De modo geral, podemos entender e estudar o desenvolvimento motor considerando os seguintes elementos:
a) Motricidade fina
Motricidade fina refere-se à capacidade de controlar um conjunto de atividades de movimento de certos segmentos do corpo, com emprego de força mínima, a fim de atingir uma resposta precisa à tarefa (GALLAHUE e OZMUN, 2001).
Para Rosa Neto (2002), a coordenação visuomanual representa a atividade mais freqüente e comum no ser humano. Ela inclui a fase de transporte da mão, fase de agarre e manipulação, resultando em um conjunto com três componentes: objeto / olho / mão.
Para a coordenação desses atos, é necessária a participação de diferentes centros nervosos motores e sensoriais que se traduzem na organização de programas motores complexos e progressivamente desenvolvidos (SHEPHERD, 1996)
O córtex pré-central correspondente à motricidade fina tem um papel fundamental no controle dos movimentos simples ou complexos. A importância das áreas córtico-sensório-motoras faz ressaltar a extrema fineza dos controles táteis e motores, permitindo o reconhecimento de formas até mesmo sem a participação da visão (ROSA NETO, 2002). Para este autor:
A coordenação visuomotora é um processo de ação em que existe coincidência entre o ato motor e uma estimulação visual. (...) A escrita representa uma atividade motriz usual que requer a atividade controlada de músculos e articulações associadas à coordenação visuomanual. (ROSA NETO, 2002, p.15)
Segundo Coste (1981), a motricidade fina inclui toda manipulação e ação das mãos. São representadas por atividades como pintar, desenhar, recortar, escrever.
b) Motricidade global
A capacidade da criança de se expressar através de gestos, atitudes, deslocamentos e ritmos nos permitem, às vezes, conhecê-la e compreendê-la melhor. A criança brinca imitando cenas da vida diária: fala movimentando-se, canta dançando; expressa, simultaneamente, afetividade e exercita sua capacidade intelectual.
Segundo Le Boulch (1987), motricidade global implica na harmonia dos movimentos voluntários dos grandes segmentos corporais ou da capacidade de controle dos atos motores que colocam em ação todo o corpo. São os movimentos naturais como rolar, engatinhar, andar, correr, pular, saltar, saltitar, etc. O controle desses movimentos é essencial à concentração necessária para aprendizagens posteriores.
Para Pereira (2001), a motricidade ampla é a capacidade para realizar grandes movimentos, utilizando o corpo inteiro, envolvendo os grandes músculos.
No movimento motor global, até o ato mais simples é considerado movimento sinestésico, tátil, labiríntico, visual, espacial e temporal. Os movimentos dinâmicos corporais tem um papel importante na melhora de comandos nervosos e no afinamento das sensações e das percepções (ROSA NETO, 2002).
c) Equilíbrio
Segundo Rosa Neto (2002), o equilíbrio é a base primordial de toda ação diferenciada dos segmentos corporais, existindo íntima relação entre as alterações do equilíbrio estático e dinâmico e os latentes estados de ansiedade ou insegurança.
Le Boulch (1987) afirma que o desempenho da função de ajustamento ou equilíbrio, que traduz a maior ou menor plasticidade do sistema nervoso central, permite à criança responder as situações problemas que ela encontra em sua confrontação com o meio.
Certas crianças que apresentam um equilíbrio normal no chão podem experimentar dificuldades ao deslocarem-se sobre um obstáculo elevado. O desequilíbrio pode ser entendido como a alteração dos mecanismos de regulação tônica comandados pelo cerebelo que, frente ao medo e instabilidade em alguma atividade, ocasiona reações de enrijecimento, comprometendo as reações de equilíbrio. Para Rosa Neto (2002):
Durante o movimento, o tono postural deve se ajustar a fim de compensar o deslocamento do peso do corpo de uma perna a outra e assegurar, ao mesmo tempo, o equilíbrio de todo o corpo. (...) O que caracteriza o equilíbrio tônico postural é o mecanismo complexo dos reflexos de equilíbrio, derivado, por sua vez, de um conjunto de informações proprioceptivas. (ROSA NETO, 2002, p.18)
Para Coste (1981), equilíbrio é a capacidade de assumir e sustentar qualquer posição do corpo contra a gravidade. Um equilíbrio correto é base de toda coordenação dinâmica geral do corpo, bem como das ações diferentes de seus segmentos.
d) Esquema corporal
A imagem do corpo representa uma forma de equilíbrio que, como núcleo central da personalidade, se organiza em um contexto de relações mútuas do organismo e do meio. É o núcleo central da personalidade e o seu desenvolvimento acarreta a estruturação das mesmas, pois é a representação global que a criança tem do seu próprio corpo (ROSA NETO, 2002).
