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Uma mensagem é organizada como um evento interativo envolvendo um falante, um escritor e uma audiência. A metafunção interpessoal vai tematizar esta dinâmica interacional e, no caso desta pesquisa, analisaremos os dados tomando como base o sistema de avaliatividade, especificamente o componente atitudinal, entendendo-o como forma de troca de afetos, valores e apreciações. Os estudos relacionados à avaliatividade iniciaram-se há aproximadamente 15 anos, a partir de um grupo de pesquisadores da Universidade de Sidney, na Austrália, liderado pelo professor James Martin. Segundo Eggins e Slade (1997), o referido autor, partindo da perspectiva sistemicista e de trabalhos de antigos colegas sobre os significados interpessoais em narrativas, desenvolveu uma moldura teórica para analisar os significados avaliativos nos textos. Esse campo teórico pretende explorar, descrever e explicar como a linguagem é utilizada para avaliar posturas, coisas e representar afetos, considerando

também a força e foco de tais avaliações e como elas estão arranjadas num sistema de intersubjetividade. Assim, tal teoria lida com os componentes interpessoais da linguagem, incluindo “recursos de modalizações, amplificações, reações emocionais (afeto), julgamentos morais (julgamento) e avaliações estéticas (apreciação)” (MARTIN, 1995, p. 28 apud BEDNARECK, 2008, p. 13).

2.3.1 O sistema de avaliatividade: a atitude

Segundo Bednareck (2008), a avaliatividade está relaciona com a Linguística Sistêmico-Funcional em um nível mais neutro, pois trabalha, em um primeiro momento, o nível léxico-gramatical, distanciando-se um pouco dos sistemas complexos propostos pela Gramática Sistêmico-Funcional. No entanto, cabe ressaltar que, enquanto campo teórico, a avaliatividade guarda profundas relações com a Linguística Sistêmico-Funcional, pois partilha dos mesmos pressupostos semântico-discursivos preconizados por esta. Segundo Vian Jr. (2009, p. 114), o sistema de avaliatividade está “na interface entre semântica do discurso e léxico-gramática, da realização dos significados no texto através dos recursos disponíveis na semântica do discurso”.

Eggins e Slade (1997) argumentam que a teoria da avaliatividade é adequada para a análise da conversação30, aspecto que será explorado mais adiante e, a partir do trabalho de Martin (1994), reconhecem quatro categorias analíticas:

a) apreciação, referente às reações avaliativas do falante sobre a realidade;

b) afeto, referente às expressões de estados emocionais positivos ou negativos do falante;

c) julgamento, referente às avaliações sobre ética, moralidade ou valores sociais de outras pessoas; e

d) amplificação, que está relacionada à forma como os falantes aumentam ou diminuem, em intensidade e grau, a realidade que estão negociando.

Para a análise dos dados desta pesquisa nos pautaremos na proposta de Martin e White (2005), – que nos apresenta no momento como a mais completa e formulada – a qual subdivide o sistema de avaliatividade em três partes: atitude, engajamento e gradação e, mais

30Como o corpus desta pesquisa advém da linguagem oral, usaremos a denominação conversação assim como

proposta por Eggins e Slade (1997). Este ponto será mais aprofundado no item 2.5.

especificamente, nos deteremos na análise dos componentes da atitude, ou seja, uma das três partes do sistema de avaliatividade.

A atitude está relacionada com 1) expressões de afetos e sentimentos; 2) avaliações ético-morais e; 3) avaliações estéticas. Na primeira camada da atitude, a que se refere aos afetos, Martin e White (2005) propõem descrever os recursos utilizados na linguagem para expressar emoções. Almeida (2010, p. 101) observa que a categoria afeto “diz respeito à emoção, isto é, a uma avaliação pautada nos sentimentos dos falantes/escritores indicando como se comportam em relação às pessoas, às coisas, aos objetos e aos acontecimentos”. Nessa dimensão, há o participante que expressa afetos e o fenômeno que os deflagra. Analiticamente falando, esta camada nos permite mapear se as emoções:

a) são positivas ou negativas, considerando os significados socialmente construídos desses parâmetros;

b) são representadas como algo corporificado (no caso dos Processos Comportamentais), ou como algo mais interno, ou seja, um estado emocional (no caso dos Processos Mentais ou Relacionais);

c) são interpretadas como direcionadas a algo, ou seja, reagindo a um gatilho emocional específico, ou não direcionadas, ou seja, relativas a um estado de humor geral;

d) são classificadas como mais ou menos intensas, a partir de escalas de gradação; e) estão relacionadas a estados futuros e, neste caso, a situações irreais, ou se estão relacionadas a estados atuais e, neste caso, reais; e

f) estão relacionadas a três conjuntos de afetos, que são: a (in)segurança (relacionadas com o bem-estar social: ansiedade, temor, confiança...); a (in)satisfação (relacionadas aos objetivos realizados (tédio, desprazer/agrado, curiosidade, respeito...) e a (in)felicidade (relacionadas ao coração: tristeza, ódio, felicidade, amor...).

