4.2.1 Os mapas afetivos
Para a apreensão dos afetos, foi utilizada a metodologia dos mapas afetivos, desenvolvida por Bomfim (2003). A autora parte da teoria de mapas cognitivos desenvolvida por Lynch (1998), mas faz uma crítica ao enfoque excessivamente cognitivista do referido autor. Acrescenta, desta forma, o aspecto afetivo como grande fator agregador na percepção e conhecimento da cidade em termos da orientação espacial e das formas de apropriação e de organização do território, apresentando-nos os mapas afetivos como forma de apreensão de afetos e de levantamento de indicadores de afetividade dos sujeitos com relação ao seu entorno. Os mapas afetivos estão fundamentados na perspectiva do materialismo histórico- dialético de Vigotsky (1998), em uma avaliação dialética da afetividade em que, através da mediação do instrumento de pesquisa, há uma interação entre o investigador e o respondente, tendo como base o Simbolismo do Espaço na perspectiva da Psicologia Social e Ambiental.
Por intermédio de desenhos e de palavras-síntese, que auxiliam na interpretação e classificação dos desenhos pelos próprios entrevistados, vão surgindo aos poucos nessa avaliação dialética a percepção dos sujeitos e os seus sentimentos em relação ao seu lugar de morada. A utilização de metáforas, por parte dos entrevistados, tanto nos desenhos como nas palavras-síntese, apresenta-se como um fator importante e diferenciador, pois elas estão além da dimensão cognitivista, expressando uma forma de apreensão dos afetos. São, também, expressões do pensamento social, podendo ser uma síntese do próprio indivíduo sobre o sentido que o mesmo atribui ao seu lugar de morada.
As metáforas são recursos imagéticos que fogem ao sentido literal, cognitivo e prezam pelo sentido figurativo, que é mais emotivo. Apontamos a metáfora como um recurso de síntese, como função emotiva do discurso, de extrema relevância para a construção de instrumentos de avaliação da afetividade (BOMFIM, 2003, p. 209).
Os mapas revelam a afetividade e indicam a estima com relação ao entorno, apontando assim o nível de comprometimento dos sujeitos com o mesmo, proporcionando-nos também um conhecimento da comunidade e das suas especificidades através dos sentimentos
de seus moradores, havendo, assim, uma superação da dicotomia entre cognição e emoção. Quanto aos mapas afetivos, Bomfim acrescenta:
Eles são orientadores das estratégias de ação e avaliação dos níveis de apropriação (pertencer ou não pertencer a um lugar), apego (vinculação incondicional a um lugar) e de identidade social urbana (conjunto de valores, representações, atitudes que tomam parte da identidade do indivíduo no lugar) (BOMFIM, 2003, p. 212).
O instrumento gerador dos mapas afetivos é composto das seguintes partes18:
a) Desenho – Esta é a primeira etapa do instrumento. Nela, é pedido aos participantes que façam um desenho que expresse sua forma de ver, sentir ou representar a comunidade em que moram. Essa etapa tem como objetivo facilitar a expressão das emoções e, de acordo com Bomfim (2003), é tomado como primeiro passo para que possa ser deflagrado um processo representacional imagético, antes que o respondente possa passar para uma representação pela escrita.
b) Significado do desenho – Nesta etapa, pergunta-se ao sujeito qual o significado que o desenho tem para ele, assim, é esclarecido o que o respondente quis representar com o seu desenho. A interpretação deste é feita pelo próprio sujeito e não pelo pesquisador.
c) Sentimentos – Solicita-se, então, que a pessoa expresse quais os sentimentos que o desenho desperta nela. “Neste momento do processo de elaboração dos afetos, o estímulo inicial é o próprio item do instrumento de pesquisa que remetia o sujeito ao desenho, à sua própria criação e à representação da cidade” (BOMFIM, 2003, p.137).
d) Palavras-síntese – No passo seguinte, é solicitado que o sujeito escreva seis palavras que resumam seus sentimentos em relação ao desenho. Essas palavras podem variar entre sentimentos, qualidades etc.
