7 DISKUSJON
7.1 Årsaker og konsekvenser ved vaksinemotstand
A estrutura do livro de Apocalipse sempre foi alvo de grandes discussões.124 Collins, além de analisar as possibilidades levantadas durante a história da leitura do livro, defendeu em sua abordagem que a parte propriamente visionária (Ap 4.1-22.5), poderia ser dividida em dois blocos, com o segundo começando no capítulo 12. Para ela, a narrativa do Dragão e a Mulher (Ap 12) seria central dentro da obra, tanto por ser a porta de abertura para o segundo
122 BARR, David L. Beyond Genre, p. 86.
123 Conferir a discussão e classificação dos ritos em CROATTO, J. S. As linguagens da experiência religiosa:
uma introdução à fenomenologia da religião. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 353-360.
124 Conferir as principais propostas em COLLINS, Adela Yarbro. The Combath Myth in the Book of Revelation.
Eugene: Wipf and Stock Publishers, 2001, p. 13-44. Collins alerta, ainda, que o Apocalipse é um texto que, apesar de apresentar certos sinais que indicariam uma estrutura clara (os sete selos, por exemplo), não a tem tão clara assim, deixando os leitores com certa expectativa frustada. Seu alerta, entretanto, não a impede de argumentar que o livro foi cuidadosamente planejado por seu autor.
ciclo de visões (12.1-22.5) quanto por explicitar o mito de combate, que formaria a estrutura básica do livro de João.125
Barr126 acompanhou de perto as conclusões de Adela Collins. Entretanto, em vez de
focar no mito de combate, ele argumentou que a base do livro seria a tradição da guerra santa encontrada nas tradições judaicas. Ele sugeriu que o Apocalipse de João poderia ser dividido em três seções principais, emolduradas numa estrutura epistolar (os versículos 1.1-3 formariam o prefácio; enquanto 22.6-21, a conclusão):
- Primeira seção (1.4-3.22); - Segunda seção (4.1-11.18); - Terceira seção (11.19-22.5).
Percebe-se uma divergência importante quanto ao início da terceira seção. Enquanto que para Adela Collins estaria em Apocalipse 12.1, para Barr está em 11.19. A abertura do santuário no céu formaria para Collins a conclusão da segunda seção, enq uanto Barr a percebe como o início da terceira.
A forma como o capítulo 12 começa, entretanto, (“e viu-se um sinal no céu”), parece ser uma marca estrutural deixada pelo visionário. No contexto do Apocalipse, Adela Collins possivelmente acerta, ao definir a abertura do santuário celestial como clímax de uma seção, em vez de uma introdução para outra. O santuário fecharia a narrativa do culto que começou em Apocalipse 4.1, e não necessariamente introduziria a seção da guerra que começa em 12.1.
125 Este é o esboço completo sugerido por Collins:
- Prólogo: 1.1-8 - Prefácio: 1.1-3 - Prescrição e ditos: 1.4-8 - As sete mensagens: 1.9-3.22 - Os sete selos: 4.1-8.5 - As sete trombetas: 8.2-11.19
- Sete visões não-numeradas: 12.1-15.4 - As sete taças: 15.1-16.20
- Apêndice da Babilônia : 17.1-19.10 - Sete visões não-numeradas: 19.11-21,8
- Apêndice de Jerusalém: 21.9-22.5 - Epílogo: 22.6-21
- Ditos: 22.6-20
- Bênção: 22.21.
Cf. COLLINS, Adela Yarbro. The Combath Myth in the Book of Revelation, p. 19.
