Antes de tratar propriamente de Ayrton Senna a pesquisa teve de reconstruir o “palco” em que “encena” e se faz a “obra”, numa linguagem mais precisa e mais sociológica: o espaço social demarcado por posições que antagonizam símbolos mobilizados nas práticas, contexto social propício para a emergência do mito. Esse espaço social pode ser demarcado, de uma forma bastante ampla, a priori, como a modernidade e o advento do esporte profissional a partir dos fins do século XIX e início do século XX.
O esporte profissional surgido na Europa passa a ganhar mais e mais adeptos em todos os continentes do planeta exceto a Antártida. O futebol tornou-se o esporte mais popular do planeta ao longo do século XX. Rapidamente se disseminou e vários clubes amadores e profissionais foram criados em vários países. Competições que visavam reunir diferentes nações do mundo se iniciaram ainda no final do século XIX, como a primeira Olimpíada moderna em Atenas na Grécia. Já em 1930 é a vez da realização da primeira Copa do Mundo de Futebol realizada no Uruguai. O interesse pelos esportes não reside somente na sua prática, tanto sob o ponto de vista amador quanto profissional, como também e, sobretudo, pela expectação. Os locais de realização das práticas esportivas profissionais são arquitetados para a visualização por terceiros que
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muitas vezes tem de pagar para assistirem os espetáculos esportivos. Com a fotografia, o cinema, o rádio e posteriormente a televisão, surgem as transmissões radiofônicas e televisuais. Os espetáculos esportivos são gravados, chegando ao ponto de na segunda metade do século XX serem transmitidos ao vivo por televisores a locais muito distantes das práticas realizadas. Assim o público pode vir a ser de um número imensamente maior que o de praticantes. Apenas 22 (vinte e dois) jogadores atuam em campo simultaneamente em uma partida de futebol, mas mais de 1 (hum) bilhão de pessoas podem estar assistindo uma final de Copa do Mundo. Os jornais impressos e audiovisuais noticiam o esporte, dando um espaço de suas páginas ou de seu tempo para comentarem sobre os esportes. O esporte surge, deste modo, como uma esfera social de uma dimensão a qual pode ser comparado com a esfera política, econômica, artística, religiosa entre outras. Faz parte do cotidiano de muitas pessoas no planeta que às vezes o praticam de forma amadora ou então assistem aos espetáculos. Faz parte das rodas de conversas, prognósticos são feitos tanto pelos profissionais dos meios de comunicação quanto pelos cidadãos comuns, que eventualmente escolhem por torcer por um time ou para um atleta. Legiões se formam e se identificam por uma relação que possuem com um time específico, reúnem-se como torcedores que cantam hinos e possuem uma afetividade além da conta com seus times. Faz parte do mundo moderno a frequentação a arenas, ginásios, estádios, autódromos e outros espaços de realização esportiva. Muitas vezes esses espaços são ocupados por uma porção de pessoas maior que a população da cidade onde são realizados esses eventos esportivos.
O esporte pode ser visto sob vários pontos de vista. Destaco aqui dois em especial. Primeiro, como uma esfera social que tende a devolver o encantamento do mundo em face da diminuição da influência da esfera religiosa sobre a vida moderna. Esse é o diagnóstico fornecido por Gumbrecht38. Segundo, outro diagnóstico semelhante, mas sutilmente diferente, a esfera esportiva surge como uma esfera mimética que permite liberar tensões fortemente controladas nos contextos cotidianos permeados por regras civilizatórias, esta foi a grande preocupação dos sociólogos Norbert Elias e Eric Dunning39. As duas análises partem de uma mesma referência, Max Weber, autor que pretendeu analisar a modernidade em dois princípios básicos, entre alguns outros como primeiro: o momento em que as esferas sociais tendem a ganhar
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GUMBRECHT, Hans Ulrich. "Perdido numa Intensidade Focada": esportes e estratégias de
reencantamento. Aletria: Revista de Estudos de Literatura, Belo Horizonte, v. 15, PP. 11-19, 2007.
