dos gêneros discursivos
A narrativa é a base para a compreensão de muitos gêneros discursivos conhecidos e vivenciados pela sociedade (desde as conversas informais à leitura de bula de remédio) e não foi criada e nem inventada para atender essa contemporanei- dade, mas para atender as necessidades do homem. Segundo Barthes (1988), ela sempre esteve presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as soci- edades. A narrativa faz parte do homem, no homem e em prol do homem. Para com- preender o conceito gênero do discurso, dentro dos objetivos que regem essa inves- tigação, faz-se necessário compreender o conceito de narrativa.
A narrativa começa com a própria história da humanidade; não existe soci- edade desprovida de narrativa, ao passo que não se pode admitir sociedade sem his- tória, logo, as representações discursivas dos gêneros que operam a partir de narra- tivas, moldam em língua comportamentos representados pela linguagem por meio da própria experiência humana. Assim, os acontecimentos são registrados, as ações evi- denciam feitos e tais feitos constituem e viabilizam a compreensão e a aceitação ide- ológica do ser forte – herói, do ser fraco – vítima e do ser mal – vilão. Todos esses
elementos estão situados dentro na relação espaço temporal em que os gêneros dis- cursivos possam representar e resgatar, por meio da linguagem, comportamentos condizentes à herança e a bens culturais, mantidos e retomados sempre que nova história é criada e processada sob diferentes representações.
Por meio de narrativas, nossos antepassados inventaram cidades, políticas, leis, filosofia, bem como desempenharam finalidades lúdicas, nos momentos em que se sentiam seguros, se reuniam e contavam anedotas, aventuras e, a partir dessas narrativas construíam heróis, vilões, mitos, crenças e religiões.
Murray (2003) reforça essa ideia, afirmando que a narrativa é um dos nos- sos mecanismos cognitivos primários para compreensão do mundo. É também um dos modos fundamentais pelos quais construímos comunidade, desde a tribo agru- pada em volta da fogueira até a comunidade global reunida diante da televisão, com- putadores e aparelhos celulares. Segundo a autora, nós contamos uns aos outros histórias de heroísmo, traição, ódio, perda, triunfo. Nós nos compreendemos mutua- mente por meio dessas histórias e, muitas vezes, vivemos ou morremos pela força que elas possuem.
Segundo Benjamin (1985), a narrativa nunca consistiu numa fala aleatória, mas sempre teve finalidade maior, utilidade para quem escutava, e é sobre essa rele- vância que os gêneros discursivos se justificam e se constroem das mais diferentes formas, pois a natureza da verdadeira narrativa é sua utilidade, assim como a natureza do discurso em ação. Ela tem sempre em si, às vezes de forma latente, uma dimensão utilitária. Essa utilidade pode consistir seja em ensinamento moral, seja em sugestão prática, seja em provérbio ou norma de vida – de qualquer maneira, o narrador é o homem que sabe dar conselhos, o leitor aquele que poderá segui-los.
A tradição oral nos faz entender a finalidade das narrativas antigas que a todo tempo possuía a função de comunicar, solidificar e, até mesmo, revolucionar os padrões sociais da comunidade. Durante muito tempo, essas narrativas foram respon- sáveis pela construção da ordem e das identidades culturais da humanidade. Essa tradição persiste nos dias de hoje, todavia, sob novas formas de representação.
Do oral à escrita a narrativa, como gênero do discurso, não só estabeleceu na sociedade sua importância e utilidade, como também propôs modelos necessários à manutenção dos bens culturais construídos em sociedade.
A migração da oralidade para outros espaços como livros, revistas, peças teatrais e jogos eletrônicos, inclusive, adotou estrutura formada por cinco elementos essenciais, sem os quais, a noção de narrativa inexiste: enredo (o tema, o assunto e a mensagem das histórias); tempo; espaço; personagens e narrador.
Podemos chamar de enredo, trama ou intriga o conjunto de acontecimentos ordenado na história. Trata-se do esqueleto da narrativa que não precisa ser “verda- deiro” no sentido de corresponder exatamente a fatos que realmente ocorreram ou à maneira como a realidade opera no mundo. Mas, sem dúvida, precisa respeitar a ló- gica interna do universo em que a história se desenvolve, entrelaçando possibilidades, verossimilhança e necessidades.
