O movimento hip-hop brasileiro já tem mais de vinte anos. Aos poucos, a sua trajetória tem sido registrada de forma mais consistente e sistematizada. Sua origem pode ser encontrada nos bailes blacks dos anos 70. Entretanto, como nos mostra Herschmann, nos anos 80, a música negra brasileira influenciada pelas batidas americanas teve dois caminhos distintos. Enquanto no Rio as músicas exploravam a alegria através de uma crítica social cheia de bom humor e, por vezes, bastante debochada, em São Paulo e em outros locais do país, as músicas tinham claros contornos de protesto. Ao estudo do hip-hop cabem análises de diversas áreas do conhecimento, como a sociologia política, a antropologia, a pedagogia, a música, a psicologia, o jornalismo e as letras. Não pretendo de forma alguma achar que neste trabalho possa abranger todas as perspectivas sobre as quais o fenômeno pode ser estudado, mas acredito que Herschmann nos dá alguns elementos interessantes para começarmos a nossa análise do caso brasileiro.
“No Brasil, a emergência desta manifestação cultural veio, como no caso do funk, a reboque da cultura black dos anos 70. Como os rappers norte- americanos, eles se caracterizam pela ‘verborragia’ e os temas de suas composições giram em torno da miséria, violência urbana, racismo e assim por diante. No que se refere à composição dos grupos musicais, é bastante similar à do funk: os grupos têm em torno de dois a três cantores que se auto-intitulam MC’s ou rappers e um DJ. Nas letras os raps —rhythm and poetry — são compostos em tom coloquial como no funk, feitos sobre uma base musical, geralmente de raps norte-americano mixados, por efeitos como scratch, back to back e outros associados pelos DJs. A grande diferença no que se refere propriamente à música é o tipo de base utilizada e o tom e conteúdos vinculados nelas. Em primeiro lugar, enquanto o funk usa essencialmente o Miami Bass, os rappers do hip-hop usam a base dos guetos negros de Nova York e Los Angeles. Em segundo, enquanto o funk produz por vezes alguma crítica social permeada pelo bom humor e pela ironia, as músicas produzidas pelo hip-hop são de protesto, politicamente mais engajadas, carregam dramaticidade e agressividade e, muitas vezes, uma indignação que não necessariamente está presente no seu gênero similar. Além disso, as letras do hip-hop conseguem se mais extensas que
as dos funkeiros (superam facilmente a marca dos cinco minutos), o que tem dificultado sua presença no formato dos programas das rádios comerciais.” (Herschmann, 1997: 75-76)
É comum em vários trabalhos encontrarmos referencias apenas a São Paulo quando é feito um histórico do movimento hip-hop. Zeni (2002) e Tella50 (2000), por exemplo, vão buscar nas manifestações na região da estação São Bento do metrô e nas ruas 24 de maio e Dom José de Barros, em São Paulo, os pioneiros do movimento no Brasil. Esta é uma verdade apenas parcial. No mesmo período o hip-hop chegou a outras capitais brasileiras. O que é inegável é que a partir de São Paulo que o hip-hop torna-se uma manifestação cultural conhecida nacionalmente fora dos militantes pioneiros da cultura. Dentre os entrevistados, a grande maioria vai apontar como um dos primeiros contatos com a cultura a apresentação do b-boy Nelson Triunfo na abertura da novela da Globo “Partido Alto” no ano de 1984.
A entrada na cultura geralmente se dá através da dança. Muitos rappers vieram das gangues ou equipes de break. Um dos rappers mais citados pelos entrevistados como sua principal influência na entrada no hip-hop iniciou-se como b-boy, o MC e produtor musical Thaíde. Em 1984 Thaíde formou com DJ Hum a principal dupla brasileira.
As gravações de discos de rap começaram nos 80 em sua maioria em coletâneas promovidas por gravadoras paulistas. Dentre os primeiros grupos a gravarem se destacaram O Som das Ruas, Situation Rap, Ousadia do Rap, Consciência Black (esta, já tinha presença dos Racionais MC’s) e Hip-hop - Cultura de Rua. Nesta última, havia duas músicas de Thaíde e DJ Hum: “Corpo fechado” e “Homens da lei”.
O que existia no início dos anos 80, não só em São Paulo mas em todos os locais do país onde a cultura se popularizou, era uma propagação da chamada “Break Dance”. Os fundamentos da cultura hip-hop não eram acessíveis à maioria dos que se interessavam pela cultura. Através de filmes como Flash Dance e Beat Street, os vídeos Lionel Ritchie, Malcom McLarem e a popularização no Brasil do “Rei do Pop”, Michael Jackson, os estilos de dança
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No mesmo ano de 1984 houve uma grande repercussão nos grandes meios de comunicação sobre o novo estilo de dança. O break foi popularizado pelas apresentações e clipes estrelados por Michael Jackson. Foi Utilizado pela Rede Globo na abertura da telenovela “Partido Alto”, em que Nelson Triunfo e o Funk e Cia. eram os dançarinos. Esta dança passou a ser encarada como mais um modismo. Mas, por outro lado, ao mesmo tempo em que se tornou moda, inclusive ganhando espaço nos grandes meios de comunicação de massa, ele se proliferou entre os jovens que moravam na periferia da região metropolitana de São Paulo. “Estes jovens sentiram-se motivados a se organizar, para melhor absorver essa nova cultura jovem, simbolizada pela dança, importada dos guetos nova-iorquinos”. (Tella, 2000:95)
de rua característicos do hip-hop51 começaram a penetrar cada vez mais nas periferias dos grandes centros urbanos.
Na maioria dos casos as organizações de hip-hop dos anos 80 formaram-se em São Paulo com o apoio, sobretudo, de prefeituras ligadas ao Partido dos Trabalhadores. Os principais exemplos são o do Departamento de Cultura de São Bernardo - que subvenciona o Projeto de Ação Cultural Movimento de Rua e o livro de poesia e música rap, ABC RAP: Coletânea de poesia rap, da Prefeitura de Diadema, com a criação da Casa do hip-hop de Diadema e com um dos projetos pioneiros de intervenção social a partir do rap, o Rap...ensando a Educação da Prefeitura de São Paulo.
Em 25 de janeiro de 1989, Milton Salles, produtor dos Racionais MC's encabeçou a criação do MH2O "Movimento Hip-hop Organizado". O MH2O foi um marco para o hip-hop
paulista e, por conseguinte, para o hip-hop nacional. De acordo com Tella (2000) “com o MH2O a prática da cultura hip-hop passou a ocupar locais das regiões periféricas da
cidade”. Através do MH2O eram dadas oficinas e shows gratuitos nas periferias. Além disso,
o MH2O auxiliou bastante na divulgação do hip-hop para o grande público. Com o MH2O o
hip-hop passou a ter uma maior visibilidade, ocupando espaços públicos e desencadeando a formação de diversos grupos e de varias posses52, que se espalharam pela Grande São Paulo.