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Nesta seção farei um parêntese para dar atenção a uma particularidade do conto de Fuks: trata-se de um conto que habilita uma leitura em relação ao texto de Charles Baudelaire “Les Yeux des pauvres”, traduzido ao português como “Os olhos dos pobres” e publicado em Spleen de Paris (1864)67. Vale esclarecer que não pretendo realizar aqui uma leitura comparada

exaustiva destes dois contos, mas apenas recuperar aquilo que pode contribuir para melhor entender a singularidade do conto de Fuks.

A história narrada no texto do escritor francês é bastante similar à de Fuks em vários pontos: os personagens principais são um casal em Paris que está jantando num restaurante no centro da cidade quando uma família de pobres desvia seus olhares e pensamentos. Aparecem assim o tema da comunicação entre o casal e o tema da culpa. O narrador é também um homem letrado, que neste caso escreve dirigindo-se a mulher para explicar-lhe como o episódio fez com que ele percebesse suas diferenças e falta de comunicação entre eles dois. Assim, de modo semelhante ao conto de Fuks, o encontro com os pobres marca uma distância entre o homem, narrador da história, e a sua mulher, ambos de classe abastada. Mas no “Os olhos dos pobres” de Baudelaire, enquanto o homem se sente profundamente comovido pela situação dos pobres, a mulher está incomodada pelo desconforto visual que eles lhe provocam e deseja que a garçonete os tire do local.

67 A versão que utilizo neste trabalho é: Baudelaire, Charles. Euvres complètes Michel Lévy frères, Petits Poèmes

en prose, Les Paradis artificiels.IV, p. 75-77,1869. Tradução: Francine Cavalcante Alves, 2016, Universidade de

São Paulo. Disponível em:

<https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1973619/mod_resource/content/1/BAUDELAIRE%20-

%20Os%20olhos%20dos%20pobres.pdf> Acesso em 28 de fevereiro de 2018. Acho que deveria aparecer só ao final nas referências.

A reflexão sobre os outros, os pobres, e sobre as impossibilidades da comunicação que venho analisando parecem ser válidas para ambos os textos. Isto interessa para minha hipótese de leitura, já que coloca uma continuidade temática em torno da pobreza. Mas a continuidade não é só temática, mas também de uma certa forma realista, o que podemos ler, partindo de Pellegrini (2009), como um signo da persistência das condições de um “mundo hostil”, que segundo a pesquisadora foram as que deram origem as formas realistas. O que tem relação também com o assinalado por Geremek (1995), que a representação da pobreza constrói vínculos e filiações entre épocas e períodos diferentes.

Assim, pensando o conto de Fuks na “realidadeficção”, tal como propõe Ludmer (2010), como “construtor de presente” e “ fábrica de realidade”, e tomando também as palavras de Candido, em O personagem de ficção, quando diz:

A ficção é um lugar ontológico privilegiado: lugar em que o homem pode viver e contemplar, através de personagens variados, a plenitude de sua condição, e em que se torna transparente a si mesmo; lugar em que, transformando-se imaginariamente no outro, vivendo outros papéis e destacando-se de si mesmo, verifica, realiza e vive a sua condição fundamental de ser autoconsciente e livre, capaz de desbordar-se, distanciar-se de si mesmo e de objetivar a sua própria situação. (CANDIDO, 1968, p. 38).

Podemos afirmar que o presente fabricado no conto tece continuidades com aquilo que Baudelaire construía no seu, muitos anos antes e num contexto totalmente diferente. Isto possibilita pensar continuidades na história não só da literatura, mas de certas condições de existência nas sociedades ocidentais. Entretanto, vale a pena atentar, nesta linha de pensamento, tanto para as continuidades, quanto para as rupturas.

Em relação a questão das formas de realismo que são construídas nos textos, o desenvolvimento duma linguagem que põe de manifesto na sua própria construção a impossibilidade de toda linguagem, como faz Fuks em seu texto e como lucidamente aponta Javier Ramaccioti (FUKS, 2014), marcam a distância que me interessa indagar.

