A interpretação da desigualdade maximamente mantida foi elaborada por Raftery e Hout (1993), ao analisar a evolução da estratificação educacional antes e depois de reformas educacionais de expansão do acesso ao ensino médio na Irlanda na década de 1960. Assim como a maior parte das sociedades em processo de modernização, o padrão de desigualdades persistentes foi observado empiricamente na Irlanda, a despeito da expansão, e a desigualdade maximamente mantida é a explicação oferecida pelos autores para o comportamento observado da associação entre origem social e progressão escolar.
As reformas educacionais na Irlanda constituem-se em um caso emblemático para o estudo
da estratificação educacional, pois a expansão educacional – direcionada ao ensino
secundário, pois as taxas de participação no nível primário estiveram sempre próximas de
100% – envolveu a remoção direta de custos financeiros da escolarização (abolição da
cobrança de mensalidades). O estudo de Raftery e Hout compara coortes que adentraram o ensino secundário antes e depois das reformas e investigam o comportamento da associação entre origem social e destino educacional para coortes nas quais o custo de progressão para o ensino secundário era alto e coortes nas quais este custo era substantivamente mais baixo. Mesmo com reformas desta natureza, o padrão de desigualdades persistentes ainda assim foi observado. Como entender este efeito da reforma educacional sobre as desigualdades de alcance?
Os autores analisam resultados educacionais de quatro coortes, nascidas entre 1908 e 1956, das quais somente a mais antiga havia passado pelo sistema educacional no nível secundário em um momento anterior às reformas. Entre os efeitos mais marcantes das reformas, estão mudanças que indicavam aumento nas taxas de transição para o ensino secundário, o que diminuiu de maneira considerável desigualdades muito significativas entre classes observadas para as coortes mais antigas e coortes mais jovens. A principal conclusão substantiva sobre a entrada no nível secundário é a de que, a despeito do obscurecimento dos efeitos de classe devido a um “efeito-teto” que passou a operar para este nível educacional, para o caso irlandês a expansão da educação secundária afetou os diferenciais de classe não porque a origem de classe deixou de afetar as chances de entrada no nível secundário, mas porque o processo de seleção (e progressão educacional) como um todo se
tornou menos seletivo. As chances de entrada no nível secundário cresceram para todas as categorias de classe de origem. Comparações entre coortes indicavam não existirem diferenças significativas entre nas chances de transição por classe de origem entre a primeira e a segunda coortes. Entre a segunda e a terceira coortes, observa-se crescimento generalizado das taxas de transição, com diminuição do efeito da escolaridade dos pais sobre
as chances de realização da transição de entrada no nível secundário – a única tendência
decrescente de associação entre origem e transições observada na comparação entre estas duas coortes. Na terceira coorte pela primeira vez mostra-se a evidência empírica crucial para a construção do argumento: as taxas de entrada no ensino secundário atingem o nível de saturação nas classes altas (taxas próximas a 100%), eassim a expansão educacional experimentada por esta coorte poderia ocorrer somente se as taxas de entrada no nível secundário aumentassem mais entre os estudantes de origem sócio-econômica mais modesta do que entre os estudantes de origem sócio-econômica privilegiada. Daí extrai-se a conclusão forte de que esta mudança específica na associação entre origens e taxas de transição foi induzida pelo crescimento geral nas taxas de participação, e não em uma mudança efetiva no sentido da adoção de princípios diferentes de alocação dos indivíduos em posições educacionais.Para a transição subseqüente, de graduação no nível secundário, não são observáveis grandes mudanças nos diferenciais de classe de origem, com pequeno crescimento geral nas chances de realização desta transição, das coortes mais antigas para as coortes mais jovens. As chances de realização da transição para o ensino pós-secundário caem significativamente entre as coortes mais jovens, efeito do descompasso no ritmo de
expansão do ensino superior em relação ao ensino secundário – a população sob risco de
realização da transição rumo ao nível pós-secundário cresceu muito, mas o número de vagas disponíveis neste nível não passou por uma expansão capaz de absorver este volume crescente de postulantes potenciais.
