Benedetto Croce propõe que a estética deveria ser considerada uma descoberta de Vico e que ao formular “novos princípios de poética” além de criar a estética, Giambattista percebeu a verdadeira relação entre poesia e história81. Vico
criou o historicismo estético.
Sabemos que os críticos modernos de literatura, teatro ou arte olham para uma autêntica máscara tribal africana, para Gil Vicente, para Shakespeare ou o teatro Nô japonês com a mesma valoração, com a mesma aptidão para o entendimento. As produções artísticas de diferentes povos, culturas e períodos devem ser compreendidas por suas variáveis e peculiares condições de concepção, devem ser entendidas e julgadas de acordo com o próprio desenvolvimento e não por regras absolutas do que seja o belo ou o feio82.
A divinização da história – adivinhar o que se sucederia na corrente dos acontecimentos – levou a uma calorosa investigação de formas históricas e estéticas particulares na tentativa de compreender o curso dos acontecimentos.
O historicismo estético se contrapõe ao historicismo clássico que predominava no século XVIII. Vico pode ligar-se aos românticos na medida em que a verdadeira poesia só poderia nascer de um “espírito novo” em um retorno às origens de sua fonte eterna; a história passa a ser concebida não como uma série de fatos
exteriores e ações conscientes dos homens, não como uma série de erros e fraudes, mas como uma evolução orgânica, subconsciente e lenta de forças que eram consideradas manifestações da Divindade83. A história como um dinamismo
lento em que há uma interrelação entre toda a humanidade, em que nenhum gesto “interno” ou “externo” está alheiro ou isolado do conjunto humano84.
A vertiginosa ampliação dos horizontes que se deu no Renascimento não levou a uma perspectiva histórica, antes conduziu a uma rejeição à variedade das
81 LEAL, Ana Maria Gotardi. “Alberto Caeiro: a visão inocente”, pg 217. 82 AUERBACH, Erich. Op. Cit. pg. 341.
83 AUERBACH, Erich. pg 344
84 Aqui resgatamos o que falamos de Wittgenstein anteriormente no capítulo da Antropologia, no sentido de que o que o filósofo austríaco denominava “interno” não era algo que se restringia ao interior do ser e só a esse, mas algo que se manifesta na realidade empírica e objetiva do mundo, com possibilidade de ser reconhecida pelo outro.
formas históricas, a um vigoroso renascer de um conceito de natureza humana absoluta que se opôs à História. Desse modo a natureza humana se revela com caráter estático e absoluto. No Iluminismo, ainda que Diderot e Rousseau tenham introduzido certo grau de dinamismo a ela, essa ainda era uma natureza avessa à História.
A reação ao classicismo francês só se deu a partir do século XVIII quando eclode o Romantismo na Alemanha com o movimento Sturm und Drang. A concepção do “espírito novo” elaborado por Herder e seus discípulos propõe a criação da “verdadeira poesia”, que se fundamenta em uma oposição à poética como fruto de uma arte refinada de civilização, arte do bom gosto, como imitação de modelos e regras definidas85.
Em suma a partir dos anos 1770, a poesia passa a ser vista como obra instintiva fruto da liberdade criativa, constata-se que ela se apresenta com mais frescor nos períodos iniciais da humanidade, o que Vico denomina idade dos deuses, a infância da humanidade. É o período quando a linguagem movia a natureza como um vasto corpo, quando a tradição oral dos povos ágrafos fazia da imaginação algo mais forte que a racionalismo. O pensamento racional dá à palavra o caráter de signo, com significado e significante nitidamente diferenciados e não como nome e objeto nomeado fundidos em uma única entidade.
O movimento pré-romântico deu início à ciência das histórias modernas, criam-se as histórias da literatura, da arte, da música e outras.
Confirma-se que o ser humano – só e apenas só – é capaz de conceber ou expressar o que seu grupo social específico torna possível, através de possibilidades fornecidas pela estrutura da sociedade e sua cultura, com as propriedades reveladoras do estágio particular do conhecimento social que, inserido em um contexto processual, pode ser identificável em um modelo de desenvolvimento.
85 Apesar da indiscutível originalidade de Alberto Caeiro, nota-se uma correspondência com a concepção de poética revelada pelo heterônimo pessoano, o qual nos coloca a poesia como algo espontâneo, sem rimas, como lemos nos textos: “escrevendo versos num papel que está no meu pensamento (…) e aos que lerem meus versos pensem/ que sou qualquer cousa natural – por exemplo, a árvore antiga/ À sombra da qual quando crianças/ Se sentavam com um baque, cansados de brincar,/ E limpavam o suor da testa quente/ Com a manga do bibe riscado”; ou então lê-se: “Não me importo com as rimas. Raras vezes/ Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra./ Penso e escrevo como as flores têm cor (...)”.
Dentro dessa evolução, a humanidade passou pela cultura dos “sinais mudos” – ideogramas e hieróglifos, idade dos deuses – adentrou a linguagem heroica da “metáfora poética” e do símile (analógico), o análogo da idade heroica; e posteriormente a linguagem prosaica, com maior precisão de pensamento jurídico e racional da idade dos homens.
O homem só pode vir a ser (essere, ter essência) dentro de um contexto histórico composto por ele mesmo; não se pode fugir de categorias particulares, sociais e psicológicas, mentais e emocionais – que se atinge em tempos e espaços determinados – sujeito às leis do desenvolvimento.