• No results found

Videre arbeid med indikatorene og rapporteringsprosessene

O francês Paul é o primeiro ator que aparece individualizado no romance, sendo também o primeiro ator que assume o papel actancial de destinador julgador que se debruça

sobre Luzia. Trata-se de um estrangeiro, descrito pelo narrador como um “misantropo”, que, em uma de suas viagens pelo mundo, parou em Sobral, onde se dedicou a observar a vida do povo, conforme depreendemos da seguinte passagem:

O francês Paul - misantropo devoto e excelente fabricante de sinetes que, na despreocupada viagem de aventura pelo mundo, encalhara em Sobral, costumava vaguear pelos ranchos de retirantes, colhendo, com apurada e firme observação, documentos da vida do povo, nos seus aspectos mais exóticos, ou rabiscando notas curiosas, ilustradas com esboços de tipos originais, cenas e paisagens - trabalho paciente e douto, perdido no seu espólio de alfarrábios, de coleções de botânica e geologia, quando morreu, inanido pelos jejuns, como um santo. (OLÍMPIO, 2003, p.20).

A partir da observação do trecho acima, percebemos que o referido ator dava relevância, em suas anotações, àquilo que julgava incomum, registrando em suas anotações o que encontrava de diferente. O olhar objetivante, denotado pela passagem “colhendo, com apurada e firme observação, documentos da vida do povo”, é próprio do comportamento de um cientista, que observa e registra os acontecimentos com objetividade.

Deste modo, podemos fazer duas afirmações iniciais sobre esse ator: a primeira refere-se ao fato de ele ser um estrangeiro, característica que marca a designação dele enquanto personagem. A segunda afirmação concerne à sua posição com relação à Luzia, a qual é a de um observador externo, que a descreve com a objetividade proporcionada pelo olhar de um estrangeiro, com tendência cientificista. Assim, dois pontos de vista externos e dois papeis temático-figurativos encontram-se sincretizados na figura do francês Paul: o estrangeiro e o

“cientista”.8

O Dicionário Eletrônico Houaiss (2009) traz cinco acepções para o termo estrangeiro:

Adjetivo e substantivo masculino:

1. que ou o que é de outro país, que ou o que é proveniente, característico de outra nação. Exs.: cidadão e./ o e. já retornou a sua casa

2. Derivação: sentido figurado: que ou o que não pertence ou que se considera como não pertencente a uma região, classe ou meio; forasteiro, ádvena, estranho.

Substantivo masculino:

3. indivíduo de nacionalidade diversa daquela do país onde se encontra ou vive; 4. o conjunto dos países em geral, excetuando-se aquele em que se nasce. Exs.: o jornal recebeu notícias do e./ adorava viajar pelo e.

5. Uso: informal: idioma diferente daquele que se está considerando; idioma não vernáculo, idioma de outra nação. Ex.: ele expressa-se em e.

A partir da leitura dos conceitos elencados acima, as três primeiras definições possuem relação direta com esta pesquisa, pois possuem em comum com o ator em questão a

8 Modalizamos a expressão considerando que assim denominamos este papel temático-figurativo por falta de termo

melhor, uma vez que o referido ator tinha hábitos que remetem a certos procedimentos científicos. Entretanto, não podemos nos esquecer de que parece não haver pretensão estritamente científica nas anotações de Paul.

ideia de pertencimento a alhures, especialmente presente na terceira definição, uma vez que a questão da nacionalidade de Paul é marcada no texto do romance.

No artigo “As formas de percepção da alteridade: uma análise da noção de estrangeiro” (B. C. DESIDÉRIO; R. C. P. LIMBERTI, 2013), as autoras refletem acerca da

dinâmica entre identidade e alteridade, segundo os processos propostos por Landowski (2012), referindo-se ao termo “estrangeiro” de modo mais amplo e associada à segunda definição, anteriormente apresentada e presente no dicionário, na medida em que designa a alteridade, o outro, como o estrangeiro que assim é percebido por um determinado sujeito ou grupo (enquanto identidade):

identificar, perceber o Outro é o caminho para a autoidentificação desse sujeito que (consciente ou inconscientemente) projeta sua própria imagem a partir de uma alteridade a ser construída. A maneira como o sujeito percebe este Outro, no entanto, pode ser marcada por práticas diversas, como, por exemplo, a prática de reduzir o dessemelhante – o estrangeiro – a uma posição de pura exterioridade, como se as nuances culturais que os diferem daquilo que é considerado “padrão” não passassem de um exotismo. É, portanto, na intersecção dessa instável relação que emerge a oportunidade de se averiguar as várias percepções, os caminhos segundo os quais o Nós constrói seu mundo em torno do Outro. (B. C. DESIDÉRIO; R. C. P. LIMBERTI, 2013. P. 15)

