CAPÍTULO VI
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O HIV enquanto possibilidade real de contaminação, associada a nossa própria impossibilidade de representar como será a nossa própria morte, vai levar o indivíduo a um excesso pulsional sobre o aparelho psíquico que irá transformar-se em angústia. Angústia e pavor diante do desconhecido, que não foi possível ser falado, simbolizado, não foi transformado em significantes, no próprio verbo.
Segundo Freud (apud MAIA, 2003) “o trauma seria uma experiência que traz ao psiquismo, num curto período de tempo, um incremento de intensidades grande demais para ser absorvida. O transbordamento pulsional, próprio das experiências traumáticas, fará com que o sujeito busque soluções psíquicas possíveis”.
Diante da impossibilidade de simbolização irá prevalecer no registro psíquico do indivíduo a sua impotência e o desamparo. A dor do existir a que estamos submetidos. Na falta de uma rede simbólica, uma articulação com o imaginário e o real, o corpo imaginário não sustenta sentidos do seu entrelaçamento com os dados da realidade. Nesta impossibilidade desta conjunção, os elementos não ficam diferenciados entre si e não determinam um ato no outro.
Nesse caso, inviabiliza que o corpo simbólico ou corpo de significantes inclua o indivíduo numa ordem simbólica, por meio da linguagem e nesta falta aquilo que o corpo quer falar fica incompreendido misturado determinando muitas vezes o aparecimento de sintomas neuróticos.
O que o corpo fala? De um conjunto de elementos que comporta significantes entre si, inconscientes. Tal como nos sintomas das histéricas de Charcot no início do desenvolvimento da Psicanálise, o corpo fala de algo que não é dito explicitamente, mas é vivido, e tem sentido, mantendo esta incompreensão; o que vamos perceber é o aparecimento de novas formas de mal estar na cultura.
“É assim que nessas brechas, o mal estar na atualidade vem espreitar, infiltrando-se por meio de novas figuras do corpo, articuladas ao narcisismo, à angústia, ao sexo e à morte. Corpos controlados, atléticos e vigorosos, corpos manipulados, transplantados, implantados, e ainda corpos ambíguos, andróginos, perfurados, tatuados,
55 corpos de contornos desfeitos, anoréxicos, obesos, corpos supliciados.” (DELORENZO, 2003)
Como também a necessidade compulsiva de remodelar o próprio corpo como “ideal de beleza” da bela forma que se vincula também a uma imagem de morte, uma vez que nesta posição exclui-se o sujeito que “anima” as imagens corporais. Perdendo sua potencialidade criativa e se homogeneizando, ou seja, não pode ser referido como sujeito desejante.
O corpo real, sinônimo de gozo, e que nos traz a doença pelo HIV e por extensão à morte, e coloca o ser humano diante do trauma. “O indivíduo se vê violentado e ameaçado com a possibilidade da interrupção do fluxo da vida que constitui sua base narcísica.” (MAIA, 2003)
Segundo Nasio (1993) “O corpo é todo gozo e porque o gozo é sexual. O gozo, efetivamente, só pode ser sexual, porque a meta ideal a que ele aspira é sexual. E, portanto, tudo o que ele toca e acarreta em seu fluxo sexualiza-se, quer seja uma ação, uma palavra, uma fantasia, ou um dado órgão do corpo que se tenha tornado erógeno”.
Quanto maiores os sentimentos de impotência, fragilidade e desamparo, como se fosse possível a realização de uma vida plena, ou mesmo na busca incessante de um corpo cada vez mais perfeito, maior o investimento libidinal no próprio eu (lugar do narcisismo). O golpe sofrido ao narcisismo leva o ser humano a buscar formas de subjetivação que supervalorizam as suas significações primárias da autoimagem e a sua autoestima, e nos dias atuais o consumo exagerado como uma alternativa frente à necessidade de um reconhecimento do outro, de que você tem algum valor.
Por que no caso dos homoeróticos uma super valorização do corpo? No corpo, porque é neste que o vírus se aloja. E acaba dando um estigma ao sujeito, neste caso o de aidético. Super valorização do corpo, fica imerso no seu próprio narcisismo como uma forma de restaurar a ilusão de uma vida plena de gozo. Esta vida plena de gozo tem como avesso a imagem do aidético, doente, fragilizado e próximo da morte.
O desejo pelo gozo pleno não se transforma como um acontecimento da nossa realidade, esse não se compra consumindo cada vez mais e nem se vê nas propagandas e fotografias das revistas. É mítico e se algum dia de fato já foi vivido, experiências e algo próximo do que o ser humano pôde conhecer sem ter perdido totalmente com tal acontecimento a própria vida. Alguns já conhecem por meio do limite entre a vida e a
56 morte devido o uso de drogas, sexo, violência, e outras formas de se colocar em risco ou mesmo de chegar a óbito.
