Samuel, que foi aluno de uma das pesquisadoras durante os três anos do terceiro ciclo, poderia ser considerado um aluno pouco motivado para aprender Matemática, uma vez que ele não apresentou “disposição duradoura para esforçar-se para o conhecimento do conteúdo e domínio de competências em situações de aprendizagem” (BROPHY, 1987. p.40 - tradução nossa)36 e não se engajou na maioria das atividades com a intenção de
adquirir o conhecimento ou dominar as habilidades que elas se propõem desenvolver. Em sua trajetória escolar, apresentou um comportamento desinteressado em relação aos estudos. Nos relatórios do conselho de classe era descrito como um aluno que quase nunca realizava as atividades escolares, não participando de trabalhos em grupo de forma colaborativa, não organizava seu material escolar, nem mantinha registro dos conteúdos estudados.
Além disso, não demonstrava ter adquirido os conhecimentos necessários para ser promovido. Em quase todas as disciplinas, o aluno não atingiu o conceito C e, em Matemática, o conceito foi D e E nos três anos do ciclo37.
Como a escola segue a filosofia da Escola Plural de organização em ciclos38, o aluno só pode ser retido no 9º ano. Apesar do baixo desempenho escolar e da falta de empenho nas atividades escolares, na avaliação dos professores, o aluno não apresentava nenhum problema cognitivo, não possuindo laudo médico sobre distúrbios emocionais ou de aprendizagem.
Samuel possuía um bom relacionamento com os colegas, raramente se envolvia em conflitos e era educado. Geralmente se assentava no fundo da sala, passando a maior parte do tempo sem abrir o caderno ou realizar alguma atividade e, quando questionado sobre seu comportamento, sorria e dizia que não sabia fazer.
Além disso, conversava muito com os colegas próximos durante a aula. Durante a explicação do conteúdo, não participava das discussões e na hora da atividade não procurava tirar dúvidas.
Esse comportamento do aluno era constante em todas as disciplinas, conforme relatado em sua ficha avaliativa nos três anos finais do Ensino Fundamental. Foi oferecida ao aluno a possibilidade de um acompanhamento pedagógico por meio do projeto de intervenção de Matemática39, neste ano de 2010, porém, o aluno não compareceu.
Durante o período da pesquisa, o aluno faltou a quatro encontros sem justificativa. Quando estava presente, participava mais da parte manipulativa da atividade, com exceção
37 Nas escolas municipais, os conteúdos são avaliados em termos percentuais, atribuindo conceitos: A: 85% a
100% ; B: 65% a 84%; C: 50% a 64% ; D: 30% a 49%; E: 0% a 29%.
38 Pela organização escolar por ciclos, adotada pela Rede Municipal de ensino de Belo Horizonte, o aluno
tem 3 anos para se desenvolver e aprender os conteúdos. Não é possível a retenção no 1º ou 2º anos do ciclo apenas pelo conceito anual ( D ou E), atingido pelo aluno nas disciplinas. A retenção por desempenho anual só é admitida no 3º ano do ciclo. No caso do 3º ciclo ( 7º, 8º e 9º anos), o aluno só fica retido por desempenho anual no 9º ano.
39 As escolas da prefeitura de Belo Horizonte mantêm um professor de Matemática para fazer um trabalho de
reforço escolar para os alunos que são promovidos para a série seguinte com conceito D e E. Esse trabalho é feito com grupos de dez alunos, duas vezes por semana, em encontros de duas horas cada.
da atividade 6, na qual a motivação do aluno, evidenciada pelo seu envolvimento na tarefa, foi surpreendente.
Nessa atividade, o aluno realizou todas as etapas: montagem da forma do sabonete, cálculo da área da base e análise do prisma formado, completando não só o registro em sala de aula, mas também trazendo na aula seguinte a atividade designada para ser feita em casa: forma da vela.
Na entrevista, ao ser perguntado “Que atividade você consegue lembrar que mais te motivou, que deixou você mais interessado pra fazer?”, o aluno respondeu: “Aquele negócio da caixa lá. Fazê o negócio lá da caixa da vela, lá. Só que no dia de fazer a vela eu faltei”. E explicou que se envolveu mais nessa atividade:“Ah... aquilo lá era fácil fazer”.
Nessa Atividade 6, Samuel manifestou que se acreditava capaz de realizá-la, avaliou que seu esforço resultaria em sucesso, portanto, foi motivado a fazer também a tarefa de casa, que consistiu em repetir o processo feito em sala, no qual conseguiu bom desempenho.
Na parte da atividade realizada em sala de aula, o aluno foi o primeiro a terminar a montagem da forma, sendo elogiado diante da turma por sua habilidade e rapidez, e precisou apenas de uma explicação para calcular a área do triângulo, visto que tinha faltado no dia em que a atividade de dedução da fórmula foi feita.
Além de sentir-se apto para realizar a atividade, como mostrado nas figuras abaixo, o aluno contou com a atenção individual da professora. Ela estava junto dele, oferecendo- se para explicar o conteúdo, contudo, por iniciativa própria, sem que o aluno solicitasse auxílio.
