a difusão dos ginásios traz consigo os colégios
Com a autorização do funcionamento condicional para o curso ginasial — apesar das ressalvas —, iniciou-se o processo de verificação prévia para a instalação do segundo ciclo do Colégio Estadual "Antonio Raposo Tavares" (Ceart). Em 22 de outubro de 1952, o Ministério da Educação e Saúde emitiu comunicado que sugeria o encaminhamento do processo ao setor competente, "a fim de designar inspetor para proceder à verificação prévia, para funcionamento do 2º ciclo" (processo nº 62.941/51, f. 106). Em 16 de janeiro de 1953, o Ministério solicitou ainda que o inspetor Alfredo Pereira de Queiroz, encarregado da verificação, informasse "o nome do Diretor e do Secretário; a prova de direito ao uso do prédio e o horário de funcionamento". Como até 2 de março o inspetor ainda não havia tomado qualquer providência, foi substituído pelo inspetor Otavio Teles Rudge Maia (cf. processo nº 62.941/51, f. 108).
Este segundo inspetor também não se pronunciou e, em abril de 1954, a Diretoria de Ensino Secundário enviou correspondência ao inspetor regional, solicitando esclarecimentos, o que resultou num documento de cobrança ao inspetor Maia com o seguinte teor:
Solicito remessa urgente relatório verificação prévia segundo ciclo Ginásio Estadual de Osasco sediado capital São Paulo fins funcionamento condicional pt Esclareço vosso silêncio não dando conta serviços fostes designado está prejudicando vida estabelecimentos foram confiados pt (processo nº 62.941/51, f. 116).
A despeito de todos os trâmites, até novembro de 1954 o relatório de verificação ainda não havia se concretizado. No dia 16 daquele mês, a Inspetoria Federal propôs que, "não tendo sido elaborado o relatório de verificação prévia do Colégio Estadual de Osasco até a presente data, e havendo o inspetor designado solicitado licença, [...] seja indicado novo inspetor" (processo nº 62.941/51, f. 128).
Foi designada a inspetora Maria Amália Fortes para proceder à verificação. Em 11 de março de 1955, ela se manifestou nestes termos:
Tomo a liberdade de comunicar a V. S. que o Prof. Nilo de Magalhães Ribeiro, Diretor do Ginásio e Colégio Estadual de Osasco "Antonio Raposo Tavares", avisou-me haver perdido no ônibus da linha Aclimação uma pasta em que continha, além de outros documentos, a "Ficha de Classificação" d’aquele estabelecimento que fui encarregada de fazer. Dessa forma, solicito um prazo maior para a entrega da referida "Ficha" em virtude do ocorrido. Maria Amélia Fortes Toledo (processo nº 62.941/51, f. 132). Finalmente, em 28 de março de 1955, a inspetora encaminhou ofício à Inspetoria Seccional de Ensino Secundário, enviando a "Ficha de Classificação" e fazendo as seguintes observações:
O estabelecimento funciona em prédio próprio do Estado, em período noturno, construído de acordo com todos os requisitos da moderna arquitetura e pedagogia, sendo ocupado também, no período diurno, pelo Grupo Escolar "Marechal Bittencourt". Quanto às salas destinadas ao ensino das disciplinas de Ciências, Química e História Natural, as suas construções acham-se em concorrência administrativa pelo Convênio Escolar da Prefeitura Municipal, estando assentada a sua entrega dentro de 45 dias. Adianto, ainda, V. S. que, o prédio próprio para o estabelecimento terá a sua construção iniciada dentro de um mês (processo nº 62.941/51, f. 133).
Ao longo do exame do processo nº 62.941/51, constataremos não só que as salas especiais não foram entregues no prazo determinado, como
tampouco, durante toda a década de 50, se iniciou a construção de prédio próprio. Mas é importante ressaltar que, apesar de todos os problemas burocráticos, o curso científico já operava desde 1953, ano em que funcionaram três salas de 1ª série ginasial (duas mistas e uma masculina), duas classes de 2ª série ginasial (uma mista e outra masculina), uma classe de 3ª série ginasial mista, uma classe de 4ª série ginasial mista e uma classe de 1º ano científico misto — ao todo, oito salas de aula.
Naquele ano, a escola mantinha 238 alunos (171 homens e 67 mulheres) no período noturno — enquanto isso, na cidade de São Paulo, o número de matrículas nos cursos noturnos (6.303) já havia ultrapassado o de alunos dos cursos diurnos (5.739); nos cursos noturnos, os homens representavam a maioria, com uma participação de 65%; nos diurnos, eram as mulheres a maioria, com 61% de matrículas (cf. Sposito, 1992:57).