Desejos esses que algum dia todos nós já tivemos e que deveríamos ter recalcado. No entanto, enquanto pulsões narcísicas insistem em reaparecer, como numa transa sem o uso de preservativo, na busca pelo corpo perfeito e remodelado, por meio de cirurgias etc. Como se o problema estivesse no corpo. De que jeito? Enquanto sintomas no âmbito do imaginário.
Como se imaginariamente a imagem externa é que irá despertar o sentido em sua vida e corresponder ao suposto desejo de outro, que não seja ele mesmo. A imagem que quero para o meu corpo foi dada a partir de fora, vista pelo outro, externa. Portanto, vejo-me como fui visto, apresento-me assim, mas é porque preciso do outro para me constituir enquanto imagem e para ter acesso a outros significantes.
“O corpo é uma imagem, não a minha própria imagem no espelho, mas a imagem que me é remetida pelo outro, meu semelhante. Outro que não é necessariamente, o próximo, mas qualquer objeto do mundo em que vivo. A imagem de meu corpo, acima e antes de tudo, é fora de meu corpo que a percebo. Ela me volta de fora para dar a forma e consistência a meu corpo sexual, o do gozo.” (NASIO, 1993)
O autor logo acrescenta uma definição daquilo que entende como sendo o corpo imaginário: “Assim denomino de corpo no plano imaginário qualquer imagem que reúna duas características: primeiro que provenha do exterior, de outro ser humano ou de qualquer objeto circundante que tenha uma forma que me fale; e segundo que seja prenhe e se preste a abarcar dos focos do meu gozo. Assim o corpo sexual e gozoso permanece sempre velado sob as aparências imaginárias que capto do lado de fora.”
A respeito destes sintomas, o texto de Maia (2003) bem nos lembra que: “Visa à resolução de conflitos, mas essas configurações, ao invés de trazerem conflitos de ordem sexual, nos moldes das neuroses clássicas, trazem sintomas que atendem à necessidade de preservação da unidade narcísica, de contenção de uma dor psíquica.”
O narcisismo freudiano, portanto, tem o modelo de constituição normal da subjetividade, enquanto o narcisismo contemporâneo é regenerador e defensivo, passando pela dor e violência privado de prazer, trata-se de uma defesa contra o medo da morte (MAIA, 1998).
57 Associado a essa idéia narcísica desse corpo imaginário idealizado como novo modelo de beleza que a mídia ajudou a construir junto aos homoeróticos após o HIV, existe também outra suposição de que atrás dessa imagem fica escamoteada uma negação do impensável daquilo que é visível no outro: a morte. Da recusa do saber sobre a morte, que é uma condição humana. Inquestionável no âmbito da biologia, mas que junto à psicanálise tem outras representações inconscientes dessa negação, transformadas muitas vezes em sintomas neuróticos, por exemplo.
A construção desse corpo imaginário super valorizado, por meio da mídia, junto aos homoeróticos é determinante... Birman assinala a respeito desse assunto que:
“Não é possível separar as queixas que temos em relação a nosso corpo das estratégias publicitárias que nos envolvem que, sob a forma do naturismo e do naturalismo, nos enviam às práticas exóticas e à medicina. Pode-se dizer que estas, na sua diversidade, constituem as duas faces da mesma moeda. Isso porque o corpo, para os cidadãos do mundo pós-moderno, é o nosso único bem. Numa inversão em relação à Antigüidade, pode-se afirmar que o corpo se transformou no bem supremo, de maneira que este aloja no corpo e tem na saúde o seu ideal.”(2006)
Essas estratégias mercadológicas e as mídias tiveram o mérito de fazer com que os homoeróticos sentissem orgulho novamente de circular e de se expor e se identificar com marcas, imagens ou como freqüentadores assíduos de determinados estabelecimentos, de voltar ao tempo, como se nunca tivesse existido a AIDS, voltar aos áureos tempos em que as pessoas saíam do armário e viviam a buscar formas de resolverem as suas compulsões sexuais.
O mercado de consumo cor-de-rosa e a mídia criaram até um termo para especificar o dinheiro que é usado pelos homoeróticos para o consumo de produtos e a construção desta nova imagem idealizada, “Pink Money”. Dinheiro usado visando justamente à construção de uma vida imaginária como “reprodução de uma imagem modelada pelos simulacros da tecnocultura.” (MAIA, 2003)
Todo este segmento mercadológico de consumo, bares, restaurantes, saunas, cinemas e boates, mídias, revista, flyers etc., voltadas aos homoeróticos, aproveitaram da visibilidade que o HIV trouxe a esse grupo e os transformaram num de consumo, em potencial, como se pudesse eximir-se da própria morte. A estratégia foi associá-los, não
58 mais à morte e ao risco da contaminação pelo HIV, mas a produtos que lhe tragam status e objetos que os preencham narcisicamente; aquele vazio não simbolizado, a começar pelo próprio corpo, que agora precisa ser idealizado e mais perfeito.