Figura 53 - Aluno Samuel realizando a atividade 6 Figura 54- Samuel realizando a atividade 7 Em sua entrevista, ao ser questionado sobre seu desempenho escolar em Matemática, ao longo dos anos, Samuel afirmou que é a matéria de que ele menos gosta e
que sempre achou difícil, mas que “às vezes eu acertava, quando alguém me ajudava”. Samuel afirma ainda que sempre teve fracassos nessa matéria e que não aprendia por falta de interesse e perseverança: “Ah, eu tava fazendo, era difícil, não fazia mais não, tentava faze e não conseguia, não tentava mais não”.
Quando o aluno experimenta sucessivos fracassos em relação ao conteúdo, vai se desmotivando a buscar este conhecimento, se afastando de situações nas quais acredita que não terá sucesso (BZUNECK, 2004). No caso de Samuel, uma sequência de fracassos em Matemática e, talvez, a falta de um atendimento mais individualizado foram desmotivando-o de querer aprender, levando-o a desistir de tentar.
Ao ser questionado sobre o que acha que um professor de Matemática pode fazer para motivar os alunos a aprender, ele responde: “Ah, pra mim tinha que ensinar.... tipo assim, lá atrás ...lá não consigo ficar..., não consigo aprender muito não. Tem que ser mais de perto, ensinar mais de perto. Falando só pra mim (Ri)”. O relato do aluno em vários pontos da entrevista evidencia sua dependência de ajuda constante, que geralmente era dada por um colega.
A influência dos colegas parece também ter um papel importante no envolvimento de Samuel nas atividades propostas. Nos momentos em que estava junto ao colega Walace, que gosta de Matemática e é mais participativo, conseguiu se manter envolvido na atividade, realizando-a por si mesmo, ainda que com a ajuda do colega, porém, em alguns momentos, afirmou ter copiado a tarefa e até mesmo pedido que o amigo fizesse o seu registro. Essa postura do aluno não permitiu que a aprendizagem proporcionada pelo trabalho em grupo fosse atingida.
Durante a Atividade 8, Samuel aparece interrompendo a tarefa que executava para iniciar uma ‘guerra’ de bolinhas de papel, conforme imagens gravadas em vídeo. Na entrevista, ao ser confrontado com a imagem, o aluno concordou que essa atitude não era correta, que estava atrapalhando os colegas que estavam concentrados na atividade. Afirmou que não estava agindo assim porque a atividade era desinteressante, mas não soube explicar seu comportamento.
Nessa atividade, o aluno não se envolveu, talvez porque ela exigia a realização de vários cálculos para encontrar o volume e a quantidade de parafina e glicerina para encher a forma que construiu na atividade 6. A filmagem também mostra Samuel conversando com os colegas, enquanto Walace fazia os cálculos e preenchia seu relatório.
disciplinas que as de Matemática, ele afirma: “Ah, as outras lá eu faço mais. Que as outras é mais fácil, é só procurar no livro... acha a resposta. E todo mundo lá faz comigo”.
Quanto às atividades de Matemática, diz que é diferente, pois: “Ah, tem que fazer um monte de conta lá. (rindo). Um tanto de coisa esquisita lá. Uma conta pequenininha assim (mostra em cima da mesa) vai ficando desse tamanho lá”.
As atividades em que Samuel mais se envolveu e obteve melhor desempenho foram aquelas que se sentiu capaz de realizar, que iniciavam mais com a parte da manipulação ou construção de objetos e iam exigindo gradualmente algum cálculo, tendo apoio mais de perto por parte da professora. As atividades para as quais não se julgava apto, porque exigiam mais cálculos ou a professora não foi até a sua carteira para ajudá-lo, o aluno não tentou fazer.
O desempenho apresentado pelo aluno Samuel nas atividades avaliativas não foi satisfatório, visto que o aluno faltou a vários encontros importantes onde o conteúdo foi desenvolvido, não demonstrando interesse em buscar ajuda para tentar recuperar o que perdeu, contentando-se, na maioria das vezes, em copiar o registro da atividade de um colega ou pedir que copiassem para ele.
A maioria dos registros produzidos pelo aluno apresentava cálculos errados. Na avaliação final, obteve apenas 15% de aproveitamento, pois só fez a questão 1 que não exigia cálculos. As demais, nem tentou fazer.
Isso sugere que, se o processo vivenciado por Samuel na Atividade 6 fosse desenvolvido por mais tempo, sendo aplicado em outras atividades, talvez a confiança do aluno em si mesmo fosse recuperada, estimulando sua motivação para aprender.
No caso desse aluno, a convivência com atividades de Matemática com menos cálculos talvez pudesse modificar a sua opinião sobre essa disciplina, quebrando as barreiras construídas durante a sua trajetória escolar, de forma que ele fosse adquirindo sucesso em atividades mais simples, até sentir-se capaz de enfrentar maiores desafios.
Como destacado no referencial teórico, a motivação do aluno e seu envolvimento nas atividades de aprendizagem são influenciados diretamente pela crença de autoeficácia que ele tem em relação ao conteúdo ensinado e também pela intervenção do professor, ajudando-o a superar suas dificuldades, transmitindo-lhe confiança em seu potencial.