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Como dissemos, Lula atingiu um nível tão alto de visibilidade que os jornais que o citaram chegaram a compará-lo a um mito, a pop star, chamando-o também de o "criador", segundo alcunha do Estadão. Com uma avaliação nas alturas, antes da oficialização de Dilma Rousseff, Lula já estava em campanha e foi multado cinco vezes por propaganda eleitoral antecipada. Chegou a declarar que eleger Dilma era "a coisa mais importante" do seu governo e a "coisa prioritária", como apontou o editorial do Estadão “A extravagância acolhida”, de 17 de junho.

Os jornais passaram toda a campanha comparando a capacidade de Lula de transferir votos para Dilma, bem como de fazer em campanha a favor da candidata. Tanto que chegou a envolvê-la em ações que faziam parte do governo federal. Três casos foram emblemáticos: logo no início da nossa coleta de dados, o ex-presidente recebeu avaliação negativa dos dois jornais por não ter vetado o aumento na aposentadoria. Sem debater, os jornais o acusaram de ter mais vistas ao pleito do que na responsabilidade fiscal, tanto que o Estadão chegou a conjurar com seus leitores: era pouco provável que aposentados simpatizantes da candidatura de Serra ou Marina migrassem para Dilma, “Mas o ponto é outro. O veto, este sim, tenderia a transferir certo número de votos dela para os adversários” (O ESTADO DE S.PAULO, 2010, p.A3).

O segundo texto apareceu na Folha de S.Paulo, no editorial “Fora dos Trilhos”, de 15 de julho. No edital de lançamento do trem-bala, Lula acabou não se segurando e fazendo odes a Dilma, o que configurou desrespeito à lei eleitoral. O texto denunciou a encenação de Lula, afirmando que ele já não aguentava armar farsescas inaugurações do PAC a fim de forjar situações eleitoreiras. Um detalhe textual é que o editorial, em tempos de copa do mundo de futebol, abusou de um linguajar mais descolado do que o utilizado normalmente – usando de metáforas futebolísticas (tão ao gosto do ex- presidente):

Conhece-se bem o caso daqueles zagueiros especializados na canelada e no carrinho que, depois de derrubar o adversário sem a menor cerimônia,

138 inclinam-se docemente sobre a vítima, pedindo desculpas e oferecendo-se para levantá-la do chão.

O hábito da gentileza cínica, que confere algum colorido de comédia aos mais tediosos jogos de futebol, vem há um bom tempo sendo transplantado para o campo da política pelo presidente Lula. Poucas vezes de forma tão deslavada, todavia, quanto nestes últimos dias (FOLHA DE S.PAULO, 2010, p.A3).

Por fim, uma terceira correlação entre a esfera pública presidencial e a eleitoral aconteceu no caso do asilo cedido por Lula para a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento. Ambos os jornais, ao citarem o caso, criticaram Lula pela falta de interesse pelo caso – que só ganharia destaque dele em lugares onde a candidata Dilma estava presente. O Brasil só ofereceu asilo à viúva após um movimento nas redes sociais que pediam tal fato. Assim, para o editorialista, Lula teria um apego a ditadores de países do Oriente Médio e da América do Sul.

O Estado de S.Paulo, sempre que possível, citou as relações do governo petista com o presidente venezuelano Hugo Chávez e os irmãos Castro, criticando a política externa brasileira. Um claro exemplo de intertextualidade aconteceu dia 18 de agosto, no texto “Um plano em execução”, do Estadão. Aparentemente, o editorial criticava o governo por problemas ocorridos por conta de uma empresa área, a qual causou caos nos principais aeroportos do país. O editorialista denunciou a falta de controle da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), mas terminou de uma maneira conclusiva:

Há ainda a interferência direta do governo nas agências, por meio da nomeação de diretores de acordo com critérios político-partidários, como acaba de ocorrer com a Agência Nacional de Transportes Terrestres, para a qual foi nomeado um ex-dirigente de basquete cuja experiência mais importante no setor público foi a de assessorar um ex-senador do PMDB. Na verdade, só uma derrota da candidata do PT em outubro salvaria as agências. Se Dilma Rousseff for eleita, a sentença de morte será executada.

Provavelmente não por asfixia, mas por apedrejamento... (O ESTADO DE S.PAULO, 2010, p.A3).

Segundo a lógica do jornalista, a vitória de Dilma levaria ao fim das agências controladoras governamentais, utilizando o forte termo "sentença de morte" – afirmando que esta se daria por apedrejamento, relacionando esse caso com o da mulher iraniana. O caso é emblemático porque o texto persegue uma ordem lógica argumentativa dos fatos para, no fim, alterar todo seu encadeamento e trazer para o texto algo novo, abusando da intertextualidade e relacionando contextos diversos. Isto incidiu também em uma ameaça futura ao leitor: se Dilma fosse eleita, as agências faleceriam e seriam apedrejadas pelos usuários tão cheios de ódio quanto os acusadores de Sakineh.