Já em Landowski (2012), temos uma classificação de quatro tipos de estrangeiros (neste caso, considerando as definições 1 e 3 do dicionário, acima apresentadas), a partir das quais poderemos descrever a relação de paul não só quanto a luzia-Homem, mas também quanto ao mundo que o cerca, ou seja, a cidade de Sobral: o viajante disponível, o passageiro responsável, o viajante curioso e o passageiro programado, sobre os quais discorreremos a seguir.

Não constitui nosso objetivo nos aprofundarmos nessa classificação, mas sim explicá-la brevemente, a fim de que possamos compreender melhor o papel do francês Paul na narrativa. As classes elencadas acima visam descrever, mesmo mediante o uso de estereótipos

– os quais perdem sua força à medida que consideramos essas classes interdefiníveis –, o modo

como o sujeito, ao se encontrar em alhures, relaciona-se com esse tempo-espaço que é tipicamente da alteridade.

O viajante disponível remete a uma relação despreocupada com ambiente de onde o sujeito provém. Ao mesmo tempo em que se encontra aberto para descobrir o novo lugar, ele se apropria e se integra a essa nova realidade:

não por projeção de um modelo trazido de fora, mas, ao contrário, por impregnação – como verdadeiro artista do encontro com o Outro: em outros termos, como sedutor. Um sedutor que saberia por instinto que, para encontrar seu lugar exato diante das formas que se oferecem, o único meio é deixar-se a si mesmo primeiro seduzir por elas, isto é, reconhecer-lhes ou restituir a elas, formas-objeto – rostos e corpos, e

paisagens, seu cenário –, a posição e o estatuto, relativamente a ele, de autênticos Sujeitos. (LANDOWSKI, p.79, 2012).

Por outro lado, o passageiro responsável tem como principal característica o fato de estar de passagem e ode que foram as condições predefinidas pelo ambiente externo que o trouxeram ao lugar em questão. Por isso, a sua atitude em relação ao ambiente é a de alguém:

que está com pressa de agir porque sabe que só tornará a reconhecer a si mesmo diante de um mundo-objeto para ordenar, e alguém que poderá, em consequência, fazer prontamente do país sua coisa, como homem de ação, ou pelo menos seu negócio, caso em que ele seria, de modo mais banal, apenas um “homem de negócios. (LANDOWSKI, p.78, 2012).

Desta maneira, enquanto passageiro responsável tende a não estar presente no aqui que se encontra diante dele, presentificando-se apenas o suficiente para relacionar-se com o ambiente e assim realizar os objetivos determinados anteriormente, em alhures:

Impaciente por encontrar, onde suas funções o chamam, um terreno à sua medida, e ali, difundir, em geral com alguns lucros, os valores que privilegia sua própria cultura (nem que fosse apenas fazendo comércio de sua tecnologia de produtos), ele não terá, para consegui-lo, outro recurso – dado que se trata de agir rápido – senão projetar na própria trama das relações que se tecem localmente entre as coisas ou entre as pessoas a grade de leitura, operatória, sem dúvida, mas por definição de proveniência externa, que é inseparável da própria definição de sua missão. Na proporção de seus meios, ele ocupará o terreno, tentará remodelá-lo à sua maneira – e até o pilhará se for preciso - , mas nem por isso estará, na verdadeira expressão da palavra, ali presente. (LANDOWSKI, p.78, 2012).

