FREMTIDSUTSIKTER
6 ÅRSREGNSKAP
À época da descoberta das ilhas a paisagem açoriana caracterizar-se-ia pela densidade e complexidade das manchas de vegetação que ocupariam áreas de maior ou menor dimensão formando uma paisagem em mosaicos em que as zonas em clareira eram caracterizadas por possuírem comunidades herbáceas próprias (caso dos prados naturais ou turfeiras, por exemplo) ou então por se constituírem como estágios de evolução que conduzem a comunidades mais evoluídas, matos e florestas.171 A uma aparente homogeneidade cromática da paisagem – já que as florestas da laurissilva se caracterizam pelo seu tom verde escuro - corresponderiam zonas de floresta densa com grande complexidade em termos de andares de vegetação e outras de clareira mais simples e diversas associações vegetais que se desenvolveriam segundo as condições microclimáticas, geomorfológicas e fisiográficas do lugar.
A biogeografia e fitossociologia da flora açoriana ainda se encontram em estudo. Rivas-Martínez et al. propuseram a seguinte tipologia biogeográfica para o Arquipélago dos Açores: Reino Holártico - Região Eurossiberiana - Subregião Atlântico Centroeuropeia - Província Atlântica Europeia - Subprovíncia Açoriana. Os mesmos autores identificaram sete sectores nesta subprovíncia, coincidentes com as seguintes ilhas ou grupos de ilhas: Santa Maria e Formigas; São Miguel; Terceira; Pico; Faial; São Jorge e Graciosa; Flores e Corvo.172 No entanto, em 2006, e após investigações dedicadas a este arquipélago Carlos Aguiar et al propõem a elevação da Subprovíncia Açoriana à categoria de Província – Província Açoriana – e a sua partição em três sectores: Sector Açoriano Oriental, Açoriano Central e Açoriano Ocidental.173 Esta divisão está de acordo com a ideia de que pelo menos no Grupo Central e Ocidental existe uma certa semelhança na vegetação.174
Sjögren elaborou, em 1973, um estudo sobre as comunidades das ilhas,175 e Lüpnitz concretizou estudos nesta área em 1975.176 Foram também elaborados estudos no sentido de uma revisão da vegetação existente por Hansen e Sunding em 1993177 e por Schäfer em 2003.178 Estudos relativos a este tema continuam a decorrer nos pólos de Angra e de Ponta Delgada da Universidade dos Açores em colaboração com universidades continentais e estrangeiras: deles decorrem as mais recentes listagens de vegetação, nomeadamente a listagem elaborada pela Universidade dos Açores disponível on line inserida na “Base de dados da biodiversidade dos Açores”.179 Considera-se, no entanto, que, uma vez que estudos fitossociológicos mais recentes não se encontram ainda publicados, a aproximação à vegetação que mais
170 PEREIRA, C.et al, op. cit. p 13. 171 DIAS, E. et al (2007) op. cit. p. 144.
172 RIVAS-MARTÍNEZ, S. et al - “ Vascular plant communities of Spain and Portugal. Addenda to the Syntaxonomical Checklist of 2001.
Part.1.” “Itinera Geobot.” 15(1) (2002) cit. por AGUIAR C. et al - “Plantas vasculares endémicas do arquipélago dos Açores” in “Guia da Excursão Geobotânica: A paisagem vegetal da Ilha Terceira (Açores).” DIAS, E. et al (eds.) Angra do Heroísmo: Universidade dos Açores, 2006. p. 71.
173 AGUIAR C. et al, op. cit. p. 71.
174 Como referido por BORGES, P. et al (2005b) op. cit. p. 57.
175 Este autor dividiu a vegetação do arquipélago em quatro alianças: 1. Mercurion annuae (com muita vegetação introduzida,
característica de zonas habitadas e agrícolas até aos 300 metros); 2. Festucion petraeae (da zona costeira aos 100 metros, raramente até aos 300m, é a que cobre maior área a seguir ao Juniperion brevifolii com três associações. Integra vegetação natural costeira) 3. Litorello-eleocharion (de zonas húmidas) 4. Juniperion brevifolii (de altitude, com três associações. Representa a laurissilva húmida e hiperhúmida e os prados naturais e seminaturais de montanha). SJÖGREN, E. - “Recent changes in the vascular flora and vegetation of the Azores islands”. “Separata de Memórias da Sociedade Broteriana”. Vol. XXII. 1973 (Julho).