De acordo com Rosenfeld (2005), o termo “verdade”, quando usado como referência a obras de arte ou de ficção, possui significado diverso do usual, podendo ser designada, com frequência, qualquer coisa que se refere à genuinidade, sinceri- dade ou autenticidade.
No que tange a sua estrutura, o enredo pode ser dividido em três partes principais: introdução, desenvolvimento e conclusão que correspondem, respectiva- mente, ao início, meio e fim da história narrada; a apresentação da situação inicial marcada por elementos introdutórios e de representação do tempo e do espaço. O fazer transformador que opera na ruptura e mudança desse estágio inicial condicio- nando um conflito – a problematização e a situação final, quando, após viver o pro- blema, permite que se estabeleça uma solução viável para o conflito, o desfecho.
O tempo e o espaço são elementos importantes para que os acontecimen- tos da história se organizem na narrativa. É importante compreender que o tempo é completado pelo espaço e por tudo aquilo que nele estiver presente. Sendo assim, pode-se definir o tempo como o elemento invisível que serve como base para organi- zação dos acontecimentos da história na medida em que coopera para o entendi- mento dos estados que se transformam sucessivamente na ação, a transição entre a situação inicial – fazer transformador (conflito) e a situação final. O espaço corres- ponde ao lugar da ação e interação dos eventos e personagens, sendo fundamental para ambientação.
A narrativa pode ter um ou mais personagens, cada qual tem um papel a desempenhar, uma função a ser exercida, uma vontade a ser praticada ou um destino
a ser alcançado. Existem duas categorias de personagens: os protagonistas, também chamados de heróis ou personagens principais, geralmente estão no primeiro plano dos fatos; e os personagens secundários, que ajudam a sustentar a trama. O narrador tanto pode interpretar a realidade que está sendo narrada, como também participar dessa realidade, exercendo função específica. Decorre daí a distinção tradicional en- tre narrador na primeira pessoa (aquele que exerce função de ação) e narrador na terceira pessoa (aquele cuja função se restringe à interpretação dos fatos).
O narrador desempenha papel de extrema importância, pois é aquele que conduz a história, articulando os elementos estruturantes da narrativa de modo a apre- senta-la, da melhor forma possível, seja em primeira ou em terceira pessoa, ao ouvinte, ao leitor ou espectador.
A princípio, alguns dos formatos narrativos como romances, peças teatrais, histórias de ficção, crônicas, séries, filmes eram completamente lineares. Com o apri- moramento da técnica e dos meios de comunicação a linearidade deu espaço ao sur- gimento de outros caminhos, nos quais o espectador passa a também ter voz e ser ouvido. Muitos escritores passaram a criar narrativas que possibilitam aos leitores o poder de decidir os rumos de seus protagonistas e de seus outros personagens na trama, adotando uma narrativa multiforme e participativa com o intuito de conquistar novos telespectadores, proporcionando ligeira sensação de participação.
Essa nova postura possibilita maior interação entre o “escritor” e “leitor”. Trata-se de transformação muito mais profunda do que as provocadas pelo rádio, pela televisão e tem em sua base conceitos de convergência e de interatividade.
Segundo Murray (2003), os novos ambientes eletrônicos têm desenvolvido seus próprios formatos narrativos, diferentes dos formatos lineares. “No campo da narrativa digital, os maiores esforços criativos e sucesso comercial tem se concen- trado, até agora, na área dos jogos para computador.” Pode-se dizer que os jogos eletrônicos, por possuírem a capacidade de contar histórias com a participação do usuário, são narrativas que permitem ao leitor deixar de ser passivo e se tornar parti- cipante ativo da trama, como já apresentado anteriormente sobre a narrativa dos jogos digitais.
Ainda que o tempo determine novas acepções acerca do conceito de nar- rativa, ela compõe estruturas flexíveis, todavia permanentes e que justificam os dife- rentes gêneros discursivos, marcados pela necessidade, função e condição de mo- delo a ser seguido no processo de criação e no comportamento do leitor. Ler a narra- tiva corresponde a assumir posicionamento da expectativa sobre a sucessão dos fatos. Trata-se do advir.
Ao longo dos anos, os jogos eletrônicos também conhecidos por games, videojogos, jogos digitais, ganharam destaque no cenário mundial devido ao melho- ramento da qualidade dos gráficos, design de interface, técnicas de animação, joga- bilidade, imersão, adoção de temáticas diferenciadas dada a sofisticação que as nar- rativas passaram a assumir em função da linguagem dos jogos.