Por sua vez, o viajante curioso tem como característica o olhar objetivante sobre o alhures, tentando, a partir de tal perspectiva, apreender e, ao mesmo tempo, explicar aquilo que se apresenta como alhures, do qual mantém certo distanciamento. Sendo assim, poderíamos identificar o viajante curioso como “um viajante no qual se reconheceria hoje facilmente a vocação de pesquisador, de ‘investigador de campo’” (LANDOWSKI, p.80, 2012). Prosseguindo com sua descrição, Landowski (p.80, 2012) comenta:

Visitante por princípio respeitador dos equilíbrios que fundaram a especificidade de um lugar ou de um meio estrangeiros, ele rejeita a ideia de os perturbar por sua presença ou sua ação. As paisagens que ele admira, tal como espaços sociais, secretam, cada um, ele o sabe, sua temporalidade própria para quem os sabe ler. Em parte alguma ele desejaria, portanto, o contratempo. Mas de outro lado, ele está interessado demais por aquilo que, a seus olhos, os torna diferentes para se contentar em registrar a alteridade desses seres e dessas coisas sem procurar explicá-los: modo de também tomar posse do Outro, dessa vez enquanto matéria para investigação (se ele permanece um simples amador) e, no limite, como objeto de ciência (se ele se torna um cientista profissional).

Por último, temos o quarto tipo, o passageiro programado, ou o turista, que se caracteriza por ter seu roteiro pré-estabelecido, cuja programação está estritamente vinculada ao olhar de sua cultura, o qual não permite que esteja disponível qualquer desvio. Ele se reconhece e é reconhecido enquanto Turista.

No lado oposto, o Turista, que provém de alhures – como todo mundo -, mas que, menos do que qualquer outro, não pode nem quer se esconder (inclusive de si mesmo) sua origem externa ao país visitado, aparece duplamente como um sujeito disjunto do aqui-agora. Não só o Diverso o mantém a distância, mas ele mesmo se afasta dele. Existe, de fato, ali diante dele, um espaço-tempo específico, imediatamente presente, mas essa presença ele no máximo pressente como uma realidade virtual, inacessível, velada. E, como para confirmar sua irremediável ausência ao aqui, enquanto que tudo no lugar – a língua, o clima, a paisagem, o menu – lhe lembra sua própria exterioridade, ele vê por sua vez que, em toda parte e em cada instante, sua própria vestimenta o assinalara para o Outro por sua estranheza. À sua maneira, ele é, portanto, um excluído, o mais privilegiado de todos, certamente... (LANDOWSKI, p.84, 2012).

Ao observarmos essas quatro classes, podemos perceber que elas se agrupam, duas a duas: o grupo dos viajantes, que se caracteriza por tentar não interferir na nova realidade diante de si, buscando, assim, fazer-se presente, para viver e/ou para explicar o “alhures”; e o grupo dos passageiros, que se caracteriza por ter sua referência a partir de “lá”, sendo guiado por fatores externos, seja por responsabilidades ou por um cronograma de viagem previamente estabelecido.

Descritos sucintamente os quatro tipos de estrangeiros, apresentamos abaixo, baseando-nos em Landowski (2012, p.86), o quadro que trata das relações entre eles:

Agora, após explicitados alguns conceitos acerca da relação do estrangeiro com o

aqui, com a nova situação diante da qual se depara, voltemos a nos debruçar sobre o francês Paul, estrangeiro, cujo olhar é que nos apresenta Luzia-Homem.

O Viajante disponível Regime de presença Estratégia de assimilação (Conjunção) O Passageiro programado/Turista Regime da ausência no lugar Estratégia de exclusão (Disjunção) O Passageiro responsável Regime da não-presença Estratégia de segregação (Não-conjunção) O Viajante curioso

Regime da não ausência Estratégia de admissão (Não-disjunção)

Quadro 4 - Descrição das relações entre os quatro tipos de estrangeiros no quadrado semiótico

Enquanto estrangeiro, oriundo de outro continente, pertencente a outra cultura e com hábitos excêntricos, em certa medida, este ator é incapaz de ser assimilado totalmente pelo contexto em que se encontra, que é a cidade de Sobral. Essa incapacidade de uma total conjunção com o aqui é marcada inclusive no discurso, mediante a designação desse ator, por parte do narrador, e do uso do sintagma nominal o francês Paul, ou seja, o estrangeiro Paul.

Ao mesmo tempo, percebemos que, para analisarmos este ator, tão importante quanto o papel temático-figurativo do estrangeiro é o papel temático-figurativo do cientista, que atua reforçando a exterioridade deste ator no que tange ao ambiente do qual se ocupava em seus relatos.