176 LÜPNITZ, D. - “Geobotanische studien zur natürlichen vegetation der azoren unter berücksichtigung der chorologie innerhalb
makaronesiens”. Beitr. Biol. 51(1975) pp. 149-319.
177 HANSEN, A; SUNDING, P .- Flora of Macaronesia. Checklist of vascular plants. 4 revised edition”. “Sommerfeltia”. 17(1993) pp. 1-
295.
178 SCHÄFER, H. - “Chorology and Diversity of the Azorean Flora. II: Commented Checklist of the Azorean Flora and Distribution Atlas of
Flores, Faial and Santa Maria”. “Disertations Botanica”. 374(on enclosed CD) (2003) pp. 1-536.
179 SILVA, L. et al - “Base de dados da biodiversidade dos Açores: plantas vasculares”. [on line] Universidade dos Açores. [consulta em
serve o interesse desta investigação é a aproximação de base ecológica que tem sido desenvolvida por Eduardo Dias e que se apresenta seguidamente.
Eduardo Dias et al identificam seis tipos fundamentais de vegetação natural dos Açores cada um com diversas comunidades integradas:180 vegetação das zonas costeiras; vegetação de zonas húmidas; florestas naturais; charnecas ou matos atlânticos; prados naturais; e as formações colonizadoras de campos de lava recentes.181 Aos diversos tipos de vegetação correspondem formas de paisagem diferenciadas, que foram sendo gradualmente apropriadas pelos habitantes das ilhas segundo a sua aptidão para o uso humano. As zonas de floresta natural localizadas a uma altitude mais baixa e mais próximas da costa terão sido as primeiras a ser alteradas, uma vez que se encontravam nas áreas mais aptas para a implantação das actividades humanas.
Na presente investigação são descritas mais pormenorizadamente as florestas naturais e a vegetação costeira, as primeiras porque seriam as formações vegetais de maior complexidade estrutural dos Açores, características de amplas zonas da paisagem natural, e que actualmente se encontram praticamente extintas em grande parte das ilhas ou restritas a zonas mais inacessíveis. As manchas ainda existentes são, portanto, de grande valor natural e encontram-se geralmente em áreas protegidas. A vegetação costeira é alvo de atenção especial uma vez que se encontra actualmente ameaçada por uma maior intensidade de actividades humanas e por ser aqui que se encontra o caso de estudo à escala do lugar. A flora costeira, de características mais xeromórficas, exibe uma considerável diversidade e valor para a conservação de que é exemplo a vidália (Azorina vidalli)a única planta de um género exclusivamente açoriano.182 Dá-se também uma especial atenção às zonas húmidas de altitude, nomeadamente às turfeiras, pela sua singularidade como comunidade característica de ecossistemas norte-europeus no seio da Macaronésia e pelo importante papel ecológico que desempenham.
A linha de costa pode ser considerada como a fronteira da ilha mas também como um habitat marginal, de partida e chegada de propágulos de plantas e outros seres vivos por meio da acção dos ventos e das águas.183 Este facto, associado à erosão marinha e eólica, faz com que seja na zona costeira que as mudanças na paisagem são primeiramente notadas e se fazem sentir com mais intensidade, mesmo sem a acção do homem.184 A vegetação costeira localiza-se na linha de costa propriamente dita mas também integra os matos costeiros que se encontram nas proximidades. Tem como particularidade ser um tipo de vegetação bastante distinta da do interior das ilhas, muitas vezes de características marcadamente mediterrânicas.185 As comunidades que aqui se observam são a vegetação das costas rochosas, os prados halofíticos e a vegetação dunar.186 O primeiro tipo é o mais frequente uma vez que o segundo foi geralmente transformado em zonas agrícolas e o terceiro tipo necessita de dunas, formações geológicas raras no arquipélago.187 Aquilo que diferencia estes três tipos de comunidades é fundamentalmente o tipo de substrato (rocha, solos ou areia) onde se encontram. As situações mais comuns são as costas rochosas e o calhau rolado.