O horário de entrada dos alunos do Ceart era às 19:00h, com saída às 22:50h. Dada a sua localização em relação à infra-estrutura local no início dos anos 50, conclui-se que o prédio do Colégio encontrava-se em um ponto afastado do largo de Osasco, ou seja, da região central onde residia grande parte da população do bairro.
Um trecho da entrevista concedida pela professora Helena Pignatari indica o impacto que foi a instalação do Colégio, assim como as conseqüências decorrentes de sua localização.
— Você tem que falar [do] impacto que foi o aparecimento dessa escola no cenário. Quando a escola aparece no noturno, aquele lado do alto da Igreja era tudo escuro, não havia iluminação elétrica. Isso é que
vai explicar por que você vai encontrar mãe e filha na mesma sala, tio e sobrinha, tio e sobrinho. Porque aquele caminho não era muito fácil, não: era um caminho bastante perigoso, e a volta às 11 horas da noite — como é que as meninas vão voltar a essa hora? Então, os pais vinham buscar; na saída, tinha muito pai, muito tio, muita mãe, esperando, e outros que ficavam fazendo hora e à toa, para esperar o filho, resolveram entrar junto, como foi o caso da Rosinha Perini, que foi uma aluna brilhante. E [no caso da] Rosali, também, eram mãe e filha ali, as duas eram excelentes alunas (Helena Pignatari Werner, entrevista concedida à autora em 19/5/2004).
Esse impacto atingiu o cotidiano osasquense:
— [Ser estudante secundarista dava] status junto aos jovens da localidade. Quem não passava no exame de admissão do Ceart virava pária local [...] ninguém dava prestígio — só se projetava na sociedade entrando no Ginásio [...] as meninas só queriam namorar os meninos que estivessem no Ginásio (Eduardo Rodrigues, entrevista concedida à autora em 8/7/2004).
Para Rodrigues, a instalação do curso secundário local deu oportunidade àqueles que "não tinham dinheiro" de se lançar na sociedade, pois, ao se elevarem intelectualmente, ingressavam na elite: "— Só se projetava na sociedade entrando no ginásio". O entrevistado relata ainda que "no ginásio encontravam-se o filho do comerciante, do sapateiro, do operário, e todos tinham por ideal o reconhecimento intelectual" (Eduardo Rodrigues, entrevista concedida à autora em 8/7/2004), indicando que naquele espaço prevalecia a lógica da busca por ascensão social via escolarização.
Confirmando a informação de que a "instalação de ginásios noturnos em prédios de Grupos Escolares", trouxera profundas conseqüências sociais,
[...] imprimindo um novo caráter à instrução secundária. Ao serem criadas maiores possibilidades de acesso ao curso secundário, podendo ser incorporados como alunos os jovens que trabalhavam em período diurno, os horizontes educacionais de populações economicamente desfavorecidas tendem a se ampliar, transformando-as em clientela interessada em disputar as vagas oferecidas por essas unidades oficiais [mesmo que] as vagas existentes {fossem] poucas e os exames de admissão filtrassem grande parte do contingente candidato às vagas nas primeiras séries (Sposito, 1992:49).
De 1952 a 1958, o número de alunos da escola cresceu gradativamente. Como a escola só contava com 10 salas de aula, a décima primeira classe — que, segundo informou João Gilberto Port (entrevista concedida à autora em 8/7/2004), passou a existir a partir de 1955 (ver Quadro 8, a seguir) — foi alojada na coxia (espaço que ficava atrás do palco) do teatro existente no pátio, e ali passou a funcionar o 3º ano do curso científico, por ser a classe que reunia o menor número de alunos.
Nas Tabelas 1 e 2 nos Quadro 8, observamos que, no período indicado: a) dos alunos ingressantes no curso ginasial, 40% o concluem; b) dos alunos ingressantes no curso ginasial, 28,7% passam para o curso colegial; c) dos alunos ingressantes no ginasial, 7,5% concluem o curso colegial; e d) dos alunos ingressantes no curso colegial, 26% o concluem.
Estes números confirmam o nível de seletividade empreendido, já que menos de 10% daqueles que iniciam o secundário concluem o colégio.
Tabela 1
Distribuição dos estudantes nas classes e número de classes, segundo anos Colégio Estadual "Antonio Raposo Tavares"
1952-1958 Número de estudantes
Curso ginasial Curso científico
Ano letivo 1º X 1º X 1º M 1º M 1º F 2º X 2º M 2º M 2º F 3º X 3º M 4º X 4º M 1º X 2º X 2º M 3º X Total Nº de salas 1952 38* - - - - 19** - - - 15*** - - - 72 3 1953 38 - 39 27 - 35 25 - - 35 - 17 - 16 - - - 232 8 1954 25 19 21 - - 36 28 - - 28 - 25 - 12 9 - - 203 9 1955 31 29 20 - - 40 33 - - 33 29 24 - 29 - 12 6 286 11 1956 40 41 - - - 39 27 43 42 37 39 - 32 - 17 9 366 11 1957 38 - 30 - 38 40 39 - - 46 38 45 - 42 19 - 11 386 11 1958 43 - 44 - - 45 41 - - 43 42 41 33 30 37 - 16 415 11
Fonte: Livro de Atas de Resultados Finais, Arquivo do Ceneart. Legenda: X = misto; M = masculino; F = feminino.
