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2. Bakgrunn og teoretisk kontekst

2.4 Rammeverk for markedet

2.4.1 Verdiskaping

O narrador de Dois irmãos mergulha em um retrospecto, procurando reconstruir, com o que restou da história familiar, a sua própria história e identidade. Enraizado na terra natal, está em contato mais íntimo com seu lugar de origem. Esse enraizamento é notório, até pelo ponto de observação que o aloca a curta distância do núcleo onde ocorriam as tensões familiares que testemunhava: a moradia no quartinho dos fundos do sobrado dá a ele o privilégio da experiência compartilhada no contexto de ocorrência dos fatos.

Do quartinho, o narrador recorda... O fato de ocupar um pequeno cômodo nos fundos da casa da família faz lembrar uma passagem proferida por Marcel Proust:

Para mim, não me sinto viver e pensar senão num quarto onde tudo é a criação e a linguagem de vidas profundamente diferentes da minha, de um gosto oposto ao meu, onde eu não reencontre nada de meu pensamento consciente, onde minha imaginação se exale e sinta mergulhada no seio do não-eu (...) onde cada ruído não faz senão evidenciar o silêncio, deslocando-o, onde os quartos guardam um perfume de ambiente fechado que o ar de fora vem lavar, mas não apaga, e que as narinas aspiram cem vezes para conduzi-lo à imaginação, que

se encanta, que o faz posar como um modelo para tentar recriá-lo em si mesma com tudo que ele contém de pensamentos e de lembranças (...) (PROUST, 2001, p. 18, 19)

O rapaz que crescera como neto natural do casal de imigrantes, luta e sofre com a memória da infância, passada ao lado da mãe, serviçal na casa dos libaneses. Nael caracteriza- se como observador dos fatos presenciados nessa casa: “Mas muita coisa do que aconteceu eu mesmo vi, porque enxerguei de fora aquele pequeno mundo. Sim, de fora e às vezes distante. Mas fui o observador desse jogo e presenciei muitas cartadas, até o lance final.” (Dois irmãos, p. 29)

Embora seu ponto de observação esteja alocado no espaço solitário do quarto, a relação com a memória é uma questão social, pois a coleção de histórias que traz no seu íntimo só pode ser reconstituída em decorrência de experiências vividas dentro da casa familiar, com os membros dessa família e mediante todos desdobramentos decorrentes dessa relação. São “vidas profundamente diferentes” da dele, retomando Proust na passagem acima, que são recriadas pela linguagem e imaginação.

De acordo com o princípio benjaminiano, “o passado é uma imagem mutilada, torso: um misto indissociável de lembrança e trabalho do tempo, esquecimento.” (SELIGMANN- SILVA, 2003, p. 408). Quanto à memória, esbarra-se sempre com a impossibilidade de apreensão de sua totalidade e de ordenação do seu conteúdo. Isso é pontuado no pensamento de Walter Benjamin, em que os mecanismos da reminiscência atuam como modo de articulação do passado.

Nesse sentido, a narração apresenta-se como imagem transposta para o texto como discurso. Em ambos os romances, o narrador-escritor (a narradora sem nome e Nael) vê-se diante da impossibilidade de inteireza do passado que procura “recriar”, pois o conteúdo da memória dissolve-se ao longo do tempo, arrojando-o contra a realidade presente e impondo que lance âncora no território do imaginário para a elaboração do discurso do relato. Nesse processo, há um movimento cíclico de retorno ao ponto de partida em face da busca frustrada

por respostas, ao revolver os escombros da memória de vidas que se esvaem sob a égide do tempo.

A experiência a ser relatada pelo narrador, seja por ele vivenciada ou dela tendo tomado conhecimento, é a matéria da qual se nutre a narrativa. Conseqüentemente, tal experiência poderá ser compartilhada com os que ouvem (e lêem) a história. É nesse ponto que Walter Benjamin indica o que distingue a narrativa oral (para ele a genuína arte de narrar) do romance. Segundo ele, é com o advento do romance, que depende inteiramente do livro como suporte, que começa a ser marcada na história a decadência da narrativa. Assim, o crítico alemão atesta o divisor de águas entre a narrativa oral e o romance.

