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Na Europa, o século XV caracterizou-se como uma primavera para os ocidentais, pois desabrochava um renascimento de valores individuais, apartando-se do feudalismo8 segregado e cerceador. São os lusco-fuscos da Idade Média se apagando, dando lugar a ideais quinhentistas.

Esse século significou esperança em uma vida melhor, cuja contribuição principal foi prestada pelo desenvolvimento das trocas comerciais, especialmente compartilhada na Ibéria, por meio da persistente ação contra a ocupação islâmica e judaica. Esta esperança estava umbilicalmente ligada a um sentimento patriótico e possuía na fé cristã o seu fundamental impulsionador para a germinação de um sentimento de expectativa para grandes realizações, como a unificação política.

A península era dividida em cinco estados, a saber, Navarra, Portugal, Castela, Aragão e Granada, e a reunificação ocorrera sem muitas delongas, exceto com o Estado Luso, liderada pelo casal que foi considerado pela Igreja como os Reis Católicos9, recebendo este título das mãos do Papa

Inocêncio VIII, em

reconhecimento pelos seus feitos em prol da cristandade.

Sobre os que negociavam pairava conceitos pouco honrosos, os quais se acentuavam sobre aqueles que obtinham lucros com o dinheiro. Tais atividades centravam-se quase sempre nas mãos dos judeus e dos mouros que, por sua crença religiosa, não eram bem vistos, apontados como inescrupulosos nas suas atividades.

Nesta península, os povos mantinham uma estrutura conservadora e bem tradicionalista, enquanto que em outros povos da Europa, a brisa da Renascença10 agitava as

8 Regime resultante de um enfraquecimento do poder central, e que une estreitamente autoridade e propriedade

da terra, estabelecendo entre vassalos e suseranos uma relação de dependência.

9 D. Fernando, Rei de Cecília, que era filho de D. João II, Rei de Aragão e, Dona Isabel, Rainha herdeira de

Castela, que era irmã do Rei D. Henrique IV de Castela.

10 Movimento artístico e científico dos séculos XV e XVI, que pretendia ser um retorno à Antiguidade Clássica.

33 idéias revolucionárias de liberdade e independência da consciência humana e do progresso das nações e, a procura da verdade na fé cristã, que se pautava nas leituras de livros clássicos.

Por sua vez, o mercantilismo11 emergia como uma importante e dinâmica geração, que fazia circular riquezas, as quais sustentavam muita gente. Os Reis Católicos não estiveram apartados destas renovações. Eles apoiavam o desenvolvimento do comércio e indústria, procurando quebrar o conservadorismo e o desprezo com que algumas classes tratavam estas novas ordens econômicas e trabalhistas, firmando-se assim um forte operador na consolidação do poder régio. Com um ato político e religioso, após a guerra de reconquista, os Reis Católicos expulsaram em 1492 das terras espanholas os judeus e os mouros que não quiseram se converter ao cristianismo.

O ato de impor batismo ou expulsão no pretexto de unificar religião e sociedade, na realidade, dividiu os espanhóis em duas castas, a dos “puros” e “impuros”, distinguidas pelo Estatuto da pureza do sangue12, decreto que impunha a diferenciação, isolamento e eliminação dos falsos conversos, num clima de permanente suspeita. Pouco a pouco a atmosfera de suspeita encobre a Espanha e os reinos das Índias provocando uma psicose coletiva entre perseguidores e perseguidos, convertendo a convivência numa caça permanente ao semita.

Com os aplausos da Igreja, esta postura representava os séculos XV e XVI, onde Rei e Espanha eram um o reflexo do outro, com um passado glorioso marcado por muitos empenhos e sacrifícios, um presente excelente e um futuro esperançoso. O ardor religioso adicionado ao sentimento nacionalista fazia dos Reis, predestinados para grandes empreendimentos.

Consolida-se assim o poder régio, que intervém no incremento ao mercado, sustentando o mercantilismo segundo a teoria que a potência de uma nação é medida pela riqueza de seu comércio. Surge então o espírito de empresa voltado para o progresso econômico e que se torna parceira dos Reis.

A veemência religiosa foi usada, também, para consolidar o absolutismo13 e aproximar a Igreja do Estado. Esta união entre o Estado Espanhol e a Igreja era tão intensa que levava ao fanatismo religioso, considerando inimigo todo aquele que não fosse católico,

11 Tendência para subordinar tudo ao comércio, ao interesse, ao lucro, ao ganho. Enfatizava a importância do

comércio exterior para a economia de uma Nação, e que defendia a ação do Estado em favor da expansão e monopólio do comércio.

12 Transferia-se o debate do campo religioso para o campo racial, provocando uma estratégia de “purificação”. 13 Sistema de governo onde o governante se investe de poderes absolutos e sem limites, exercendo a dominação.

oportunizando assim a criação do Santo Ofício ou Inquisição14 em 1481, para punir os suspeitos de heresia, a fim de manter e preservar a pureza da “Santa Fé e da Boa Moral”.