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autonomia relativa não mais uma única esfera tendo centralidade e preponderância sobre as demais e segundo: os tipos de ação predominantes muito mais próximos das tipologizações de ação racional, principalmente a referente a fins.
Norbert Elias preferiu ao longo da carreira trabalhar com o conceito de civilização, não mais se atendo à idéia de modernidade. Para explicar a civilização, Elias se volta para os pólos do que, no seu repertório de categorias, denomina de “alienação” e “envolvimento”40
e não mais da racionalidade e da afetividade como Max Weber41. A esfera esportiva em sua visão é uma dessas esferas que exerce a sua atração, justamente pelo alto grau de envolvimento que ela é capaz de fornecer. Para Gumbrecht, por sua vez, a possibilidade de se perder na intensidade focada na prática esportiva oferece algo equivalente à crença religiosa, embora a esfera esportiva guarde muitas diferenças com a esfera religiosa as quais devem ser respeitadas. Com a decadência da esfera religiosa, não mais tão apta a encantar o mundo. Os locais de realização dos eventos esportivos vêm a se tornarem quase sagrados42.
Ambas as proposições são estratégias para os propósitos desta tese. O envolvimento que o esporte é capaz de fornecer é um, entre vários outros motivos mais específicos que atrai uma vastidão de fãs em torno do esporte automobilístico e mais especificamente a Fórmula 1. A alta competitividade, a “adrenalina” e o perigo, são signos mimetizados na prática automobilística capazes de deixarem os fãs muito exaltados com o espetáculo. Perdido na intensidade focada no ato que realiza parece ser a expressão ideal para caracterizar o sentimento dos pilotos de Fórmula 1 durante a sua prática automobilística por várias e várias voltas seguidas em muitas vezes sem cometerem um único erro.
40
ELIAS. Norbert. Envolvimento e Alienação. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
41
WEBER, Max. Economia e Sociedade. Brasília: Editora Universidade de Brasília; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999.
42
GUMBRECHT, Hans Ulrich. "Perdido numa Intensidade Focada": esportes e estratégias de
42 1.4 A FÓRMULA 1 COMO UM ESPAÇO DE DISPUTAS INTERNACIONAIS
A Fórmula 1 surge em 1950. Trata-se do primeiro campeonato regulamentado formado a partir da reunião de vários Grandes Prêmios (GPs) já então realizados, dando a eles um caráter de competições internacionais, cada um dos Grandes Prêmios viriam a ser realizados em um país do mundo. A partir de então, essas competições passariam pouco a pouco a serem uniformizadas a fim de se oficializarem em torno de uma única disputa por um título mundial. As equipes deveriam definir suas cores por suas respectivas nacionalidades, assim os italianos ficaram com a cor vermelha, os ingleses com a verde, os alemães com a cor prata e assim em diante. Essa divisão foi mantida pelos dias atuais apenas pela equipe Ferrari, que em quase toda a sua história na Fórmula 1 correu com carros de cor vermelha. As cores definiam certos países, os pilotos representando suas nacionalidades e atletas e equipes disputando um campeonato mundial. O regulamento definia uma pontuação e o piloto que mais somasse pontos ao final do campeonato consagraria se como campeão mundial. As equipes também competiriam pelo mundial de equipes. Já aí pode se observar que, de alguma forma bastante específica, – as cores definindo certos países, os pilotos representando suas nacionalidades e atletas e equipes disputando um campeonato mundial – signos nacionais eram mobilizados nessas competições. As disputas entre esses pilotos e equipes se transfiguravam em disputas internacionais na linguagem dos narradores e comentadores e daqueles que tinham todo o interesse em demonstrar dessa forma a competição para atrair o público a ouvir no rádio e assistir na televisão essas competições. Ademais, essas narrativas se entrecruzavam com algumas especificidades do esporte, os vencedores tornavam-se heróis e ao se tornarem heróis, tornavam-se heróis nacionais. Os títulos surgiam como dispositivos de consagração, meios os quais poderiam tecer comparações sem os riscos das “subjetividades” e parcialidades de perspectivas bastante pessoais. O título de campeão mundial surgia como uma possibilidade de se colocar na história, de se fazer personagem histórica e notória, a qual destacava os atletas e equipes dos demais “comuns”. Pouco a pouco, formava-se uma instituição, inicialmente nomeada Federação Internacional de Automobilismo Esportivo
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(FISA)43 detentora do monopólio de consagração de pilotos e equipes dentro do espaço social automobilístico. Somente as instituições responsáveis pela regulação e exercício da competição da Fórmula 1 teriam legitimidade para selecionar os circuitos do calendário do campeonato, instituir as regras da competição, sancionar pilotos e equipes a participarem e ao final das competições distribuir os títulos.
