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In document OPPDRETT ERNÆRING TEMA: (sider 65-68)

Pretendemos elaborar aqui como a formação dos sintomas, que são lidos pela operação de diagnóstico e encontram no campo médico a sua legitimidade enquanto doença; como eles fazem parte de uma resposta do sujeito ao conflito e a angústia. Resposta enigmática que convoca um saber médico para, no mesmo ensejo desvelar as limitações deste saber para tratar desta ordem de acontecimentos. Forma provisória que alivia ao cristalizar o inominável do sintoma ao redor do reconhecível de uma nomeação diagnóstica.

Em 1923 Freud acrescenta ao “Caso Dora”, em uma numa nota de rodapé, a ideia de ganho primário e secundário do sintoma. Esse ganho ou benefício que a formação sintomática forneceria ao sujeito é, primariamente a atenuação de um conflito ou de uma tensão. A formação de um sintoma então, inicialmente, proporciona certo apaziguamento, alívio e estabilidade, pois, recalca parte do conteúdo conflitante mantendo-o inconsciente, alcançando expressão apenas na face organizada e enigmática das produções sintomáticas. Secundariamente o sintoma passaria a ser tratado pelo sujeito como uma identidade, ele usufruiria diretamente dos benefícios, imaginários ou reais, reconhecendo facilmente os ganhos que acompanham a sua condição de enfermidade.

Desta forma pode-se perceber o quanto é caro a alguém se desvencilhar de seus sintomas, pois não só há uma energia psíquica investida nisso como também há todo um montante de lucros que o sujeito retira deste investimento, desde a atenção que lhe é dada na sua condição de doente, como várias regalias, privilégios e vantagem, que a própria pessoa solicita se valendo de sua condição. Longe de procurar uma cura ou solução para sua “doença”, ter uma doença, se identificar com ela, se aferrar aos sintomas é o que alivia o conflito psíquico.

A questão que se desponta agora é que a solução cômoda do sintoma ou da doença pode se fazer lucrativa não só para o sujeito que sofre retroalimentando a condição de adoecimento. Há também toda uma conjuntura social que se beneficia disso como tratamos há pouco. Ou seja, o sintoma, entrando no circuito médico que o reforça ou ser lido como

doença e cristalizado pelo diagnóstico, serve para aliviar a pessoa da ansiedade e do conflito, gera também ganhos diretos e conscientes para a pessoa nessa condição de doente e, além disso, proporciona não só a sustentação ideológica do discurso médico como lucros exorbitantes para os laboratórios.

“O que é a angústia, se não aquilo que não tem nomeação, aquilo que é pura expressão do Real por ter escapado à simbolização? É assim que, enquanto nomeia a doença, o ato de diagnóstico contribui para diminuir a angústia, mesmo que o doente não saiba isso tem nome e pode ser reconhecido em algum lugar. É nesse ato inicial, o de diagnosticar que o médico começa a afirmar sua mestria, o seu poder e o seu domínio.” (MORETTO, 2001, p. 82) Consideramos, pois, que a lógica de manutenção da condição de doença não encontra suas via apenas nos ganhos primário e secundário que o sintoma fornece ao sujeito, há um instância política e social que fomenta o adoecimento como já colocamos e, aqui, achamos lúcido reforçar. Dito isto podemos prosseguir investigando com mais profundidade a dimensão inconsciente que engendra no sujeito o fenômeno do sintoma e seu gozo.

Trataremos mais adiante, no próximo item deste subcapítulo, como o sintoma, se valendo do diagnóstico, cumpre função de nomeação para o sujeito, dando uma consistência a seu sofrimento; por hora cabe colocar que “A doença constitui, para muitos pacientes, um verdadeiro estatuto social e familiar que confere ao sujeito uma existência que não teria sem ela.” (MORETTO, 2001, p. 84) Essa instância de reconhecimento que o adoecimento proporciona, mostra que retirar ou suprimir o sintoma, retira também o significante que o sujeito encontrou para se representar para o Outro social e para recebem atenção e cuidado.

Tais significantes restam na condição de signos para o discurso médico, havendo um nome que parece, a princípio, condensar e traduzir o sofrimento, reduz-se a angústia fixando-a entorno da nomenclatura diagnóstica, o que dá uma condição identitária entre o sofrimento, subjetivo, e o diagnóstico, objetivo. “Diagnosticar deixa de ser um problema, torna-se a solução última[...]” (BERNARDINO, 2011, p. 208), poupando o sujeito de um grande trabalho psíquico, dando-lhe uma identidade reconhecível e conquistando mais um potencial consumidor para o mercado de psicofármacos, adaptável à ordem social.

O que se faz notável é que o sintoma não é algo que se contém, se apazigua, em um signo que tenta defini-lo, há a produção de uma face subversiva no sintoma, ele se inicia para regular o princípio de prazer porém “Se há um gozo no sintoma, um ganho secundário além do sofrimento, ele confirma que para reger o funcionamento psíquico deveria existir algo mais ‘além do princípio de prazer’”. (MORETTO, 2001, p. 75) O que está para além do principio de prazer é o que Lacan chamará de gozo, há pois um gozo do sintoma, ao que

poderíamos dizer que sofrer pode ser uma das melhores formas de gozar, o que embaraça fortemente a ordem médica.

O sintoma é uma tentativa de conciliação entre duas forças psíquicas conflitantes, provisoriamente um acordo de paz pode se estabelecer e o sintoma, sendo esse acordo, é algo que vem a calhar para o sujeito que sofria dividido, porém, esse esforço conciliatório choca-se com um dos aspectos irredutíveis do sintoma, que é o de ser um substituto da moção pulsional recalcada. Levando o aparelho psíquico para além de uma homeostase a pulsão recobraria continuamente as exigências de satisfação, contra o sintoma, que vem a calhar, a pulsão se impõe como o que não quer calar; saindo do princípio de prazer, ordenador e regulatório, arremessa o sujeito para além do princípio de prazer exigindo sua renovação em gozo. “O sintoma resiste alí onde goza” (VIDAL, 2001, p. 87)

A psicanálise então compreende o sintoma como um fenômeno complexo que em sua estrutura comporta uma solução paliativa que em algum momento não dá mais conta de balizar a emergência do conflito. A leitura do sintoma como um signo, tornando-o objeto sobre o qual se aplica a operação diagnóstica, enclausura sua dimensão de significante que representa um sujeito para outro significante. Desta forma, dar alguma mobilidade a esse sistema de identificação e de benefícios retirados pelo sujeito de seu sofrimento pode começar a esboçar uma direção de tratamento. A função de questionar os diagnósticos pode ser um papel público do analista numa implicação política, porém, diretamente no trabalho clínico com os sujeitos, ouvir o mal estar sobre o qual o sujeito fala através de nomeações diagnósticas e jargões psiquiátricos, fornecer uma escuta, pode dar essa mobilidade, é o que abre as vias para se descolar destes signos.

“A psicanálise com crianças confronta o analista com o modo como o sujeito é representado por um significante para outro significante e com o modo como o sintoma da criança responde ao que há de sintomático na estrutura familiar” (VIDAL, 2001, p. 111) O sujeito é representado e represado entre dois significantes. O diagnóstico, a identificação e demarcação de um campo ao qual o sofrimento concerne, é a condição para se receber os cuidados tanto por parte da medicina como do campo da saúde. O sintoma, enquanto mensagem cifrada, não comunica nada, apenas endereça algo que ultrapassa esse alguém que sofre para o Outro que se supõe ser o detentor do código e do saber.

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