Alfredo Tinoco (2012) define Museu Industrial como uma estrutura constituída por vários núcleos onde o espaço principal/central serve como centro de informação e interpretação composto por várias exposições de cariz permanente e temporário, mas também por um centro de documentação, biblioteca/arquivo e uma reserva técnica que representa todo o território. Desta feita, apresenta-se como um espaço que permite efetuar a ligação entre a cultura, ciência, comunidade local e os processos técnicos, demonstrando como a indústria influenciou os modos de vida e realçando os seus inventores, especialistas, trabalhadores e consumidores. Os seus objetivos deverão passar pela transmissão ao público de toda a informação e conhecimento sobre uma realidade que se transformou ao longo dos tempos, mas também como esta influenciou a história económica e social, levando a uma análise e reflexão crítica comparativa sobre estado e desenvolvimento atual quer da indústria, quer da tecnologia.
De acordo com Morais (2016), a primeira tentativa de criação de um museu industrial em Portugal ocorreu no século XIX, quando em 1807, o Estado planeou a criação de um museu com uma coleção composta por livros, planos, modelos/ desenhos de máquinas e outros utensílios representativos da indústria nacional. Entretanto, devido à instabilidade política proveniente das invasões francesas e da consequente fuga da Corte para o Brasil, a ideia acabou por ficar pelo caminho. Em 1819, a intenção de criar um museu industrial ainda se mantinha, foi então que através da reforma do ensino levada a cabo por Passos Manuel se previu a criação de Conservatórios de Arte e Ofícios de Lisboa e do Porto no ano de 1836, com o objetivo de criar um “depósito geral de máquinas, modelos utensílios, desenhos, descrições e livros relativos às diferentes Artes e Ofícios cujo objetivo era a instrução prática em todos os processos industriais por meio da imitação”. Em 1852, devido à necessidade de criar museus e centros industriais para o depósito de máquinas e matérias-primas, previu-se a criação de museus industriais junto ao Instituto Industrial de Lisboa e da Escola Industrial do Porto, no entanto, devido à falta de recursos financeiros levou ao adiamento do projeto. Entretanto, no ano de 1883, foram finalmente criados os Museus Comerciais e Industriais (Porto e Lisboa). Estes museus
27 pretendiam educar/ensinar, informar os produtores e consumidores sobre os vários produtos e matérias-primas existentes, auxiliar como meio de promoção e estímulo do setor industrial e comercial nacional, e por fim, levar à reflexão sobre o estado da indústria. Contudo, estes museus acabaram por ser extintos no ano de 1890 através do Decreto-lei de 23 de Dezembro.
No século XX, mais precisamente na década de 70, verifica-se um aumento do número de museus industriais, no entanto, eram de fraca qualidade devido à falta de condições técnicas e de planeamento. Como tal, foi na década de 80 que se constatou um equilíbrio no que diz respeito à qualidade/quantidade dos museus, devido à renovação e aumento daqueles já existentes, destacando-se o Museu Nacional de Arqueologia, Museu Nacional do Azulejo, Museu Nacional de Teatro, Museu Nacional de Arte Antiga, Museu Monográfico de Conímbriga e o Ecomuseu Municipal do Seixal (Morais 2016). Salienta-se, que os museus que revelaram maior consistência no seu funcionamento foram os pertencentes ao Ministério da Cultura e tutelados pela administração regional. Foi assim que surgiu a Rede Portuguesa de Museus que “é um sistema organizado, baseado na adesão voluntária, configurado de forma progressiva e que visa a descentralização, a mediação, a qualificação e a cooperação entre museus”. Esta rede demonstrou-se fundamental para a qualificação dos museus, tendo em conta que através de um inquérito realizado aos Museus de Portugal, em 1999 e 2000, foi possível concluir que a maior parte não possuía requisitos mínimos para serem considerados museus, devido à falta de coleções, programas de investigação, orçamentos limitados, entre outros motivos (Morais 2016). Por sua vez, Morais (2016) afirma que os museus industriais em Portugal poderão ter variadíssimas origens, como é possível constatar de seguida:
Museus industriais de Iniciativa Empresarial
O Museu da Água da E.P.A.L. - composto por quatro espaços espalhados pela cidade de Lisboa, constituídos por edifícios relacionados com o abastecimento de água na cidade, no século XVIII e XIX, sendo os quais, o Aqueduto das Águas Livres, o Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras, o Reservatório da Patriarcal e a Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos. Faz ainda parte deste museu um arquivo onde estão guardados vários documentos escritos, plantas e desenhos que ajudam a reconstruir a história do abastecimento de água e respetivas alterações na cidade;
Museu da Eletricidade- encontra-se também localizado em Lisboa e surgiu do interesse da EDP em transformar e preservar a antiga Central Tejo em museu.