A partir destas evidências principais sobre o caso irlandês, os autores sugerem que o padrão de estratificação educacional observado seja definido pelo conceito de desigualdade
maximamente mantida, que significa que a associação entre origem social e progressão
educacional tende a permanecer a mesma a não ser que tenha sua mudança forçada devido ao crescimento nas taxas de participação. Especificando as suposições centrais:
i) Todos os demais fatores mantidos constantes, o crescimento na capacidade de absorção dos níveis secundário e pós-secundário refletirá o aumento na demanda ocasionado pelo crescimento da população. Neste caso, taxas de transição por classe se manterão constantes ao longo do tempo;
ii) Se a expansão aumenta as taxas de participação de forma mais rápida que a demanda devido à redistribuição das origens sociais, as taxas de transição crescerão para todas as classes sociais, mas de forma a preservar as razões de chance de transição por classes; iii) Se a demanda por determinado nível educacional atinge níveis de saturação em determinadas classes, a associação entre origem social e progressão escolar é enfraquecida. A explicação sobre a desigualdade maximamente mantida assenta-se em pressupostos de escolha racional, e vincula-se à idéia de que estudantes e suas famílias tomam decisões sobre progressão educacional em termos de custos e benefícios percebidos. Parece razoável supor que filhos de pais mais educados tendem a atribuir maior valor à educação. Parece também razoável supor que o custo de um item, em unidades de utilidade, é mais alto para famílias com níveis mais baixos de rendimento. Isto é o mesmo que dizer que a utilidade marginal percebida aumenta na medida em que aumenta o nível de renda, mas em ritmo
decrescente, o que pode ser denominado “suposto da concavidade”. Este princípio explicaria
as desigualdades persistentes entre estudantes com origens em classes manuais e não manuais, pois a trajetória mais comum com a qual os filhos das classes trabalhadoras estão habituados (na Irlanda) é o apprenticeship, suplementado pelo engajamento de meio período em instituições vocacionais que os ligam a ocupações manuais qualificadas. Assim, sua percepção sobre os benefícios da progressão escolar em uma rota mais acadêmica seriam menores e estes estudantes teriam menos chances de segui-la.
Uma perspectiva de escolha racional também explicaria as mudanças observadas entre coortes. Entre as duas primeiras coortes não foram observadas mudanças significativas e as taxas de transição eram baixas, refletindo o fato de que a demanda por escolarização acadêmica era baixa.Durante este período, a estagnação econômica fazia com que os benefícios percebidos e os custos educacionais pouco se alterassem. A terceira coorte foi afetada pela rápida expansão econômica no início dos anos 1960, que promoveu,na população, um aumento na percepção dos níveisderetornos potenciais, com o incremento no número de posições ocupacionais que exigiam ao menos nível educacional secundário. A combinação entre benefícios potenciais percebidoscomo crescentes e a diminuição nos custos do investimento educacional explicaria o aumento nas taxas de transição em todas as classes de origem, mas também a redução na associação entre origem e entrada no nível secundário devido ao “efeito-teto”. O cenário da estratificação educacional, no entanto, não se alterou significativamente para a coorte mais jovem, o que seria esperado tendo em vista que as reformas educacionais diminuíram os custos da escolarização, o que conjugou-se ao aumento no retorno percebido do investimento educacional devido à expansão da estrutura produtiva. A análise da estrutura de incentivos econômicos operante à época pode esclarecer esta aparente contradição. Entre os estudantes pertencentes à coorte mais jovem, o principal
custo para a continuidade na escolarização era o custo de oportunidade representado por rendimentos precedentes aferidos no passado. Por outro lado, a situação econômica com que os indivíduos das outras coortes se depararam, durante o fim dos anos 1960, era muito positiva, com desemprego em níveis historicamente muito baixos, de forma que um estudante que abandonava o sistema educacional tinha boas chances de encontrar um emprego e, mesmo que esperasse rendimentos abaixo da média do país à época, era claro que o valor (residual) das mensalidades era parcela muito pequena do custo efetivo da continuidade no sistema educacional. Neste contexto, seria possível intuir que o impacto da remoção de mensalidades sobre a desigualdade de oportunidades educacionais fosse pequeno, como de fato acabou por ocorrer.
A perspectiva da desigualdade maximamente mantida tem como aspecto central a suposição de que as desigualdades de classe nas chances de progressão educacional tendem a se manter constantes. Mudanças na associação entre origem social e destino educacional tendem a ocorrer apenas em contextos nos quais as taxas de transição para determinados níveis educacionais atinjam níveis de saturação que impeçam, por um “efeito-teto”, seu aumento entre classes de origem sócio-econômica privilegiada. Se por um lado, este processo diminui as desigualdades de classe entre os níveis educacionais para os quais observa-se saturação do acesso para classes mais altas, por outro ele desloca as desigualdades para os níveis educacionais mais altos, entre os quais não existe saturação das taxas de participação para nenhuma classe de origem. Para esta perspectiva, análises fundamentadas nos cálculos familiares entre custos e benefícios percebidos do investimento na progressão educacional seriam especialmente úteis para a explicação do comportamento dos padrões de estratificação educacional, entendendo que tal padrão é uma função da variação entre estes fatores. Desde a formalização de sua proposição, a desigualdade maximamente mantida é uma interpretação que foi aplicada à análise dos casos norte- americano (Hout, Raftery e Bell, 1993), francês (Vallet, 2004), israelense (Ayalon e Shavit, 2004), chinês (Wu, 2010), em comparações internacionais (Hout, 2006) e inclusive repercute em análises do caso brasileiro (Valle silva, 2003; Ribeiro, 2011; Montalvão, 2011). Do ponto de vista teórico, outros trabalhos avançaram discutindo seus principais pressupostos (Shavit e Blossfeld, 1993; Lucas, 2001; Shavit, Yaish, Bar-Haim; 2005). Trata-se de uma perspectiva que se mostrou bastante robusta e de boa capacidade de generalização do ponto de vista da geração de hipóteses empiricamente testáveis, o que favoreceu a ocupação de uma posição proeminente na teorização sobre a evolução da estratificação educacional nas sociedades modernas.