Fonte: RC, 21-29.
a. Discurso do governador-geral Tristão de Bettencourt
Chegamos hoje ao termo duma longa jornada que começou em 4 de Março de 1916, data em que, após tentativas anteriores que não tiveram seguimento, o Governador Geral Álvaro de Castro instituía a comissão destinada a angariar donativos para, com o seu produto, serem custeadas as despesas a fazer para erigir nesta cidade de Lourenço Marques um monumento a Mousinho de Albuquerque, ―o bravo capitão que deu ao mundo um exemplo das grandes qualidades de decisão, audácia e heroísmo existen- tes no sangue português.‖
Poucos dias depois entrava Portugal na Grande Guerra e a ideia adormeceu até que, em Novembro
de 1918, após a assinatura do armistício, lhe deu novo impulso o então Governador Geral Massano de Amorim. Nessa época assentou-se que a estátua a erigir devia ser equestre para ter a imponência necessária e ser condigna do Herói; mas só em 1924, governando então a Colónia o Dr. Moreira da Fonseca, se deu um passo decisivo para a execução do trabalho, pedindo-se ao Governo Central a apre- sentação ao Parlamento duma proposta autorizando o fornecimento pelo Estado do bronze para a está- tua, proposta que foi aprovada e publicada, como lei, em 10 de Fevereiro de 1925, e a emissão de 200:000 selos postais para circular na Colónia, revertendo o seu produto a favor do Monumento.
Na mesma ocasião, organizou-se a Subcomissão de Lisboa, que tam entusiasticamente trabalhou, pri- meiro sob a presidência do antigo combatente das campanhas de 1895, Freire de Andrade, que, mais tarde, marcou na governação desta Colónia uma época que não tem igual, e, depois, após a morte daquele, sob a presidência do general Vieira da Rocha, o antigo ajudante de campo de Mousinho que ilustrou o seu nome na segunda campanha de Gaza por forma a dele receber os mais altos elogios. Iam já passados 9 anos e se, por circunstâncias várias, pouco se tinha caminhado até então, uma coisa se patenteava evidente – a Colónia continuava a mostrar, pela voz dos seus governadores, um grade desejo de levar a termo a homenagem projectada a quem tam alto levantara aqui o nome português com a sua heróica espada dominadora e com a sua admirável acção de administrador.
Em 1927 fazia-se na Colónia uma extracção espe- cial da lotaria provincial que rendeu cerca de 300 contos e, finalmente, no orçamento de 1935-1936, sob o governo do coronel José Cabral, inscreveu-se o subsídio de 450 contos para o monumento.
Estavam, assim, e com o produto da subscrição, alcançados os meios precisos para se poder abrir, como se abriu em 16 de Março de 1936, o concurso entre todos os arquitectos e escultores nacionais para a execução do monumento equestre a erigir, em honra e à memória de Mousinho de Albuquerque, nesta praça que hoje tem o nome do Herói e foi escolhida após demorada controvérsia.
O projecto preferido e executado é da autoria do arquitecto António do Couto e do escultor José Simões de Almeida, que fizeram uma notável obra de arte que ides ver descerrar daqui a instantes e ficará a embelezar a cidade como o seu melhor monumento, em tudo digno de Mousinho, a figura militar que mais se eleva na história de Moçambi- que, por ter reunido em si aquele conjunto de quali- dades que formam o verdadeiro chefe e que, por serem raras, fazem com que estes só apareçam, de longe em longe, não nos tendo, porém, faltado a mercê de os ver surgir e brilhar nas horas críticas da nossa vida nacional.
Fizemos, nesta rápida síntese, a história do que se passou desde o dia em que nasceu, ou começou a ter forma prática, a ideia de erigir a estátua, até este momento em que devo agradecer à Providência Divina ter-me reservado a honra de presidir a este memorável acontecimento, honra que, para o militar que sou, é sobremaneira grata ao meu coração e perdurará no meu espírito – recordação duma hora feliz da minha vida oficial.
E porque sou o presidente da Comissão do Monu- mento, compete-me, nessa qualidade, expressar o louvor e o agradecimento devidos a todos quantos, com o seu esfôrço e com um entusiasmo que nunca arrefeceu, conseguiram vencer as dificuldades que surgiram e sentem neste momento a alegria de ver concluída a obra a que tam devotadamente se dedi- caram. Faço-o inteiramente à vontade, porque a minha acção não teve ensejo para se fazer sentir e tudo o que se fez é obra de outros.