Aquilo que é característico do gênero épico é a transmissão oral e esta é fenômeno bem distinto daquilo que é típico do romance... Este se distingue de todas as demais formas de literatura em prosa – lenda, saga e mesmo novela – por nem proceder da tradição oral e nem provocá-la. E distingue-se, assim, principalmente da narrativa. A experiência propicia ao narrador a matéria narrada, quer esta experiência seja própria ou relatada. E, por sua vez, transforma-se na experiência daqueles que ouvem a estória. (...) O local de origem do romance é o indivíduo na sua solidão, que já não sabe discutir, de forma exemplar, os seus assuntos mais prementes, que precisaria de ajuda, sem tê-la, e que ele próprio não sabe transmitir conselhos de qualquer natureza. Escrever um romance significa chegar ao ponto máximo do incomensurável na representação da vida humana. De permeio com a plenitude da existência e através da representação dessa plenitude o romance atesta a perplexidade profunda de todos os seres humanos. (BENJAMIN, 1975, p. 66)

Ao focar o trabalho realizado pelo narrador Nael, cujo intuito de escrever suas experiências resultou no romance, vejo-o como aquele escritor na sua solidão a que se referiu o crítico alemão, que não pode contar com ninguém mais, a não ser com a memória, pois aqueles que o cercavam no passado já morreram ou estão distantes. No entanto, o narrador- autor dos escritos dessas passagens da vida, não prescinde das memórias desses outros narradores-personagens, que encerram em si parte da própria existência; mesmo que essas reminiscências apareçam no texto misturadas com a imaginação. A matéria da narrativa nasce da ânsia por estabelecer-se com uma identidade própria, firmando-se em um lugar no mundo, procurando reconstruir-se sobre os destroços do passado.

Dentro da perspectiva bejaminiana, um valor inegável do narrar, e que se mostra, segundo ele, em franca decadência na modernidade, é a partilha de experiências que só é possível pela transmissão de conhecimentos que se tornam sabedoria. Ou seja, o terreno da experiência precisa ser comum, compartilhado, para que o conselho ligado a essa experiência vivida torne-se saber. Nas palavras de Benjamin,

(...) de qualquer forma, o narrador é uma espécie de conselheiro do seu ouvinte. E, se hoje esta expressão “conselheiro” tem um sabor antiquado, mesmo neste sentido, então é porque diminuiu muito a habilidade de transmitir oralmente ou por escrito, alguma experiência. Por isso mesmo não temos conselhos a dar, nem a nós mesmos, nem aos outros. Pois “dar conselho” significa muito menos responder a uma pergunta do que fazer uma proposta sobre a continuidade de uma estória que neste instante está a se desenrolar. (...) Um conselho, fiado no tecido da existência vivida, é sabedoria. A arte de narrar aproxima-se do seu fim por extinguir- se o lado épico da verdade, a sabedoria. (BENJAMIN, 1975, p. 65)

Se o verdadeiro valor do narrar, segundo vimos, é a transmissão de conhecimento por meio do compartilhamento de experiências, o saber que resulta disso, nas narrativas em estudo, seria o desvendamento dos mistérios que tanto afligem esses narradores e as lições que poderiam tirar dessa experiência a ser compartilhada. Se, segundo Benjamin, o indivíduo solitário que escreve o romance não tem conselhos a dar por não saber discutir de forma exemplar as questões mais importantes da vida, os narradores dos romances hatounianos enquadram-se, inevitavelmente, entre os narradores modernos que buscam explicar o sentido da vida, mais do que dar conselhos. O sentido que buscam para suas vidas está fiado na descoberta de suas origens, o que termina em deriva, em indefinição. Como romances, esses textos vêm atestar, de conformidade com o pensamento benjaminiano, “a perplexidade profunda de todos os seres humanos.” (BENJAMIN, 1975, p. 66).