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Onde se encontra a palavra comunidade, lê-se no instrumento original, elaborado por Bomfim (2003), a palavra cidade. Optou-se pelo termo comunidade pelo fato de que Tauá é um município marcado pela fragmentação em diversos distritos e comunidades rurais e como trabalharíamos com jovens moradores tanto da sede como da área rural, considerou-se a utilização do termo comunidade mais apropriado já que estamos estudando os afetos e a relação afetiva é expressa de forma mais marcada quando pensamos na localidade em que se mora.
e) O que pensa sobre a comunidade – Na quinta etapa, solicita-se que o sujeito expresse o que pensa sobre a comunidade em que vive. “Este item pode remeter o sujeito a uma nova construção de seus sentimentos sobre a cidade. Desta feita, não mais com o desenho, mas com elaboração textual” (BOMFIM, 2003, p.137).
f) Categorias da escala Lykert – São afirmações baseadas nas dimensões levantadas no pré-teste, voltadas para a avaliação que os respondentes fazem da comunidade em uma escala de 0 a 10. No instrumento, não é esclarecido ao respondente a que categorias pertencem tais afirmações.
g) Comparação da comunidade – Nesta etapa, pede-se que o sujeito faça uma comparação da sua comunidade com algo. Permite e possibilita a utilização de metáforas e “caracteriza-se por ser uma nova síntese de compreensão do sentido da comunicação complexa do afeto. Nesta etapa, o sujeito é convidado a elaborar imagens da cidade através de sua capacidade de fazer analogia e figurar o sentimento pela escrita” (BOMFIM, 2003, p. 139).
h) Participação em associação – A resposta aqui se dá de forma objetiva e o intuito é identificar se o sujeito participa de algum tipo de núcleo social dentro da comunidade, seja político, religioso, esportivo ou de outra natureza.
i) Dados pessoais – Esta é a ultima parte do instrumento e tem como objetivo coletar informações de interesse demográfico sobre os sujeitos entrevistados, como: sexo, idade, escolaridade, profissão, local de nascimento, distrito e comunidade em que mora, tempo de moradia na comunidade, local de nascimento, se exerce atividade remunerada, tipo de trabalho dos pais e grau de escolaridade dos pais.
4.2.2 Os grupos focais
Posteriormente, para um aprofundamento de questões relevantes ao tema da afetividade dos jovens de Tauá em relação à sua comunidade captadas no instrumento de apreensão dos afetos, utilizou-se o grupo focal, trazendo à tona diversos pontos de vista e informações sobre a migração hoje no município, assim como sobre a intenção de emigrar do
grupo estudado. Desta forma, os grupos focais trouxeram uma riqueza maior para o trabalho qualitativo, proporcionando uma melhor compreensão e um complemento das informações coletadas pelo instrumento principal sobre a realidade estudada.
O método dos grupos focais é considerado por Berthoud (2004, p.45) como um “método de pesquisa qualitativa que se baseia nas discussões grupais para coletar dados a respeito de um tópico predeterminado pelo pesquisador”. Neste método, de acordo com a autora, o pesquisador pode observar não somente as semelhanças e diferenças entre as pessoas, mas especialmente as fontes de suas diferenças e semelhanças através das reações que surgem no grupo e da interação entre os participantes. O método tem como importantes dados as ricas conexões que são feitas pelo próprio grupo sobre suas idéias, sentimentos e impressões sobre o tema proposto pelo pesquisador.
Krueger (2002, apud BERTHOUD, 2004) apresenta cinco características básicas do método que são:
1. Envolve pessoas: os grupos focais, tipicamente, são compostos por seis a dez pessoas, porém o número pode e deve variar em função dos objetivos e das características do estudo. O grupo pode ser pequeno o bastante para dar a cada participante a chance de compartilhar experiências e insights ou grande o bastante para propiciar diversidade de percepções e opiniões. Nesta pesquisa, procurou-se estabelecer grupos de oito participantes.
2. Pessoas com características específicas: os grupos focais são compostos por pessoas que possuem características em comum que são de interesse do pesquisador. Ou seja, os participantes são propositadamente selecionados em função de características previamente muito bem definidas pelo pesquisador. Foram estabelecidos, para esta pesquisa, grupos com características semelhantes como o nível de escolaridade, idade e escolas em que estudavam.
3. Resulta em dados qualitativos: os grupos focais são particularmente úteis para a compreensão das percepções, dos sentimentos e pensamentos das pessoas sobre temas, produtos, serviços ou oportunidades. Objetivou-se nesta pesquisa coletar informações sobre a afetividade dos entrevistados e como estavam sendo afetados pelo momento de decisão entre o ficar e o partir.
4. A discussão é focalizada: o pesquisador prepara cuidadosamente um guia de entrevista em função dos objetivos da pesquisa de modo que a discussão se centralize no tema
desejado. O tema da discussão foi a emigração e os fatores que influenciavam na decisão entre o ficar e o partir.
5. Ajuda a compreensão do tema de interesse: quando verdadeiramente apropriados para os objetivos da pesquisa que se deseja empreender, os grupos focais são um excelente método de obtenção de dados, o que possibilita uma compreensão ao mesmo tempo ampla e profunda do tema em foco.