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O texto é, indubitavelmente, a manifestação linguística socialmente mais comum no que concerne ao processo comunicativo; isto porque o texto é a unidade mínima de informação e de comunicação que para além de se complementar devem também funcionar de forma simultânea porquanto a informação é transmitida a um leitor/receptor de quem se espera uma reacção. Essa resposta poderá passar pela incorporação da informação no seu sistema de conhecimentos ou pela alteração comportamental esperada, dependendo sempre do conteúdo do texto. Considera-se, assim, o texto como mensagem e acto de fala na medida em que não existem modelos semelhantes que pressuponham estas duas componentes, independentemente do tamanho que o mesmo apresente; o texto pode ser simples e breve, pode abarcar apenas uma frase ou, pelo contrário, ser complexo, extenso e intrincado, composto por um desfilar de frases. Contudo, o objectivo que preside a cada uma das categorizações antes enunciadas é idêntico: pretende-se, através do recurso ao texto, chegar a um intercâmbio linguístico, a uma troca de informação com o leitor/receptor que ofereça ao texto essa capacidade comunicacional de que dispõe, afastando-se, assim, de outras realizações como as palavras ou as frases, apesar da existência de significação em cada um dos elementos antes referidos.

Para alcançar tal objectivo, o texto, na sua elaboração e na forma como se constitui, pressupõe a assunção das regras e de todos os mecanismos pragmáticos – como o são, aliás, as relações contextuais – por forma a garantir, na medida do possível, o maior grau de fluidez e de economia discursiva, recorrendo à lógica, mas também apelando ao contexto que o leitor possa, eventualmente, possuir. Este é o caminho que se deve trilhar para garantir a existência de legibilidade, algo que é, grandemente, assegurado pelo recurso à coerência e à coesão pois contribuem para a organização da informação ou do conteúdo, enformando a sequencialização que lhe é inerente.

Foram estas, até agora, as preocupações que temos vindo a analisar, isto é, a construção correcta e adequada do texto, fruto da simbiose entre enunciados e regras de planificação, redacção e revisão de textos, para além da preocupação implícita com as regras básicas da língua; o resultado final desta abordagem era, como dizíamos, um texto gramaticalmente imaculado, devidamente preparado, coeso e coerente quer interna, quer externamente, um texto, enfim, inteligível. Contudo, e salvaguardando a importância e relevância dos aspectos antes referidos, devemos agora preocupar-nos e centrar a nossa atenção na forma como os diferentes enunciados se adaptam à especificidade de cada situação comunicativa. Assim, e considerando o texto na perspectiva da situação de comunicação, devemos entendê-lo como algo que vai mais além do armazenamento e

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transmissão de informação pois para que se adeqúe à situação de comunicação, o texto deve actuar sobre os leitores/destinatários do mesmo, tentando obter da parte destes uma reacção, que pressuporá o recurso à informação já disponível previamente, que a mesma seja reorganizada em função do novo contexto e da sua chamada à colação, levando, assim, a que o leitor relacione o texto com os seus saberes prévios e com a atitude que o mesmo deve tomar em função da nova realidade, veiculada pelo texto.

Este comunicará, então, com o seu leitor, sempre e quando o leve a mobilizar os seus saberes prévios e daí decorra uma atitude, uma mudança, uma alteração relativamente ao ponto inicial, prévio ao contacto com o texto. Esta resposta, por parte do leitor, que requer dois campos de actuação, como sejam o saber prévio e a descodificação da informação constante no texto é, indubitavelmente, uma resposta complexa e não isenta de potenciais problemas ou, pior ainda, de falhas colossais, fruto de uma qualquer ausência de competências em algum dos níveis antes referidos. Esta complexidade, mais especificamente a existência de alguma lacuna num destes dois âmbitos, levará a que os textos possam carecer de análises, explicações, comentários ou até, eventualmente, de textos adicionais que permitam clarificar e descodificar melhor a mensagem inicialmente veiculada.

O conceito de texto, especialmente a sua abordagem teórica, tem vindo, portanto, a ser encarada de diferentes formas e, por esse motivo, trabalhada e analisada através de diferentes perspectivas, na procura da delimitação da competência textual dos escreventes. Historicamente, de acordo com Marcuschi (1999), Koch (2004) e Bentes (2006), podemos entender o texto como uma unidade linguística maior do que a frase, que seria desenvolvida através de uma transposição dos estudos da frase para o estudo do texto; num outro momento, o texto é enquadrado em gramáticas textuais, com um funcionamento autónomo relativamente à gramática geral. Assim, o texto passou a entender-se como uma unidade linguística superior, regida por regras universais, sistemáticas e sistémicas que ofereceriam ao escrevente a capacidade de produzir, reformular e perceber diferentes tipos de textos. Posteriormente o texto passou a ser abordado numa perspectiva bastante mais próxima da pragmática, porquanto é entendido como unidade de comunicação, fruto da aplicação ao texto da teoria dos actos de fala; finalmente este corte pragmático tem vindo a desenvolver- se e a aprofundar-se em função dos estudos de Van Dijk (1987), que pressupõem a existência de macroestruturas semânticas e pragmáticas, isto é, defendem que a coerência textual dependerá sempre da relação pragmática entre escrevente e leitor e a cosmovisão que ambos partilham.

Um texto é, apesar da difícil definição que lhe é inerente, uma realidade consideravelmente bem delimitada e definida, para além de ser facilmente reconhecível, fruto da sua disseminação e da homogeneidade que o reveste. Ainda assim, e apesar dessa uniformidade, o texto permite uma variação relativamente alargada, algo que acaba por originar diferentes classificações, estabelecendo categorias em função de critérios diversos.