Nos primeiros anos da Fórmula 1, os carros de competição se diferenciavam bastante dos carros de passeio. A Fórmula 1 se diferenciava de outras competições de automobilismo com carros mais próximos dos utilizados para passeio. Estas competições são comumente conhecidas como competições de turismo, as homologações dos carros de competição exigem a produção de veículos similares vendidos a cidadãos comuns para o uso cotidiano. A Fórmula 1, por outro lado, não exigia nada disso, os carros poderiam ser construídos unicamente para as competições, trata-se então de protótipos. Suas formas eram mais aerodinâmicas, pensadas para cortar o vento e ter a menor restrição de ar possível. Os carros ofereciam um único lugar para se ocupar, justamente para o motorista, que se sentava sem cinto de segurança com um capacete que cobria parcialmente a cabeça e óculos especiais para poderem se manter de olhos abertos mesmo com o vento batendo contra o rosto. Grande parte do corpo dos pilotos ficava completamente exposto, característica de um monoposto aberto que vem a definir a Fórmula 1: uma competição de carros protótipos, com cockpit44 aberto e rodas e pneus expostos para o lado de fora do carro. Os carros eram construídos especialmente para as competições, eram rápidos, sem oferecer muita aderência com o asfalto e a menor segurança em caso de acidentes. As possibilidades de se sair ileso de algum acidente eram praticamente remotas. Necessitava-se de perícia para manter os carros à pista e fazer as leituras necessárias para que os mecânicos ajustassem os carros adequadamente às diversas condições. Tudo isso era feito com o perigo da morte rondando os pilotos (e por vezes até mesmo os espectadores e demais que se reuniam próximos às pistas). Aos olhares mais modernos é difícil compreender as reais motivações desses pilotos. Seriam as urgências e emergências de pessoas que não poderiam sobreviver à outra maneira? Seria o dinheiro e a fama? Seria a glória pessoal e a possibilidade de se colocar na história? Ou será que qualquer balança de perdas e ganhos, de riscos e lucros a se ganhar não faziam qualquer sentido para esses pilotos? É
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Posteriormente renomeada para Federação Internacional de Automobilismo (FIA).
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Receptáculo dentro de um carro de corrida aonde o piloto se acomoda e tem acesso aos dispositivos de comando do carro como volante, pedais, câmbio e outros.
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preciso destacar aqui que essas discussões recorrentemente fizeram parte da história do automobilismo e vieram dar os contornos desse espaço social em que podiam emergir os heróis e com eles, serem acionados mitos, nas mais diversas facetas como os românticos, talentosos, cerebrais, tenazes, velozes, em uma imensidão de características com as quais poderiam se classificar esses pilotos. O espaço social automobilístico seria demarcado pela relação entre os pilotos e o nível periculosidade de suas conduções. Os pilotos, portanto, se dividiriam entre aqueles que pilotam com mais cautela levando em conta os riscos e aqueles que ignorariam os riscos deixando se envolver em suas condutas automobilísticas.