A segunda camada da atitude é denominada julgamento – categoria semântica de atitude – e se refere às avaliações ético-morais. A categoria julgamento, segundo Almeida (2010, p. 106), “pode ser entendida como uma institucionalização do sentimento, ou seja, normas de comportamento que direcionam como as pessoas devem ou não agir”. Martin e White (2005) propõem mapear duas categorias de organização semântica de julgamento:

a) julgamento de estima social: são os valores socialmente compartilhados, que envolvem admiração (julgamento de estima social positivo) e crítica (julgamento de estima social negativo), que dizem respeito, de forma geral, à estima social. Geralmente eles não têm implicações legais e “tendem a ser policiados pela cultura oral, por meio da fofoca, boatos, brincadeiras e histórias de vários tipos” (ALMEIDA, 2010, p. 106). São eles:

a.1) de normalidade: (quão comum, usual ou especial alguém é? Exemplo: Sortudo/azarado…normal/estranho...);

a.2) de capacidade (quão capaz e/ou competente alguém é? Vigoroso/fraco…) e; a.3) de tenacidade (quão resoluto, confiável e seguro alguém é? Valente/tímido… bravo/covarde…).

b) julgamento de sanção social: são os valores socialmente compartilhados, tais como elogios (julgamento de sanção social positivo) e condenações (julgamento de sanção social negativo). Geralmente estão associados a regras, leis e comportamentos esperados, “de acordo com a igreja e o estado, devendo ser aplicadas penalidades e punições para quem quebrar o código, a lei” (ALMEIDA, 2010, p. 106). São eles:

b.1) veracidade (quão verdadeiro e honesto alguém é? Exemplo: Confiável/desonesto…franco/dissimulador) e;

b.2) propriedade (quão ético e irrepreensível alguém é? Respeitoso/desrespeitoso… moral/imoral… altruísta/egoísta…).

A terceira camada de atitude é denominada apreciação e se refere às formas que utilizamos para avaliar coisas que fazemos, ou mesmo objetos e fenômenos naturais. Segundo Almeida (2010, p. 106), “é a apreciação que abrange as reações do falante e as avaliações da realidade”. Essa categoria semântica da atitude – a apreciação – é considerada um dos maiores recursos disponíveis no sistema discursivo, pois envolve avaliação de filmes, músicas, obras de arte, locais, espetáculos e performances, fenômenos da natureza etc. Ela tem a ver com o valor estético que atribuímos às coisas, ou seja, nosso olhar sobre elas, e pode ser dividida em: a) reação; b) composição; e c) valoração.

a) Reação tem a ver com as marcas de impacto emocional causadas pelas coisas, ou seja, as reações que as coisas provocaram nos falantes/escritores. Assim, usamos a categoria reação quando há a expressão/avaliação de coisas que nos chamam a atenção, sejam elas positivas ou negativas, como, por exemplo, algo cativante ou aborrecido.

b) Composição tem a ver com avaliações relacionadas a percepções de proporcionalidade (harmonioso, discordante) e complexidade (intrincado, simples). Segundo Almeida (2010, p. 110), “nesse tipo de apreciação concentram-se os sentimentos que dizem respeito à organização, à elaboração e à forma pela qual as coisas e objetos foram construídos e elaborados”.

c) Valoração tem a ver com nossa avaliação social da entidade apreciada e, por isso, quando há apreciações relacionadas a quão inovadora, autêntica, oportuna uma coisa é

(profunda, rasa), classificamo-la como validação. Para sua identificação, pergunta-se: isso valeu a pena?

O quadro a seguir explicita o componente atitudinal do sistema de avaliatividade:

Afeto

positivo/negativo

Corporificado/estado emocional

Direcionado/estado geral de humor

Mais intenso/menos intenso

Irreal/real

Relacionado com in(segurança), in(felicidade), in (satisfação)

Julgamento de estima Normalidade

Capacidade Tenacidade de sanção Veracidade Propriedade Apreciação Reação Composição Validação Atitude

FIGURA 4 – O componente atitudinal do sistema de avaliatividade segundo Martin e White (2005)

Com a explanação do componente atitudinal do sistema de avaliatividade, fica claro que, quando usamos tais recursos semântico-discursivos, não operamos tão somente comentários sobre o mundo. Tomadas em seu nível discursivo, as atitudes expressam nossos valores, posicionamentos éticos, opiniões sobre pessoas e coisas, nossos afetos, ou seja, nossas formas de relacionamento com o mundo, considerando o nível da intersubjetividade. As atitudes criam efeitos de posicionamento de nossa parte e respostas de solidariedade/contraposição por parte de nosso interlocutor. Elas são importantes recursos semântico-discursivos que dizem respeito às nossas visões de mundo e às dos outros, aos nossos afetos e aos dos outros e, por isso, devemos considerá-las como contextualmente sensíveis e localizadas no sistema interpessoal da linguagem. Nesta tese, a proposta é que o mapeamento textual sobre a atitude seja utilizado nas análises dos dados para identificar esses componentes nos sujeitos de pesquisa e, mais especificamente, como eles se posicionam diante das questões de gênero, de masculinidade e de violência, a partir da avaliação que fazem desses tópicos.

Para além do mapeamento das atitudes e das representações de mundo (sistema de transitividade, item 2.2) dos sujeitos de pesquisa, as análises discursivas seguirão a tônica da Semiótica Social inaugurada por Hodge e Kress (1988) e que diz respeito à investigação da produção do significado como socioculturalmente localizado e envolvido em relações ideológicas e de poder. No próximo item exploraremos essas características com mais detalhes.