Considerando que as evoluções tecnológicas alteraram “significativamente as noções de tempo e de espaço, bem como o sistema de representação do mundo, a relação do homem com a vida, com o pensamento e com o trabalho”, Alves e Mancebo (2006, p. 46) reforçam a importância dos estudos que analisam o efeito das novas tecnologias para as questões contemporâneas. Para se compreender melhor como ocorrem essas mudanças possibilitadas pelas relações com a tecnologia, é necessário descrever como se estabelece aos docentes o uso das tecnologias digitais de modo geral, visto que cada sujeito fará uso de acordo com suas condições sociais e históricas. Neste núcleo de significação trouxemos três indicadores, a saber: utilização das tecnologias digitais para uso pessoal; utilização de tecnologias digitais no trabalho; e percepção sobre o uso do computador/internet.
Apresentamos, inicialmente, nosso indicador que diz respeito à utilização das tecnologias digitais para
uso pessoal, com seus respectivos pré-indicadores,
conforme o quadro 6.
Quadro 6 – Indicador: utilização das tecnologias digitais para uso pessoal
PARTICIPANTES PRÉ-INDICADORES
Deise Pouca familiaridade. Uso do e-mail. Pouco uso de redes sociais.
Carol
Dependência das tecnologias.
Pedro Pouca familiaridade. Uso do e-mail. Pouco uso de redes sociais.
Anita Uso de redes sociais. Uso do e-mail. Leandro Pouca familiaridade. Uso do e-mail. Pouco uso de redes sociais.
Fonte: Elaboração da autora (2014)
Ainda que todos os professores investigados relatassem ter computadores em casa e referiram fazer uso deles, Deise, Pedro e Leandro se descrevem com pouca familiaridade com a máquina, utilizando normalmente para fins de trabalho, e-mails e, com pouca frequência, redes sociais. O que estes professores têm em comum é o fato de serem professores da faixa etária de 40 anos em diante, que vivenciaram a inclusão das novas tecnologias digitais em um período mais tardio em suas vidas.
As professoras Carol e Anita, por sua vez, relatam ter mais familiaridade com o computador e a internet. Carol, casada com um profissional da área de tecnologias da informação, relatou maior convivência com as tecnologias digitais, dentre todos os entrevistados.
A gente é muito tecnológico, tem computador, tem tablet. Ah... Por exemplo, nossa TV é muito velhinha, porque a gente assiste muito pouco a TV. Porque a gente não assiste jornal na TV, nós usamos computadores pra ter acesso aos
noticiários. A gente procura notícias de outros lugares também, não fica limitado só ao que passaria no jornal e tal... É tudo muito... É tudo muito dependente de tecnologia. (CAROL).
Estas duas professoras vivenciaram a inclusão de novas tecnologias digitais como o computador e a internet, quando ainda adolescentes, o que pode ser visto como um facilitador do processo de apropriação destas tecnologias no cotidiano de ambas, desde o contato que tiveram em casa quanto o contato que podem ter tido durante a graduação. Vale lembrar que, de certa maneira, vivenciam a inclusão das tecnologias no cotidiano da própria formação docente, uma vez que ainda são estudantes de licenciatura e o uso de computadores é muito presente nas universidades, comparado a quem se formou há mais de 10 anos. Prensky (2001) defende que a vivência num ambiente repleto de grande volume tecnológico possibilita que os alunos dos tempos atuais processem as informações de maneira diferente das gerações anteriores, facilitando a habilidade diante das novas tecnologias digitais que surgem. Esta pode ser uma das razões pelas quais elas façam uso de mais tecnologias do que os outros referem fazer. Porém, é necessário ponderarmos que não é possível generalizar um processo cognitivo aos “alunos atuais”, sem distinguir os diferentes contextos sociais vivenciados pelos estudantes. A “dependência de tecnologia” ressaltada por Carol, no entanto, revela características do contexto social que vão ao encontro do pensamento de Prensky. Em pesquisa realizada por Fantin (2010, p. 23) sobre mídias e tecnologias na prática docente, evidenciou-se que a incorporação de novos hábitos de consumos midiáticos no âmbito
pessoal do docente apresentava aspectos positivos sobre sua prática.
Assim como a investigação sobre os usos do computador no âmbito pessoal, também tentamos verificar de que forma os participantes da nossa pesquisa fazem uso do computador e da internet no trabalho, como se verifica no quadro a seguir.
Quadro 7 – Indicador: utilização de tecnologias digitais no trabalho
PARTICIPANTES PRÉ-INDICADORES
Deise Utilização de recursos digitais. Carol Ferramenta de pesquisa.
Pedro Ferramenta de pesquisa. Uso do computador para fins de trabalho.
Anita Uso do computador para fins de trabalho. Leandro Digitar provas.