A consciência de ter um corpo, de ter posturas e fazer movimentos desenvolve- se lenta e progressivamente na criança, sendo que a criança precisa deste conhecimento para poder se relacionar com o mundo exterior (FONSECA, 1983).
A elaboração do esquema corporal segue as teorias de desenvolvimento céfalo- caudal, que se refere ao desenvolvimento ordenado de cima para baixo, isto é, da cabeça para os pés; e próximo-distal, que se caracteriza pelo desenvolvimento do interior do corpo para a periferia, partindo sempre do eixo central (OLIVEIRA, 1989).
Vayer apud Rosa Neto (2002), descreve a imagem corporal como resultado de toda a atividade cinética, sendo a imagem do corpo a síntese de todas as mensagens, de todos os estímulos e de todas as ações que permitem à criança se diferenciar do mundo exterior e de fazer do “eu” o sujeito de sua própria existência.
Oliveira (1989) afirma que o esquema corporal é a consciência do próprio corpo e de suas possibilidades e se constitui lentamente com a maturação do SNC, influenciado pelas experiências que a criança tem de si mesma e dos objetos do seu mundo em relação a ela.
e) Organização espacial
A noção do espaço envolve tanto o espaço do corpo como o espaço que nos rodeia, finito enquanto nos é familiar, mas que se estende ao infinito, ao universo, e prolonga-se no tempo. A idéia do espaço está incluída em todas as nossas sensações: visão, audição, tato, propriocepção e olfato. A orientação espacial designa a habilidade para avaliar com precisão a relação física entre nosso corpo e o ambiente, e para efetuar as modificações no curso de nossos deslocamentos. Conforme Rosa Neto (2002),
As primeiras experiências espaciais estão estreitamente ligadas ao funcionamento dos diferentes receptores sensoriais, sem os quais a percepção subjetiva do espaço não poderia existir (...) A percepção relativa à posição do corpo no espaço tem como origem os diferentes receptores e seus limites funcionais. (ROSA NETO, 2002, p.21)
A evolução da noção espacial passa por duas etapas: uma ligada à percepção imediata do ambiente (espaço sensório-motor) e outra baseada nas operações mentais (espaço representativo). Essa evolução se aplica às aquisições das dimensões espaciais: direita/esquerda, longe/perto, grande/pequeno, fundo/raso, possibilitando à criança uma determinação e estruturação do espaço em que vive (ROSA NETO, 2002).
f) Organização temporal
O ser humano percebe o transcurso do tempo a partir das mudanças que produz durante um período estabelecido e da sua sucessão que transforma progressivamente o futuro em presente e, depois, em passado. Segundo Pereira (2001), organização temporal é a capacidade de situar-se em função da sucessão dos acontecimentos (antes, durante, após), da duração dos intervalos (tempo, ritmo, e cadência), da renovação cíclica de certos períodos (dias da semana, meses, estação), e do caráter irreversível do tempo (quantos anos já se passaram). Rosa Neto (2002) explica que:
O tempo é, antes de tudo, memória: à medida que leio, o tempo passa. Assim, aparecem os dois grandes componentes da organização temporal: a ordem e a duração que o ritmo reúne. A primeira define a sucessão que existe entre os acontecimentos que se produzem (...); a segunda permite a variação do intervalo que separa dois pontos, ou seja, o princípio e o fim de um acontecimento. (ROSA NETO, 2002, p.22)
A organização temporal inclui uma dimensão lógica (ordem e duração), uma dimensão convencional (sistemas de referências) e um aspecto de vivência que surge antes dos outros dois (percepção e memória), sendo que os aspectos relacionados à percepção do tempo evoluem e amadurecem com o decorrer da idade.