A comunidade de vegetação das costas rochosas é a mais frequente em todas as ilhas e abrange a vegetação que se instala tanto sobre mantos lávicos recentes como mais antigos e erosionados, e em praias de calhau rolado. É uma comunidade com vegetação geralmente herbácea de pequena dimensão, esparsa e
180 O inventário total das comunidades vegetais ainda se encontra incompleto, mas já existem mais de vinte comunidades descritas
DIAS, E. et al (2005) op. cit. p. 123.
181 As formações colonizadoras de campos de lava recentes foram já referidas. DIAS, E. et al (2005) op. cit. p. 123. 182 SJӦ GREN, E. - “Plants and flowers of the Azores”. Erik Sjögren (ed.), 2001. p. 26.
183 MAC ARTHUR, R.; WILSON, E. op. cit. p 139.
184 Neste estudo considera-se como zona costeira aquela onde se verifica a deposição de sal marinho sobre as comunidades vegetais
terrestres de forma permanente, quer seja por meio da água e das marés quer como consequência de ventos salgados. Conforme DIAS, E. (1996) op. cit. p. 62.
185 DIAS, E. (1996) op. cit. p. 58. 186 DIAS, E. et al (2005) op. cit. p. 131. 187 Idem, ibid.
107 muito resistente à salinidade. As espécies mais frequentes são a Festuca petraea, o Asplenium marinum, o
Crithmum maritimum o Juncus acutus, a Euphorbia azorica, a Spergularia azorica e a Corema album ssp. azorica, entre outras.188 É aqui também que se encontra uma das espécies mais ameaçadas do arquipélago e o único género açoriano, a Azorina vidalii.189 Por se encontrarem em situações de fronteira estas formações são sujeitas ao avanço de espécies introduzidas como o chorão (Carpobrotus edulis).
Os prados halofíticos suportam condições de acentuada salinidade e surgem, na actualidade, de modo apenas residual em zonas intensamente aproveitadas para a agricultura.190 São formações que se instalam após a linha de costa em terrenos relativamente ricos mas com distúrbios frequentes (naturais ou antrópicos) que impedem o desenvolvimento de formações arbóreas. Estas formações apresentam uma grande diversidade: quando o prado é muito rasteiro e esparso, observa-se um domínio da diabelha (Plantago
coronocarpus);191 em prados ligeiramente mais altos a diversidade florística é inversamente proporcional à dominância por Festuca petraea e inclui herbáceas altas como a Daucus carota ssp. azorica, o Foeniculum
vulgare e o Atriplex prostata e arbustos como a urze (Erica azorica);192 quando o declive aumenta (em zonas de arribas e falésias) a comunidade simplifica-se e o domínio da Festuca petraea torna-se patente.193 Os prados halofíticos altos (com altura até 1 metro) surgem em situações muito particulares, nomeadamente nas fajãs com lagoas e cascatas de S. Jorge e das Flores. São comunidades diversificadas mas em que existe um forte domínio de cubres (Solidago sempervirens), do qual a Fajã dos Cubres de S. Jorge tomou o nome.194 A maior parte das zonas de potencial expressão de todos estes prados são actualmente intensamente ocupadas pelo homem, nelas se encontram diversas espécies introduzidas como a cana (Arundo donax) e a lantana (Lantana camara). A vegetação dunar apresenta também uma expressão muito localizada, encontra-se na Praia da Vitória (Terceira) e no Porto Pim (Faial). Nas dunas encontram-se populações de vegetação herbácea com Spartina versicolor (patente nas dunas do Monte da Guia) e exemplares arbustivos ou arbóreos de tamargueiras (Tamarix africana).