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As produções textuais, os enunciados, podem referir-se à realidade em função de objectivos diversos, seja reproduzindo-a num dado momento, seja colhendo dela características comuns a ocorrências semelhantes para representá-las posteriormente em cenários idênticos; cada uma destas possibilidades acaba por perder para aspectos de índole diversa porquanto a primeira remete para informação concreta, fruto de acontecimentos reais, e a segunda para conceitos abstractos. Podemos, assim, defender que os enunciados concretos se constroem baseados em acontecimentos, acções e objectos cujo enquadramento espácio-temporal é facilmente identificável, enquanto que os enunciados abstractos se associam de forma mais imediata a conceitos, pensamentos ou ideias gerais, pelo que não possuem uma existência marcada no espaço e no tempo, antes funcionam como considerações genéricas que podem pré-existir ou prolongar-se eternamente no tempo pois a sua existência não é mais do que uma consideração mental, o que faz com que funcione como uma generalização.

A organização interna do texto permite, ainda, uma outra cisão, para além da forma como se referem à realidade, e que está directamente associada à forma como a informação é agrupada e transmitida em determinado texto, podendo esta ser veiculada sequencialmente, organizando as acções em função de uma ordem lógica ou cronológica ou, em alternativa, cumulativamente mediante uma mera justaposição dos enunciados, independentemente da ordem ou do vínculo que as acções possam apresentar; podemos assim, apresentar – sob a forma de tabela – o modo como a informação pode ser difundida no caso de um enunciado escrito:

Informação concreta

Informação abstracta

acumulação descrição exposição

sequencialização narração argumentação

A descrição possui um carácter atemporal e pode excluir laços de causalidade entre os seus elementos visando a exposição das características inerentes a locais ou objectos com maior ou menor profundidade, sem ordem ou final que possa prever-se. Devemos, ainda assim, sublinhar o facto de que a descrição não constitui, regra geral, um texto completo, antes forma segmentos que, habitualmente, compõem textos mais amplos e abrangentes. A exposição é composta por ideias, pensamentos e opiniões de um modo quase comparativo e sem demasiadas preocupações com a ligação entre os diferentes momentos, porquanto funciona como apresentação discursiva de reflexões cujo centro gravitacional será um objectivo, uma ideia ou um conceito. Aproxima-se, assim, mais de um catálogo de ideias do que de um entrelaçado de conjecturas pois o seu objectivo último é o de vincar a existência dessas mesmas ideologias e não a legitimação dessa forma de pensar. A narração aproxima-se

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da descrição em termos de campo de trabalho mas afasta-se dela no que concerne à forma como encara, e trabalha, os objectos e os locais a que se refere; assim, a narração ordena os acontecimentos, relacionando-os e marcando-os temporalmente, oferecendo-lhes uma sequência e autonomia que a descrição não garante. Caracterizar-se-á, assim, pela assunção de dúvidas e resolução de questões que surgem como reflexo dos acontecimentos ocorridos e de outras acções co-relacionadas que se organizam, assim, numa unidade diacrónica, fruto de uma sequência temporal, que contribui de forma indelével para o desenlace final. O relato de factos associados à narração pode estar, amiúde, isento de qualquer sentido, porquanto poderá caber ao leitor/receptor – de forma exclusiva – retirar dele um significado genérico; assim, podemos considerar a existência de significados que podem estar implícitos, que subjazem por trás das acções que as personagens vão levando a cabo, significados indirectos que decorrem de possíveis generalizações levadas a cabo pelos intervenientes ou, finalmente, significados directos que derivam de reflexões explicitadas pelo próprio narrador. A argumentação tem a seu cargo a relação dos elementos concretos com as abstracções que deles possam derivar desenvolvendo-se com base no pressuposto de que poderá relacionar-se o saber que deriva de informação já conhecida para a obtenção de nova informação, isto é, aproveitando um conjunto de premissas que originem uma nova tese. Deve ser tido em conta, contudo, que dado o facto da tese constituir, de alguma forma, informação nova, esta não deverá nunca ser uma verdade evidente, nem fazer parte da matriz de conhecimentos do seu receptor posto que, assim, esvaziar-se-ia o papel desempenhado pelas premissas, que visam tão somente a assimilação da tese por parte do receptor do texto, diminuindo as possíveis resistências que este possa ter em relação ao tema.

Parece-nos, contudo, que a tabela antes apresentada não deve ser entendida com um fim em si mesma, porquanto as estruturas tipicamente associadas ao texto não são demasiado rígidas; significa isto que que as formas cumulativas não compõem, facilmente, textos completos, fruto da dificuldade em levar a cabo as necessárias ligações dos conteúdos individuais, enquanto que, por outro lado, narração e argumentação funcionam bem como elementos complementares aquando da construção de um texto. Este será, em termos genéricos, aquele que combine dados concretos com ideias abstractas, algo que permita uma súmula entre a ligação do texto ao mundo e a experiência, a par da possibilidade oferecida pelas abstracções de que haja uma referenciação entre conceitos e acontecimentos, fruto das generalizações que lhe são permitidas.

Podemos, assim, concluir que os dados concretos carecem de abstracções, na medida em que estas lhes oferecem sentido e os organizam, para além de que deve ser tido em linha de conta que as abstracções devem fundar a sua base na experiência e em ocorrências diversas. Será esta síntese que, a cumprir-se, proporcione uma maior coerência ao texto e, assim, lhe garanta um potencial comunicativo muito mais abrangente, ao guiar o leitor pelo caminho das generalizações proporcionadas pelos casos concretos. Parece-nos, portanto, que um texto, por forma a cumprir o seu desiderato comunicativo, deve beber um pouco de cada

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uma das secções antes enunciadas pois só assim será possível levar o leitor a traçar o caminho expectável entre os dados, o sentido do texto e o resultado que se pretende alcançar.