A Casa das Minas é muito antiga, não havendo registro preciso de quando começou a ser organizada. Os registros mais antigos da festa datam da década de 40 do século passado, mas Ferretti (1995, p. 169) acredita que ela venha sendo feita regularmente desde as duas ou três últimas décadas do século XIX. Embora organizada por adultos, são as crianças que compõem o Império e, para isso, ascendem de posição a cada ano, de anjo ou pajem a mordomos, mor e régio e, finalmente, a imperador/imperatriz.
A festa é realizada em razão da devoção de uma entidade diferente em cada terreiro – no caso da Casa das Minas de Nochê Sepazim, princesa real, e organizada, em geral, pelo pai ou mãe-de-santo. Em determinados momentos da festa – buscamento, levantamento, dia da festa e encerramento - alguns participantes podem entrar em transe e receber entidades, padrinhos da festa, encarregados de protegê-la, mas isso acontece com discrição e apenas os conhecedores sabem identificar, por uma toalha que é usada na cintura ou no busto, variando em cada casa. Na Casa das Minas, a cada ano um vodum assume essa função e sua filha deve dar uma colaboração especial (FERRETTI, 1995, p. 171). Apesar disso, a festa é eminentemente católica em seus rituais.
O Império, como em outros terreiros, é composto por três casais de crianças – Imperador/imperatriz, mordomos-régio e mor. Participam ainda os anjos Fé, Esperança e Caridade, bandeireiro e bandeireiras, e pode haver vassalos e aias ou damas, geralmente adolescentes, mas podem ser criados ainda outros cargos complementares, para agradar a todos os que desejam participar mais diretamente.
Além destes componentes há um grande número de ajudantes, costureiras, decoradores, cozinheiras, músicos, que podem ser de uma banda, mas não excluem as caixeiras, principais condutoras do ritual, em número variado, mas nunca inferior a três.
As caixeiras podem ou não usar roupas do mesmo tecido e costumam enfeitar o cabelo com flor-de-estrela, uma espécie de jasmim, grande e perfumado, que floresce na época da festa.
As despesas e encargos são de responsabilidade do organizador, pessoa do terreiro, e dos festeiros, pais das crianças. A festa é onerosa, compreende despesas com roupas, decoração, refeições e mesas com bolos e lembrancinhas temáticas, que serão oferecidas aos participantes. Além disso, nessa época faz-se, quando possível, limpeza, reparos e pintura da casa. A decoração da casa, que por vezes é mantida o ano inteiro na varanda de danças, é substituída para a festa do Divino. Os recursos para a festa são obtidos pela colaboração de várias pessoas, solicitada por meio de carta-convite, mas por vezes a casa conta também com apoio governamental, para reformas mais dispendiosas.
A festa do Divino compreende seis etapas rituais, segundo Ferretti (2009, p. 168): a Abertura da tribuna, o Buscamento e o Levantamento do mastro, o Dia da festa, a Derrubada do mastro e o Encerramento. O Levantamento do Mastro ocorre na quarta-feira, véspera de Ascensão e o dia principal é o Domingo de Pentecostes.
Cada uma destas etapas obedece a um ritual preciso. A Abertura da Tribuna é um ritual acompanhado por poucas pessoas, mas a partir do Buscamento do Mastro, ritual essencialmente masculino, acompanhado por bebidas alcoólicas e brincadeiras de conotação erótica, as etapas da festa são acompanhadas por muita gente. Entre o Buscamento e o Levantamento do mastro, por exemplo, acontece o cortejo para trazê-lo até o terreiro, acompanhado pelos cânticos das caixeiras e o ritmo das caixas. No quintal, onde fica apoiado em bancos, é reverenciado com danças e cânticos pelas caixeiras que se retiram depois e aguardam, sempre tocando e cantando, na sala. O mastro, depois de seco, é descascado e pintado em branco e vermelho ou branco e azul, tem algumas vezes o nome – Manuel da Vera Cruz, em maio, ou João da Vera Cruz, em junho – pintado e é colocado o mastaréu e um bolo de tapioca na ponta. Na véspera da Ascensão há alvorada, fogos e o batismo das caixas e do mastro, que começa com cortejo em torno do mastro, com o mastaréu, um fogareiro de incenso, garrafas de bebida, um copo de água e um ramo de folhas. As bebidas e a água são derramadas sobre o mastro. Os padrinhos seguram uma toalha rendada sobre o mastro e outros levam velas acesas. O mastro é erguido sob o rufar das caixas e dele pendem guirlandas de flores e bandeirinhas de plástico ou papel. Na Sala Grande ou Sala de Altar católico, segue-se a ladainha e é servido um lanche farto.
