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7. Sammenfattende vurdering

7.1. Viktige funn fra analysen

Denominamos de participantes aquelas canções de contestação política que, juntamente com outros setores da arte, como o teatro e o cinema, compuseram uma espécie de cerco de resistência e de combate contra o golpe militar de 1964.

No início da década de 60, enquanto a Jovem Guarda e a Bossa Nova apresentavam, nos programas de televisão, suas canções, que, em comum, falavam de amores desencontrados, a tensão social e política do País se agravava. O governo de João Goulart, em situação política de difícil sustentação, enfrentava fortes pressões por reformas gerais.

Efetuado o golpe, em 1964, que dava início ao governo da ditadura militar, vários artistas, compositores e cantores passaram a discutir e a propor formas de ações de resistência e de combate.

A União Nacional dos Estudantes, a UNE, órgão tão atuante e representativo na estrutura social, política e cultural do País quanto os sindicatos, por exemplo, através do seu Centro Popular de Cultura, o CPC, se serviria como a instituição legal mais apropriada para o fomento de tais pretensões.

Este centro destinava-se à promoção de debates políticos e culturais, à produção e divulgação de peças teatrais, filmes e discos que estivessem, como sua própria denominação revela, voltados às questões populares.

No CPC, cuja presidência também fora ocupada pelo poeta Ferreira Gullar, reuniam-se grandes artistas, compositores, músicos, cantores, dramaturgos e cineastas, os quais tinham como outro ponto de encontro o Zicartola, restaurante de propriedade do famoso compositor de samba Cartola e de sua mulher Zica situado no centro do Rio de Janeiro.

É, portanto, desses encontros que irá surgir o Grupo Opinião constituído por Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, Paulo Pontes, já então respeitados teatrólogos; Ferreira Gullar, Thereza Aragão, Armando Costa, Pichin Plá e Denoy de Oliveira.

Durante aproximadamente cinco anos, esse Grupo apresentou peças que alcançaram grande sucesso, dentre as quais Liberdade Liberdade de Millôr Fernandes e Flávio Rangel; Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come de Vianinha e Ferreira Gullar; Dr. Getúlio: sua vida e sua glória de Dias Gomes e Ferreira Gullar; Jornada de um imbecil até o entendimento de Plínio Marcos. Peças que seguiam, obviamente, a linha ideológica preconizada pelo CPC.

Segundo Marcio Paschoal (2000) o Grupo Opinião “Tinha sua ideologia política e uma plataforma cultural bem definida. A palavra de ordem era resistir.”

E foi nessa perspectiva, ou seja, a de resistência, que surgiu o Show Opinião:

No dia 11 de dezembro de 1964, um show chamado Opinião -- num teatro do shopping center da Rua Siqueira Campos, em Copacabana, numa realização do Grupo Opinião e do Teatro de Arena de São Paulo, com direção musical de Dorival Caymmi Filho, Roberto Nascimento no violão, Alberto Hekel Tavares na flauta, João Jorge Vargas na bateria, direção geral de Augusto Boal, e com a participação de Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale -- assinalava a primeira voz discordante da ditadura militar que se instalava

no país (PASCHOAL, 2000, p. 84).

Com isso, tem-se um quadro de referência do que, nesse instante, seria dado como de relevância fundamental pelos músicos e compositores à atuação da Música Popular Brasileira.

Será mesmo um engajamento da MPB numa vertente, a música de caráter participante, que, principiando mais ou menos do modo como acima se viu, atinge seu auge com as canções de protesto em evidentes combates de resistência ao regime ditatorial. O clímax e a ruptura com o predomínio desse direcionamento se darão com o advento do Tropicalismo.

Na esteira dessa agitação antiditatorial em que a palavra de ordem é liberdade crescem os movimentos estudantis universitários no bojo dos quais acontecem grandes shows musicais cujo ponto alto são as canções de protesto. Surgem os festivais de música popular brasileira promovidos pela televisão.

Apareceram, nesse momento, vários compositores e cantores cujos nomes hoje ocupam posição de grandeza no seio da Música Popular Brasileira. Compuseram canções que hoje são “clássicas” de nossa MPB, como “A banda” de Chico Buarque de Holanda; “Disparada” de Geraldo Vandré e Théo de Barros Filho; “Pra não dizer que não falei das flores” (ou “Caminhando”) de Geraldo Vandré; “Arrastão” e “Ponteio” de Edu Lobo que na primeira teve como parceiro Vinícius de Moraes, na segunda, Carlos Capinan. Todas canções vencedoras naqueles festivais ou que alcançaram os primeiros lugares.

É curioso notar que, mais do que incitar à luta, grande parte das canções dessa natureza tendia a difundir alento e esperança de se alcançar em breve o restabelecimento das normalidades democráticas (Vandré e Chico Buarque foram os que mais compuseram canções desse tipo), o que não aconteceu.

Tinhorão (1998) que na Bossa Nova vira uma agressão ao autêntico samba por bem-vividos da classe média alta do Rio de Janeiro, aponta nesse movimento de música popular de protesto uma equivocada e inconseqüente ação política.

Daí citar, com ela concordando, a professora Walnice Nogueira Galvão que via nessas mesmas músicas fuga e consolo de gente bem formada que alentava um certo imaginário do que denomina “o dia que virá”:

Ao interpretar a postura ideológica dessa música popular ao nível da classe média de cultura universitária -- que se estende a rigor de 1965, com o show Joana em Flor, no Teatro de Arena do Rio (autoria do poeta Reynaldo Jardim aproveitando músicas de crítica social do velho compositor Alberto Ribeiro), até à proibição militar da canção “Pra não Dizer Que não Falei de Flores”, ou “Caminhando”, de Geraldo Vandré, de 1968 -- a professora Walnice Nogueira Galvão demonstraria, em meados de 1968, que tal canção de protesto não passava de “evasão e consolação para pessoas altamente sofisticadas”: “Dentre os seres imaginários que compõem a mitologia da MMPB (Moderna Música Popular Brasileira) destaca-se o “dia que virá”, cuja função é absolver o ouvinte de qualquer responsabilidade no processo histórico. Está presente num grande número de canções, onde aparece ora como o dia que virá, ora como o dia que vai chegar, ora como o dia que vem vindo.” (TINHORÃO, 1999, p. 317-318).

Tenham ou não razão, a verdade é que, como dissemos, são numerosas as canções que desenvolvem essa temática de esperança. Apenas para bem nos lembrarmos, basta citar algumas delas. “Porta Estandarte”, por exemplo, de Geraldo Vandré e Fernando Lona, vencedora, em São Paulo, do Festival Nacional de Música Popular da TV Record em 1966. Canção em que se ouvem versos assim:

[...] Eu vou levando a minha vida enfim/ Levando pra quem me ouvir/ certezas e esperanças pra trocar/ por dores e tristezas que bem sei/ um dia ainda vão findar./ Um dia que vem vindo/ E que eu vivo pra cantar/ Na avenida girando/ Estandarte na mão pra anunciar [...].

Outra é “Ponteio” de Edu Lobo e Carlos Capinan. Vencedora do III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record em 1967. Dizem alguns versos: “[...] certo dia

que sei por inteiro/ eu espero não vai demorar/ este dia estou certo que vem [...]”.

E esta temática foi mantida com grande repercussão após o surto tropicalista. Afinal, a ditadura continuava viva e, portanto, o “dia que virá” ainda não tinha chegado. Citemos também como exemplo um dos grandes sucessos de Chico Buarque em 1970: “Apesar de você” cujo refrão é “Apesar de você/ amanhã há de ser/ outro dia”.