A constante ampliação da esfera de atuação da Companhia foi uma característica que a atuação de Jan Bata imprimiu à organização a partir de 1932. Seja pelo seu empenho pessoal, seja pelas decorrências naturais de uma empresa global a qual, além de se expandir continuamente naqueles anos, detinha o controle de toda a cadeia produtiva – e, portanto, necessitava de uma infra-estrutura estável - o fato é que a direção da companhia se empenharia, como visto, em projetos cada vez mais abrangentes.
Assim, a maior contribuição de Jan Antonin Bata, segundo Slapeta, teria sido a construção das cidades satélites industriais, as quais buscavam superar a dificuldade que o momento protecionista europeu com suas altas taxas alfandegárias oferecia a quem quisesse exportar (SLAPETA, 2009: 63; IVANOV, 2009: 174). No final dos anos 1920 o protecionismo e as barreiras alfandegárias vigorantes na Europa tornaram proibitivos os movimentos de importação ou exportação de mercadorias. Para superar este obstáculo, aquelas primeiras fábricas citadas foram construídas. A fragilidade da concentração urbana exposta na 1ª Guerra também pode ter sido um dos fatores a contribuir para a dispersão de pequenas cidades Bata. Para reunir as nascentes indústrias no exterior, foi organizada por Tomas e Jan Bata a holding39 Leader A. G com sede na Suíça, sendo que as fábricas dentro da Tchecoslováquia ficariam reunidas sob o nome
Bata A. S., uma sociedade anônima (IVANOV, 2009: 173-177; POKLUDA, 2009: 26). O autor
tcheco Miroslav Ivanov40 comenta:
[...] A idéia de construir fábricas no exterior, para fugir às taxas alfandegárias, surgiu, provavelmente, entre os jovens que se agrupavam em torno de Jan. Começou quando o gerente da loja da Iugoslávia, Maximovic, que veio atender a uma conferência com Jan em Zlín com uma notícia ruim: Botinhas de criança que trazia de Zlín por 18 coroas custavam, na Iugoslávia, acrescidos de taxas, incríveis 54 coroas.
Além disto, como visto, a expansão desenfreada de Zlín contribuiu para que a companhia pensasse na descentralização industrial e ainda outro motivo estratégico para a construção de fábricas no exterior surgiria a partir da segunda metade dos anos 1930. Segundo Ludmila Bata (ARAMBASIC, 1997), a vulnerabilidade da matriz tcheca frente a uma possível invasão germânica no despontar da 2ª guerra mundial deveria ser compensada com instalações nos mesmos moldes, no exterior, para que pudesse ser assegurada a possibilidade de sua reconstrução no futuro. Novak afirma que cidades como Best, Belcamp, Tilbury ou Batanagar,
39 Forma societária destinada a administrar um grupo, ou conglomerado, de empresas.
40 IVANOV, Miroslav. Saga sobre a vida e morte de Jan Bata e seu irmão Tomás. Tradução: Edita Batova de Oliveira e
por exemplo, vieram a ser efetivamente bases para os negócios da companhia durante a 2ª Guerra (1993: 298).
Ao longo de todos os anos 1930 a nova gestão representaria um salto notável no desenvolvimento da companhia tendo como resultado a criação de uma rede de cidades –em – série espalhadas pela Europa, Ásia, África e Américas (HORNAKOVA, 2007: 56-58; IVANOV, 2009: 191; SLAPETA, 2009: 63-64). Alguns exemplos: Best, Holanda (1933); East Tilbury, Inglaterra (1933); Batizovice, Eslováquia (1934); Batanagar, Índia (1934); Napajedla, Rep. Tcheca (1935); Belcamp, EUA (1936); Zruc nad Sázavou, Rep. Tcheca (1938); Sezimovo-Usti, Rep. Tcheca (1938-1939); Batovany -Partizanske, Eslováquia (1938); Batawa, Canadá (1939); Martfu, Hungria (1941), dentre outras localidades e outros planos não realizados (HORNAKOVA, 2007: 56-58; TOPOLCANSKA, 2005: 198, 185). O âmbito de atuação da companhia Bata foi bem descrito por Pavel Novak: Its territory was, whitout exaggeration, the whole world : .
Figura 32-40 Borovo, atual Croácia (Antonin Vitek, 1935), Hellocourt, França (Richard Podzemny, 1939), Batanagar, India (Vladimir Karfik, 1937) e Mohlin, Suíça (Antonin Vitek, 1937), Batanagar (Índia), Batovany (Eslováquia), Best (Holanda), Zruc Nad Sazavou (Rep. Tcheca), Mohlin (Suíça). NOVAK (imagens p&b)/ Aplicativo Google Earth 2009 (imagens coloridas).
Alguns autores incluem ainda as cidades brasileiras de Bata como parte da rede de cidades-satélite , n~o passando, no mais das vezes, de citações breves. Vladimir Slapeta, por
exemplo, fala de cidades-satélites industriais na América do Sul (2009: 64). Já Maria Topolcanska, refere-se expressamente a Batatuba, no Brasil, embora sem entrar em detalhes (2005b: 183). Ladislava Hornakova vai mais além, referindo-se a Batatuba, Mariápolis, Bataguassu e Batayporã (no mesmo rol que Batawa e Belcamp) como cidades destinadas a manifestar as mesmas condições econômicas, geogr|ficas e sociais que as cidades-satélite européias (2007: 58).