Os matos costeiros surgem no limite da zona de influência directa do mar, caracterizam-se por sobreviverem na presença de ventos marinhos, solos salinizados e muitas vezes em áreas com um período estival relativamente pronunciado.195 Estes matos servem como comunidades de transição para outras formações que se localizam mais para o interior da ilha e são de grande importância por formarem uma barreira aos ventos marinhos e permitirem a existência de vegetação mais delicada em lugares abrigados. Os matos costeiros podem ser de urze (Erica azorica); de faia (Morella faya) e matos mistos. Eduardo Dias afirma que na forma mais característica de organização espacial os matos de urze se situam numa faixa mais próxima da costa, seguidos por uma faixa de matos de faia que depois faz a transição para as formações mais interiores.196 O incenso (Pittosporum undulatum) partilha das mesmas necessidades ecológicas destes matos, pelo que o seu avanço tem ditado, nas áreas abrigadas, o recuo das formações mais antigas. No entanto, em zonas de grande exposição e défice hídrico estes matos mantém-se porque o incenso não tem condições de se instalar. 197
188 DIAS, E. (1996) op. cit. p. 74; DIAS, E. et al (2005) op. cit. p. 131.
189 DIAS, E. - “Património vegetal dos Açores: uma análise descritiva”. “Atlântida: revista de cultura”. Angra do Heroísmo: Instituto
Açoriano de Cultura. Vol. XLVI (2001) pp. 256; MARTÍN, J. et al (eds.) - “Top 100: Las 100 especies amenazadas prioritárias de gestión en la región europea biogeográfica de la Macaronesia”. Canarias: Consejería de Medio Ambiente y Ordenación Territorial, Gobierno de Canarias, 2008.
190 DIAS, E. et al (2005) op. cit. p. 131. 191 DIAS, E. (1996) op. cit. p. 78. 192 Idem, ibid.
193 Idem, ibid.
194 DIAS, E. (1996) op. cit. p. 78. 195 Idem, p. 80.
196 Idem, ibid. 197 Idem, ibid.
Em condições de extrema intensidade de ventos, nomeadamente em cristas e arribas costeiras surgem matos de urze ou vassoura (Erica azorica) cuja densidade depende da intensidade destes.198 Estas são formações azonais compostas praticamente por uma única espécie com todos os indivíduos aproximadamente da mesma altura. A pobreza dos solos geralmente delgados ou pedregosos e com pouca capacidade de retenção de água e a presença de períodos de secura estival são factores que - aliados ao vento - ditam a ausência de outras espécies mas a permanência da urze, que tem como único requisito não suportar condições de encharcamento.199 Tal como os anteriores os matos de faia (Morella faya) encontram- se geralmente sobre substratos geológicos pobres, por vezes lavas recentes, e suportam períodos de secura estival. Estas são comunidades baixas e mono-estratificadas, estruturalmente pobres e dominadas pela faia, que requerem contudo um certo grau de abrigo em relação aos ventos marinhos.200 O incenso (Pittosporum
undulatum) exerce uma forte pressão sobre esta comunidade natural e o processo pelo qual se dá a
substituição dos matos de faia pelos de incenso parece basear-se, segundo Eduardo Dias, no facto dos exemplares juvenis de faia não suportarem ensombramento enquanto este não é um problema para os exemplares juvenis de incenso. Assim, a partir do momento em que a densidade e porte dos indivíduos de incenso excedem em altura os de faia a comunidade de faia, que precisa de luz, não consegue regenerar- se.201 Em zonas de lavas recentes surgem matos mistos onde se observa a presença de cedro-do-mato (Juniperus brevifolia) que na zona costeira pode tomar o nome de zimbro. Estas formações tem uma maior complexidade do que as anteriores e são constituídas por mosaicos que variam segundo a posição em relação a condições orográficas particulares: nos pontos mais altos surgem matos densos com urze (Erica