Era esse o ácido que corroia a Espanha no século do ouro, conjuntamente com todas as sociedades que pretendiam fundamentar a ordem na discriminação de grupos e na desigualdade de essências.

Os reinos da Espanha sobreviviam graças ao trabalho das populações rurais, semi- escravas, diga-se de passagem, dedicados a produção agropecuária, enquanto que as elites viviam na missão da reconquista. Não eram reinos ricos, assim como também não eram seus soberanos, e o tesouro real não era muito significativo.

A Coroa estava associada aos empreendimentos marítimos, concedendo títulos e poderes para seus representantes. Estas organizações faziam de cada empresa um negócio singular, em que todos estavam solidários, tanto nos lucros como nos azares das expedições, fazendo deste apoio mútuo, fator fundamental no êxito das iniciativas da época.

Esta monarquia de modo eminente católica e impiedosa na religião, recebeu de diversos Papas o direito ao Régio Patronato nas terras do Novo Mundo, tornando-se o Rei representante e controlador geral da Igreja, cabendo ao Papa apenas referendar o que a Coroa havia aprovado.

Quanto a Portugal, um Estado pequeno e encravado quase que dentro de outro, com uma pequena população e com um solo pobre e pedregoso, consegue manter-se por séculos na costa da península. O segredo de Portugal talvez tenha residido no seu povo, meio acomodado, todavia trabalhador, limitado nas ambições e conformado com as dificuldades em tirar da terra e do mar os seus sustentos, consolados pela sua ardente fé cristã.

Para Portugal, navegar foi preciso, haja vista a necessidade de desenvolver o comércio marítimo, e deste modo, assegurar a sua independência. Isso criou uma situação que impeliu para o surgimento de uma nova classe que exalou dinamicidade e liberalismo, os burgueses15, que julgavam as lidas comerciais e econômicas como as propulsoras do progresso.

Inicia-se assim uma nova soberania, contrariando Castela, e com apoio da classe emergente, se instala uma nova dinastia, que visa romper com o feudalismo. Com uma paz relativa nas mãos e uma eminente escassez de recursos, partem para as conquistas da

14 Antigo tribunal eclesiástico instituído com o fim de investigar e punir crimes contra a fé católica. Constituía

um verdadeiro sistema imperial de informações, investigações e julgamento, com uma bem montada rede de tribunais nas principais cidades do reino que empreendia severas perseguições aos suspeitos de heresia.

15 Classe social que surge na Europa em fins da Idade Média, com o desenvolvimento econômico e o

aparecimento das cidades, e que vai, gradativamente, infiltrando-se na aristocracia, e passa a dominar a vida política, social e econômica.

35 navegação em direção ao sul. Desta empreitada, são montados observatórios astronômicos e bases de preparo de nautas, contratando para tal vários especialistas de diversas nacionalidades.

Em Portugal houve uma ação do Estado para desenvolver a atividade náutica e cometer expedições, usando financiamentos da Coroa. Por outro lado, acontece em 1503 a instalação da “Casa de la Contratación” em Sevilha, pela Coroa Espanhola, que tinha a atribuição de organizar e controlar todos os serviços marítimos com o Novo Continente.

Dá-se então o início das conquistas, com a colonização de novas terras, o cultivo da cana-de-açúcar, o trafego negreiro, a cata ao ouro, a busca por especiarias e a procura de um caminho pelo mar ao Oriente. Esta prioridade de chegar às Índias era acompanhada também pelo tormento de não se dispor de conhecimentos geográficos e náuticos, bem como de pessoal qualificado para tal façanha.

Apesar dos percalços, as expedições se sucedem, acumulando êxitos e desastres, porém eram impelidas pelos lucros que delas eram obtidos. Por este esforço empreendedor, é concedido a Portugal, pelo Papa Nicolau V, a posse de todas as terras descobertas ao longo da costa da África.

Este desenvolvimento comercial marítimo pouco alterou os conceitos e costumes das classes dominantes em Portugal, as quais insistiam em manter grandes latifúndios com a nobreza, onde a maior parte dos portugueses, agricultores, vivia na miséria. Portugal e Espanha eram de certa forma, avessos às atividades utilitárias, valorizando apenas afazeres militares e administrativos.

Enfim, Portugal e Espanha mantinham uma formação e estruturação de sociedade muito semelhante. Enquanto a sorção de mercadorias era ampla e mantinha os ânimos elevados, estas posturas sociais não eram percebidas e/ou consideradas relevantes, permanecendo estes países eminentemente agropastoris, no meio de uma ascendente fartura que era dependente das colônias conquistadas, onde os produtos manufaturados consistiam em ser oriundos, na sua maioria, destas paragens.