Já durante o período vivido pelo regime ditatorial militar no Brasil, iniciado em 1964 perdurando até os anos 1980 pode se observar com uma maior intensidade o uso político do esporte na construção da identidade nacional brasileira. Esse tipo de uso político em que o Estado participa de forma ativa na promoção do esporte e dos atletas intervindo bastante nas imagens e representações destes através do uso de propagandas, já havia se notado em outros países principalmente durante os jogos olímpicos. A grande força do Brasil nos esportes no século XX foi o futebol. Os brasileiros não inventaram o futebol, esporte que se originou na Inglaterra. Mas se transformaram em uma potência esportiva principalmente a partir de 1958 com a conquista da primeira Copa do Mundo. Em 1962 se realiza mais uma conquista mundial, também como em 1970, sendo esta marcada pelo propagandismo nacional do governo central, tendo como um de seus exemplos a composição de uma música a pedido do governo, como era o caso da melodia “Pra Frente Brasil”. Essa ação do Estado não deixou de se encerrar nem com o término do regime ditatorial militar. Mesmo que de forma precária comparando- se a outros países, atletas brasileiros recebem incentivos através da publicidade de marcas pertencentes ao Estado brasileiro. Mais recentemente, com a Copa do Mundo realizada no Brasil em 2014 e com as Olimpíadas ocorridas em 2016 no Rio de Janeiro, o Estado brasileiro tem agido mais presencialmente nas questões relativas ao esporte. A questão é que tal intervenção sobre o esporte não se dá apenas por meio de um voluntarismo, de uma força de vontade daqueles que controlam os aparelhos estatais para a construção de uma imagem, ela simplesmente se naturalizou ao longo do tempo. Com a decadência do futebol após a conquista da Copa do Mundo de 1970, durante os anos 1980, se viu no Brasil viram repetidas tentativas de construções de heróis nacionais. Esse é o justo momento em que Ayrton Senna conquista suas vitórias e
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títulos na Fórmula 1 em um processo que já havia se iniciado por Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet. O Brasil durante esse período, no tocante ao esporte, passou a ser visto não apenas como o país do futebol – sempre chamativo pela plástica dos jogadores e marcado mundo afora como um futebol de espetáculo –, mas também o país do automobilismo. Situação paradoxal, pois em um esporte de altíssima tecnologia e elevados custos, pilotos originados em um país de extremas desigualdades sociais se destacavam.
O esporte profissional ocupou centralidade na vida das pessoas durante o século XX. O esporte foi sendo exaustivamente noticiado pelos mais diversos meios de comunicação inclusive através de várias coberturas ao vivo, desde que estas se tornaram possíveis. Não apenas o esporte foi transmitido ao vivo e noticiado como comentado, reportado e guardado na memória coletiva através de inúmeros documentários audiovisuais, livros de história e biografias e até mesmo museus do esporte foram construídos. As mensagens veiculadas sobre o esporte profissional de alto nível foram monetizadas, tornando o esporte munido de recursos financeiros os quais foram aplicados para uma profissionalização, que teve como um de seus efeitos a separação entre esporte profissional e esporte amador. A Fórmula 1 tornou-se um palco de disputas em que os antigos garageiros45, construtores de equipes quase que amadores, foram cada vez mais substituídos pelas grandes companhias automotivas. Não só muniu de recursos financeiros a mídia esportiva como ampliou cada vez mais o alcance das mensagens originadas no esporte, enfim, de seus signos, de suas narrativas e inclusive de seus poderes de nomeação e titulação. Quem quer se colocasse ali teria a partir de então poderes especiais de nomeação dentro do mundo do esporte as quais, por diversos fatores que devem ser explicados, foram se associando às construções de nacionalidades, tanto através de intervenções estatais quanto sem estas intervenções.
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No que diz respeito a formação das equipes de Fórmula 1 existem majoritariamente dois tipos: equipes formadas por montadoras de automóveis e equipes formadas por garageiros. Estes últimos caracterizavam-se pela iniciativa individual de montarem equipes automobilísticas desenhando os carros por conta própria e contando com orçamento muito menor comparada as equipes formadas por montadoras de automóveis.
