A nacionalidade e a condição de imigrante parecem ser condicionantes na construção e valorização dessas relações sociais, na medida em que proporcionam a interconexão entre as comunidades relacionadas, assim como a construção de um “lugar” que remete para o país de origem:
São pessoas que falam a sua língua, têm os teus hábitos, que também têm família que está longe, é mais ou menos o mesmo sentimento que você partilha. A conversa é outra, as risadas são outras, é diferente, é como se eu dissesse: aquele é o meu povo! (Eduardo, 40 anos, italiano).
A sensação de um Brasil reencontrado no compartilhamento de valores faz lembrar a caracterização do conceito de comunidade proposto por Baumann (2003) como um outro nome do paraíso perdido – ao qual esperamos ansiosamente retornar, e assim buscamos os caminhos que podem levar-nos até lá.
Piscitelli (2003) adverte para as hierarquias relacionadas com a localização estrutural das nacionalidades, em que noções de feminilidade e masculinidade vinculadas à origem nacional, classe, raça e idade se imbricam mutuamente. Nesse caso, especificadamente, estas operam tanto na autorrepresentação de Lúcia, através de sua “brasilidade autêntica”, simbolizada na forma de vestir, na sensualidade e adereços locais, como também do homem do “primeiro mundo”, rico, disponível e à procura de sexo acessível.
Eu acho que no começo ele estava em busca de sexo fácil com uma brasileira – estava de top, jeito de vestir bem exótico, que estimula o imaginário dos homens, brincos de coco, sandálias rasteiras (...) (Lúcia, 44 anos).
Rocco, italiano, 62 anos, professor, relata a caracterização de sua parceira e a justificativa da procura por uma brasileira quando aqui chegou, há 23 anos:
Comparados aos brasileiros, os estrangeiros marcariam uma linha divisória simbólica, a partir da qual eles representariam o estágio mais avançado da civilização, no sentido lato do termo: de um lado, seriam representantes da espécie humana (ou pelo menos do que a espécie humana deveria ser) e, de outro, enquanto indivíduos do sexo masculino, seriam provedores, gentis, românticos, belos etc.
(...) Eu acho que quando você conhece uma brasileira tem todo um encanto. Ela vai pensar coisas que você não tinha pensado antes, vai te mostrar coisas que aqui você não tem. Então, eu acho que você se apaixona pela ideia da pessoa, pela imagem. (Francisco, 45 anos, argentino).
Em contraponto, diz Vera, 50 anos:
A primeira coisa que acontece é essa paixão pela imagem da pessoa, pelo cara que vem de fora, que vai te levar para outro país. Ele tem um tipo físico completamente diferente dos brasileiros. Ele vai te levar para uma outra vida, entendeu? Vai arcar com você de uma hora para outra. O cara vai arcar com todas as tuas despesas, vai te carregar com ele para onde ele for e vai te levar para um país que pode te dar uma oportunidade de vida que você não tem aqui. Eu acho que é tudo junto. Você vai conhecer outros lugares que você não conhecia antes, que talvez você nem teria oportunidade de conhecer. É a imagem do príncipe encantado, que vai te dar um monte de coisas
que você não ia conseguir aqui. Você se apaixona pela história de amor que você pode realizar.
O tipo de relacionamento almejado por este grupo supõe a intenção não só de conjugalidade com as “brasileiras”, mas também o desejo de sair do seu país de origem rumo aos trópicos, no caso, o Brasil, para ter uma melhor condição de vida econômica mediante investimentos aqui, aliado ao fato de o homem estrangeiro, independente de sua ocupação, se envaidecer como o provedor da esposa ou namorada que seja do lar. O que não mais acontece nos casamentos europeus! Esta ideia foi verificada em muitos momentos na fala dos entrevistados.
As categorias “beleza” e “atração sexual” aparecem ou como sinônimas ou como interligadas no discurso do grupo pesquisado. A nacionalidade é interpretada como suporte à caracterização de indivíduos “quentes” ou “frios”. Esta denominação polar divide, na fala das entrevistadas brasileiras e entrevistados estrangeiros, tipos específicos de mulheres e de homens. A “frieza” europeia é dividida por gênero. A feminina é lida como “frigidez sexual” e a masculina, como “seriedade”, “responsabilidade” e expressão de um “caráter sólido”.
A interpretação da mulher europeia como sexualmente “fria” e rígida acerca das questões morais é corroborada também pelo grupo pesquisado de estrangeiros. Isto foi bastante claro quando os entrevistados responderam à pergunta: Por que você acha que estrangeiros se interessam por mulheres brasileiras?
Ah, com certeza porque as mulheres da Europa são bem mais frias. Depois do casamento, então... E ele fala que todos os amigos reclamam a mesma coisa, que a maioria das mulheres são muito frias
para essa coisa de sexo, de carinho. Por exemplo, o Neil me conta que na Inglaterra ele não se lembra de ter tido uma namorada que ele pudesse parar no meio da rua para dar um beijo. (João Afonso, 60 anos, português).
Nesse contexto, se insere a discussão sobre a dinâmica do amor e da conjugalidade nos novos arranjos matrimoniais surgidos entre casais interculturais.
A constante referencia à "gentileza" do homem estrangeiro, principalmente o europeu, pode revelar um reforço da autoridade masculina no contexto dos casamentos transnacionais, uma vez que em alguns momentos verificam-se decisões não ou pouco autônomas das mulheres, elevado grau de dependência econômica e afetiva, e a separação tradicional entre o espaço privado (destinado a mulher) e o espaço público (destinado ao homem) ou à mulher acompanhada do cônjuge.
A maneira dele me tratar, totalmente diferente, sabe? Super carinhoso, super gentil e até hoje ele é. Num muda, entendeu? E, tipo assim, que agora ele se sente mais seguro, então eu acho que já não incomoda muito (...) muito não. Às vezes eu noto que ainda tem um pouquinho de cisma, de ciúme, mas já não é igual. Mas no começo ele tinha muito ciúme, ele chegava a ser possessivo. Talvez de medo, que eu trabalhava à noite. (Ângela, 35 anos, paulistana).
Henrique, 43 anos, português, é muito mais educado (...) em termos de ajuda (...). Eles são menos machistas que os brasileiros. Eu sou do Nordeste, a região mais machista do Brasil. (Carla, 55 anos, norte- rio-grandense).
Porém, a nacionalidade pode não ser uma categoria analítica fundamental, uma vez que se observou que, em alguns contextos, casais transnacionais percebem os papéis de gênero de maneira semelhante.