Em setembro de 2017, num dos dias dedicados por mim a pesquisa de campo, antes mesmo de atravessar a Avenida Perimetral e subir a calçada, no caminho que me levava rotineiramente a entrada principal da comunidade, vi um grafite no muro da escola Delma Hermínia, nele, a palavra “Compaixão”.
Figura 17 – Grafite no muro de escola
Fonte: arquivo pessoal da pesquisadora (07/11/2017).
Na mesma hora entendi as motivações para aquele grafite. Semanas antes, ocorreu um dos fatos mais graves em relação à violência na comunidade, segundo os moradores e moradoras. Um grupo de crianças, a caminho daquela mesma escola, ao passar pela rua da
usina, que fica na lateral, foi surpreendido por uma “chuva de balas” atiradas de dentro de um
carro. Felizmente, nenhuma criança foi ferida, mas esse fato reverberou intensamente na vida
68No momento em que escrevo esse capítulo, final de março de 2018, cinco ônibus foram totalmente queimados
na cidade, e cinco parcialmente queimados, um deles na entrada da comunidade Gereba, em mais uma ação orquestrada pelas facções.
das mulheres mães pesquisadas, especialmente em Lótus, cuja primeira simbolização sobre o ocorrido aparece em um trecho de diário de campo:
[...] Mulher aqui tá tão perigoso. Anteontem de tarde, antes de uma hora, um grupo de crianças quase foi atingido por balas, do lado da Policlínica indo pro Delma. Era pra elas, não tinha mais ninguém na rua naquele horário. Correram tudim e graças a Deus não pegou em ninguém. Ontem nem teve aula porque as mães não levaram. Quem é que ia levar seus filho pro colégio numa situação dessa? (Diário de Campo, em 25/10/2017).
Em seus estudos sobre gangues e galeras Diógenes (2011) afirma que ao realizar ações violentas, os grupos “promovem um estatuto singular de suas existências, “acreditando muitas vezes, “que têm de definir, dominar e defender territórios”: “É nesse campo específico da necessidade de se fazer ver, de alardear suas presenças, de intensificar movimentos e estabelecer táticas de ocupação do espaço que se configuram a insegurança e o medo.” (DIÓGENES, 2011, p. 225).
Os dados sobre violência, que emergiram do campo empírico no diálogo tecido a partir da cotidianidade das mulheres mães, por meio de suas narrativas, são repletos de simbolizações e de significações sobre o que é ser mãe naquele contexto e naquela comunidade. Contudo, essa análise será melhor empreendida e aprofundada no capítulo seguinte. Por enquanto penso ser importante continuar analisando a violência no Gereba – principalmente no tocante aos crimes ligados ao narcotráfico e a rivalidade entre as facções-, em função dos desafios postos a realização do próprio estudo.
Em pesquisa realizada a partir da leitura de diversos jornais da cidade e o acompanhar de alguns programas policiais de televisão, o ano de 2017 trouxe um acirramento do conflito a nível nacional entre facções que disputam o tráfico de drogas também no Ceará como um todo. Tais facções estão representadas nos diversos presídios do Estado e tem ramificações em várias comunidades da capital. Até o meio daquele ano várias chacinas tinham ocorrido tais como a ocorrida no bairro Praia do Futuro, e posteriormente a chacina no município de Horizonte, onde uma criança veio a falecer (O Povo Jornal, 21/04/2017). Uma das práticas usuais tem sido o assassinato simultâneo de pelo menos duas pessoas como forma de retaliação ou pela demarcação de território.
O Ceará vem crescentemente atraindo traficantes do eixo Rio São Paulo e se tornou um lugar estratégico para a disseminação das drogas na Europa. Em virtude disso multiplicam-se as facções que se estabelecem em comunidades periféricas. Elas passam a controlar a área, arregimentando jovens e até crianças (Matéria Diário do Nordeste, 23/04/2017). No Jangurussu tem forte incidência e estão em quase todos os seus conjuntos
habitacionais, dentre eles o conjunto São Cristóvão, o Santa Filomena e o próprio Gereba. (O Povo Jornal, 25/01/2017, 21/04/2017; Diário do Nordeste, 22/12/2010).