azorica), faia (Morella faya), zimbro (Juniperus brevifolia) e por vezes Myrsine africana, bem como o incenso;
nas zonas mais baixas o coberto tem um porte diminuto e é constituído por espécies como a Corema album, a Silene vulgaris ssp. maritima e o Crithmum maritimum para além de elementos herbáceos com a Festuca
petraea e a Daucus carota ssp. azorica. 202
A vegetação das zonas húmidas dos Açores varia com a altitude mas é nas zonas mais altas das ilhas que habitualmente se verificam as condições de aporte contínuo de água e impermeabilização dos solos que favorecem o surgimento de lagoas, pequenos charcos, prados encharcados e turfeiras.203 Estas condições são, geralmente, a presença de horizontes plácicos impermeabilizantes e de um relevo característico, como alguns pequenos vales fechados, grandes caldeiras e vastas zonas planálticas, onde a água pára e permanece à superfície.204 As zonas húmidas de altitude surgem em todas as ilhas, potencialmente a partir dos 350 metros mas geralmente a partir dos 700 metros, quando se dá a passagem para a zona de montanha e o encharcamento permanente do solo.205 As excepções são Santa Maria e Graciosa, as duas ilhas mais baixas onde não existem condições ambientais para a sua formação. De entre os modos como a água marca presença nesta paisagem destacam-se as lagoas, pela sua importância como reservatórios naturais de água, e as turfeiras, prados naturais de esfagno (Sphagnum sp.) que são uma presença frequente na paisagem de altitude. As turfeiras, em conjunto com os prados encharcados e as pequenas lagoas que se formam quando existe algum declive de base são frequentemente a origem das cabeceiras das linhas de água existentes nas ilhas.206
Os investigadores que se dedicaram ao estudo das zonas húmidas açorianas de altitude referem as semelhanças destas com as comunidades boreais, de influência atlântica, e por isso adoptam as
198 DIAS, E. et al (2005) op. cit. p. 131. 199 DIAS, E. (1996) op. cit. p. 265. 200 DIAS, E. et al (2005) op. cit. p. 131 201 DIAS, E. (1996) op. cit. p. 82. 202 DIAS, E. et al (2005) op. cit. p. 132. 203 DIAS, E. (1996) op. cit. p. 93. 204 Idem, p. 94.
205 MENDES, C.; DIAS, E. - op.cit. p.11. 206 DIAS, E. (1996) op. cit. p. 101.
109 terminologias usadas pelos autores nórdicos - como é o caso das turfeiras.207 Estas são geralmente classificadas em função da natureza da água que permite a sua existência, se é proveniente da pluviosidade e por isso ácida e pobre em nutrientes designam-se por bog, se recebe também água com origem no sistema de drenagem circundante ou lençóis freáticos superficiais próximos designa-se por fen.208 Os bogs estão associados à presença de briófitos do género Sphagnum spp. enquanto os fens se desenvolvem a partir da acumulação de gramíneas e ciperáceas.209 Fisionomicamente os fens correspondem, nos Açores, aos prados encharcados que surgem tanto em redor de lagoas como em pequenas bacias endorreicas ou mesmo em encostas, com a presença de plantas como o Cyperus spp., o Juncus acutus, a Carex spp, e a Eleocharis spp.210