Fonte: Elaboração da autora (2014)
Sobre a utilização de tecnologias digitais no
trabalho, de modo geral, a forma mais utilizada indicada
pelos participantes é para pesquisa e digitação de trabalhos. A professora Deise demonstra esforço em tentar aprender a utilizar alguns recursos digitais de forma pedagógica, como o Blog, por exemplo, tendo criado o primeiro blog do UCA, na época das capacitações do NTE, em 2011. A docente revela utilizar as tecnologias digitais com os alunos, principalmente
através do computador portátil, para realização de pesquisas, digitações e outros programas e recursos existentes no aparelho digital que possibilitam filmar, fotografar, gravar áudio e desenhar. Apesar da diversificação dos usos relatados, Deise revela necessitar de ajuda constante dos orientadores de tecnologia educacional em suas atividades quando utiliza esses recursos digitais.
Outros professores referem utilização voltada mais ao uso como fonte de pesquisas na internet e à preparação das aulas, como revela Carol, Anita e Pedro.
O meu uso profissional é muito na área de pesquisa. (...) Nós temos um problema aqui com o acervo de livros que ainda não está organizado, então eu não tenho muito acesso aos livros ainda. Então, o que eu faço: procuro muito, pesquiso muito. Técnicas de ensino, maneiras de chegar mais próximo do adolescente, pra fazer eles gostarem das aulas. Eu pesquiso muito isso e pra coisas rotineiras também. (CAROL).
Eu uso ele apenas para fins de trabalho, 90% né, pra fazer pesquisa, pra buscar informações, pra trabalhar com novas metodologias, buscar novos conteúdos, enfim... Coisas que tu possa interagir com os adolescentes né. (PEDRO).
Leandro refere utilizar pouco o computador em seu cotidiano, utilizando com maior frequência para ver e-mails, digitar provas e, raramente, utiliza para redes sociais, descrevendo-se como alguém com pouca familiaridade com as tecnologias.
Descrever os usos que são feitos pelos docentes relacionados às tecnologias digitais não nos revelam toda amplitude do consumo deste artefato. Conforme nos explica Fantin (2010, p. 22), o conceito de consumo envolve usos, representações e apropriações. Os usos, conforme a autora, envolvem lugar, tempo e modos de consumo das mídias, em um formato descritivo. Mais do que a descrição das atitudes do professor diante do computador, nos questionamos sobre a representação que a utilização destes objetos tem para eles. Por conseguinte, em um de nossos indicadores, buscamos compreender a percepção sobre a utilização do
computador/internet, como pode ser verificado no
Quadro 8.
Quadro 8 – Indicador: percepção sobre a utilização do computador/internet
PARTICIPANTES PRÉ-INDICADORES
Deise Falta de domínio; Impaciência; objetividade no uso; produtividade; exposição no ambiente virtual;
Carol Facilidade de ensinar com ferramentas digitais quando há domínio do uso; Acréscimo ao ensino; Pedro Repensar uso das crianças com a tecnologia;
Vazio tecnológico; Desconhecimento dos tablets. Anita Incomodo com o conforto possibilitado pelo Mau uso dos recursos digitais na escola;
computador portátil.
Leandro Questiona uso intensivo de tecnologias digitais; Fonte: Elaboração da autora (2014)
Como é possível verificar no quadro anterior, Deise se descreve como alguém que não gosta do “mundo virtual” (sic), apesar das iniciativas no uso do laptop educacional em sala de aula. Para esta professora, sua falta de domínio acaba por gerar impaciência na utilização de alguns recursos, como o Facebook, por exemplo. Para tanto, Deise revela que o uso dos discursos digitais tem que ter objetividade. A exposição gerada através do uso da internet também é algo que lhe assusta. Em seu discurso, se descreve como alguém que, apesar de estar aberta a aprender e utilizar as novas tecnologias digitais (afirmamos isso a partir do relato de formações voltadas a esta área, como também à prática relatada na entrevista), possui pouca familiaridade com o computador, portanto, pouca apropriação deste instrumento.
Na percepção de Pedro, a internet deve ser repensada quanto ao uso das crianças na escola, pois, para ele, os adolescentes e as crianças não têm maturidade para utilizar o computador e acabam utilizando a internet para redes sociais ao invés de voltar seu uso para as atividades de aula. Outro apontamento feito foi em relação ao desconhecimento do uso dos Tablets em sala de aula, que gera, na opinião do participante, um vazio sobre a utilização das tecnologias digitais nas escolas.
A nível de escola, eu acho que é um vazio muito grande né. Agora tem os tablets.. eu não consigo nem liberar minha senha. O que é que tem ali dentro? Não sei, então eu preciso estudar ali antes de passar para os alunos. Vai separar por série? por série ou idade? Não sei, é uma caixinha de surpresa o resultado. E pode ser de uma grande valia como não. (PEDRO).