Notas: (*) Nove desistências.
(**) Três não compareceram ao exame. (***) Quatro não compareceram ao exame.
Tabela 2
Distribuição dos estudantes por ano, segundo classes Colégio Estadual "Antonio Raposo Tavares"
1952-1958 Número de estudantes Anos Anos e séries 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 Misto 38 38 25 31 40 38 43 F 6 27 9 9 12 11 29 M 32 11 16 22 28 27 14 Misto - - 19 29 41 38 - F - - 7 17 13 21 - M - - 12 12 28 17 - Masculino - 39 21 20 - 30 44 1os G Masculino - 27 - - - - - Subtotal 38 104 65 80 81 106 87 Misto 19 35 36 40 - 40 45 F 7 19 18 30 - 23 22 M 12 16 18 10 - 17 23 Masculino - 25 28 33 39 39 41 Masculino - - - - 27 - - 2os G Feminino - - - - 43 - - Subtotal 19 60 64 73 109 79 86 Misto 15 35 28 33 42 46 43 F 2 15 11 19 28 33 28 M 13 20 17 14 14 13 15 3os G Masculino - - - 29 37 38 42 Subtotal 15 35 28 62 79 84 85 Misto - 17 25 24 39 45 41 F - 7 9 3 12 16 25 M - 10 16 21 27 29 16 4os G Masculino - - - 33 Subtotal - 17 25 24 39 45 74 Misto - 16 12 29 32 42 30 F - 3 0 3 3 11 5 1º C M - 13 12 26 29 31 25 Subtotal - 16 12 29 32 42 30 Misto - - - 19 37 F - - - 1 9 M - - - 18 28 2º C Masculino - - 9 12 17 - - Subtotal 0 0 9 12 17 19 37 Misto - - - 6 9 11 16 F - - - 1 3º C M - - - 6 9 11 15 Subtotal - - - 6 9 11 16 Total 72 232 203 286 366 386 415
Fonte: Livro de Atas de Resultados Finais, Arquivo do Ceneart.
Legenda: G = curso ginasial; C = curso científico; M = estudantes de sexo masculino; F = estudantes de sexo feminino.
Quadro 8
Distribuição dos estudantes por ano, segundo classes Colégio Estadual "Antonio Raposo Tavares"
1952-1958 Anos Classes 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1º Ginasial 38 104 65 80 81 106 87 2º Ginasial 19 60 64 73 109 79 86 3º Ginasial 15 35 28 62 79 84 85 4º Ginasial - 17 25 24 39 45 74 1º Científico - 16 12 29 32 42 30 2º Científico - - 9 12 17 19 37 3º Científico - - - 6 9 11 16
Fonte: Livro de Atas de Resultados Finais, Arquivo do Ceneart.
Além de seletivo, notamos que as mulheres – sempre em menor número no curso ginasial (ver Tabela 2) – tornam-se ainda mais raras no científico.
Tabela 3
Distribuição dos estudantes por ano, segundo sexo Colégio Estadual "Antonio Raposo Tavares"
1952-1958 Anos 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 Classes N % N % N % N % N % N % N % 1º G F 6 15,8 27 26 16 24,6 26 32,5 25 31 32 30 29 33,3 M 32 84,2 77 74 49 75,4 54 67,5 56 69 74 70 58 66,7 Total 38 100 104 100 65 100 80 100 81 100 106 100 87 100 2º G F 7 37 19 31,5 18 28 30 41 43 39,5 23 29 22 25,6 M 12 63 41 68,5 46 72 43 59 66 60,5 56 71 64 74,4 Total 19 100 60 100 64 100 73 100 109 100 79 100 86 100 3º G F 2 13,3 15 43 11 39,3 19 30,6 28 35,4 33 39,3 28 33 M 13 86,7 20 57 17 60,7 43 69,4 51 64,6 51 60,7 57 67 Total 15 100 35 100 28 100 62 100 79 100 84 100 85 100 4º G F - - 7 41,2 9 36 3 12,5 12 31 16 35,5 25 33,8 M - - 10 58,8 16 64 21 87,5 27 69 29 64,5 49 66,2 Total - - 17 100 25 100 24 100 39 100 45 100 74 100 1º C F - - 3 18,8 0 0 3 10,3 3 9,4 11 26 5 16,6 M - - 13 81,2 12 100 26 89,7 29 90,6 31 74 25 83,4 Total - - 16 100 12 100 29 100 32 100 42 100 30 100 2º C F - - - - 0 0 0 0 0 0 1 5,3 9 24,3 M - - - - 9 100 12 100 17 100 18 94,7 28 75,7 Total - - - - 9 100 12 100 17 100 19 100 37 100 3º C F - - - - - - 0 0 0 0 0 0 1 6,3 M - - - - - - 6 100 9 100 11 100 15 93,7 Total - - - - - - 6 100 9 100 11 100 16 100
Fonte: Livro de Atas de Resultados Finais, Arquivo do Ceneart.