Tudo isso vai de encontro, em clara oposição ao doente HIV positivo que carrega os signos do preconceito, da busca pela morte, da transgressão da vida, implicados no real do corpo pela doença.
Sesarino (2000) descreve que além do sexo a AIDS evidenciou a impotência da medicina, a impossibilidade da imortalidade numa época em que a medicina, mediante tantos avanços pretende suprimir a morte. Num período em que, por mais que se tente negar a morte, ocultá-la, a AIDS vem torná-la presente, real e acessível a qualquer um.
As mídias contribuíram para que os homoeróticos, após o impacto da epidemia pelo HIV, sejam identificados como um segmento que precisa ser investido enquanto mercado promissor e endinheirado. Descobriu-se que não é só sexo e “putaria” que dá lucro neste meio. Construindo uma nova identidade gay. Meninos bonitos e sarados com aspectos saudáveis. Classe média alta, associados a roupas, e perfumes, produtos de grifes internacionais que proporciona status e reconhecimento do nível socioeconômico da pessoa. O mundo se tornou maravilhoso, associado a tudo o que é perfeito.
Grandes anunciantes resolveram associar a sua imagem a esse segmento. Anunciantes geram lucros para o mercado, os homoeróticos passam a consumir esses produtos e assim está montada a engrenagem. As propagandas trabalham para vender o produto, o que seria a lógica mercadológica. Associar-se ao mundo gay hoje é algo moderno. Sem dúvida o HIV colocou o homoerótico em evidência no mundo, mesmo que esse fato venha sobredeterminado a milhões de mortes no mundo todo pelo vírus.
O HIV trouxe uma visibilidade aos homoeróticos, o que é uma verdade. A mídia e o mercado de consumo souberam aproveitar este fato. Agora isto não é tudo. Foi à custa de um processo de alienação, dessubjetivação, de isenção da realidade, de isenção de formações de desejos e de uma forma de estar no mundo mais bloqueado, afetando as ligações afetivas.
O ideal do corpo perfeito como retratado nas revistas, mas simultaneamente inexistente, remodelado e retocado pela tecnologia computadorizada, coloca as pessoas na busca pelo inatingível como forma de ser feliz neste cárcere imagético, as
59 subjetividades se vêem alienadas e nesse contexto é a imagem de si, o narcisismo, tal como descrito por Freud como processo básico e estruturante da subjetividade que adoece e padece.
Instaura-se nesse contexto uma impossibilidade de deslocamento do Eu ideal (lugar do narcisismo) para um ideal de Eu (lugar da alteridade) na medida em que nessa condição de espetáculo, os ideais inexistem enquanto bens simbólicos. (MAIA, 2003) O registro único e dominante é o da imagem de superfície. (MAIA, 1998)
A característica da idealização é estender a valorização de um traço parcial para a totalidade do Eu tornando todo o Eu do sujeito idealizado um conjunto de traços ilusórios valorosos.
Como escreve Klouri (1993) “O HIV exigiu uma reação por parte das pessoas infectadas. Por constituir uma ameaça de castração na medida em que põe o indivíduo diante das limitações e impossibilidades.O HIV provoca nos pacientes uma angústia de castração e uma ferida narcísica relacionado ao desfiguramento corporal a qual, por vezes, tenta fugir antecipando-se a morte”.
A mídia convence que as pessoas belas, com corpos perfeitos terão sucesso no amor e nos negócios. Trata-se de uma promessa de ganho narcísico. A beleza encobridora da falta em uma recusa franca da castração.
É diante destes conflitos psíquicos, das perdas e faltas que motivam a remodelação do corpo, e que em sintonia com a mídia busca-se o corpo idealizado, esteticamente perfeito, dentro do mesmo padrão que é exigido pela mídia das mulheres. Levando as pessoas a uma falsa sensação de controle da situação, da isenção da contaminação pelo HIV da morte e paradoxalmente o descuido, um querer não saber da prevenção do uso da camisinha. Estamos falando de um discurso ideológico divulgado pelas mídias para uma sociedade narcísica. Ilusório do tudo ter e tudo poder são estes os discursos determinados por este mundo contemporâneo.
Na contemporaneidade podemos pensar que o sujeito vem utilizando recursos como forma de preencher os vazios diante de sua incompletude pela condição de sua falta, falha, limitações e finitude da vida, como nos aponta Zimerman (2001).
É preciso pensar na possibilidade de usar esta angústia provocada pelo excesso pulsional, com as suas nuances de forma mais criativa e menos dessubjetivantes. Levando o indivíduo a construir novas formas de simbolizar o que é irremediável e que,
60 no entanto, é ao mesmo tempo tão intrínseca a nós mesmo a própria morte. Um agente desestabilizador que poderia possibilitar novas formas de organização, de estar no mundo, de simbolizar sua dor de vir estar no mundo, do existir, a dor de ser humano.
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