Destaco, em primeiro lugar, a subcomissão de Lis- boa. Coube-lhe a missão mais delicada e difícil, mas porque era constituída por soldados de Mousinho, na sua escola educados, nenhuma dificuldade ou contrariedade os atemorizou. No culto que todos eles dedicam à memória do Herói, misto de sauda- de, ternura e respeito, tiveram o melhor estímulo para que a sua acção impulsionadora se fizesse sen- tir sempre que necessário foi. Pena tenho eu de os não ver aqui todos, menos felizes os ausentes do que os quatro que vieram, para terem, como estes, a ven- tura de olhar a nobre figura do chefe ―com a sua indumentária de campanha, tal como se fosse entrar em combate, com a sua montada numa posição sos- segada para não desmanchar a atitude serena do cavaleiro, que olha para o longe, para o capim des- ta África que vai atravessando, obrigando o cavalo a estar quieto para o distrair dos seus graves pen- samentos‖.
À Câmara Municipal desta cidade são devidos espe- ciais agradecimentos por ter feito a expensas suas todos os trabalhos do monumento até à ―linha de terra‖ e pela diligência e cuidado que desenvolveu nos trabalhos executados nestes últimos dias, feito em condições de rapidez que honram os seus operá- rios.
À Direcção dos Serviços dos Portos, Caminhos de Ferro e Transportes há que render, também o devido agradecimento pelo interesse que pôs sempre na execução de todos os serviços que lhe foram pedidos em várias ocasiões.
À Repartição Provincial das Obras Públicas do Sul do Save, à qual foi incumbido o difícil e delicado trabalho do levantamento da estátua, quási nem sei como significar-lhe o meu agradecimento. Se a direcção do trabalho foi primorosa, a execução cor- respondeu-lhe inteiramente – só com um grande entusiasmo da parte de todo o pessoal, dirigente e dirigido, se podia fazer o que em tampoucos dias se fez. E porque tive ocasião de apreciar de perto o trabalho executado, posso aqui dizer, com justifica- da satisfação, que bem serviram.
Por fim – o último mas não o menor – o velho colo- no José da Costa Fialho, que desde o princípio
secretariou a Comissão, é credor dos nossos mais vivos agradecimentos. A recompensa do seu traba- lho tem-na ele agora, não nas minhas palavras, mas na ventura de estar aqui vivendo este momento feliz em que se vê de pé o seu sonho de tantos anos. Nos companheiros de Mousinho aqui presentes, e, em especial, nos que de longe vieram, evoco todos os soldados que tiveram a honra de servir e comba- ter sob as ordens do Herói, os vivos e os mortos, com o respeito e a veneração devidos aos que, numa época difícil e grave da nossa história, suportaram de boa mente, como o próprio Mousinho escreveu, ―perigos, fomes e sedes para servir a Pátria‖, con- solidando a soberania portuguesa nestas paragens e levantando bem alto a consciência nacional, que despertou para uma vida mais intensa ao som dos combates em África.
O meu espírito dirige-se agora para uma tranquila casa de Lisboa, onde Alguém que tanto influiu na vida e até na glória do Herói nos acompanha certa- mente, lá de tam longe, com o coração a palpitar de ternura, de saudade e também de júbilo. A santa companheira de Mousinho deve viver, neste momen- to, a hora mais alta e emotiva da sua vida, após a
morte do Herói. Deus conservou-lhe a vida para que pudesse, embora só em espírito, assistir à consagra- ção do marido que tanto amou, no melhor local em que ela podia ser prestada, porque em nenhum outro como na capital de Moçambique essa consagração seria mais sentida nem melhor compreendida. Sr. Presidenta da Câmara Municipal: Em nome da Comissão do Monumento a Mousinho, faço-lhe entrega da estátua equestre do Herói. Está satisfeita a grande aspiração de Moçambique! Aos cuidados da Câmara, que representa a população da cidade, fica ela bem entregue.
