obsessão por certos pensamentos que os próprios sujeitos consideram absurdos. Cleckley afirma que os psiconeuróticos são capazes de admitir que seus sintomas surgem de conflitos emocionais. Na psiconeurose, tal como delineada pelo o autor, os sintomas são, em sua maioria, físicos, havendo grande presença de manifestações de fadiga e anestesia corporal. Para os psiconeuróticos, seus sintomas são sentidos com desagrado, e é comum que os pacientes reclamem deles.

Após expor o que compreende como psicose e psiconeurose, Cleckley parte em defesa da psicopatia como uma entidade clínica que deve ser muito bem definida, não devendo ser abordada a partir dos mesmos subsídios teóricos e práticos que norteiam os dois grandes grupos diagnósticos já citados. Para o autor, os psicopatas não apresentam nenhum defeito demonstrável de raciocínio, ou melhor, não manifestam quaisquer indícios de delírios e ou

alucinações. Eles, diferentemente dos psiconeuróticos, seriam imunes ao remorso, à ansiedade, à apreensão e ao stress. Ademais, são plenamente capazes de dar continuidade às suas atividades regulares, sendo, muitas vezes, profissionais bem sucedidos nas áreas em que atuam.

É interessante destacar que, na primeira edição do Mask of Sanity, em 1941, Cleckley acreditava que a psicopatia poderia ser entendida como uma manifestação psicótica. Contudo, na edição seguinte e nas ulteriores, o autor muda de posicionamento, defendendo a hipótese já exposta, ou seja, de que a psicopatia é uma entidade clínica específica e apartada da psicose. Cleckley chega até mesmo a afirmar que a psicopatia é um transtorno mais fundamental e primário que a psicose. Ele acredita que a psicopatia, em sua gravidade, seria capaz de engendrar os sintomas psicóticos. Cleckley, de modo jocoso, afirma que associar a psicose à psicopatia é uma empreitada tão infrutífera quanto dizer que um “psicótico tem cabelo vermelho” ou que se trata de “um neurótico com Phd” (p. 248), uma vez que, presente a psicopatia, é ela que deve conduzir a direção do tratamento. Um dos motivos fundamentais que levaram o autor a esse reposicionamento se situa no fato de que ele considerava que o psicopata deveria ser plenamente responsabilizado em situações penais, diferentemente do psicótico que, para Cleckley, não deveria ser considerado responsável pelos seus atos criminosos.

É importante dizer que a discussão diagnóstica de Cleckley não se resume a diferenciar a psicopatia da psiconeurose e da psicose. O autor também busca traçar distinções entre os psicopatas, os “retardados mentais” e os “gênios”. Melhor do que retomarmos os argumentos usados pelo psiquiatra americano para diferenciar esses diferentes quadros é sublinhar o impasse fundamental com o qual ele se depara: a inapreensibilidade dos psicopatas, ou melhor, a dificuldade em defini-los e classificá-los. No esforço em esquematizar a psicopatia como uma entidade clínica específica, Cleckley lança mão dos mais diversos desajustamentos para compará-los com a psicopatia, tentando, de todas as maneiras, dar corpo à sua construção teórica. Embora não consideremos essencial discorrer sobre essas diferenciações diagnósticas, faz-se imprescindível nos atermos a um ponto de tal discussão. Cleckley, do mesmo modo que distingue a psicopatia da psiconeurose e do retardo mental, também a distingue da criminalidade comum.

O autor afirma que, diferentemente do criminoso comum, “o psicopata muito raramente tira vantagem do que ele ganha e quase nunca trabalha consistentemente no crime ou em qualquer outro aspecto para alcançar uma posição permanente de poder, riqueza ou segurança” (Cleckley, p. 261). O psiquiatra complementa dizendo que “o homem que é