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Por fim, e mais importante de todos, os jornais insistiram que Lula estava buscando um terceiro mandato fictício. Aliás, a base da maioria das citações ao ex- presidente e a Dilma Rousseff estava relacionada à montagem de sua candidatura realizada a fórceps, por isso a qualificação dele como criador – em uma correlação religiosa e literária – e dela como um objeto manipulável. Charaudeau (2006, p.41) explica que, dependendo de como você nomeia os fatos e as pessoas, acaba qualificando-os, de acordo com as estratégias discursivas previamente pensadas. Ao tratar Dilma como herdeira, escolhida, filha, entre outros, os jornais instauraram um parâmetro de significação: "atiravam" em Dilma Rousseff, mas buscavam atingir o então presidente. Obviamente que o papel da própria imprensa também era ideológico e duplo dentro deste cenário: ao mesmo tempo em que ajudou a criar uma imagem para a candidata, estabelecendo uma lógica de causa-consequência dos erros e abusos de Lula diretamente repassados a Dilma, também cumpriu seu papel de "cão de guarda", ou seja, mostrou para a sociedade os momentos (não raros) em que Lula ultrapassou seu papel de dirigente, tratando o Estado brasileiro como um espaço partidarizado, ou familiar, como os jornais apontaram. Podemos encontrar algumas denúncias que comprovam isso, com os jornais se baseando em fatos concretos e, logo, defendendo o bem público. Pudemos verificar que A Folha de S.Paulo foi mais efetiva nesse tipo de abordagem, ou seja, atinha-se para informações objetivas – bem dentro do seu estilo editorial retratado no Manual Geral da Redação. Assim, podemos dizer que os jornais mostravam Lula montando um “aparelhamento” do Estado, conforme se encontra nos editoriais: “A franqueza durou um dia”, O Estado de S.Paulo, 20 de junho; “Um 'momento bíblico'”, O Estado de S.Paulo, 5 de agosto; “Um debate amistoso”, O Estado de S.Paulo, 7 de agosto; “Duelo à sombra de Lula”, O Estado de S.Paulo, 17 de agosto; “Inteligência aloprada”, Folha de S.Paulo, 15 de junho; “Fora dos Trilhos”, Folha de S.Paulo, 15 de julho; “Linha Ocupada”, Folha de S.Paulo, 31 de julho, “Lavagem estatística”, Folha de S.Paulo, 13 de agosto; “Delinquência estatal”, Folha de S.Paulo, 26 de agosto; “Acupuntura”, Folha de S.Paulo, 15 de outubro; “Duelo à sombra de Lula”, Folha de S.Paulo, 15 de junho.

O melhor exemplo é o da Folha de S.Paulo, no editorial de 19 de agosto, “Pai e Mãe”, que demonstra como o próprio Lula ajudava na estratégia de montar uma identidade para Dilma colada à dele: o editorial aponta Marina Silva, como uma citação de outrem, para apoiar a argumentação do escritor. A crítica da candidata é de que o Brasil tinha amadurecido, não necessitando mais tratar a sociedade de maneira

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infantilizada – apontando que Lula preferia alguém que cuidasse do Brasil, em vez de governá-lo.

Em ato falho, a frase condensa o presidente e a candidatura por ele inventada. Dilma Rousseff "c'est moi", admite afinal o petista. "Mãe" e "pai" dos brasileiros se fundem na mesma figura mistificadora. A declaração revela mais do que o entendimento de Lula sobre o processo sucessório. A apresentação da política em termos característicos das relações privadas e familiares termina por desvirtuá-la, ao negar o caráter igualitário da esfera pública (FOLHA DE S.PAULO, 2010, p.A3).

Lula foi o "muro de arrimo" de Dilma. Sobre a questão o Estadão resumiu: "Compreende-se: para o bem ou para o mal, Lula é tudo que Dilma tem. Pior sem ele, pois"90. Interessante notar, concluindo o tópico, que os jornais – durante nossa leitura do gênero editorial – não se colocaram contra as políticas sociais do governo federal e tampouco deixaram de reconhecer os ganhos econômicos (sem deixar de notar que grande parte deles havia nascido na era FHC). Mesmo assim, na maioria das vezes os editoriais permaneceram críticos ao líder petista: em geral, os textos anotavam os avanços da Era Lula para depois – fazendo uso da conjunção coordenativa adversativa – dar início às críticas. Com quase 80% de aprovação entre bom e ótimo e experiência em falar com as massas populacionais, colar-se à figura de Luiz Inácio Lula da Silva foi estratégia adotada não somente por Dilma, mas também pelo adversário José Serra. O próprio Lula não se resignava ao papel de presidente republicano, assumindo comparações e tons religiosos em discursos e citando Deus como "justiceiro" à causa dele:

Também em fase de citar o nome de Deus a três por quatro, afirmou que Ele "fez a vingança que eu queria" contra os senadores piauienses Heráclito Fortes, do DEM, e Mão Santa, do PSC, que votaram contra a prorrogação da CPMF e não se reelegeram. De volta ao passado, atribuiu as suas três derrotas em eleições presidenciais às "mentiras" dos que o temiam. "Diziam que era comunista, porque tinha a barba comprida. Mas Jesus também tinha. Tiradentes também tinha", declarou, como quem se alça a uma esfera superior (O ESTADO DE S.PAULO, 2010, p. A3)91.

