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CI:WAIS-II FE: Pruebas de reglas y

Como já referido nestas páginas, as matas do Utinga desde sempre despertaram interesse nos pintores paisagistas que, encantados e preocupados em registrar a natureza amazônica em toda a sua exuberância, naquele sítio encontravam o local ideal para seu deleite. Pelas paletas dos diversos artistas, ao longo dos anos, surgiram inúmeras obras, cada uma carregando sua própria identidade, matizes, cores, e a alma de seu próprio autor. Longe de esgotar o assunto, ao longo desta pesquisa foram identificadas, principalmente como concorrentes à salões e como

375 FIGUEIREDO, Aldrin. Janelas do passado, espelhos do presente: Belém do Pará, arte, imagem e história. Belém, FUMBEL, 2011. p. 24.

376 FUNDAÇÃO CULTURAL DO MUNICÍPIO DE BELEM. Museu de Arte de Belém: memória & inventário. Belém, 1996.

participantes em mostras diversas, as seguintes obras que apresentam como tema central os recantos das matas do Utinga.

Trata-se da tela Captação d’água, do pintor Theodoro Braga, datada de 1905

e pertencente ao acervo do Museu de Arte de Belém – MABE378, apresentada na introdução deste trabalho, o primeiro registro encontrado. Neste caso, para além de um simples diletantismo com o ambiente que o cercava, o autor imprime ao seu trabalho um caráter documental já que, ao que se percebe, teria ele como objetivo principal deixar registrada, em seu quadro, uma visita de autoridades às recentes obras realizadas no local. Lembremos que Braga tinha como seu mecenas o Intendente Antônio Lemos que, em 1901, havia inaugurado os serviços de captação de água naquele local, feito que se constituía em mais um dos marcos de modernidade de sua administração. Sobre o quadro, comenta Figueiredo (2014):

Na tela, o que seria prioridade, uma visita das autoridades ao serviço público, fica em segundo plano, eclipsado pela cerca de árvores que percorre o primeiro plano da tela. A água é escura, de igarapé, de mata fechada e em nada sugere a velha mimese dos riachos europeus representados por alguns artistas do século XIX379.

Para a Exposição Nacional de 1908, realizada no Rio de Janeiro, oportunidade em que o Estado do Pará, através de seus participantes, produtos e materiais expostos, se empenhava em apresentar uma vitrine de seus ares de metrópole moderna alavancada pelo dinheiro da borracha, como bem cabia ao propósito foi enviada uma tela com mesma temática da anterior, de autoria do pintor Francisco Estrada e denominada Captação do Utinga. O pintor, ao que se pode auferir, seguiu visitando e registrando o local em suas telas pois, no Salão de Pintura, promovido pelo Governo de Estado e realizado no Teatro da Paz em novembro de 1911 e no qual foi premiado, quatro dentre suas seis paisagens expostas recebiam a denominação de Utinga, todas em óleo sobre tela. Já no Salão Paraense de Belas

Artes, organizado pela Academia Livre de Bellas-Artes e inaugurado em janeiro de

1921, quem comparece com um trabalho com aquela temática é o pintor Andrelino Cotta, que na ocasião concorreu com a obra Igarapés, estrada do Utinga.

378 Ver Figura 2. p. 21.

379 FIGUEIREDO, Aldrin. O museu como patrimônio, a república como memória: arte e colecionismo em Belém do Pará (1890-1940). In: Antítese, v.7, n.14. p. 20-42. Jul – dez 2014 p. 26.

Figura 67: Arthur Frazão, Estrada do Utinga, s/data, óleo s/ tela.

Coleção particular

Como os que em Belém moravam, também os artistas de passagem pela cidade eram atraídos pela exuberância das matas do Utinga. Chaves (2017)380 reporta, em seu trabalho sobre a paisagem nas coleções de arte em Belém do Pará nas primeiras décadas do século XX, a presença de quatro telas apresentadas pelo pintor ítalo-brasileiro Ângelo Guido (1893-1969) em uma exposição do artista realizada em São Paulo, em 1927, dentre outras as denominadas de Inferno verde – Utinga, Igarapé, Natureza selvagem e Água tranquila. Guido por Belém esteve

pintando no ano de 1926, ocasião da fatura da tela Ver-o-Peso, pertencente ao acervo do MABE.