essencialmente criminoso é intencional, enquanto o psicopata é muito pouco intencional” (p. 261). Para o autor, os propósitos dos psicopatas seriam mais obscuros, não sendo incomum que portadores de tal transtorno se coloquem em grande risco por coisas triviais e efêmeras, havendo, portanto, certa incompreensibilidade em relação aos seus atos. Cleckley acredita que os psicopatas, ainda que causem profundos transtornos para aqueles que o cercam, amiúde se colocam em posições desconfortáveis e vergonhosas, diferentemente do criminoso típico. Além disso, o autor afirma que “o psicopata comum usualmente não comete assassinatos ou outras ofensas que prontamente o leva a grandes sentenças em prisões” (p. 262). Cleckley acredita que os que cometem crimes mais gravosos seriam a exceção e não a regra em matéria de psicopatia. No entanto, Cleckley admite que quando sérias tendências criminais surgem nos psicopatas, elas ganham grande expressão, uma vez que, usualmente, vêm acompanhadas de acentuado grau de violência: “.... muitas pessoas, talvez a maioria, que cometem violentos e sérios crimes fracassam em mostrar as principais características que tão consistentemente aparecem nos casos que consideramos. Muitos, de fato, mostram traços que tornam muito difícil identificá-los com esse grupo (de psicopatas)” (p. 262/263).

Para Harvey Cleckley, o psicopata estaria mais associado à figura do delinquente, ou seja, àquele autor de prática infracional sem grande potencial ofensivo. O autor também defende a ideia de que o “masoquismo, sadismo, bestialidade, fetichismo, necrofilia e voyerismo não são comuns em psicopatias” (p. 263), ainda que existam sim sádicos entre os casos mais graves do transtorno.

Consideramos essa diferenciação entre o psicopata e o criminoso um ponto chave na discussão aqui empreendida, uma vez que este resgate busca desvendar o porquê da associação quase natural entre a psicopatia e o domínio da criminalidade, da maldade e, até mesmo, da monstruosidade. Como é possível observar, naquela que é considerada a obra- prima a respeito da psicopatia, não há uma associação inequívoca entre a referida afecção e a criminalidade, muito antes pelo contrário. Cleckley, ainda que apresente grande dificuldade em classificar o individuo psicopata, ele não o engessa em uma categoria carregada pelo estigma da maldade e da antissociabilidade. Embora ele enfatize o profundo desajuste dos psicopatas na trama social, ele, de certo modo, o aproxima do domínio da normalidade no tópico em que discorre acerca da manifestação psicopática em seis contextos:

1- o psicopata como homem de negócios; 2- o psicopata como um homem internacional; 3- o psicopata como um cavalheiro;

4- o psicopata como cientista; 5- o psicopata como médico; 6- o psicopata como psiquiatra.

Nesses seis contextos o autor traz exemplos de casos clínicos por ele atendidos, movimento que busca enfatizar a premissa de que os psicopatas fazem uso de uma “máscara” de normalidade. A ideia fundamental de Cleckley é que o psicopata é capaz de exibir um funcionamento são e funcional, mas que este não passa de uma camuflagem, de um recurso que visa disfarçar uma profunda inabilidade em participar e em entender os acordos compartilhados socialmente. Para o autor, a grande tônica do transtorno se situa na dimensão emocional: para ele, a psicopatia sinaliza uma falha em fazer um uso das emoções e também em percebê-las de um modo geral.

Após trazer um sem número de casos clínicos, assim como uma ampla discussão diagnóstica, Cleckley condensa os seus achados no delineamento de dezesseis características comumente presentes na psicopatia. São elas:

1- charme superficial e boa “inteligência”;

2- ausência de ilusões e outros sinais de pensamento irracional; 3- ausência de “nervosismo” ou manifestações psiconeuróticas; 4- inconfiabilidade;

5- falsidade e/ ou insinceridade; 6- ausência de remorso ou vergonha;

7- conduta antissocial inadequadamente motivada;

8- fraco juízo crítico e incapacidade de aprender com a experiência; 9- egocentrismo patológico e incapacidade de amar;

10- pobreza geral nas reações afetivas importantes; 11- perda específica de insight;

12- falta de reciprocidade nas relações interpessoais em geral;

13- conduta extravagante e desagradável com, e, às vezes, sem bebida; 14- raramente chega ao suicídio;

15- vida sexual impessoal, trivial e pouco integrada; 16- fracasso ao tentar seguir um plano de vida.

Como se pode observar, não há, em Cleckley, uma associação inequívoca entre psicopatia e criminalidade. Essa vinculação parece ter sido realizada a partir das várias edições do DSM e também a partir de contribuições de Robert Hare, psiquiatra canadense que criou um teste, amplamente utilizado, para acessar e medir o construto referente à psicopatia.

2.4 O DSM e suas várias edições: a ascensão da personalidade antissocial e o declínio da