46 1.5. A TRAJETÓRIA AUTOMOBILÍSTICA DE AYRTON SENNA E O BRASIL
Já se passavam dez anos desde a criação da Fórmula 1 quando Ayrton Senna da Silva veio a nascer no ano de 1960. Sua primeira participação em um Grande Prêmio veio a ocorrer em 1984 justamente no Brasil no circuito de Jacarepaguá no Rio de Janeiro. Mas antes de entrar nos detalhes da sua carreira automobilística, descreverei sua trajetória antes de sua iniciação profissional na Fórmula 1.
Nascido em São Paulo, no dia 21 de março de 1960, no bairro de Santana e criado no bairro do Jardim São Paulo, o pai de Senna era empresário que educou Ayrton para o automobilismo e lhe deu de presente um kart46 já aos quatro anos de idade. Aos treze anos de idade Ayrton Senna inicia sua carreira nas competições de kart. Venceu campeonatos nacionais e sul-americanos, mas não sucedeu em repetir o feito em campeonatos mundiais. Desde muito cedo o automobilismo ocupou centralidade na vida de Senna. A relação entre Senna e os carros acabou por se tornar muito íntima. Tudo aquilo que dizia respeito ao universo automobilístico o rondava. Esses vários signos que caracterizavam esse universo tiveram a chance de se penetrarem no corpo de Ayrton Senna desde a sua fase mais primária de desenvolvimento, a infância. Os contatos foram contínuos e recorrentes, os treinos repetitivos vieram a oferecer um aprendizado para a prática automobilística. Foram nesses contatos com o asfalto que Senna incorporou suas competências técnicas para a pilotagem, em que suas ações práticas se mesclavam com as discursivas nas mimetizações dos aprendizados fornecidos no universo do automobilismo. O episódio de ter perdido uma corrida ao se iniciar uma chuva, quando Senna liderava, foi bastante significativo para ele47. Não apenas havia incorporado o talento como também a disposição para treinar arduamente a fim de ser o mais competitivo possível. Essa outra dimensão do esporte o penetrou fortemente. Após o fracasso nessa corrida, Senna decidiu treinar ainda mais nos momentos chuvosos em São Paulo. Anos depois, essa veio a se tornar uma de suas principais características, uma habilidade excepcional, fora do comum, na pilotagem em pista úmida.
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Pequeno veículo motorizado de quatro rodas com acento apenas para o motorista. Utilizado em competições juvenis de pilotos em iniciação no automobilismo.
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GOMES, Flavio. Senna salta na frente e torce para chover mais. Folha de São Paulo, São Paulo, 10 de abril de 1993.
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Quando perguntado uma vez sobre suas crenças religiosas, Ayrton Senna respondeu à pergunta se dizendo católico. Respondeu não como alguém que teve o costume de ir à igreja, mas como um leitor da Bíblia e que recorrentemente utilizava a expressão “tenha fé em Deus”. Nesse sentido a religiosidade de Senna mais se aproximava de um protestantismo baseado na concepção de vocação, seja a luterana ou a calvinista, do que de um catolicismo muito dependente das ações institucionais da igreja católica com o seu monopólio dos bens de salvação. Se a principal obra de Max Weber48 pretendeu estabelecer uma relação de afinidade eletiva entre a ascese protestante e o “espírito” capitalista, aqui também se pode estabelecer uma disciplina e perseverança bastante atuantes e constantes na vida de Senna advindas pelo modo peculiar em que as seitas cristãs se fizeram presentes em seu corpo. Ter fé em Deus e perseverar na vida, algo presente no discurso de Senna, pode ser entendido em um sentido próximo de: as oportunidades surgirão para quem Nele tem fé e quem por Ele continuamente trabalha e se dedica para estar pronto no momento que a oportunidade aparecer. Provavelmente uma força advinha dessa esperança. Talvez não seja possível descolar o grau da influência dessa crença sobre Senna ao longo de toda a sua trajetória em um processo de incorporação de disposições que foram decisivas e preponderantes em sua atuação automobilística.