No dia seguinte há missa e no domingo seguinte, o domingo do meio, há toque de caixa diante do altar e do mastro. No dia anterior ao dia principal da festa é preciso fazer comidas e doces e concluir as arrumações e a decoração das mesas.
No domingo da festa há alvorada e missa solene e retorno da igreja à Casa, em cortejo a pé. Aguardam o cortejo 12 pobres que recebem alimentos e dinheiro. Segue-se
saudação ao mastro, colocação das crianças no trono, onde são também saudadas pelas caixeiras e depois vão para a mesa de doces, tomar o café ou chocolate, e retornam para o trono, para aguardar o almoço. Depois do almoço há uma pausa para descanso e à noite a ladainha e depois o jantar, acompanhado por uma banda de música, alternadamente com as caixeiras, com refinamento na mesa e atenção de todos os presentes.
Na segunda-feira há outro jantar, desta vez acompanhado apenas pelo toque das caixeiras e o Império vai para a sala do trono, de onde segue para o Derrubamento do mastro. Pode ocorrer a visita do Império da Casa de Nagô, também em festa nessa época, o que se chama de buscar a Santa Crôa, previamente levada para a casa. Ferretti descreve essa visita: “Quando chegam, os dois Impérios se confraternizam e desfilam juntos em cortejo por toda a casa, indo até o mastro, acompanhados pelas caixeiras, que fazem evoluções à sua frente e depois os acompanham até a porta da rua” (2009, p. 180).
O mastro é então derrubado e simbolicamente cortado com pequenos golpes de uma machadinha dados pelas filhas da casa, pelo Império e pelas caixeiras. O mastaréu, a pomba e a bandeira são entregues ao padrinho do ano seguinte e, de volta à Sala Grande, há ladainha e a cerimônia da Entrega das posses do Império, quando os objetos imperiais simbólicos são entregues ao Império do ano seguinte.
No dia seguinte, terça-feira, distribui-se o que resta dos bolos e das lembranças, lava-se louça e comenta-se a festa. É o chamado lava-pratos.
Há ainda o serra-toco e o carimbó de velha, momento de confraternização em que todos estão à vontade, para dançar e brincar. Na Casa das Minas serra-se o mastro em dois pedaços, que são usados para segurar o canteiro em volta da cajazeira, árvore sagrada.
Algumas tradições já deixaram de ser realizadas nesta casa, como o Roubo do Império, o hábito de guardar o mastro para a fogueira de São João, o tambor de mina realizado no sábado depois da festa e o almoço para arrancar o toco no domingo seguinte.
A festa do Divino é tradição do catolicismo popular e, ao mesmo tempo, parte do ritual dos terreiros, constituindo obrigação, no caso da Casa das Minas. Hoje é uma das poucas festas que ainda é realizada na Casa das Minas, pelo seu caráter de festa popular católica. O ritual é preciso e minucioso. Como afirma Ferretti: “Na Casa das Minas, esse ‘ritualismo barroco’ de certa forma contrasta com a sobriedade ‘quase protestante’ típica de outros aspectos do comportamento do grupo” (2009, p. 181). É também uma festa aberta, com participação de pessoas que não costumam frequentar terreiros. Levando em conta que a ascensão ao posto de imperador é progressiva, sendo exigido que as crianças passem de
mordomos a mordomos-régios e só então a imperador/imperatriz, a festa cumpre um ciclo a cada três anos.