Apesar de haver uma continuidade temática e de um tom realista perceptível que liga os dois contos, percebo uma transformação, especialmente nas “formas de exploração” dessa realidade: o texto de Baudelaire manifesta a desconfiança na comunicação só quando se refere às relações entre personagens (o homem expressa que não consegue se comunicar com a mulher) , no conto de Fuks acontece a mesma coisa, e ainda há um aprofundamento dessa ideia na problematização da própria linguagem do personagem narrador, o que já marquei respeito

às suas manifestas complicações para contar o que lhe aconteceu. E também, dos conflitos com sua própria memória, que o homem expõe quando reflete sobre o acontecimento passado.

Por outra parte, se no conto de Baudelaire o narrador não problematiza sua reação e sentimentos diante dos pobres, e se distancia da mulher, a quem de alguma forma denuncia, já em Fuks o que o narrador acaba por problematizar é seu próprio lugar no encontro, suas emoções, suas contradições. Vejamos dois trechos em cada conto que ilustram essa contraposição:

Essa família de olhos não apenas me enternecia, mas fazia com que me sentisse um pouco envergonhado de nossos copos e garrafas, maiores que nossa sede. Voltei meus olhos para os seus, querido amor, para neles ler meus pensamentos; mergulhava em seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse: “Essa gente é insuportável com esses olhos abertos como passagens para carroças! Você não poderia pedir ao maître para tirá-los daqui? (BAUDELAIRE, 1869, pp 75-77, tradução Francine Cavalcante Alves) 68 Nem espiando pelo espelho eu conseguia me assegurar de que

ela era minha cúmplice, de que nossa emoção era a mesma, de que era uníssona também a nossa mudez. De qualquer modo, talvez não precisasse dela para apreciar a beleza daquela sequência. Sim, a beleza, eu percebia me horrorizando em destempo. Eu mesmo já me comovia mais comigo do que com o maltrapilho de figura evanescente. (FUKS, 2016, p. 13).

Esta é uma diferença que me parece fundamental para apreciar as distâncias, já que o texto de Baudelaire se constrói como dirigido diretamente à mulher, como se pode perceber pelos vocativos que ele utiliza no começo. O tom é de uma confissão, mas essa confissão é dirigida a mulher e tem um objetivo que me parece como bastante claro: dar a ela uma espécie de lição de moralidade. No conto de Fuks isto é completamente diferente. A narração não se dirige explicitamente à mulher, embora a falha de comunicação entre o casal seja também importante. A relação com a mulher vem neste conto a duplicar esse olhar crítico do narrador sobre si mesmo, a fazer evidente a sua própria hipocrisia. Se há algum tipo de lição que o narrador quer dar, seria em todo caso a ele mesmo e ao leitor. Seria apressurado colocar conclusões precipitadas sobre uma comparação breve e superficial como a que esbocei, mas posso me arriscar a dizer que a objetivação da própria condição que personagens narradores dos dois contos realizam, tão diferente (muito mais opaca e frágil no texto de Baudelaire e de uma agudez chamativa no conto de Fuks) pode ter relação com a distância temporal e os

68 No original: “Non-seulement j’étais attendri par cette famille d’yeux, mais je me sentais un peu honteux de nos

verres et de nos carafes, plus grands que notre soif. Je tournais mes regards vers les vôtres, cher amour, pour y lire ma pensée ; je plongeais dans vos yeux si beaux et si bizarrement doux, dans vos yeux verts, habités par le Caprice et inspirés par la Lune, quand vous me dites : « Ces gens-là me sont insupportables avec leurs yeux ouverts comme des portes cochères ! Ne pourriez-vous pas prier le maître du café de les éloigner d’ici ?”

caminhos recorridos na configuração da pobreza na literatura dos dois momentos. Creio que estas observações podem contribuir para uma leitura mais profunda do tema tanto no conto de Fuks como nos outros, que abordarei a continuação.

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