Por meio das entrevistas e conversas informais com as mulheres mães, participantes direta ou indiretamente da nossa pesquisa, pude constatar que a combinação da problemática dos conflitos territoriais, do narcotráfico, com forte influência entre os jovens, aliada à precariedade material, tem feito muitas famílias quererem deixar a comunidade de vez. A violência na região retrata a disputa entre facções em duas comunidades vizinhas: Gereba69 (Jangurussu) e Babilônia (Barroso).70 Novamente a moradora Lótus nos ajuda a saber mais desse universo: “Estava tudo calmo ano passado. A partir do carnaval deste ano os tiroteios começaram. Nós não podemos passar para o lado de lá da usina, porque já é reduto deles.” (Diário de Campo, 14/06/2017).
Em referência aos males causados pela problemática do tráfico, já na pesquisa anterior sobre culturas juvenis, os jovens e as jovens aludiam principalmente à negação do direito de ir e vir, fenômeno que mesmo anos depois, continua a ocorrer na comunidade, como podemos perceber por meio das anotações de um diário de campo feito em abril de
2017, uma semana após os conflitos em penitenciárias do Ceará71 que mudaram a rotina das
cidades, da capital e da comunidade:72
Naquele tarde dentre outras coisas, eu queria saber de Lótus como estava o Gereba após uma semana de muita violência na cidade. Um ônibus tinha sido queimado bem próximo dali, nas imediações da UPA. “Escolas também foram atacadas em Messejana.” - disse Lótus. Em meio a nossa conversa, um grupode mulheres passa animado e sonoro indo para a aula de Zumba. Nesse instante a filha mais velha de Lótus, de uns 10 anos aproximadamente, chega correndo da escola: “Tia!” Ela grita e me abraça, me deixando desconcertada com tamanho carinho. Eu retribuo feliz. Assustada, ela vira pra mãe e exclama: “Mãe! Invadiram o André Luís! (escola onde estuda) 3 homens armados! Todo mundo saiu correndo! Não teve mais aula! ”. Soube depois tratar-se de um jovem que ao fugir da polícia refugiara-se na escola. Ao se acalmar, a garota aproveitando o material de desenho que eu havia levado e que estava no sofá, fez um desenho para mim, enquanto eu tentava disfarçar o meu medo: ela desenhou um sol, montanhas e a inscrição acima: “Tia Ciça”. Eu agradeço
69Segundo o relato de moradores, da polícia, e as pichações nas paredes das casas, trata-se de um grupo ligado ao
Comando Vermelho (CV), segunda maior facção criminosa do Brasil. O CV domina o território das favelas cariocas e atua nas fronteiras brasileiras. Tem como líder o conhecido traficante Fernandinho Beira-Mar.
70Comandada pela facção Guardiões do Estado (GDE), atualmente uma das maiores existentes no Ceará. A
G.D.E é uma Facção criminosa originária da cidade de Fortaleza e aliada do Primeiro Comando da Capital (PCC), maior facção criminosa brasileira. Sua cúpula está sediada na penitenciária de segurança máxima de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. Dentre os atos de maior repercussão da G.D.E está a série de atentados a ônibus e equipamentos públicos na Grande Fortaleza em abril de 2017, considerada a maior da história de Fortaleza (GUARDIÕES..., 2018).
71Resultado da quebra do acordo nacional de paz entre o PCC e o Comando Vermelho, antigos aliados, com
documento formal que foi divulgado amplamente na internet, com orientações para todos os grupos ligados ao PCC. Fonte: Revista Época: O crime está em guerra: maiores facções brasileiras romperam (RIBEIRO; CORRÊA; FONSECA,2016).