28 Apesar de ter sido criado em 1979 só abriu ao público em 1990, no entanto, voltou a fechar para reabilitação em 2000, sendo reaberto novamente passados 6 anos. Foi neste espaço que ocorreu a maior exposição de arqueologia industrial até ali vista em Portugal. No ano de 1986, foi classificada como Imóvel de Interesse Público, sendo um dos primeiros espaços industriais classificados em Portugal. Museus industriais de Iniciativa Universitária
Museu de Lanifícios da Covilhã- o seu surgimento deve-se às mudanças económicas e sociais ocorridas na Covilhã devido ao abandono dos edifícios industriais na década de 70, nomeadamente, relacionados com o setor dos lanifícios. Por este mesmo motivo, o museu foi criado com o objetivo de salvaguardar as tinturarias da Real Fábrica de Panos que se encontram integradas nas instalações da Universidade da Beira Interior, sendo este um aspeto fundamental para a sua criação procurando recordar as manufaturas pombalinas. Como tal, a sua missão passa pela salvaguarda e conservação do património industrial têxtil associado aos lanifícios, a investigação e divulgação, bem como, a contextualização antropológica, política, económica e social desta mesma atividade industrial;
Fábrica de Curtumes de António José de Oliveira e Filhos e a Fábrica de Curtumes da Ramada- situadas em Guimarães, estas duas fábricas foram reconvertidas com o apoio da Universidade do Minho;
Observatório do Mar dos Açores- o seu objetivo volta-se para a salvaguarda e estudo do património baleeiro da região mas também para a dinamização do espaço onde está situado, neste caso, nas instalações da Fábrica da Baleia de Porto Pim, classificado como Imóvel de Interesse Público.
Museus Industriais de Iniciativa Autárquica
Têm sido os principais responsáveis pelo reaproveitamento de antigos espaços industriais, dando origem a Museus, Centros de Ciência e Tecnologia e Centros Interpretativos, pretendendo desenvolver programas educativos e programas de inclusão social procurando aproximar o património à comunidade. Como tal, destacam- se o Ecomuseu do Seixal (1992) associado ao património industrial e fluvial, Museu do Vidro situado na Marinha Grande (1998), o Museu da Mina de Aljustrel, Museu de Cerâmica de Sacavém (2001), Museu Nacional do Pão (2002), Museu da Chapelaria de S. João da Madeira, Museu Municipal de Portimão, entre outros.
29 Por fim, importa ressalvar que para além dos tipos de museus acima apresentados, os museus industriais poderão ter a importante tarefa de regenerar as grandes áreas urbanas devido ao seu enorme potencial valor patrimonial e histórico. Exemplo disso é o caso do Porto, onde muitas das fábricas encerradas provenientes da desindustrialização foram parcialmente demolidas e reconvertidas em condomínios privados ou novas urbanizações de luxo, como é o caso do edifício da Moagem da Sociedade Industrial Aliança, ou a demolição da Fábrica Salgueiros que deu lugar a empreendimentos habitacionais.
Na década de 90, realça-se o surgimento de novos museus voltados para a ciência, tecnologia e indústria devido ao aumento do reconhecimento do património industrial nacional e ao aparecimento das primeiras associações de defesa do património industrial, tais como, a APAI (Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial), a APPI (Associação Portuguesa para o Património Industrial) e a APOREM (Associação Portuguesa de Empresas com Museus). O objetivo destes museus era contribuir para o desenvolvimento e conhecimento educacional da população, com especial destaque para os mais jovens e estudantes universitários (Morais 2016).