Quando Pelo telefone foi gravado, muitos consideraram essa composição como sendo um maxixe, ritmo mais popular à época. O maxixe é uma dança popular urbana do Rio de Janeiro, mais conhecida a partir da metade do século XX.
O maxixe era pois associado a grupos rebarbativos, e praticado disfarçadamente, na calada da noite e num bairro de má fama. Portanto, não sendo de bom tom, é legítimo supor que, para aparecer nos jornais em 1880, já fosse praticado anonimamente antes disso. (SANDRONI, 2001, p.62)
O samba, que aparecia em citações da época com o sentido de festa, baile popular, ―herdou‖ do maxixe essa conotação de ―má fama‖. Até a sua popularização pelo rádio, o samba era totalmente marginalizado, assim como a capoeira e as religiões de matriz africana (o que não quer dizer que a marginalização tenha acabado depois desse período). Eram praticados, assim como o maxixe, como contravenção. O samba não tinha a ligação com o carnaval carioca, pois este, na segunda metade do século XIX, era muito diferente do que é hoje. ―As principais organizações carnavalescas não eram constituídas principalmente pelas classes populares, como são as atuais escolas de samba‖15, mas, como indica Lima Barreto, esses ―clubes carnavalescos, pelo próprio grau de permissividade mais acentuada que os caracterizava, foram os primeiros a introduzir na sociedade burguesa maneiras de dançar vulgares‖ (SANDRONI, 2001, p.63)
As confusões em relação à denominação de gêneros musicais, naquela época, eram correntes não apenas entre os leigos, mas entre os próprios músicos. Um dos maiores músicos da época, Ernesto Nazareth ―foi acusado por quase toda a crítica posterior de ter cometido uma espécie de embuste ao batizar de tangos suas peças para piano, que na verdade seriam maxixes‖. (SANDRONI, 2001, p.78)
Na virada do século XIX para o XX, o nome ―maxixe‖ ainda ―tinha conotação de vulgaridade mais forte do que ‗tango‘, que já tinha sido até empregada por músicos eruditos‖ (SANDRONI, 2001, p.79). Talvez, por essa razão, muitos quiseram associar o samba ao tango, à época. A verdade é que a mistura de ritmos oriundos de diversos lugares acalentou a dúvida, ao mesmo tempo em que enriquecia a nossa música popular. Esses gêneros eram ligados à dança popular da época e, como revela Sandroni (2001),
A dança do maxixe se fazia ao som de músicas que ainda não se chamavam assim: eram polcas, lundus, tangos (e todas as combinações desses nomes), era quase tudo, enfim, que fosse escrito em compasso binário, tivesse andamento vivo e estimulasse o requebrado dos dançarinos através do ―sincopado‖. (p.81)
O próprio tango é definido como polca abrasileirada. Por essas razões, o grande estudioso da música popular brasileira, José Ramos Tinhorão (1991) reconhece ―a
15 Reportagem em vídeo, no documentário Atrás do batuque negro, disponível em
pouca importância que se dava aos nomes dos gêneros de dança, até bem dentro do século atual [XX]‖ (p.69). Assim conclui Sandroni:
Aqui somos obrigados a distinguir entre a visão do pesquisador e a visão da época e da sociedade com relação à música de que tratamos. O pesquisador não deveria, em princípio, deplorar a ―imprecisão‖ de uma sociedade que chama indiferentemente de lundu ou de tango a mesma peça de música, nem afirma que o dito lundu é ―na verdade‖ um tango ou vice-versa. O que se espera dele é que entenda por que, e em que circunstâncias, diferentes nomes são dados ao que lhe parece ser a mesma coisa.
Os elementos de que dispomos mostram que não se trata propriamente de imprecisão terminológica, mas de uma indiferença substantiva. [...] (2001, p.82)
É, nesse contexto de total confusão terminológica, que o samba busca firmar- se. E isso só acontece no final dos anos 1920, quando o novo paradigma rítmico é reconhecido de forma definitiva e com nome. Mas o que vemos é que essa afirmação do samba é cercada de contradições, que reiteram alguns pares que dialogam quando falamos de samba e de um contexto vivenciado naquela época: negro/branco, morro/cidade, tradição/comercialização etc. É o que aparece na afirmação do pesquisador Lúcio Rangel (1962):
[...] O samba é um só. Os amantes de classificações mais ou menos arbitrárias falam de samba de morro, como o da primeira fase, samba da cidade, segunda etapa, esquecendo-se de que a subida ao morro, das populações da cidade, por motivos única e exclusivamente econômicos, só se deu depois do aparecimento oficial do primeiro samba com partitura impressa e gravado em disco fonográfico comercial: o famoso ―Pelo telefone‖, nascido na residência da famosa Tia Ciata, na Praça Onze, em 1917, samba da cidade. (p.55)
Ampliando brevemente a discussão sobre a questão de o samba ser um só, como afirma Rangel (1962), devemos pensar, também, que, se há imprecisão num determinado momento, isso se deve a um movimento dialógico no samba que permite que nele circulem diferentes vozes, num mesmo espaço, o que se deve a todo um processo de acolhimento de diferentes culturas trazidas das mais diversas regiões do país, na cidade do Rio de Janeiro. Dessa forma, o samba não se reduz a um gênero musical, pois aí consideraríamos apenas a questão da indústria cultual. Se o colocamos em suas diversas esferas, isso permite uma ampliação das possibilidades de compreensão dessa manifestação cultural. A indústria cultural, sob os efeitos do mercado, quer dar ao samba um acabamento, ou seja, delimitá-lo, defini-lo de forma objetificada, desconsiderando o seu inacabamento, as suas transformações; mas ainda existem espaços onde o samba é vivido de outras formas, e é isso que os depoimentos dos sambistas vão revelar.
Rangel (1962) tenta desconstruir essa polêmica sobre samba do morro e samba da cidade e outras classificações, aproximando-se, talvez, do que poderíamos pensar na ideia do samba como a fusão, como a síntese, como a mestiçagem própria da identidade do brasileiro, nos termos de Mário de Andrade. Dessa forma, é possível entender a sua afirmação: o samba é um só, mas que não sejam desconsiderados os diálogos que lhe deram origem, que lhe permitiram (e lhe permitem) ser representativo de nossa cultura, pois isso é inerente à sua história.