O docente traz uma questão interessante para nossa discussão. Em sua fala, se evidencia a compreensão de que as políticas de inserção tecnológica na educação não caminham juntas, necessariamente, com a necessidade profissional do docente para o uso destes instrumentos (como o caso do tablet). Desse descompasso entre políticas, necessidades e desconhecimento, parece originar o “vazio” revelado por Pedro. Quando pensamos no modo como foram inseridas as tecnologias digitais nesta escola, esse processo pode ser relacionado à generalização das TICs que, ao deixar de ser pontual, ocasiona uma “discrepância entre produção, uso e apropriação dos seus resultados.” (BIANCHETTI, 2001, p. 36).
Anita, por sua vez, também revela preocupação com o mau hábito do uso do computador feito pelos alunos na escola, referindo que isso se apresenta como uma cultura da instituição. Para ela o computador portátil possibilita um “conforto” (sic) ainda maior ao aluno quanto à forma como irá utilizá-lo, o que causaria certo desconforto na docente, pelo uso normalmente incorreto feito pelos alunos. Mas o que seria um uso incorreto? Apesar de não nos dizer quais usos seriam esses e as implicações para o seu trabalho, podemos supor que pode ocasionar em não uso do computador, assim como a compreensão de que o computador pode atrapalhar a sua aula, devido ao “conforto”. Deve-se destacar que a “cultura da instituição” no que se refere ao uso do laptop, apontada pela docente, é ainda superficial, uma vez que não fazia muito tempo que os alunos utilizavam o computador portátil. Portanto, essa prática precisaria ser moldada pelo professor, exigindo dele novas dinâmicas de trabalho.
Carol aponta o computador como uma ferramenta que lhe agrada e possibilita uma aula “mais fácil” quando
o aluno domina o dispositivo. Chama-nos a atenção para a descrição de “mais fácil”, relacionada ao domínio de alguns recursos digitais, tal como o powerpoint. O domínio de um software que possibilita a explanação de conteúdos escolares não modificaria o trabalho docente, apenas mudaria a forma de explanar a didática, substituindo o uso do quadro ou do retroprojetor. Logo, a facilidade apontada pela professora se aproxima muito mais de uma habilidade cotidiana dominada por ela, do que uma mudança metodológica no trabalho. Podemos pensar no uso da máquina de escrever que depois foi substituída pelo computador, onde facilitamos, com esta substituição, o processo de digitação, mas utilizávamos ambos com os mesmos fins. A diferença, claro, está nas múltiplas finalidades possibilitadas pelo computador, mas nem sempre utilizadas. Essa característica vai ao encontro da constatação de Bonilla (2010), de que muitos professores fazem uso de dispositivos digitais como mais uma ferramenta, mas com as mesmas práticas consolidadas.
Leandro, por sua vez, chama atenção para o uso intensivo das tecnologias digitais hoje, questionando a necessidade das ferramentas digitais e suas consequências.
Inclusive, na maioria das vezes eu não deixo meus alunos usarem calculadora, por que... A tecnologia por um lado ajuda e por outro atrapalha bastante. Deixa você com a mente muito preguiçosa. Ela deixa, se você não souber utilizar ela. (LEANDRO)
Para ele, o excesso de utilização da ferramenta impacta nos momentos em que será necessário fazer
uso dos conhecimentos adquiridos, mas não poderá ser feito uso da ferramenta, como na prova do vestibular, por exemplo. Sua compreensão dá visibilidade a uma dimensão do uso das tecnologias digitais muitas vezes ignoradas quando se pensa sobre a incorporação das tecnologias digitais no cotidiano, ressaltando suas limitações.
Diante dos indicadores que apresentamos, é possível perceber que ainda que sejam relatados os usos de artefatos digitais por alguns sujeitos de forma mais aprofundada e por outros de maneira mais superficial, os participantes se dividem entre críticas e exaltações aos usos das tecnologias digitais. Nas críticas, se evidenciam limitadas apropriações do computador diante das diversas possibilidades oferecidas pela ferramenta, ao mesmo tempo em que são ressaltadas as incongruências das políticas de inserção tecnológica no ambiente escolar. A apropriação que nos referimos diz respeito à forma de incorporação das tecnologias digitais na vida individual e social (FANTIN, 2010). Fazer uso de tecnologias digitais no trabalho não necessariamente significa incorporar novas práticas de trabalho, mantendo práticas antigas ao utilizar um artefato digital. Estas críticas realizadas por alguns participantes também podem estar relacionadas a resistências dos educadores à inovação tecnológica, como “certo temor pela máquina e equipamentos eletrônicos, medo da despersonalização e de ser substituído pelo computador, ameaça ao emprego, precária formação cultural e cientifica”, que são vistas como razões culturais. (LIBÂNEO, 2001, p. 68).
Políticas educacionais como o PROUCA buscam a inclusão digital, mas questionamos se os professores encontram-se integrantes da cultura digital a fim de facilitar o processo mediador para inserção dos alunos
nesta cultura. Conforme Bonilla (2010, p. 44), um professor que não se “inclui” digitalmente terá poucas condições de articular e argumentar no mundo virtual o que, por consequência, repercutirá sobre suas práticas que envolvam artefatos digitais.
5.3 O PROCESSO DE INCLUSÃO DO LAPTOP