No início da campanha, Serra apostou na biografia e evitou críticas ao então presidente mitológico. Ao contrário: o jingle "Sai o Silva e entra o Zé" foi uma tentativa de pegar carona no sucesso lulista, divulgado no programa do horário eleitoral que iniciava com: "Quando Lula da Silva sair. É o Zé que eu quero lá. Com Zé Serra eu sei que anda. É o Zé que eu quero lá". A Folha de S.Paulo, no editorial “Avesso do

90 A compulsão fala mais alto. O Estado de S.Paulo, 15 out. 2010, “Opinião”, p.A2. 91 A compulsão fala mais alto. O Estado de S.Paulo, 15 out. 2010, “Opinião”, p.A2.

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avesso”, de 21 de agosto, chamou a estratégia de "parasitismo político" e criticou o tucano:

Não é do feitio deste jornal tripudiar sobre quem vê, agora, o peso dos próprios erros, e colhe o que merece. Intolerável, entretanto, é o significado mais profundo desse desesperado espasmo da campanha serrista.

Numa rudimentar tentativa de passa-moleque político, Serra desrespeitou não apenas o papel, exitoso ou não, que teria a representar na disputa presidencial. Desrespeitou os eleitores, tanto lulistas quanto serristas (FOLHA DE S.PAULO, 2010, p.A2).

Uma vez mais, uma polifonia ressoa no título do artigo: tal qual Caetano Veloso esteve um dia perdido com a estruturação da cidade de São Paulo e cantou que a cidade era o "avesso do avesso do avesso do avesso" na música Sampa. A polifonia tropicalista mostra o espanto do jornal com o candidato José Serra ao tentar se aliar a Lula – não o Presidente da República, mas o líder de um partido envolto em escândalos como mostra o trecho: "A infeliz jogada se volta, não contra o PT, Lula, Dilma ou quaisquer dos 40 nomes envolvidos no Mensalão, mas contra o próprio PSDB, e toda a trajetória que José Serra procurou construir como liderança oposicionista" (FOLHA DE S.PAULO, 2010, p.A2). Novamente o eco literário se faz presente: Lula é o líder dos quarenta indiciados no escândalo do Mensalão – em uma referência cruzada com "Ali-babá e os quarenta ladrões", história que faz parte do Livro das Mil e Uma Noites, originada na Arábia antiga. Por isso, a acusação do jornal: na iminente derrota, José Serra aparece mais como um candidato desesperado em inverter o processo, o que não condiz com a história pública dele. De outro lado, tanto Estadão quanto Folha não se abstiveram de criticar a estratégia serrista de se destacar de Fernando Henrique Cardoso, não assumindo a continuidade do governo deixado em 1998.

Por esses motivos, Lula recebeu uma saraivada de críticas por conta de sua atuação que, não raramente, ultrapassou os limites da legalidade e do cargo em que ele estava empossado. Aliás, os tópicos citados foram exatamente os que José Serra atacou em seu primeiro programa eleitoral no segundo turno. Como aconteceu em 2006, com uma campanha que Azevedo (2011) classificou como "cruenta", 2010 não deixou por menos. Duas figuras citadas nos editoriais resumem bem uma análise total dos mesmos em relação ao ex-presidente. Pelo laço com a candidata petista e a defesa irretocável à campanha dela, Lula foi comparado a Ivan Pavlov, fisiologista russo que ganhou fama por seus trabalhos com condicionamento do comportamento. A metáfora não poderia cair melhor aos editorialistas: para eles, Lula – além de mentor de Dilma Rousseff, foi o manipulador por trás das cortinas (e, algumas vezes, à frente delas), controlando não

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somente a candidata, mas também o Partido dos Trabalhadores, o cargo presidencial e a máquina pública para prosseguir com o projeto de poder obtido em 2002 (em pelo menos dois editoriais os jornais chegaram a denunciar que membros do governo desmentiam informações e números dados erradamente por José Serra durante a campanha e não faziam o mesmo para Dilma). Quando era confrontado, reagia firmemente. Isto leva à segunda imagem que nos jornais transpareceram: Lula também foi comparado ao ditador italiano Benito Mussolini por seus achaques contra a imprensa e, principalmente, pelo desempenho nos escândalos políticos, em que - por conta das acusações serem próximas ao PT e do entrelaçamento com a campanha dilmista - Lula assumiu mais papel de partidarista do que de presidente. Isto fez com que, dentro da análise que fizemos dos editoriais, O Estado de S.Paulo, por exemplo, assumisse apoio à candidatura de José Serra: foi mais pela ojeriza às atitudes de Lula do que pela falta de experiência/competência política de Dilma Rousseff ou simpatia pelo ideário de José Serra.