Como afirmado anteriormente, aspectos da organização industrial de Bata parecem ter influenciado diretamente sua concepção de urbanismo. Neste sentido, o conceito das cidades- em-série parece derivar diretamente daquele sistema de organização da produção, que preconizava autonomia entre as oficinas ao mesmo tempo em que cada uma delas era parte da engrenagem que concorria para a produção geral, o apoio no planejamento em todos os níveis produtivos dentro de uma estrutura de concentração vertical (da produção da matéria-prima à venda), o apoio na experiência diária, nos erros e acertos do laboratório urbanístico de Zlín. No caso das cidades, estas pequenas estruturas urbanas, projetadas para cerca de 30.000 habitantes, fabris, auto-suficientes - porque produziam através e para o país em que estavam instaladas -, ao que parece, deveriam formar entre si um conjunto coeso que concorria para o crescimento da Cia. Bata como um todo.
As características das cidades-em-série seguem o mesmo conceito que a companhia Bata buscara imprimir em Zlín: o de uma moderna cidade industrial em meio a jardins , onde predominavam as estruturas moduladas de concreto armado, o aço o vidro, os tijolos à vista, o zoneamento por funções, a disposição alternada das habitações41, os complexos esportivos, o
uso de extensas massas vegetais para o conforto ambiental42, a implantação do parque fabril ao
longo dos eixos de comunicação extra-cidade (rios, ferrovias, rodovias). Algumas modificações podiam ser realizadas no projeto e seu grau poderia depender tanto das características locais quanto da distância em relação à central de projetos da companhia em Zlín, mas o vocabulário era fundamentalmente o mesmo (TOPOLCANSKA, 2005b: 185).
41O conceito de viver individualmente levado ao m|ximo.
42 Por exemplo, isolando o parque fabril dos demais setores urbanos, ou configurando um parque central a partir do
Figura 41-46 Cidades em série pelo mundo. Batapur (Paquistão). Google Earth 2009/ Tilbury (Inglaterra) e Best (Holanda). NOVAK / Napajedla (Rep. Tcheca). www.drofa.com/ Belcamp (EUA). www.heritage.umd.edu/ Borovo (atual
Croácia). Google Earth 2009/
Assim, quanto ao terreno, por exemplo, era natural a adaptação a cada local – embora tenha havido certa predileção por locais com declives suaves. Apenas uma regra deveria ser fielmente seguida, uma norma fundamental também no projeto da cidade industrial ideal - que ser| visto a seguir: [...]quanto al concetto, gli architetti non si distolsero da quello attuato con
tanta fortuna a Zlin; e che anzi ora poteva piú risolutamente affermarsi su un terreno vergine
LABO , : .
Outros aspectos destas cidades, relacionados ao modo de vida dos habitantes, foram comentados no livro de Moacir Archanjo. Nele, encontra-se a seguinte descrição da cidade-em- série de Mohlin (Suíça), feita por Nelson Verlangieri de Oliveira, genro de Jan Bata, que a conhecera:
O nível de vida dos oper|rios da f|brica Bata, de Moehlin, na Suíça, é mais elevado do que o de um alto funcionário público do Brasil com vencimentos mensais superiores a seis mil cruzeiros. As casas que eles habitam, de propriedade da fábrica, custaria no Rio, de 300 a 400 mil cruzeiros e o mobiliário é de valor superior a 100 mil cruzeiros. São residências de dois pavimentos, de quatro a cinco cômodos [...]
Esta fotografia é da copa. Esta geladeira d| a impress~o de conforto e abastança , disse aquele militar, indicando como o dedo uma Frigidaire de proporções avantajadas. Quem no Brasil pode manter uma casa nessas condições?
- Nas outras fábricas o conforto é o mesmo? Perguntará naturalmente o leitor. - Em toda f|brica Bata o oper|rio é um homem que gosa de um lar agrad|vel , - continuou o comandante Nelson de Oliveira – com quintal amplo, onde vicejam rosas e árvores frutíferas. Não tanto quanto a Suíça, é claro, pois compreende- se que um trabalhador chinês, na fábrica Bata de Shangai, não pode ser o mesmo da fábrica de Zlín, da de Moehlin, da de Bataville [Hellocourt], na França, da de Belcamp, nos Estados Unidos, mas é, guardadas as proporções, superior ao de qualquer outra organizaç~o naqueles países .
E Archanjo completa:
E ainda, há a questão dos salários, calculados de modo a superar as despesas. Quando o empregado é admitido na fábrica esta lhe aluga a casa, cujo aluguel não pode ser mais do que 10% do salário mensal. Os alimentos são fornecidos pelos estabelecimentos da fábrica, chegando, portanto, ao consumidor quasi pelo custo. É de notar-se, ainda, que a economia dos operários é depositada na fábrica ao juro de 10% ao ano. É um juro que nenhum banco paga. Somente os estabelecimentos Bata fazem isso, mais com o propósito de estimular a poupança entre os seus empregados e, também, proporcionar maior rendimento aquêle que coopera para o progresso da empresa (ARCHANJO, 1952: 68-69).
Figura 47-51 Mohlin, Suíça, [s.d.]. Arquivo D. L. B. Arambasic.
Em que pesem o teor apologético da obra de Archanjo e a possível tendência à parcialidade promovida pelos laços familiares do autor da descrição, trata-se de passagem de interesse por considerar aspectos objetivos das condições de vida e trabalho na Companhia, ademais registradas em outras fontes, aqui citadas.