Ao retomarmos a classificação supracitada de Landowski (2012), referente aos tipos de estrangeiros, verificamos que o francês Paul pode ser classificado como Viajante curioso, na medida em que o interesse de Paul por apreender e entender o lugar da alteridade, além de o caracterizar, também impede que ele seja totalmente assimilado pelo local:

para recolher conhecimento, tem, antes de mais nada necessidade de se fazer admitir no espaço tempo onde transita: é por isso que, seja qual for o lugar onde se introduz, ele tem que se disfarçar segundo a “cor local”, até quase confundir-se com o Outro, sem chegar, no entanto, jamais a querer se fundir nessa identidade diferente... (LANDOWSKI, p.86, 2012).

Por outro lado, ao nos determos no fragmento do romance presente no início dessa análise, podemos perceber uma mudança de atitude de Paul, quando este se percebe em Sobral, cifrada na passagem “na despreocupada viagem de aventura pelo mundo”. Podemos, assim, depreender que, até então, a atitude de Paul em relação aos locais que visitava era semelhante à do Viajante disponível, ao passo que, ao “encalhar”, em Sobral, sua última parada, passou a agir como o Viajante curioso.

Entretanto, além da qualificação de estrangeiro e da tendência cientificista de Paul, que garantiriam dois pontos de vista externos distintos, o olhar de outra cultura sobre um dado objeto, ou seja, o olhar do estrangeiro e o olhar objetivo – ou “imparcial” - da ciência, assegurado pela expressão “colhendo, com apurada e firme observação, documentos da vida do

povo”, ambos sincretizados no tipo Viajante curioso, Paul ainda é dotado de outra qualidade que garante a exterioridade do seu olhar, a misantropia, definida no Dicionário Eletrônico

Houaiss (2009) da seguinte maneira: Substantivo feminino

característica do que é misantropo 1. ódio pela humanidade;

2. Derivação: por extensão de sentido. Falta de sociabilidade;

Portanto, verificamos que o distanciamento do francês Paul é triplamente marcado, constituindo, pois, um distanciamento cultural, social e subjetivo. Este último ocorre na medida em que, considerado o tema do método científico para apreender seu objeto de estudo, é preciso distanciar-se dele e evitar o julgamento subjetivo do pesquisador. Dessa maneira, entendemos que este ator constitui um observador privilegiado, uma vez que todos esses distanciamentos convergem para a construção de um destinador-julgador o mais próximo possível da imparcialidade.

Dado seu interesse em conhecer e documentar as cenas e as personagens daquela sociedade, que corrobora sua classificação como Viajante curioso, entendemos ser a paixão constituinte deste ator a curiosidade, aqui entendida como um saber não saber aliado a um

querer saber, que o impele a tomar notas para apreender a cor local.

Todavia, se apurarmos um pouco mais nossa leitura, percebemos que não é apenas a cor local o objeto de interesse de Paul. É, sobretudo, objeto de seu interesse tudo aquilo que dela se destaca, como elemento estrangeiro para o estrangeiro, uma vez que o francês segue registrando os “seus aspectos mais exóticos, ou rabiscando notas curiosas, ilustradas com

esboços de tipos originais, cenas e paisagens”.

É, pois, sob essa perspectiva que Paul nos apresenta Luzia: “Passou por mim uma mulher extraordinária, carregando uma parede na cabeça” (OLÍMPIO, 2003, p.20). Mediante análise desta citação, a partir da observação do sintagma nominal “mulher extraordinária” e do

sintagma verbal “carregando uma parede na cabeça”, depreendemos os dois eixos principais

que atuam na caracterização de Luzia, o eixo da feminilidade, marcado pelo núcleo do sintagma,

pelo substantivo “mulher”, e o eixo da masculinidade, observado no sintagma verbal que figurativiza o tema da força física, denotada pela competência de Luzia para carregar

“arrumados sobre uma tábua, cinquenta tijolos” (OLÍMPIO, 2003, p.20). Essa mesma oposição, masculinidade vs feminilidade, pode ser observada já no título do romance, Luzia-Homem (2003), que é também o nome pelo qual Luzia é reconhecida pela maioria dos membros daquela sociedade.

Em relação ao tema da força física tomado como concernente à masculinidade, consideramos este sema como central na composição do semema definidor de Luzia para Paul, na medida em que há, minimamente, uma quebra de expectativa no que diz respeito à Luzia, a qual, sendo mulher, não deveria suportar tal peso, uma vez que não seria tarefa fácil nem mesmo se executada por um homem robusto (OLÍMPIO, 2003, p.20), como está dito no romance. Temos aqui a força física como não pertencente ao âmbito da feminilidade, tanto do ponto de vista biológico, como do ponto de vista cultural.