e digo que trouxera o giz cera para as meninas menores, mas como ela já era uma mocinha resolvera lhe dar outra coisa, mais adolescente. Falo isso lhe entregando uma lapiseira de um azul transparente e uma caneta bem simples de escrita lilás. Ela olha, acha bonito, mas referindo-se a lapiseira, pergunta que objeto é aquele. (Diário e campo, 26 de abril de 2017).73
Há momentos em que o Gereba parece com qualquer outro local da cidade - as pessoas acordam cedo, vão para o trabalho ou escola, voltam, assistem televisão, amam, discutem, fazem compras no supermercado, cuidam da casa, se alimentam. Os moradores podem ter acesso à cultura e diversão com as atividades de projetos sociais como as do projeto Amo Cuidar e também com o futebol na entrada da comunidade, acompanhado por treinador profissional dois dias por semana. Mas há outros momentos como os relatados acima no diário de campo, em que uma realidade de um cinza escuro se faz maciçamente presente: Aquela garota de 11 anos no mesmo dia em que precisou, junto com os demais alunos e alunas fugir da escola, deu a entender que vira uma lapiseira pela primeira vez na vida:
O objeto foi tão desejado naquela casa que a filha menor ao ver a irmã mais velha desenhando, me devolve a caixa de giz de cera e diz chorando preferir também “aquilo”. O choro é interrompido pelo mesmo grupo de mulheres que vem voltando e avisa que não vai haver aula de zumba na sede do Projeto Amo Cuidar: “Parece que a professora está doente.” Enquanto eu fazia um desenho para entreter a garota que ainda chorava, fiquei me perguntando até que ponto o acontecido na escola não implicaria na ausência daquela professora.74 De qualquer modo, eu já desistira de me
demorar mais, já eram quase 18h e era mais prudente ir embora. A garota sorri para mim e continua o meu desenho fazendo outras flores em volta. Naquele dia vi o entusiasmo e a frustração das mulheres, a violência e o medo reverberando em mim, e a descoberta por parte de uma garota de que lapiseiras existem. Tudo em tão pouco tempo. Deixei a casa junto com Lótus que me acompanhou até a parada de ônibus, sempre com a filha menor no braço, só indo embora ao me ver dar sinal. A filha mais velha ficara na rua, esperando ansiosa com outros adolescentes pela capoeira, na esperança de que ainda pudesse acontecer. Naquele dia fiquei preocupada com o desenrolar da pesquisa naquelas condições. Saí do bairro com um novo boato de ações de presos para o dia seguinte na cidade, o que me fez avisar a Lótus que ficaria em casa. Uma nova onda de receio passa por mim ao escrever esse diário de campo. Como os moradores do Jangurussu estariam agora? Mas penso também na flor desenhada no papel capaz de arrancar o sorriso de uma criança. (Diário e campo, 26 de abril de 2017).
Ao analisar o crescimento da violência entrelaçada ao tráfico de drogas, César Barreira (2013), chama a atenção para os riscos de um posicionamento aligeirado incapaz de dar conta da complexidade do fenômeno:
73Dias depois eu ficaria sabendo que tratava-se da tentativa de fuga de um rapaz que tinha saltado da viatura da
polícia e entrado na escola para se esconder.
74As aulas de Zumba na comunidade por meio do Projeto eu Amo Cuidar de fato foram interrompidas desde
O aumento da violência e das taxas de homicídio não pode ser explicado apenas pelo tráfico de drogas, pois o fenômeno se inserta em um cenário mais amplo que passa, necessariamente, pela forma de enfrentamento dos conflitos sociais e, mais especificamente, pela resolução dos embates interpessoais na sociedade brasileira, bem como pela ausência de uma política de segurança pública nacional, mais eficiente e também racional. (BARREIRA, 2013, p. 227).
Em seus estudos sobre o conceito de experiência, Jorge Larrosa (2002) aponta como um dos grandes males da atualidade o fato do conhecimento haver se transformado em informação; o que me faz lembrar uma prática tão a gosto dos comentários de redes sociais, onde cada um tem uma opinião. No caso da violência, não raro são sugeridas pelo cidadão e cidadã comuns, soluções como pena de morte, linchamento, uso ilícito da força policial e retorno do regime militar.75 Mas “o outro sou eu, negado, oculto, camuflado”, como bem
expressa Sri Prem Baba (2014) em um de seus satsangs.76
Ao analisar os entrelaçamentos contemporâneos sobre juventudes e violência Glória Diógenes (2011) chama a atenção para a capacidade de projeção juvenil como termômetro e vitrine por excelência para dar visibilidade às tensões sociais. O alarde de sua presença no âmbito da cidade que lhe é indiferente, provoca de certo modo sua inserção e o desejo de filiação em grupos fechados:
Signos da violência, práticas do espaço e estratégias de expressão e visibilidade pública tornam-se argamassas centrais e ambivalentes na construção e ampliação de práticas de inserção social. Ultrapassa-se a direta correlação entre cidadania e inserção no mundo do trabalho. A crescente situação de desemprego, os salários que mais parecem degradar que valorizar os trabalhadores, apontam novos signos de reconhecimento social. A expansão das demandas de consumo sem uma correspondência proporcional ao poder de compra parece lançar uma sociedade que se constrói sob esses referentes numa condição generalizada de desesperança e medo. (DIÓGENES, 2011, p. 214).