126 BARR, David L. Tales of the End: a Narrative Commentary on the Book of Revelation. Santa Rosa:
59 Nesta pesquisa, então, optamos por acompanhar Adela Collins e apontar 12.1 como o início de uma seção. Quanto aos demais elementos, seguimos de perto as sugestões de Barr.127 Um esboço geral do Apocalipse pode ser acompanhado abaixo:
- Moldura epistolar (1.1-3) - Primeira seção (1.4-3.22)
Carta à Igreja em Éfeso (2.1-7) Carta à Igreja em Esmirna (2.8-11) Carta à Igreja em Pérgamo (2.12-17) Carta à Igreja em Tiatira (2.18-29) Carta à Igreja em Sardes (3.1-6) Carta à Igreja em Filadélfia (3.7-13) Carta à Igreja em Laodicéia (3.14-22) - Segunda seção (4.1-11.19)
O trono de Deus e seu culto (4.1–11)
A visão do livro selado com o conseqüente culto ao Cordeiro (5.1–14) O rolo selado com sete selos (6.1-11.19)
Selo 1 – Cavalo branco (6.1–2) Selo 2 – Cavalo vermelho (6.3–4) Selo 3 – Cavalo preto (6.5-6) Selo 4 – Cavalo amarelo (6.7-8)
Selo 5 – Os mártires debaixo do altar (6.9-11) Selo 6 – Juízo escatológico (6.12-17)
Interlúdio (7.1-17)
144.000 selados (7.1-8) Grande multidão (7.9–17) Selo 7 - Sete trombetas (8.1–11.19)
Oração dos “santos” (8.1–6)
Trombeta 1 – Granito e fogo sobre a terra (8.8-7) Trombeta 2 – Mar se torna em sangue (8.8-9)
127 Outras sugestões podem ser encontradas em ADRIANO FILHO, José. O Apocalipse de João como relato de
uma experiência visionária, p. 7-29; FIORENZA, Elisabeth Schüssler. Apocalipsis, p. 53-58; BAUCKHAM, Richard. The Climax of Prophecy, p. 1-37; AUNE, David E. Revelation 1-5, p. c-cv; LAMBRECHT, J. A Structuration of Revelation 4,1-22,5. In: J. Lambrecht (ed.). L’Apocalypse Johanique et l’Apocalyptique dans le
Trombeta 3 – Estrelas tornam rios amargos (8.10-11) Trombeta 4 – Sol, lua e estrelas escurecem (8.12-13)
Trombeta 5 – Gafanhotos sobem do abismo para causar dor (9.1-12) Trombeta 6 – Quatro anjos e um exército matam as pessoas (9.13-21)
Interlúdio (10.1-11.14)
O visionário come um livrinho (10.1-11) O visionário mede o santuário (11.1-2) As duas testemunhas (11.3-14)
Trombeta 7 – Vozes anunciam a chegada do reino (11.15–19) - Terceira seção (12.1-22.5) A origem da guerra (12.1-18) Os aliados do Dragão (13.1-18) A besta do mar (13.1-10) A besta da terra (13.11-18) A resposta do Cordeiro (14.1-22.5) O ajuntamento de 144.000 guerreiros (14.1-5) O anúncio dos três anjos (14.6-12)
A bem-aventurança dos mortos no Senhor (14.13) O juízo como uma ceifa (14.14-20)
As sete taças da ira (15.1-16.21)
Os vencedores cantam pela vitória (15.1-8) Taça 1: Dores nos marcados pela besta (16.1-2) Taça 2: O mar se torna em sangue (16.3) Taça 3: Os rios se tornam em sangue (16.4-7) Taça 4: O sol provoca feridas (16.8-9)
Taça 5: Trevas no trono da besta (16.10-11)
Taça 6: Rio Eufrates seca e a coalizão do Dragão se reúne (16.12-16) Taça 7: Juízo sobre Babilônia (16.17-21)
Interlúdio (17.1-18.24)
A prostituta destruída (17.1-18)
Hino fúnebre pela queda da Babilônia (18.1-24) Celebração no céu pela queda da Babilônia (19.1-4) O culto no céu anuncia as bodas do Cordeiro (19.5-10)
61 A primeira ofensiva do guerreiro divino (19.11-21)
Intervalo de paz por mil anos (20.1-6)
A segunda ofensiva do guerreiro divino (20.7-10) O juízo final (20.11-15)
As bodas do Cordeiro (21.1-22.5) - Moldura epistolar (22.6-21)
O visionário João inicia sua obra com a narrativa do aparecimento do Filho do Homem, que o vocaciona a escrever sete cartas para um grupo de igrejas da Ásia Menor: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia.128 Nestas cartas, a majestosa figura celestial faz ameaças, elogios e promessas, e termina cada carta com um convite para que os leitores se aliem ao grupo dos vencedores (Ap 2.7, 11, 17, 26; 3.5, 12 e 21). O conflito que precisa ser vencido, entretanto, ainda não está anunciado com clareza nesta seção.
Na segunda seção do livro, João é levado em espírito por uma porta aberta no céu. Neste lugar, ele presencia uma sucessão de atos litúrgicos. Neste culto celestial, o visionário é apresentado aos princ ipais personagens do livro, que o acompanharão até o final: o Ancião sentado sobre o trono, os Quatro Viventes, os Vinte e Quatro Anciãos e vários seres angelicais. O principal personagem, entretanto, é mesmo o Cordeiro. É ele que, durante uma parte do culto, recebe um rolo selado com sete selos, que serão quebrados para revelar para João a natureza de eventos que se deram ou se darão sobre a comunidade de “santos”. A cada selo corresponde uma revelação, até o sétimo que, em vez de encerrar a série, se desdobra em outro grupo de sete elementos, desta vez sete trombetas.129 Como os selos, cada trombeta está relacionada com um evento, numa escala crescente de intensidade, que culmina com a audição de um hino que comemora o reinado do Cordeiro e a abertura do santuário celestial.