Em sua estreia como concorrente no I Salão Oficial de Belas Artes, em 1940, o pintor Arthur Frazão expõe um conjunto significativo de sete aquarelas, onde registra paisagens da cidade e de seus arredores e que recebem os sugestivos títulos de Praia do Chapéu Virado, Angelin rajado – Utinga, Clareira – Utinga, Igarapé – Utinga, Casebres, Boulevard Doutor Freitas e Travessa Lomas Valentinas. Outros quatro

trabalhos, com temas variados, completam o grupo de obras expostas pelo artista.

380 CHAVES, Igor Gonçalves. O perto e o longe: o mundo da paisagem nas coleções de arte de Belém do Pará (1901-1929). Dissertação de mestrado (Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia) – UFPa. – Universidade Federal do Pará. Belém, 2017.

Note-se que, nesse momento, é possível observar que Frazão já fazia das matas do Utinga um de seus locais prediletos para exercitar suas atividades de pintura e, quando para lá se dirigiu com o Grupo a partir de 1944, já há muito andava por aquelas bandas. Ainda como correntes nos Salões Oficiais, mais cinco trabalhos trazem grafado o termo “Utinga”, três dos quais apresentados em 1947, quando a exposição já se realizava no Teatro da Paz. O veterano pintor José Veiga Santos apresenta

Trecho da estrada – Utinga, Arthur Frazão e Benedicto Mello, estes participantes do

Grupo do Utinga, concorrem, respectivamente, com Paisagem - Utinga e Utinga, provavelmente realizados durante as idas no grupo aquelas paragens. No IX e último, Frazão fecha os Salões com quatro obras, dentre as quais as telas intituladas

Paisagem – Utinga e Estrada do Utinga.

Frazão, pintor incansável, conseguia capturar em suas telas meticulosamente as espécies botânicas, a luz, a ambiência, a umidade, daquelas florestas cortadas por inúmeros cursos d’água, e é ele o responsável pela maior coleção de telas que se tem daquele lugar. Leal (1995)refere que as artes paraenses nas décadas de 40 e 50 “...eram voltadas ao paisagismo, nas telas de Veiga Santos e Arthur Frazão, bem como na reprodução de alguns pontos pitorescos da cidade, como ficaram célebres as caminhadas pela estrada do Utinga, onde nasceram as mais belas telas de Frazão”381. Na tela Estrada do Utinga (Figura 67), Frazão apresenta os caminhos rasgados na floresta, uma das estradas de terra batida que davam acesso ao interior da mata. O céu espalha-se pela tela, mostrando um dia claro, com nuvens. Ao centro, cercado pela mata, um largo caminho em curva, conduz o olhar do observador ao fundo do quadro, marcando a perspectiva. A paleta é clara, evidenciando luz no ambiente. Inúmeros outros quadros fez Frazão nas matas do Utinga, não só de seu patrimônio natural, como do edificado, momento que ficou registrado em imagem fotográfica do artista a pintar as ruinas do Engenho Murucutu382. Também a pintora Irene Teixeira tomou a antiga capela do engenho como tema para seu trabalho. O acervo do MABE guarda três obras de autoria da pintora, realizados por ocasião dessas porfias artísticas: Ruínas do Engenho Murucutu, óleo sobre tela, 1952 (Figura 68); Capela – Ruínas do Murucutu I (fragmentos), bico de pena, 1951 e Capela – Ruínas do Murucutu II (fragmentos), bico de pena, 1951 (Figura 69).

381 LEAL, Cláudio La Rocque. A crítica e as décadas de 1930 e 1940. In: Fundação Rômulo Maiorana. Salão Arte Pará: catálogo. Belém, 1995. p. 23.

Figura 68: Irene Teixeira, Ruínas do Engenho Murucutu, 1952, óleo s/ tela, 40,2 x 30,7 cm.

Acervo: Museu de Arte de Belém

FIGURA 69: Irene Teixeira. À esquerda: Capela - Ruínas do Murucutu I (fragmento), 1951, bico de

pena, 23,3 x 15,9 cm. À direita: Capela - Ruínas do Murucutu II (fragmento), bico de pena, 1951, 23,7 x 16,1 cm.