E com ela neste local, dominando uma artéria que dentro de breve tempo irá até o porto, parece-nos mais seguro o futuro de Moçambique, mais firme a nossa soberania, mais respeitado o nosso nome. A estátua do Herói vela, daqui em diante, pelos des- tinos de Moçambique e mostrará, às gerações pre- sentes e às que se lhe seguirem, o que se pode fazer quando se tem grandeza de ânimo, espírito de sacri- fício, vontade de viver português!
b. Discurso do presidente da Câmara Municipal, Pinto Teixeira Ex.mo Sr. Governador Geral, Ex.mo Sr. presidente
da Comissão do Monumento a Mousinho de Albu- querque, Excelência: Quis a Providência que me coubesse, como presidente da Câmara Municipal desta cidade, a honra de receber das mãos de V. Ex.ª este padrão imorredouro do agradecimento eterno da Colónia ao egrégio batalhador e excelente admi- nistrador que foi Mousinho de Albuquerque. Quis a Providência que eu de novo colhesse a comoção que já sentira quando com menos de 10 anos de idade via passar Mousinho nas ruas de Lisboa, a cavalo, garboso, ao lado do Príncipe Real, ou a pé, como um insignificante, e para ele olhava como se visse um Deus, tal era a fôrça espiritual que dele irradia- va, tais as virtudes que lhe eram apontadas e que tanto faziam trabalhar a imaginação infantil.
De novo sinto essa emoção ao receber de V. Ex.ª o monumento que representa o mais expressivo louvor
da massa anónima, como dos poderes constituídos, à inteligência, ao valor e ao mérito.
Seria bem pouco isso, se só eu a sentisse!
Mas essa emoção a está sentindo a Cidade, cuja população aqui acorreu para selar com a sua apro- vação – mais, com o seu aplauso – a ideia daqueles que decidiu o levantamento deste justo preito pela obra do homem que V. Ex.ª tam bem soube descrever. É com ela que, ao receber de V. Ex.ª este monumen- to, em nome da Cidade, agradeço a V. Ex.ª a sua doação, jurando guardá-lo e mantê-lo para culto dos jovens que nela virão aprender as virtudes sublimes do guerreiro e do condutor de povos, para recordação dos velhos que tiveram a ventura de o servir.
Em nome da Cidade – muito obrigado!
c. Discurso de Andrade Velez, antigo combatente e representante da subcomissão
Junto ao monumento de Mousinho posso afirmar que nunca senti mais viva nem mais consubstancia- da dentro de mim a sublime expressão:
– Sagrado Altar da Pátria.
É assim que ele se representa, e é assim que ele se conservará indestrutível, e cada vez mais gigantes- co, para a posterioridade.
E se Mousinho foi um raro Soldado, é agora também um santo, porque lhe foi dado justo e próprio lugar no ―Sagrado Altar da Pátria‖, da Pátria Agradeci- da!
Cabe-nos a nós, antigos companheiros do famoso Cabo de Guerra, a honra de assistirmos ``a come- moração que mais o imortalizará; cabe-nos a nós, também, a honra de prestarmos a última homena-
gem ao que orientou os nossos primeiros passos na nobre carreira das armas.
Neste momento soleníssimo recordamos o passado distante e sentimos, como então, o mesmo sentimen- to de admiração, respeito e disciplina pela vontade e pelos desígnios do insigne português que foi Mousi- nho.
Somos hoje velhos amigos e admiradores, mas fomos, antes, jovens e leais soldados – modestas falanges daquela mão forte com que Mousinho empenhou a espada com a qual iluminou e consoli- dou os caminhos de progresso que abriu e que tor- naram possível a elevação desta Colónia ao alto grau de progresso que atingiu, permitindo a justa aplicação de todos os nosso direitos de Nação Sobe- rana, especialmente em relação às populações nati- vas que foram chamadas, irresistivelmente, aos benefícios da nossa Civilização Cristã, que final- mente a todos abraçou e protege. Dos feitos herói-
cos e também da acção administrativa de Mousinho nada mais temos a dizer porque deles se tem ocupa- do a pena brilhante de outros portugueses ilustres.
(…)
Devemos salientar que Mousinho utilizou como potencial capaz de dar acção e execução aos seus planos, um punhado de homens jovens que, sem dúvida alguma, tornaram possível a sua enorme e patriótica obra. Por isso nós, velhos de agora, cha- mamos a Mocidade Portuguesa de hoje para lhe dizer: Sentido!
Segui o exemplo da mocidade de outrora. Cumpri, devotadamente, as ordens do Chefe, para que se continue a repetir o facto histórico do nosso pro- gresso e do nosso agradecimento, para maior glória de Portugal.