Durante as minhas idas a campo no ano de 2017, pude observar que partir do segundo semestre, tão comum quanto os anúncios de venda nas paredes de algumas casas eram as pichações com as siglas C.V, como forma de demarcação de território, mesmo na sede das ações do projeto Amo Cuidar e do grupo de mulheres.
Pesquisando sobre juventudes de periferia Glória Diógenes (2013, p. 47-48) afirma: “No universo dos pixadores, repetir é um modo de marcar, de não deixar o “nome” ser esquecido [...]” A sigla do pixador expressa o seu “grupo” de referência, sua galera.” Segundo
75“O regime militar só foi ruim para quem não andava na linha”, dizia um senhor idoso para outro num banco de
ônibus periférico, outro dia. E uma jovem senhora conversava com um pequeno grupo de pessoas na fila da agência lotérica da Parangaba, bairro onde moro: “Eu sou mulher, mas eu sou danada, comigo não tem moleza pra vagabundo não!”
a autora, o esquecimento significaria, para muitos moradores e moradoras da periferia, “o preço muito alto que comumente se paga no dia a dia da vida urbana. Há uma luta incessante por visibilidade pública” (DIÓGENES, 2013, p. 49).
Uma vez que o tráfico vem arregimentando um número cada vez maior de jovens, é comum vê-los em vídeos gravados pelas facções entoando gritos de guerra numa gestualidade celebrativa ou ameaçadora, fartamente compartilhada nas redes sociais. “São eles os primeiros a tentar romper ou simplesmente se rebelar contra uma ordem que fala através deles e, concomitantemente, os excluí.” (DIÓGENES, 2011, p. 215). Isso afeta o próprio imaginário infantil77, o que nos remete a um curioso fato registrado em diário de campo durante o mês de novembro de 2017:
Era quase noite e eu voltava de uma das atividades, já passando pelo campo de futebol. Vejo um caminhão parado com inúmeras crianças brincando. Elas pulavam, gritavam. Pareciam querer extrair dali a cada momento um jeito novo de se divertir. Achei engraçado, atípico e potente aquilo. A ocupação do caminhão pelas crianças e a sua transformação em intensidade e passaporte de alegria. Tanto que pedi para tirar uma foto o que os deixou ainda mais agitados. “Oba! Tira aí uma foto minha tia!” Eles se encostaram um nos outros, fizeram pose, sacudiram seus corpos freneticamente, fizeram barulho e gestos com as mãos. “Não coube todo mundo”, avisei. “Tem nada não tia!” Os menores então decidem ficar agachados. Um deles ecoa um grito/canto: Uh é o CV! Uhu! Outros repetem. Agradeço e saio pensativa, olhando em volta. E se alguém mais tivesse visto? A cada carro que passa na avenida sinto o medo passar novamente por mim. (Diário de campo, 06 de novembro de 2017).
Durante uma pesquisa de inspiração etnográfica é em momentos como esse que se descobre na prática o que significa “pesquisar com o corpo todo”. Muitas vezes eu saia do Gereba sendo perpassada por inúmeros fluxos: de alegria, entusiasmo, amor, preocupação, medo e preconceito. Sentia-me mais que pesquisadora, humana, demasiado humana. Ria, chorava, sentia raiva, frustração, gratidão. No caso específico dessa experiência com as crianças, onde fui tomada pelo medo, como fugir do cerco estigmatizador?