A terceira parte do livro não se concentra mais no culto (apesar de ainda descrever, vez por outra, cenas litúrgicas no céu), mas numa guerra. O conflito começa quando o Dragão falha tanto em destruir a criança messiânica quanto num confronto com Miguel e seus anjos no céu. Derrotado, foi expulso para a terra. Sua reação é instaurar uma guerra contra os demais filhos da mãe da criança messiânica, “os que guardam os mandamentos de Deus e
128 Para uma visão geral das sete cartas, conferir AUNE, David E. The Form and Functions of the Proclamations
to the Seven Churches (Revelation 2–3). In: Aune, David E. Apocalypticism, Prophecy and Magic in Early Christianity: Collected Essays. Tübingen: Mohr Siebeck, 2006, p. 212-232; FRIEDRICH, Paulo Nestor.
Apocalipse 2–3, p. 149-73.
129 Segundo Yarbro Collins, o número sete nas duas séries simboliza a intensidade do segredo sobre os eventos
apresentam o testemunho de Jesus” (Ap 12.17). Sua estratégia bélica consiste em levantar
duas bestas, uma do mar e outra da terra. São elas que implementam o conflito. Os lados do confronto são logo definidos, já que as bestas marcam seus aliados com um número na testa e na mão. Em contrapartida, os aliados do Cordeiro recebem seu selo, o que define também o início da reação na guerra contra o Dragão, as bestas e seus aliados. Sobre o monte Sião, 144.000 homens virgens se reúnem em volta do Cordeiro, prontos para seguir com ele aonde ele for. Do confronto inicial, entretanto, resulta a morte desses guerreiros, cujo sangue é derramado em grande quantidade, descrito como uma ceifa escatológica.130 Mas suas mortes não representam suas derrotas, já que eles aparecem logo depois como os vencedores sobre um mar de vidro cantando o cânt ico de Moisés e do Cordeiro. Estas mortes completam o sangue que precisa ser derramado, provocando a ira de Deus sobre a humanidade, na forma de sete taças. Cada taça é derramada sobre elementos da terra, até que a última atinge a própria Babilônia, acusada de derramar o sangue dos profetas, dos “santos” e de todos que morreram. Após o juízo sobre a grande cidade, finalmente, o Guerreiro Celestial desce do céu com suas hostes para enfrentar a coalizão adversária. Sua vitória se dá em duas fases. Na primeira, as bestas são lançadas num lago de fogo, todo seu exército é morto com a espada que sai da sua boca e o Dragão é preso por mil anos. A segunda fase da guerra só se levanta após o término deste período intermediário de paz, quando o Dragão, novamente solto, mobiliza outro exército contra os “santos”. O fim desta coalizão, entretanto, é uma nova derrota, desta vez definitiva, quando o Dragão é jogado no mesmo lago de fogo onde já estavam as duas bestas. Seu exército também é queimado com fogo que cai do céu. Com o fim da guerra escatológica, o visionário finalmente descreve as bodas do Cordeiro, a descida da Nova Jerusalém, o lar final dos “santos” de Deus.
Dentro deste contexto maior, o episódio do Cordeiro e os 144.000 sobre o monte Sião (Ap 14.1-5) é parte da terceira seção do Apocalipse, propriamente da história da guerra entre o Dragão e o Cordeiro. O episódio segue imediatamente a descrição do levante das bestas no capítulo 13, com a conseqüente ameaça de morte para quem se negar a adorá-las, e antecede a narrativa dos mártires que cantam o cântico de Moisés no capítulo 15. Sobre o monte Sião acontece a mobilização do exército do Cordeiro.
Em função disso, Fiorenza argumentou que Apocalipse 14.1-5 tanto funciona para descrever a comunidade dos “santos” do Cordeiro, como para, no contexto literário, abrir a
63 série de juízos escatológicos do final do livro.131 Se é o início da reação do Cordeiro, a cena
poderia ser denominada de centro da terceira seção. Autores como Richard chegam a apontá- lo como núcleo de todo o livro,132 em razão mesmo da mudança narrativa que se dá a partir da
resposta do Cordeiro contra a ação das bestas escatológicas.
O episódio, desta forma, é o início da reação do Cordeiro. De um lado se colocam o Dragão e as bestas. Do outro, o Cordeiro e seus servos. O confronto se mostra pronto para começar, porque a guerra já foi declarada pelas bestas. As posições se percebem definidas e assumidas pelos dois lados.