Legenda: G = curso ginasial; C = curso científico; M = estudantes de sexo masculino; F = estudantes de sexo feminino.
De 1953 a 1958, apenas uma mulher chegou a concluir o curso científico, frente a 41 homens que chegaram à sua conclusão, o que aponta para uma "vocação feminina" no período.
Ser mãe, esposa e dona de casa era considerado o destino natural das mulheres. Na ideologia dos Anos Dourados, maternidade, casamento e dedicação ao lar faziam parte da essência feminina; sem história, sem possibilidade de contestação. A vocação prioritária para a maternidade e a vida doméstica seria marca de feminilidade, enquanto a iniciativa, a participação no mercado de trabalho, a força e o espírito de aventura definiriam a masculinidade. A mulher que não seguisse seus caminhos estaria indo contra a natureza, não poderia ser realmente feliz ou fazer com que outras pessoas fossem felizes. Assim, desde criança, a menina deveria ser educada para ser boa mãe e dona de casa exemplar. As prendas domésticas eram consideradas imprescindíveis no currículo de qualquer moça que desejasse se casar. E o casamento, porta de entrada para a realização feminina, era tido como ‘o objetivo’ de vida de todas as jovens solteiras (Bassanezi, 1997:609).
É provável que esse desinteresse aparente das mulheres pelos estudos tenha ligação com o fato de que a participação das mulheres no contingente de trabalhadores das fábricas, dos escritórios e do comércio de Osasco, bairro operário, normalmente ocorria enquanto eram solteiras e precisavam ajudar nas despesas da casa, onde, de costume, os irmãos mais velhos ajudavam os pais na manutenção dos mais jovens que ainda não podiam trabalhar. Ao se casarem, a situação mudava.
Cresceu na década de cinqüenta a participação feminina no mercado de trabalho, especialmente no setor de serviços de consumo coletivo, em escritórios, no comércio ou em serviços públicos. Surgiram então mais oportunidades de emprego em profissões de enfermeira, professora, funcionária burocrática, médica, assistente social, vendedora, etc., que exigiam das mulheres uma certa qualificação e, em contrapartida, tornavam-se profissionais remuneradas. Essa tendência demandou uma maior escolaridade feminina que provocou, sem dúvida, mudança no status social das mulheres. Entretanto, eram nítidos os preconceitos
que cercavam o trabalho feminino nessa época. Como as mulheres ainda eram vistas prioritariamente como donas de casa e mães, a idéia da incompatibilidade entre casamento e vida profissional tinha grande força no imaginário social. Um dos principais argumentos dos que viam com ressalvas o trabalho feminino era o de que, trabalhando, a mulher deixaria de lado seus afazeres domésticos e suas atenções para com o marido: ameaças não só à organização como também à estabilidade do matrimônio (Bassanezi, 1997:624).
Em 1958, segundo Sposito (1992:72), instalou-se a segunda instituição de ensino ginasial nas imediações da estação ferroviária de Osasco: o Ginásio Estadual de Presidente Altino (Gepa). Presidente Altino era a designação de antigo bairro de São Paulo que, com a emancipação, se tornara bairro das imediações do centro da cidade de Osasco.
Os anos de 1957/1958, período em que se instalaram 61 ginásios em diversos bairros e vilas da periferia paulistana, "pode ser configurado como a gênese da expansão do ensino ginasial na cidade de São Paulo [criando-se] condições favoráveis à gradual transformação do caráter seletivo que acompanhava a formação secundária até esse momento" (Sposito, 1992:47). Nesse período, Jânio Quadros era o governador do estado de São Paulo, e a implementação daqueles estabelecimentos de ensino em áreas remotas da cidade deve-se à ação deste político, "que não só ofereceu apoio irrestrito à proliferação dessas escolas, como determinou a sua imediata instalação" — ainda que com ordens à Secretaria de Educação para "escolher procedimentos" que permitissem o início do funcionamento de equipamentos escolares cuja criação e cuja regulamentação não estavam legalizadas (cf. Sposito, 1992:61-63).