Em seu estudo sobre as crianças moradoras do conjunto Santa Filomena, Araújo (2014, p 78) aborda indiretamente essa questão, quando ao investigar o imaginário infantil sobre a violência nas comunidades de periferia, narra um interessante diálogo realizado entre ela e aquelas crianças:
Pesquisadora: O que tu menos gosta no Santa Filomena?
Henrique: Dos malandros. Esses caras usam drogas e ficam por aí mexendo com as pessoas. Aqui tem muita gente que usa drogas [...]
77Não só no Brasil, muitas crianças são assediadas nas comunidades para atuarem como “aviões do tráfico” –
Teodoro: Pois eu gosto dos malandros. Nem todo malandro é ruim. Eles ajudam as pessoas, teve um até que me deu 1 real, já deu cinquenta centavos para aquele outro menino ali (apontando). (Diário de Campo, 23/01/2013).
O diálogo acima descrito parece revelar que não somente de medo e sujeição se constitui a relação traficantes/moradores e moradoras na periferia. A pesquisa dissertativa com as juventudes, principalmente durante a investigação no Conjunto Santa Filomena, já apontava complexas dimensões entre esses sujeitos que iam da amizade, apadrinhamento, admiração e até mesmo amor. Muitas vezes as jovens cresciam junto, brincavam com pessoas que futuramente teriam um envolvimento direto com o tráfico no bairro, e que ainda assim não rompiam aquele vínculo afetivo, traduzido muitas vezes em boas relações de vizinhança. Em outros casos era a relação amorosa entre as jovens e os garotos envolvidos com atos ilícitos que provocavam um repensar e um desejo em mudar de vida por parte daqueles, não raro expresso de fato na atitude de deixar o tráfico.
Passados alguns meses da cena vivenciada no campo de futebol, deparei-me com algumas crianças que durante uma atividade cultural na comunidade realizada em janeiro de 2018, que envolvia pintura em paredes, acabaram por fazer, num momento de desatenção dos facilitadores, uma composição alusiva a amizade e no meio a sigla C.V dentro de um coração. O que uma pesquisadora deveria fazer em uma cena como essa? Apenas observei o desenrolar dos acontecimentos. Após uma conversa com algumas mulheres mães voluntárias, tais facilitadores acabaram por apagar a sigla, preservando, todavia a totalidade do painel.
Barreira (1999, p. 120) nos diz que “[...] muitas vezes o modo de conceber a violência passa pela estigmatização de certa categoria de pessoas que passam a ser vistas como portadores do mal”. Ele nos convoca a uma instigante reflexão:
O modo de ver a violência não é independente dos padrões sociais violentos. Não podemos apreender a violência sem levar em consideração os discursos e as ideias sobre a violência [...] E não esqueçamos que para Oswald de Andrade as ideias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. (BARREIRA, 1999, p. 120).
Curiosamente, em outra atividade de lazer na comunidade, deparo-me com crianças que pareciam ter uma relação de amizade com os policiais, como pode ser acompanhado no registro abaixo:
Era o início das atividades do dia. Pra começar, uma contação de histórias infantis. Os animadores e animadoras chamam as crianças que circulam pelo espaço, mas várias delas são atraídas pelo carro da polícia que vai passando em frente ao local. Elas correm para falar com os policiais. Algumas se penduram no carro. Eles parecem ter intimidade com o grupo, pegam nas mãos, sorriem, conversam
animadamente. Um policial desce sorrindo do carro para falar com elas. Aquilo chama a minha atenção por destoar de certo modo da postura policial em relação à população pobre e negra da periferia. A contação de histórias começa e as crianças olham tudo com bastante atenção. Algumas crianças fantasiadas ficam de pé e começam a repetir, quase simultaneamente a fala da atriz, gerando certa confusão. A moça entra em acordo com eles para repetirem o texto somente após a fala dela. As crianças parecem entusiasmadas até que são atraídas novamente para fora. Quase todas correm para a rua deixando a atriz perplexa. Me surpreendo ao ver tratar-se de um outro carro de polícia. A cena se repete. As crianças são recebidas calorosamente