4.1 Funn fra intervjuer
4.1.1 Øvelse
Finda a 2ª Guerra Mundial e perante a destruição dela resultante, na Europa voltou a enfrentar-se uma crise habitacional, que ainda não havia sido resolvida antes da guerra e se via agora agravada pela estagnação da actividade construtiva e crise económica. No entanto, não se retomou a mesma experimentação construtiva da década de 20. Em sua vez, difundiram-se os estudos sociológicos sobre o problema da habitação117, assim como inquéritos de opinião acerca de necessidades e desejos da população em matéria de habitação. Estes últimos foram levados a cabo nos países do norte da Europa – Alemanha, Holanda, Suécia, Dinamarca e Noruega. Também em França se deu início a trabalhos semelhantes, destacando-se o inquérito promovido pelo
Groupe d’Ethnologie Sociale, encabeçado por Paul Henry Chombart de Lauwe, que
resultou na publicação Famille et Habitation, em dois volumes – Sciences Humaines et
Conceptions de l’Habitation e Un Essai d’Observation Expérimentale. Segundo o seu
autor, o inquérito pretendia (…) étudier d’une manière concrète les besoins et les
aspirations de ménages appartenant à des catégories socio-profissionnelles différentes et
vivant ensemble dans le cadre de nouveaux groupes d’habitation.118 Tendo como objecto
de estudo as necessidades (particulares e colectivas) e as relações sociais num novo meio social, centrou-se em três casos de estudo de urbanizações recentes – Maison Radieuse, de Le Corbusier (uma das unités d´habitation); a Cité de la Plaine e La Benauge – e procurou universalidade de resultados, analisando três classes sociais: operários, trabalhadores e profissionais liberais. O método, intitulado observação
comparativa experimental, consistia na observação controlada de modo experimental,
usando comparações dos casos de estudo e de categorias de sujeitos e comparações com inquéritos anteriores nos bairros tradicionais.
No primeiro volume de Famille et Habitation, de carácter mais geral, Chombart de Lauwe identifica, como verdadeiras causas da crise habitacional a modificação de
117 Chombart de Lauwe refere o trabalho de Merton, Sociology of Housing, de 1948, como um dos pioneiros, adiantando
que se tratava de um tema recente, atestado pelo facto de este estudo incluir apenas nove referências bibliográficas anteriores a 1940.
valores, novas aspirações decorrentes da transformação das estruturas familiares e, acima de tudo, o aparecimento de novas necessidades que a sociedade é incapaz de satisfazer.119 Lauwe constata, também, que a maior parte dos estudos ou inquéritos à habitação efectuados na Europa abordam o problema da casa do ponto de vista exterior, sendo poucos os que se dedicam ao estudo da célula habitacional. Destes últimos, destacam-se, dos exemplos enunciados por Lauwe, três, inovadores no panorama em questão e que constituíram uma mudança no objecto e metodologia de estudo: o inquérito a 215 famílias em Estocolmo, por A. Riemer, em 1941 – Family Life as the Basis
for Home Planning. A Sociologist Looks at Homing Design Techniques; o inquérito de
Lennart Holm, de 1951 a 1954, na Suécia; e o de Kennedy, arquitecto, nos Estados Unidos, em 1953 – The House and the Art of its Design. No primeiro, de Riemer, é feita a observação das actividades no tempo e no espaço, no interior da habitação, procurando perceber a adequação da planificação da habitação às necessidades e usos dos moradores; Holm faz o estudo do equipamento (cozinhas, armários, disposição quartos, lavandaria, insonorização, etc.) e avalia a sua eficiência funcional na vida familiar; por fim, Kennedy, procura definir as necessidades dos membros da família e as suas relações, identificando três necessidades fundamentais: a existência de zonas de retiro e zonas de cooperação, a circulação e graus de intimidade. De todos, talvez o mais inovador seja o de Riemer, cuja abordagem parece assemelhar-se ao método space-syntax, surgido na década de 70, do qual se falará mais adiante.
É, ainda, nesta obra que Chombart de Lauwe lança das bases da sociologia da habitação120, clarificando conceitos importantes para a disciplina – Família, Habitação, Espaço, Necessidade e Função – e demonstrando que as alterações familiares e sociais se devem reflectir no desenho da habitação121, sendo instrumentais na sua evolução, realçando a necessidade de conhecer os modelos familiares mais representativos e quais as suas necessidades de modo a poder criar habitações mais adequadas à sociedade contemporânea:
L’habitation moderne est faite pour un type de famille et non pour une famille determine. L’architecte travaille de moins en moins pour une personne, de plus en plus pour des groupes ou des catégories de personnes. (…) Le travail des chercheurs dans les sciences humaines doit consister, en collaboration avec les architectes, les administrateus, et les services sociaux, à analyser ces besoins dans toute leur complexité
119 Também Andreina Daolio partilha desta concepção: (…) a crise da habitação não aparece apenas como
consequência do atraso do sistema construtivo ou da insuficiente reconstrução pós-bélica ou de uma conjuntura económica ou da pressão demográfica, mas sobretudo como uma manifestação evidente das novas necessidades que a sociedade é incapaz de satisfazer. cit. Por Cortés Alcalá, op. cit., p.85
120 Em conjunto com Sociologie de l’Habitation: Méthodes et Perspectives de Recherches. 121 A habitação como reflexo da estrutura familiar.
et leur variété pour que l’habitation puisse s’adapter aux familles et leur permettre de
s’épanouir au lien de s’imposer à elles.122
Nas décadas que se seguiram, sobretudo na de 70 e em França, sucederam-se as investigações e estudos sobre habitação, com especial relevância para a habitação social e intervenção pública na construção de habitações. (Cortés Alcalá, 1995) Nos anos 80, foram os países anglo-saxónicos e escandinavos aqueles que mais destaque tiveram, seguindo uma linha behaviorista, procurando determinar comportamentos de procura de habitação. Segundo Alcalá, É muito importante que se valorize este aspecto concreto da
trajectória anglo-saxónica sobre os estudos residenciais, pois permitiram a realização de um conjunto de investigações empíricas que proporcionaram um conhecimento muito preciso sobre a estrutura residencial e suas relações com a estrutura social e com os processos e as mudanças sociais. Estas análises permitiram ainda que a habitação se convertesse em objecto específico de investigação, abordando-se a sua análise sob uma
perspectiva sociológica, minoritária até então nos ‘Estudos da Habitação’.123
A partir desta data, foram escasseando os estudos em relação à habitação e o estado foi tendo cada vez menos participação na sua construção, tendo-se mantido o carácter experimental de algumas propostas sem que se destaque alguma que demonstre preocupações com questões sociais e a sua transformação.