2. TEORI
2.2 ØKONOMISKE STYRINGSSYSTEM SOM EN PAKKE
As revistas constituíram-se no instrumento mais importante e duradouro de propagação das idéias dos grupos de intelectuais protestantes que atuaram nas décadas de 20 a 60 nas igrejas brasileiras. Formam elas dois conjuntos: o da Revista de Cultura Religiosa (1921-1926), dedicado ao público mais especializado dos pastores e líderes de ponta, e o de Lucerna (1929 e 1930), Fé e Vida (1939-1945) e Unitas (1945-1963), voltado para as lideranças e os membros das igrejas de forma geral. Embora conjuntos distintos, mantinham um parentesco indiscutível, uma vez que os projetos de Lucerna, Fé e Vida e Unitas foram administrados pelos mesmos fundadores da Revista de Cultura Religiosa. Ademais, visavam a atingir o mesmo propósito: habilitar os protestantes brasileiros ao diálogo inteligente com o que seus dirigentes chamavam de “classes cultas” brasileiras. Queriam a transformação e promoção da cultura protestante no Brasil, julgada atrasada e pobre para fazer frente às “classes cultas”, quais sejam, “as mais altas classes do país”, no dizer de um dos líderes desse movimento (RIZZO, dez. 1954, p. 48).
Para esses protestantes intelectuais, o conceito de cultura está atrelado à idéia do que se pode obter através da leitura e do estudo, existindo então vários níveis de apropriação letrada do conhecimento. Um dos maiores expoentes desse grupo de intelectuais, o pastor e professor universitário Theodoro Henrique Maurer Júnior, expressando-se a respeito da contribuição cultural que os protestantes já teriam prestado ao Brasil, afirma:
Inimigo do analfabetismo e da ignorância a que ele vem sempre associado, o protestantismo brasileiro multiplicou as escolas e, de um modo geral, criou escolas dominicais nas igrejas, que se tornaram – apesar de alguns defeitos inevitáveis, em virtude da falta de professores competentes e especializados – centros preciosos de educação popular, constituindo um fator ponderável para a elevação do nível cultural de nosso povo (MAURER, dez. 1954, p. 40).
Portanto, na visão de Maurer, o protestantismo brasileiro teria um crédito importante na “elevação do nível cultural do povo”. Está se referindo propriamente à população do interior
brasileiro, ao que chamará um pouco mais adiante de “massas incultas”, atingidas e beneficiadas com a pregação das igrejas evangélicas, recebendo doutrinação religiosa e instrução básica. Porém, lamenta no mesmo artigo que os protestantes não tivessem ainda atentado para as classes dirigentes: “Por outra parte, é preciso reconhecer que a contribuição evangélica para formar
líderes do pensamento entre nós tem sido limitada” (ibidem, p. 40).
As revistas de cultura religiosa voltaram-se, desde o princípio, para o atingimento desse objetivo explícito mencionado por Maurer, o da formação de “líderes do pensamento”. Trata-se de um gênero específico de publicação religiosa, inaugurado pelo grupo de intelectuais protestantes, sob a direção dos Revs. Epaminondas Melo do Amaral e Miguel Rizzo Júnior, tendo como fiador o Rev. Othoniel Motta.
Jean-François Sirinelli chama de “rede” ou “estrutura” de sociabilidade, a experiência aglutinadora desse tipo de afinidade intelectual:
As revistas conferem uma estrutura ao campo intelectual por meio de forças antagônicas de adesão – pelas amizades que se subtendem, as fidelidades que arrebanham e a influência que exercem – e de exclusão – pelas posições tomadas, os debates suscitados e as cisões advindas. Ao mesmo tempo que um observatório de primeiro plano da sociabilidade de microcosmos intelectuais, elas são aliás um lugar precioso para a análise do movimento das idéias. Em suma, uma revista é antes de tudo um lugar de fermentação intelectual e de relação afetiva, ao mesmo tempo viveiro e espaço de sociabilidade, e pode ser, entre outras abordagens, estudada nessa dupla dimensão (SIRINELLI, 1996, p.249).
As revistas protestantes, “lugar de fermentação intelectual e de relação afetiva”, foram, de fato, importantes laboratórios. Novas idéias circularam em suas páginas, desafiando pastores e leigos a pensarem um protestantismo diferente. Seus editores e diretores privavam de amizade mútua e isso se percebe no intercâmbio e na colaboração de Othoniel Motta, Epaminondas do Amaral e Miguel Rizzo Júnior, de igrejas diferentes (os dois primeiros da Igreja Presbiteriana Independente, e Rizzo, da Igreja Presbiteriana), mas unidos nos projetos das revistas e na temática que elas apresentavam. Sua capacidade em alcançar pastores e outros líderes,
particularmente das igrejas citadinas, mede-se pelas pessoas que, ainda hoje, preservam coleções dessas revistas (especialmente de Fé e Vida e Unitas, as mais recentes).
Comparadas as quatro publicações, as revistas de cultura religiosa mantinham algumas diferenças importantes. Na Revista de Cultura Religiosa seguia-se a estrutura temática dos currículos de seminários: estudos teológicos e históricos, exegética, prática pastoral e homilética. Vê-se que estava dirigida para os pastores, embora os próprios editoriais da RCR defendessem sua utilização e leitura também entre os leigos mais instruídos. Em Lucerna, Fé e Vida e Unitas, os editores procuravam direcionar o conteúdo das revistas para alcançar um espectro mais largo de leitores, fugindo assim das especialidades que lembrassem os diferentes campos das atenções pastorais. A RCR propunha-se como uma revista teológica moderna, inspirada que foi na congênere francesa La Revue du Christianisme Social, publicada desde 1887 e então dirigida, em 1921, pelo intelectual e pastor francês Wilfred Monod. As outras, no entanto, tinham jeito e conteúdo de revistas mais populares, embora suas matérias continuassem a ter uma densidade científica considerável. Mesclavam as matérias bíblicas, biográficas e do que hoje se chamaria de “cultura geral”, com outras mais densas, de teologia, sociologia ou política.
Era assim que os intelectuais protestantes tentavam levar “cultura” aos fiéis em geral, particularmente aos das igrejas urbanas, desejando prepará-los para a pregação e o convencimento das “classes cultas”. Podem-se relacionar e comparar tais esforços àqueles que foram desenvolvidos por outras redes de sociabilidades no Brasil, nas décadas de 20, 30 e 40. As revistas produzidas pelos modernistas de São Paulo, Rio e Belo Horizonte tinham outras peculiaridades. Guardam, porém, com as revistas protestantes, um parentesco não somente cronológico, pois que também buscavam uma atualização cultural e estética de corte burguês. De todo modo, pode-se dizer que as revistas protestantes procuraram cumprir seus propósitos baseando-se na convicção evangélica de terem uma missão a cumprir, na sociedade brasileira e no mundo, que não deveria se limitar à busca da “conversão das almas” ou às polêmicas com o catolicismo romano.