Entretanto, mesmo com tamanha demonstração de força, a personagem identificou Luzia como uma mulher. Deste modo, entendemos que o universo temático-figurativo evocado por Paul, ao construir um simulacro de Luzia-Homem, é o biológico, segundo o qual podemos opor a forma física de Luzia – que foi manifestada para Paul para que ele assim pudesse percebê-la, como pertencente à ordem da feminilidade – à força física, relacionada à masculinidade, também manifestada na medida em que ele pôde presenciar a demonstração de sua força.

Dessa maneira, o simulacro de Luzia constituído por este ator, Paul, teria o estatuto de um termo complexo, ou seja, traz consigo os temas e figuras concernentes a ambos os termos contrários da categoria semântica da sexualidade, feminino vs masculino conforme demonstramos no quadro abaixo:

Porém, mesmo havendo a concomitância de elementos, típica de um termo complexo, entendemos que, ao utilizar a referida figura para a descrição de Luzia, e em decorrência da linearização, há um percurso mínimo no enunciado proferido pelo francês:

Sendo assim, o enunciado proferido pelo francês nos faz transitar de um polo a outro, percurso no qual o adjetivo “extraordinária” atua como conector de isotopia, na medida em que pode estar apontando tanto para as características que remetem à feminilidade quanto para as que remetem à masculinidade, sendo, portanto, ambíguo. Por outro lado, dado o próprio

Masculinidade

Não-feminilidade

Feminilidade

Não-masculinidade Quadro 5 - Configuração do termo

complexo Luzia para o francês Paul

Luzia-Homem (Termo complexo)

Masculinidade Feminilidade

Quadro 6 - percurso da descrição de Luzia, apreendido por Paul

percurso do enunciado, cremos que a função deste termo é a de sinalizar o que está por vir, a extrema força física de Luzia, contribuindo para que o leitor creia que Luzia é competente para tal feito, já que é uma mulher extraordinária, o que quer dizer, minimamente, que ela foge do usual ou do previsto, que ela está fora do que pode ser considerado comum.

Sobre a axiologização de um dos polos da categoria semântica, não percebemos, mediante a observação da descrição dada por Paul, a euforização de nenhum deles. Por outro lado, percebemos discreta euforização do termo complexo, o qual refere-se à Luzia, na medida em que a atribuição do adjetivo “extraordinária” e de sua respectiva ambiguidade concede certa valoração positiva que incide sobre o termo complexo.

Quanto ao processo identitário que ocorre enquanto Paul observa Luzia, cremos ser o de admissão, na medida em que, na condição de Viajante curioso, Paul teve de se integrar o suficiente àquela paisagem a fim de não interferir nela, apenas descrevê-la, enquanto objeto do seu conhecimento. Deste modo, mesmo se destacando daquela paisagem por se tratar de um objeto extraordinário, incomum àquele ambiente, Luzia se torna objeto do conhecimento para Paul, ao ponto de ele registrar, “com assombro”, (OLÍMPIO, 2003, p.20) sua ocorrência em suas anotações.

Abaixo, segue o quadro síntese do ator, com a respectiva síntese da configuração de Luzia sob sua perspectiva:

Quadro 7 – Síntese descritiva: Francês Paul Papel actancial de Paul: Destinador-julgador

Papel temático-figurativo

de Paul Estrangeiro; Cientista/Pesquisador

Paixão(ões) de Paul: Curiosidade (saber não saber + querer saber) Processo

identitário de Paul:

Admissão Figuras que definem Luzia

para Paul:

Masculinidade: “carregando uma parede na cabeça” Feminilidade: “mulher”

Temas que definem Luzia

para Paul: Força física (masculinidade); forma física (feminilidade). Simulacro identitário de

Luzia para Paul:

Termo complexo: forma feminina + força masculina - mulher com força de homem

Estatuto fórico do

simulacro de Luzia para o ator:

+ eufórico Estatuto veridictório de

Luzia para o ator: Verdade

Antes de finalizarmos a análise deste ator e da identidade de Luzia que ele constrói, ressaltamos que sua aparição na narrativa é mínima, resumindo-se basicamente, aos trechos

aqui transcritos. Entretanto, isso não reduz sua importância para apreensão de Luzia, posto que é mediante o olhar de Paul que o leitor tem o seu primeiro contato com Luzia.