A análise da integração sociocultural dos imigrantes muçulmanos, procura entender como reconstroem as suas relações sociais no novo contexto cultural, assim como os principais problemas com que se deparam.
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As construções discursivas em torno do “mundo islâmico” refletem a incessante imaginação de culturas que desconhecemos e mitificamos, do mundo oriental, lá longe, onde todos são estranhos e incivilizados. A tendência para a generalização das diferentes culturas e etnias dos países do Oriente ou do Islão, um “outro” tão vago e disperso, suscita a estigmatização da população de religião muçulmana. No entanto, a heterogeneidade do mundo islâmico na Europa, em Portugal, e particularmente na cidade de Lisboa, conta-nos histórias sobre cantos tão díspares do mundo como o Senegal, a Síria ou o Bangladesh.
Nos espaços de solidariedade da Lisboa, cidade multicultural, foram inquiridos doze imigrantes muçulmanos, três cidadãos do Paquistão, três do Bangladesh, um de Marrocos, Síria e Senegal e três da Guiné-Bissau. Todos os inquiridos referem que a religião do pai e mãe é também muçulmana.
Os imigrantes da Guiné-Bissau, representam a imigração de tradição luso-islâmica, que apesar de não serem inicialmente previstos como objeto de estudo, revelaram-se enriquecedores, na medida em que possibilitam comparações úteis na análise da Integração das novas minorias muçulmanas não lusófonas. Dois cidadãos da Guiné-Bissau foram inquiridos no Largo de São Domingos, os cidadãos do Bangladesh, dois do Paquistão e um da Guiné-Bissau foram inquiridos na SOLIM. A cidadã Síria, a cidadã Marroquina, o cidadão do Senegal e um cidadão do Paquistão foram inquiridos nas imediações da Mesquita Central de Lisboa.
A composição por sexos da população inquirida encontra-se enviesada a favor do sexo masculino, sendo o sexo feminino representado por três nacionalidades, uma inquirida do Bangladesh, uma da Síria e uma de Marrocos.
Dos motivos para migrar, são as motivações económicas e profissionais que se destacam. No entanto, numa amostra de doze inquiridos as causas migratórias não se cingem ao trabalho. Podemos assim dividi-las em cinco grandes grupos: 1) motivos económicos, 2) educacionais, 3) saúde (Acordos de cooperação internacional com os PALOP no domínio da saúde e número máximo de doentes a assistir por ano civil.), 4) reagrupamento familiar, e 5) políticos (Conflitos e Guerra). A inquirida da Síria, é a única Imigrante Refugiada e imigrada por motivos de fuga forçada à Guerra. Veio para Portugal há dois anos com o filho de vinte e cinco anos.
Os inquiridos do Bangladesh, todos apresentam razões económicas e/ou profissionais para permanecerem em Portugal, assim como um dos inquiridos do Paquistão e como o inquirido do Senegal. Dos três inquiridos do Paquistão, devido às identidades de geração (18 anos), os dois
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apresentam motivos educacionais, mas também ligados ao reagrupamento familiar. O inquirido nº 1 veio com a mãe e quatro irmãos e o inquirido nº 2 veio sozinho. Mas, em ambos os casos, o pai já se encontrava em Portugal. A estratégia de primeiro virem os homens e só depois as mulheres e os filhos, é essencial para estas populações se estabilizarem no país de destino, assim como a estratégia de imigração em cadeia.
Neste quadro também se insere o inquirido do Senegal, que viveu vinte e cinco anos no Gabão onde conseguiu o visto para vir para Portugal. Só depois vieram as mulheres e os filhos.
É de salientar que os três inquiridos do Bangladesh têm experiências migratórias profissionais anteriores. Em Singapura e Itália, na Coreia do Sul e em Paris. Assim como o inquirido do Senegal, em oposição aos inquiridos de Marrocos, Síria e do Paquistão. Os cidadãos do Paquistão vêm diretamente através de empréstimos económicos de outros cidadãos do Paquistão, como relatado numa das entrevistas realizadas nas instalações da SOLIM:
“I give money to other Pakistan citizen that is already here, two thousand euros ...to get a job here, then I have to pay…” (Paquistão, 39 anos, nº 3)
Também o presidente da SOLIM explica:
“...muitas vezes entram através do tráfico, através de estratagemas, com contactos que estabelecem para o trabalho na Agricultura, Construção civil e Hotelaria, principalmente”. As estratégias à decisão de migrar, assentam assim na presença ou não de elementos – familiares e amigos – que possam funcionar como pontes para uma mais fácil integração do indivíduo no meio de acolhimento. (Mapril, 2002, p. 268)
Deste modo, em articulação com dados do relatório anual do Observatório das Migrações, verificamos que em geral, os vistos de residência atribuídos em Portugal, passaram a estar associados principalmente ao estudo e ao reagrupamento familiar, suplantando as solicitações de entrada no país de natureza laboral (para exercício de uma atividade subordinada principalmente por força da situação da economia portuguesa e do decréscimo das oportunidades de trabalho nos setores económicos onde os imigrantes tendiam a inserir-se. A análise dos vistos de residência atribuídos nos postos consulares mostra que a prevalência dos vistos associados ao estudo e ao reagrupamento familiar, já notada no intervalo temporal de 2008 a 2012, manteve-se nos anos mais recentes de 2013 e 2014. O motivo migratório atual dos novos cidadãos da Guiné-Bissau é também o reagrupamento familiar, apresentando-se como principal razão para a concessão de vistos de residência. (Oliveira e Gomes, 2016 p.48-51)
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Relativamente, ao tempo de permanência, é maior no caso dos inquiridos da Guiné-Bissau, que apresentam as características da típica presença muçulmana em Portugal e motivos migratórios ligados à descolonização, não se inserindo no estudo da NPI correspondente à fase histórica (2008/16), caracterizada essencialmente por nacionalidades de países da Ásia e Médio Oriente (como analisado no capítulo 4).
Os restantes inquiridos inserem-se na NPI (não lusófona), permanecendo em Portugal há menos de quatro anos (Paquistão, Bangladesh, Marrocos e Síria). O inquirido do Senegal, apresenta a particularidade de uma permanência longa em Portugal, no entanto não se enquadra nos perfis dos imigrantes de tradição luso-islâmica (Guiné-Bissau e Moçambique.).
Por último, relativamente à intenção de trazer familiares para Portugal, os inquiridos apresentam-se bastante divididos, sendo os que apresentam motivações relacionadas com o reagrupamento familiar também pretendem trazer mais família que ainda permanece nos países de origem, como é o caso dos dois estudantes do Paquistão. Também dois dos inquiridos do Bangladesh, pretendem trazer familiares. A inquirida do sexo feminino, que tem um filho de 11 anos aos cuidados dos avós no país de origem e um inquirido que tem um irmão, que tal como ele na sua experiência migratória anterior, trabalha em Singapura. A inquirida da Síria, também se insere neste quadro, pois o marido ainda se encontra preso no país de origem.
Pelo contrario, o inquirido do Senegal quer voltar para o seu país de origem, motivado pela situação de desemprego de longa duração e precariedade económica. As mulheres já foram, mas, no entanto, os filhos e netos vivem em Coimbra e não querem voltar para o Senegal.
Assim, os inquéritos foram realizados em três locais de pesquisa diferentes: SOLIM, Mesquita Central de Lisboa e o Largo de São Domingos, (Largo onde os imigrantes (cristãos e muçulmanos), oriundo da Guiné-Bissau, estabelecem relações intra-étnicas.) (Tabela 8: Caracterização sociodemográfica da amostra)