• No results found

års fordeler, men kun utrede areal og ulemper tilsvarende 10 – 20 års drift

Os conflitos regionais que envolvem a China constituem a maior razão para o desenvolvimento do seu poder militar, sobretudo no caso de Taiwan, questão sobre a qual a China se mantém irredutível. Taiwan não é sequer motivo de ponderação por parte das autoridades chinesas que, aliás, fazem questão de o transmitir constantemente aos EUA. Nas palavras de Yang Jiechi, ministro chinês para os negócios estrangeiros:

“We will never waiver in our commitment to the one China principle and will never compromise our opposition to "Taiwan independence", "two Chinas" or "one China, one Taiwan". We hope that the US side will honor its commitments”75. Importa, aliás, referir que a China coloca mesmo a hipótese de um conflito à escala global no caso de ocorrer uma declaração de independência por parte de Taiwan, e subsequente reconhecimento internacional76.

Ora, é esta incerteza que tem motivado o desenvolvimento militar chinês. Segundo o general Loureiro dos Santos, mais de seiscentos mísseis de curto alcance encontram-se

75

Yang Jiechi, Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, num discurso intitulado “Broaden China- US Cooperation in the 21st Century”, 12 de Março de 2009, disponível em: http://www.fmprc.gov.cn/eng/zxxx/t542505.htm, acedido no dia 20/06/2011.

76

O general Loureiro dos Santos refere inclusivamente que o general Zhu Chenghu já proferiu declarações onde ameaça atacar centenas de cidades americanas com ogivas nucleares, no caso de surgir uma guerra com Taiwan. José Alberto Loureiro dos Santos, O Império Debaixo de Fogo: Ofensiva Contra a Ordem Internacional Unipolar, Europa-América, Mem Martins, 2006, p. 109

apontados a Taiwan, e a China já estabeleceu acordos navais com diversos Estados da região (entre os quais o Paquistão, o Camboja, o Bangladesh e a Tailândia) que lhe permitem intervir a qualquer momento na ilha77. O pressuposto para utilizar toda esta força é simples: se Taiwan declarar formalmente a independência, a China intervirá militarmente para forçar a integração da ilha.

Em todo este conflito, os EUA surgem colocados na posição difícil de evitar um conflito à escala global através de uma cedência: reconhecer que existe apenas uma China (a República Popular da China, com um regime autoritário) onde Taiwan (com um regime democrático e uma economia de mercado forte e semelhante à dos EUA) é também considerado como parte integrante de um regime comunista e autoritário.

A China, por seu lado, tem seguido uma via substancialmente diferente da ameaça militar e nuclear que caracterizou a sua estratégia em anos anteriores. Ao mesmo tempo que desenvolve uma estratégia para uma eventual invasão (no caso da proclamação de independência), a China tem apostado sobretudo numa estratégia menos agressiva, convencida de que a integração total e pacífica de Taiwan é meramente uma questão de tempo78. Por outro lado, o governo chinês está empenhado em dissuadir o apoio internacional a Taiwan, e o melhor exemplo desta estratégia encontra-se nos enormes investimentos e relações bilaterais que a China tem vindo a estabelecer com África, levando mesmo alguns países africanos a trocar as relações com Taiwan pela China79. Ora, sendo verdade que a tensão entre estes dois adversários permanece bastante elevada, também é verdade que os mais recentes desenvolvimentos revelam uma perda da força diplomática de Taiwan, o que constitui um sinal do poder crescente da China ao nível regional e internacional. Em todo o caso, Taiwan mantém-se como um dos maiores constrangimentos ao reconhecimento da China enquanto grande potência mundial, o que a impede de se afirmar politicamente no mundo.

A afirmação política da China fica igualmente mais limitada pela existência de outros conflitos internos onde, aliás, se verificam confrontos que não existem em Taiwan. É no Tibete e na província de Xinjiang que a contestação à China se tem feito no terreno. Enquanto que a questão de Taiwan envolve, na prática, um conflito entre dois Estados sem confrontos visíveis (mas com o sério risco de uma guerra de

77

José Alberto Loureiro dos Santos, op. cit. p. 108

78

Fareed Zakaria, The Post-American World: And the Rise of the Rest, Penguin Books, Londres, 2009, p. 123

79

Segundo Zakaria, de um total de vinte e três países que apoiam Taiwan, sete situam-se em África, e seis destes já trocaram o reconhecimento de Taiwan pela China, incluindo a África do Sul. Fareed Zakaria, op. cit. p. 119

proporções internacionais), no Tibete e em Xinjiang existem, de facto, confrontos civis de carácter étnico e religioso.

O Tibete concentra uma cultura muito própria, baseada no budismo tibetano e com uma língua bastante distinta do mandarim. Mas assim como Taiwan é, para a China, inegociável, também a independência do Tibete é impensável para Pequim. Desde 1959, os confrontos entre as autoridades chinesas e os monges tibetanos têm sido recorrentes. Atualmente, mais do que a autodeterminação, as reivindicações dos monges tibetanos centram-se na exigência de reconhecimento e respeito pela cultura e religião do Tibete. Embora a China advogue que o faz, a realidade mostra o oposto, nomeadamente através de uma nova estratégia baseada na migração massiva de chineses de etnia Han (a maior etnia da China) para o Tibete, uma ação que o Dalai Lama classifica como uma verdadeira “agressão demográfica”80. Com efeito, embora a questão da independência já não seja crucial para os tibetanos81, a verdade é que os confrontos persistem devido a um imenso descontentamento com as políticas uniformizadoras de Pequim.

De igual modo, o descontentamento que se verifica no Tibete é idêntico na província de Xinjiang, onde novamente a etnia Han está envolvida em confrontos com a etnia local, Uigur. Efetivamente, embora a China reconheça as minorias do país, a verdade é que privilegia sempre a uniformização pela maioria Han: no Tibete o conflito é entre os Han e os monges tibetanos, e em Xinjiang é entre os Han e os Uigures (maioritariamente muçulmanos e com língua própria). Os confrontos em Xinjiang e na capital, Ürümqi, regressaram em Julho de 2009 (após uma década de estabilidade) com centenas de mortos e atos de violência extrema. A reivindicação é a mesma do Tibete: não necessariamente independência, mas respeito pela cultura uigur82.

Ora, embora o crescimento do poder regional e internacional da China tenha, efetivamente, reduzido o apoio internacional à independência de algumas regiões – Taiwan e Tibete – a verdade é que o governo de Pequim continua a enfrentar sucessivas contestações que reprime violentamente e que mancham a credibilidade da China, o que dificulta o reconhecimento do seu poder na ordem internacional.

80

A expressão “agressão demográfica” tem sido frequentemente usada pelo Dalai Lama desde os anos 90 (informação disponível no site oficial do Dalai Lama: http://www.dalailama.com/messages/tibet/10th-march-archive/1993, acedido no dia 23/06/2011).

81

O próprio Dalai Lama já o confirmou ao retirar-se da liderança política do Tibete, em 2011, concedendo, assim, a escolha de um líder político (mas não religioso) através de eleições.

82

“Uyghurs inside and outside Xinjiang are today arguably most concerned not about achieving an independent Uyghur state – which seems unattainable – but about cultural autonomy.” James A. Millward, “Introduction: Does the 2009 Urumchi violence mark a turning point?”, Central Asian Survey, Routledge, vol. 28, nº 4, Londres, 2009, p. 357