As turfeiras são ecossistemas característicos dos Açores, no âmbito da Macaronésia.211 Esta é a posição mais a Sul onde surge este tipo de comunidades, no âmbito da bacia do Atlântico Norte. O esfagno (Sphagnum sp.) teve origem nas regiões euro-siberiana e atlântica norte-americana,212 tendo chegado a estas ilhas no período pós-glaciações por intermédio de aves.213 Este género de musgo tem uma enorme capacidade de retenção de água já que as suas células funcionam como esponjas naturais, retendo cerca de 20 vezes do seu peso em água,214 libertando-a posteriormente de um modo gradual e actuando activamente na regulação do ciclo hidrológico das ilhas, tanto ao nível do controlo do escoamento superficial como na alimentação dos aquíferos subterrâneos.215 A sua elevada capacidade de troca catiónica permite a obtenção de nutrientes a partir da água enquanto diminui o pH do meio, o que aumenta a sua vantagem competitiva em relação às outras plantas e simultaneamente fixa os iões metálicos, patogenes e outras substâncias tóxicas “purificando” a água.216 Deste modo, as turfeiras de esfagno são frequentemente encaradas como um macro-organismo pelas suas capacidades de auto-construção.217 As maiores áreas com turfeiras existem nas Flores, Terceira e Pico mas também existem zonas mais pequenas em São Jorge, no Faial, em São Miguel e no Corvo. As ilhas e Santa Maria e Graciosa não possuem este tipo de comunidades.218
Entre as diversas comunidades de turfeiras de Sphagnum sp. existentes no arquipélago destacam-se, pela sua singularidade, as turfeiras de encosta florestadas, que são uma comunidade endémica dos Açores,219 e a associação entre as turfeiras e os bosques de azevinho (Ilex perado ssp. azorica) e de cedro (Juniperus brevifolia). A turfeira de encosta florestada é formada por duas sub-comunidades distintas: um manto contínuo de esfagno (Sphagnum spp.) em encosta declivosa e um coberto arbóreo de exemplares com copas abertas e porte reduzido de louro (Laurus azorica), uva-da-serra (Vaccinium cylindraceum), cedro (Juniperus brevifolia), azevinho (Ilex perado ssp. azorica) ou urze (Erica azorica).220 A aparente incongruência
207 Uma turfeira é um ecossistema em que o nível da água se encontra perto, acima ou à superfície do terreno e em que o
encharcamento é tal que permite que se desenvolvam processos físicos e químicos de solos mal drenados, onde se verifica a presença de falta de oxigénio. Como consequência desenvolve-se um tipo de vegetação própria que consegue resistir a condições adversas para a maioria das plantas e que é promotora da formação de um substrato pedológico rico em matéria orgânica que se designa por turfa. Para que se possa designar por turfeira uma comunidade formadora de turfa é necessário que a acumulação deste material seja de pelos menos 40 cm. MENDES, C.; DIAS, E. - “Ecologia e vegetação das turfeiras de Sphagnum sp. da ilha Terceira (Açores).” Angra do Heroísmo: Herbário da Universidade dos Açores (AZU), 2001. Caderno de Botânica nº 5. p.21.
208 MENDES, C.; DIAS, E. op.cit. p.22. 209 Idem, p.22.
210 DIAS, E. (1996) op. cit. p. 120-122.
211 Em termos evolutivos são mais recentes do que a flora Terciária, pelo que existe uma quase ausência de endemismos, e a sua
origem está relacionada com o fluxo de aves migratórias vindas das zonas mais a Norte do planeta que passam pelos Açores. DIAS, E. (1996) op.cit. p. 26.
212 CAPELO, J. et al, (2006) op. cit. p. 28. 213 DIAS, E. et al (2007b) op. cit. p. 64. 214 Idem, p. 65.
215 MENDES, C.; DIAS, E. - op.cit. p.39. 216 Idem, p.39.
217 DIAS, E. (1996) op. cit. p. 117.
218 A partir da análise da cartografia apresentada em DIAS, E .et al - “Distribuição das principais manchas florestais: Açores”. Lisboa:
Edição Público, Comunicação social SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, 2007 (d ). Colecção Árvores e Florestas de Portugal vol. 6. p. 305.
219 DIAS, E. et al (2005) op. cit. p. 136. 220 Idem, ibid.
da presença de substrato permanentemente encharcado e de espécies arbóreas deve-se ao contínuo movimento da água, que evita as condições de falta de oxigénio e fornece os nutrientes provenientes de montante. Por outro lado o esfagno serve de meio de enraizamento para as outras espécies.221 Se a