Como vimos até aqui, existe uma séria preocupação com o corpo. Você já parou para pensar se essa é uma preocupação que surgiu ape- nas no século XX e início do século XXI ? Se voltarmos um pouco na história, vamos observar que esta não é uma preocupação tão nova.
Por volta do século XVII até a segunda metade do século XVIII, va- lorizava-se a “imobilidade corporal”. Esta era extremamente necessária e determinava a diferença entre aristocracia e a burguesia da classe tra- balhadora. Nesse sentido, SOARES lembra que a imobilidade:
Dessa forma, o corpo deveria exibir um aspecto firme, no qual o mo- delo ideal era o “retilíneo”. Para atingir esse modelo, os espartilhos eram artefatos amplamente utilizados entre as damas da sociedade aristocra- ta e burguesa. Este artefato dificultava a mobilidade dos
corpos. “O espartilho, portanto, era um artefato destinado não só a endireitar, mas, também, a denotar uma diferen- ça de classe, uma vez que, ao usá-lo, qualquer esforço era impossível. A moda, assim, marcava mais claramente uma distinção entre a elite e o povo” (SOARES, 2003, p. 82).
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), um dos mais céle- bres filósofos do século XVIII, se preocupava com a edu- cação, em especial da criança. Ele argumentava que o homem nasce bom e que as instituições, na medida em que são más, o corrompem, por isso, deveria haver “um retorno à natureza”. Rousseau acreditava ser importan- te despertar nas crianças os gestos simples e tratá-las co- mo crianças e não como adultos em miniatura; desde as roupas utilizadas até a forma de educá-las. Dessa forma, a criança teria liberdade nos gestos e movimentos tendo a possibilidade de seguir seu próprio ritmo.
Georges Seurat. Jovem mulher maquiando-se. 1888-90. Óleo sobre tela, 95 x 79 cm. Galeria Instituto Courtauld, Londres.
n
Georges Seurat. Um domingo à tarde na grande Jatte, 1884-86. Óleo sobre tela, 206 x 305 cm. Instituto de Arte de Chicago.
n
Rousseau somou-se a pessoas especializadas e importantes dessa época, como médicos e pedagogos, que questionaram e criticaram o uso do espartilho, objeto tão prestigiado pelas mulheres. Essas críticas foram fundamentais para derrubar a utilização desse objeto, considera- do uma “prensa de corpos”. (FONTANEL, apud SOARES , 2003, p. 82)
A partir desses questionamentos, os estudos de Soares revelam que Georges Demeny (1850-1917), biólogo e pedagogo francês, afirmava a importância de “hábitos saudáveis” e estes deveriam ser desenvolvi- dos por meio de exercícios físicos adequados e bem dosados, desde a infância. Pois acreditava que quanto mais cedo se iniciasse nessa “ar- te fundada sobre a ciência do movimento”, mais eficientes seriam seus
Novo Manual de Educação Física, ginástica e moral do Coronel Amoros. Paris, Livraria Enciclopédia Roret, 1939, 3 volumes. Paris, BnF, França.
n
“(...) este é o momento no qual começa a existir uma ampliação dos direitos políticos aos não proprie- tários, ao mesmo tempo em que o tema da democracia passa a ser incorporado. A Revolução de 1848 faz surgir uma legislação trabalhista e o direito de organização dos trabalhadores em sindicatos”. (WARDE apud SOARES, 2001, p. 46)
Mas qual é a relação disso tudo, especificamente, com a ginástica, que é um dos conteúdos estruturantes da disciplina de Educação Fí- sica? Qual é o motivo de estarmos nos referindo a essas questões de consumo e da mídia?
Podemos dizer que há uma íntima relação entre todos esses aspec- tos destacados anteriormente, pois era por meio do exercício físico e da ginástica, que se modelava o corpo.
Para entendermos isso, e continuarmos desatando os nós, precisa- mos esclarecer os seguintes pontos: qual é o período histórico a que nos referimos? De qual ginástica estamos falando? Qual é o papel da escola como coadjuvante neste processo?
Vamos fazer um recorte histórico, considerando o século XIX e a Europa marcada pelo processo fabril. Com isto, ocorre uma redefini- ção nos padrões estabelecidos em relação à sociedade, ao trabalho e ao homem.
Em meio ao processo de industrialização, começaram também a surgir mais problemas relativos à saúde dos trabalhadores, como: do- enças, alto índice de mortalidade, vícios posturais, vícios em geral.
A burguesia tinha claro a importância e a necessidade da “força fí- sica do trabalhador” (SOARES, 2001, p. 48). Assim, a preocupação com o cor- po tornava-se cada vez mais evidente, pois havia a necessidade do tra- www.diadiaeducacao.pr.gov.br
balhador suportar a fadiga provocada pelo excesso de horas trabalhadas e pelas condi- ções precárias das instalações industriais. O corpo constituía-se como importante instru- mento para o trabalho. O objetivo era “acen- tuar sempre a utilidade dos gestos executa- dos, sem, contudo, alterar as condições de vida e de trabalho”. (SOARES, apud GONZÁLEZ, 2005, p. 278)
Qual seria então, o procedimento para que o trabalhador continuasse a desempe- nhar suas funções profissionais? A necessida-
de de desenvolver um mecanismo que contribuísse para essa finalida- de manifestou-se na valorização da ginástica, no cenário da sociedade industrial, como atividade física que seria capaz de corrigir vícios pos- turais decorrentes das atitudes adotadas no trabalho.
Além disso, a ginástica e seus exercícios tinham um caráter disci- plinador extremamente necessário à “ordem fabril” e à “nova socieda- de industrial”.
Os exercícios físicos, denominados de “métodos ginásticos”, foram encarados de diferentes formas nos países da Europa, tais como: Fran- ça, Suécia, Dinamarca e Alemanha. Cabe observar que, a ginástica e seus exercícios tinham um caráter disciplinador necessário à ordem fa- bril e à nova sociedade industrial.
Interior de uma fábrica durante a revolução industrial – indústria têxtil - na Inglaterra (sécúlo XVIII). http://www.suapesquisa.com/ industrial