g) Linguagem
A linguagem possibilita representar as complexas abstrações que são o fundamento de nossa sociedade, com intervenção dos fatores biológicos e ambientais. O pensamento discursivo ou lógico-verbal torna o homem capaz de ultrapassar os marcos da percepção sensorial, fazendo-o refletir sobre relações simples e complexas, formar conceitos, elaborar conclusões e resolver problemas teóricos complicados (COLE e COLE, 2003). A aquisição da linguagem se desenvolve de forma progressiva, sendo que três etapas são essenciais, segundo Rosa Neto (2002):
• Pré-linguagem (até os 12 meses): são os primeiros sons, gritos e tentativas de comunicação com seus semelhantes. Dos 0 aos 5 meses é o período do “balbucio”; dos 6 a 8 meses aparece o período da “ecolalia”; a partir daí a riqueza das emissões sonoras iniciais é reduzida para dar vez a algumas emissões vocálicas e consonantais fundamentais. Aos 12 meses uma criança pode ter adquirido de 5 a 10 palavras.
• Pequena linguagem (até os 2 anos): o vocabulário de uma criança pode chegar a 200 palavras. A organização lingüística se estrutura com a aparição de frases afirmativas, de constatação, de ordem, de negação e de interrogação. A ausência da estimulação verbal atrasa a aquisição do repertório verbal, podendo originar atrasos na fala, persistência da “ecolalia” e poucas palavras além dos 3 ou 4 anos.
• Linguagem propriamente dita (dos 3 aos 5 anos): esse é o período mais longo e complexo da aquisição da linguagem, quando a criança poderá dominar até 1.500 palavras. Ajuriaguerra e Marcelli (1986) caracterizam esse período como:
(...) um abandono progressivo das estruturas elementares da linguagem infantil e do vocabulário que é próprio, substituindo-o por construções cada vez mais parecidas com a linguagem do adulto. Ao mesmo tempo, a linguagem passa a ser um instrumento de conhecimento, um substituto da experiência direta (AJURIAGUERRA e MARCELLI, 1986, p.78)
h) Lateralidade
O corpo humano está caracterizado pela presença de partes anatômicas pares e globalmente simétricas. Essa simetria anatômica se redobra por uma assimetria funcional no sentido de que certas atividades só intervêm em uma das partes, como por exemplo o ato de escrever, comer, chutar, olhar algo a distância (FONSECA, 1983).
Lateralidade é a preferência lateral do ser humano, direita ou esquerda, dos segmentos: corporal (mão e pé); sensorial (olho e ouvido) e neurológico (hemisfério cerebral). Conforme Rosa Neto (2002), os tipos de lateralidade, além do destro completo e sinistro completo, são:
• Indefinida: o indivíduo não apresenta uma dominância para as mãos, para os pés ou para os olhos na execução de tarefas da vida diária (abrir uma porta, escrever, pintar, chutar uma bola).
• Cruzada: preferência lateral cruzada, isto é: mão – lado direito; olhos – lado esquerdo e pés – lado direito (90% dos casos).
• Contrariada: preferência lateral contrariada, em função de situações culturais, religiosas, físicas. O indivíduo apresenta uma preferência lateral com um segmento corporal e, por condições internas ou externas, é obrigado a desenvolver habilidades com o outro segmento, contrariando suas características.
Segundo o mesmo autor, a lateralidade está em função de um predomínio que outorga a um dos dois hemisférios a iniciativa da organização do ato motor, o qual desembocará na aprendizagem e na consolidação das praxias.
Por volta dos seis anos, uma criança tem condições de manifestar, com segurança, sua preferência lateral (ROSA NETO, 2002). Isso significa que após esse período, deve-se ter atenção especial às crianças que apresentam indefinição na lateralidade.
Velasco (1996) apud Poeta (2004), afirma se a definição não ocorrer até os 9 anos de idade, provavelmente a criança apresentará um distúrbio de lateralidade. A lateralidade pouco desenvolvida está ligada às dificuldades de organização espacial e temporal, podendo levar à dificuldades de aprendizagem (FONSECA, 2004).
Lorenzini (2002) aponta que crianças com necessidades especiais, sejam físicas ou mentais, tendem a apresentar alterações na lateralidade, em função das “alterações percepto-cognitivas, devendo ser estimuladas, encorajadas, incentivadas e acompanhadas em todas as suas atividades psicomotoras”.